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Auto-retratos de uma pseudocelebridade

Capas de revista forjadas fazem do artista Peter de Brito uma falsa celebridade instantânea

Flavio Sampaio

Peter Paulo Vitor de Brito ganhou o seu primeiro nome graças a um motor de caminhão alemão, Peter (que se pronuncia com tônica aguda no primeiro e). Seu pai, José Vitor, é mecânico desde que a cidadezinha onde mora, no interior de São Paulo, chamava-se Brioso, em homenagem a um boi que morreu num mata-burros. Em 1953, a cidade foi laureada com a chegada do primeiro banco, o Mercantil de São Paulo. Brioso ficou tão agradecida que adotou oficialmente o nome do dono do banco, Gastão Vidigal. Quatorze anos depois, nascia Peter Paulo, filho do mecânico que gostava de motores alemãs e da empregada doméstica Maria Damaceno. Na hora do batizado, o padre não admitiu o nome escolhido pelos pais, e o mudou para Pedro Paulo. Conseguiu desagradar até o bebê.

É com o nome de Peter de Brito, pois, que um artista plástico de 39 anos assina as obras que iluminam o seu caminho rumo ao pseudo-estrelado. O percurso da falsa celebridade pode ser acompanhado nas capas de revistas que ele expõe, até junho, na galeria Emma Thomas, na rua Augusta, em São Paulo. Na maioria delas, ele interpreta o personagem Darcy Dias. Por que “Darcy”? “Porque pode ser nome de homem ou mulher”, explica Peter, “e também porque soa como a palavra dar-se, e o melhor mesmo é dar-se todos os dias.” Além de Darcy Dias, há também Pietra Paula, Paulo Grande, Vitória Little Stone, Pierre Vitor e Vitor Brito. São todas personae de um criador que participou de mais de vinte exposições ─ e ganha a vida como professor de educação física.

Auto-Retrato é o título da instalação. As capas são mostradas como se estivessem numa banca de jornais. Nelas, Peter de Brito posa de galã, ator de filme pornô, drag-queen, noiva, socialite, vedete, esportista, boazuda e até defunto. Os títulos foram delicadamente alterados, mas as chamadas e manchetes seguem o padrão da revista parodiada. Em Cráudia, o texto indica: “Darcy Dias: linda, serena e de bem com a vida”. Playbof traz Darcy de costas e a chama de “Diva dominada” (Peter garante que o derrière é o seu mesmo, sem efeitos especiais). A produção mais cara foi para Doidas (que brinca com Noivas). “O vestido é um tecido qualquer que comprei na rua 25 de Março”, ele conta. “As flores eu consegui com um amigo, as bijuterias são de um camelô, que fez tudo por 5 reais, e as luvas saíram por 8 reais.” Peter de Brito, que é leitor habitual de O Estado de S. Paulo, não assina nenhuma revista.

Como nasceu o projeto Auto-Retrato? Peter explica: “Vivemos numa sociedade rasa, onde fama é superficial. Quando saí de Gastão Vidigal, todos perguntavam o que eu iria buscar em São Paulo. Respondia que era para conseguir fama e fortuna. Resolvi brincar com essa temática numa linguagem pop, unindo fotografia e palavra”.



Peter é instrutor de futsal, vôlei e handebol na Escola Estadual Prof. Antonio Firmino de Proença, na Mooca, e ganha um salário de 1,2 mil reais. Lá, 150 alunos, divididos em sete turmas, ocupam a maior parte do seu tempo. Sem auxílio, suas contas não fechariam. “Não pago aluguel, moro na casa de um amigo”, diz o rapaz de fala baixa e modos tímidos.

Enquanto sua obra-instalação não arrebanha o preço de capa de 10 mil reais, Peter de Brito aproveita seus minutos de fama para responder algumas perguntinhas recorrentes de revistas que se interessam pela vida de celebridades. Vermelho é sua cor. O prato predileto é frango assado, tendo como sobremesa doce de abóbora com creme de leite. A música preferida varia de Billie Holiday a Tati Quebra-Barraco, “mas se você abrir o meu som, vai encontrar um disco da Gretchen”, diz. Mulher charmosa é Gisele Bündchen. Homem bonito é o Tom Selleck, o eterno Magnum da televisão. E o seu apelido de infância é Mandioca.

Flavio Sampaio

Flavio Sampaio é jornalista em Portland

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