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    Com seus traços, Ralph Steadman trouxe de volta à vida mais de 100 aves extintas ─ ou algumas que nem chegaram a existir FOTO: PHIL SHARP

portfólio

Avis rara

O ilustrador Ralph Steadman desenha pássaros extintos para “captar seu espírito”

Ralph Steadman  | Edição 79, Abril 2013

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Quando escreveu para o ilustrador britânico Ralph Steadman em fevereiro de 2011, Ceri Levy queria lhe pedir que desenhasse um pássaro. Levy era um dos curadores da exposição “Ghosts of Gone Birds” [“Fantasmas de Aves Idas”], que em novembro estrearia em Londres. A ideia era recorrer à arte a fim de chamar a atenção do público para o risco de extinção que ameaça esses bichos. Mais de 100 artistas foram convidados. Cada um ficou responsável pelo desenho de uma ave.

Levy já tinha desistido de contar com Steadman quando recebeu um e-mail de resposta, duas semanas depois do contato. O artista disse que não havia entendido exatamente o que o curador queria e admitiu ter ficado intrigado com o seu conceito de ave. “O homem sempre quis voar… talvez um dia tenhamos tido asas…”, dizia o texto. Steadman aproveitou para enviar trabalhos seus ligados ao tema: ilustrações de balões, máquinas voadoras, anjos e toda sorte de criaturas aladas (mas nada de pássaros).

Levy achou a resposta enigmática. Mas talvez não fosse tão inesperado vindo do artista que fizera fama ilustrando os livros do americano Hunter S. Thompson, expoente maior do jornalismo “gonzo”, um filho bastardo do new journalism do começo dos anos 70. Steadman também era festejado por seus cartuns políticos e pelas ilustrações para livros como Alice no País das Maravilhas e A Revolução dos Bichos.

Dois dias depois, o desenhista anunciou que havia feito quatro aves – e não só uma, como lhe fora encomendado. A primeira a pousar na caixa de entrada de Levy foi a “garça-japonesa”. Em seu diário, o curador registrou seu desconcerto diante da ilustração: “A garça-japonesa ascendendo aos céus é uma bela visão, mas está errada. Essa é uma noção de uma ave extinta. Ela não existe e nunca existiu como espécie. Embora haja garças no Japão, não há especificamente uma garça-japonesa. Mas isso é um caos tão belo.”

Ao lado da espécie fantasiosa, a primeira leva de desenhos de Steadman incluiu também autênticas aves extintas, como o arau-gigante, que habitou as ilhas do Atlântico Norte até o século XIX, e um parente do avestruz outrora encontrado na Nova Zelândia. Dias depois, o cartunista mandou outros dois desenhos. Como Levy não lhe dissesse chega, seguiu desenhando – aves extintas, aves reais, aves imaginárias. Ao final de um mês, já passavam de vinte.

Começava ali aquilo que Levy comparou a uma navegação de exploradores vitorianos confusos pelos mares imaginários da invenção, nos quais não vigoravam as normas da geografia. Durante a travessia, eles se depararam com o dodô, a mais emblemática das aves extintas, e dezenas de outras espécies trazidas de volta à vida pelos traços únicos de Steadman. Representar com exatidão as aves tais quais um dia existiram não era sua maior preocupação, conforme explicou num e-mail. “O que é desejável é pegar o espírito e a personalidade da AVE!! Em vez de alguma estranha ‘fidelidade’!!”

Ao cabo de um ano, Steadman havia feito 110 ilustrações, o suficiente para encher muitos viveiros. Seus desenhos ocuparam toda uma sala na exposição (os visitantes tiveram à disposição binóculos para contemplar os detalhes das obras, como se fossem ornitólogos amadores). No ano passado, o material foi lançado num livro de mesa de 240 páginas que reúne toda a série. Ao lado de cada imagem, e-mails trocados entre Steadman e Levy, transcrições de telefonemas e trechos do diário do curador permitem que o leitor mergulhe na fascinante jornada de “mais de um ano com o capitão Ralph a bordo do Steadmanitania”.

O cormorão-de-lunetas vivia na Ilha de Bering, no extremo leste da Rússia, e se extinguiu depois que ela foi colonizada no começo do século XIX. Os últimos exemplares foram avistados por volta de 1850.

A coruja-risonha, que ganhou o nome por causa do pio estridente, se calou de vez no século XX, depois que os europeus chegaram à Nova Zelândia trazendo gatos e outros predadores.

O dodô viveu nas Ilhas Maurício e desapareceu no fim do século XVII, vítima de predadores introduzidos em seu hábitat pela espécie humana. Foi desenhado ao lado de um pássaro azul imaginário.

 

Natural do oriente médio, norte da África e Europa meridional, o íbis-eremita não está extinto – ainda. Restam poucas centenas deles na natureza, a maioria no Marrocos e na Turquia.

O papagaio-das-Mascarenhas, natural desse arquipélago do Índico, deixou de existir no século XIX. A seu lado, um pássaro fictício batizado em homenagem a um jornal falido de Rupert Murdoch.

O arau-gigante era uma ave marinha do Atlântico Norte, de aparência similar à do pinguim, embora não fossem aparentados. O último casal da espécie foi morto em 1844 na Islândia.

Primo da saracura, o ralídeo-vermelho viveu nas Ilhas Maurício até o final do século XVII. Incapaz de voar, foi alvo fácil para predadores introduzidos em seu hábitat

O pombo-coroado-de-Choiseul tinha o porte de uma galinha e era encontrado nas Ilhas Salomão. Extinguiu-se no início do século XX, caçado pelo homem e morto por espécies invasoras.

Aves não dão em árvores. Steadman registrou sua origem: “Num minuto há um ovo, e no seguinte, um pássaro! Um grande impulso, uma sacudida de tinta na plumagem e um pássaro nasce!”