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Barbas de molho

O Natal em que o Papai Noel ficará isolado

Tiago Coelho
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

Àquela altura do calendário, meados de outubro, a agenda do aposentado José Bezerra da Silva estaria cheia de compromissos para a época de Natal. “Já em agosto começavam a aparecer os primeiros convites”, ele contou. Eram pedidos para que atuasse como Papai Noel em shoppings, escolas, clubes, hotéis e empresas. Às vezes, tinha que comparecer a três locais por dia. Em algumas festas mais abastadas, ele desembarcava de helicóptero, provocando um frenesi nas crianças que o esperavam.

Até o dia 16 do mês passado, no entanto, Bezerra da Silva não havia firmado um contrato sequer para as festas natalinas deste ano. “Como ainda não teve nenhum, entendi que desta vez as coisas vão ficar difíceis para o nosso lado.”

Não era apenas ele que estava aflito. Faltando apenas onze semanas para o Natal, muitos bons velhinhos de Norte a Sul do país ainda aguardavam um convite que custava a chegar – e pode não chegar. “Afinal, Papai Noel é grupo de risco”, disse Bezerra da Silva, de 64 anos.

Morador de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, ele se aposentou em 2016, depois de trabalhar por trinta anos numa empresa de ônibus. Decidiu, então, realizar seu antigo sonho de ser ator. Ficou sabendo que a RecordTV estava precisando de figurantes idosos para suas novelas bíblicas e se candidatou a uma vaga. Foi nos bastidores da emissora que ficou sabendo como outros aposentados incrementavam a renda no fim do ano: encarnando Papai Noel.

Bezerra da Silva fez, então, o curso da Escola de Papai Noel do Brasil, com sede no Rio de Janeiro, e entrou para uma associação com outros quarenta profissionais, como o ator Severino Ferreira da Silva, de 71 anos, pernambucano que vive há três décadas no Piauí e nos últimos quinze natais sempre trajou as abafadas vestes vermelhas.

Ferreira também não tinha recebido nenhum convite até o meio de outubro. Mas continuava esperançoso. “Natal sem Papai Noel, para as crianças, não existe. Toda a mobilização dessa festa é feita para elas”, disse. “Há milhares de trabalhadores nas ruas. É só a gente se cuidar que não tem problema. Maior que o medo do coronavírus é o medo de ficar sem trabalho.” Em Teresina, ele trabalha como humorista, mas no final do ano atua também no papel do bom velhinho, chegando a ganhar 400 reais por evento natalino.

A falta de convites acendeu um alerta no grupo de WhatsApp da associação de papais-noéis. Todos passaram a pensar em alternativas que garantissem a volta ao trabalho em segurança. Bezerra da Silva contou que uma das ideias é adaptar o tradicional cenário para as fotos com crianças, colocando os pequenos não no colo do Papai Noel, mas num banquinho a 2 metros de distância. Ferreira, por sua vez, acha melhor o Papai Noel ficar confinado em uma redoma transparente, garantindo assim que a criança possa se aproximar ao máximo, mas sem colocar o mito natalino em risco.

As pessoas que contratam papais-noéis costumam dar mais valor aos profissionais com barbas de verdade, pois isso confere credibilidade ao personagem. Assim, desde o semestre passado, Bezerra da Silva vem cultivando seus fios brancos com esmero. Mas, desta vez, o cuidado pode ser em vão. “Ouvi dizer que o comércio deve dar prioridade aos mais jovens, com barba postiça”, disse ele, num tom de desânimo. Ferreira, como sempre, tem uma perspectiva otimista: “Ninguém substitui o profissionalismo de um Papai Noel da nossa idade, o carinho e a paciência para atender as crianças mais agitadas, com medo, chorando. Não sei se os mais jovens têm a mesma disposição. Sem falar no carisma, que só um velhinho de verdade tem.”

 

Além de ser criador e diretor da Escola de Papai Noel do Brasil, Limachem Cherem, de 64 anos, é proprietário de uma agência que recruta os profissionais para eventos natalinos. Ele presta serviços para comércios do país inteiro. “É um mercado tão concorrido, que em maio já começam as negociações”, afirmou. Neste ano, porém, tudo está diferente. “Em outubro do ano passado, minha agência já tinha mais de cinquenta contratos assinados. Agora caiu pela metade. Todo mundo está se resguardando.”

Cherem disse que alguns shoppings estão buscando alternativas. “Tem shopping pensando em isolar o Papai Noel numa redoma de vidro. A criança vai poder falar com ele através do celular.” Mas o empresário confirmou que os clientes estão com receio de contratar profissionais mais velhos. “Estão pedindo gente mais nova e também que se evite o Papai Noel que pega condução. A prioridade será para quem vai de carro. Leva vantagem quem tem o seu próprio trenó.”

A Escola de Papai Noel do Brasil, além de receber interessados em ingressar na concorrida carreira, atende profissionais que desejam se atualizar. Neste ano, está oferecendo curso sobre como se portar durante uma live e garantir a alegria das crianças mesmo pela internet. “Há uma demanda por esse serviço, sobretudo da parte de escolas. É preciso treinamento. Ficar quase três horas diante da câmera não é fácil”, disse Cherem. Uma das principais lições do curso é como montar um cenário bonito e lúdico num lugar fechado e controlado. “Não dá para o Papai Noel aparecer na imagem com a esposa limpando a casa ao fundo ou o barulho de um carro na rua vendendo ovos. É preciso preservar a magia.”

Antes da pandemia, a triunfal chegada do Papai Noel selava a época do Natal para o comércio, sobretudo os shoppings, que faziam anúncios do evento nas rádios e tevês. No próximo dezembro, entretanto, as coisas vão mudar, se depender da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce). Para evitar aglomerações e garantir a segurança dos clientes, a Abrasce recomendou aos seus associados a suspensão de festas e eventos natalinos, bem como da chegada e do trono do Papai Noel, mesmo com atores fora dos grupos de risco.

Na cidade turística de Gramado, na Serra Gaúcha, onde o Natal é uma das festividades mais importantes, também haverá mudanças. A Aldeia do Papai Noel, um parque natalino no Centro da cidade, seguirá funcionando, com as restrições sanitárias previstas. Mas as crianças só poderão ver o bom velhinho a distância, enquanto ele acena da janela de sua casa.



Tiago Coelho

Repórter da piauí e roteirista