poesia

Bastidores de 1 poema e 6 em andamento

Armando Freitas Filho
CREDITO: ANA CARTAXO_2020

BASTIDOR DE 1 POEMA E 6 EM ANDAMENTO

Andando a pé, pensando na passagem do tempo. 

No jornal, a foto de página inteira da cara de Miles Davis. 

Meu filho fez 10 anos: “entrar na casa de dois dígitos para sempre.” 



Esta linha entre aspas acima veio inteira, pronta. 

Sem caneta, pedi emprestada a do jornaleiro. 

E escrevi na testa cinza-preta de Miles o que pensei. 

O resto do poema veio vindo ou eu fui a ele 

durante a caminhada, escrito com outras canetas de empréstimo. 

Em cores diversas: azul, preta, vermelha. 

A testa lisa de antes foi se franzindo. 

E Miles Davis foi envelhecendo à força 

à medida do que ia sendo escrito, com rasuras. 

 

10 ANOS*

                                                            para Carlos

Flor masculina do meu bosque

seu cheiro começa a ser íngreme

árduo – de cabelo e músculo –

de dias ardidos de escalada.

 

Subsiste o primeiro suor da noite

inodoro porque em repouso

a pele lisa que a barba e a acne

ainda não contrariam, o ar de entrega

 

se mantém embalsamado

pelo sono ou por algum sonho

de maldade, com mulher de celofane.

Mas a infância já se feriu, inevitável

ao entrar na casa de dois dígitos para sempre.

 

A dor de alterar-se, de altear-se

estala, e a inocência também é de sangue.

Uma e outra se quebram e reanimam-se:

têm o mesmo comportamento, prazo

bravio e breve, das ondas no mar.

 

*In: Máquina de Escrever. Nova Fronteira, 2003.

 

SURDEZ

Socorro! Por escrito

perde o som da exclamação

do uivo da imagem

tampando os próprios

ouvidos, embaixo

do pincel pesado

de tinta do grito

no quadro de Munch!

 

ENCONTRO

“Kauka”, como entendeu

Carpeaux, frente a ele

em Berlim. O outro encontro

uns cinco anos depois

foi em livros empilhados.

Todos, O Processo

sem venda alguma, lixo puro

de Kafka, e começou a ler:

então era aquele de 1921?

 

CERTEIRA

Ana matou a morte

antes que ela decidisse por isso.

Estava certa de que viveria

melhor se fosse por escrito

em plena glória e paz.

 

BREU/ BRANCO

A dor não dorme

a noite avança.

Conter com quê

sem remédio à mão?

 

Despido de socorro

a voz gagueja na mudez

a mão treme sozinha

o silêncio amarra!

 

No quadrado do quarto

no negro quadro sobre fundo

branco “eu sentia apenas a noite

dentro de mim, foi então que concebi

a nova arte, que chamei de suprematismo”

que numa outra hipótese podia ser

branco sobre branco.

Assinado – Malevich. Verso e frente.

 

P.S. Perdi a terceira estrofe

a genuína, a melhor delas

onde no papel da memória

foi escrita perdida esquecida

 

TEMAS E METAS

O mar repetitivo como as marinhas

ininterruptas pintadas por Pancetti

tal e qual as sucessivas mensagens

das garrafas de Morandi, que cintilam

diferentes, dependendo das ondas.

Como as incessantes maçãs de Cézanne

também capaz de pintar vezes sem conta

o ar livre que cerca a montanha de Sainte-Victoire

em toda ocasião em que a viu, visitou, dura

durante a vida, pintada e meditada.

 

Leitmotiv adesão identidade decorado

pelas inúmeras declinações do olhar e do mar.

A mão o leva do chão

às telas no cavalete, não molha

ao seu redor, nada – de mar a mar:

mancha pictórica, com a colaboração do céu

onde o tempo de um sonho é o tempo de uma nuvem.

 

AINDA PANCETTI, MORANDI E DE QUEBRA GUIGNARD

Pancetti mimetiza o mar

pintando sucessivas marinhas.

A paleta de cores

tem o formato da baía, do mar

que o polegar de Pancetti detém.

Parecem uma só, mas vistas de perto

os matizes as diferenciam, a posição

do sol, da luz é quase a mesma, e não é.

Se vistas de longe quem anda na praia

aparentemente paralisada

passa vencendo o marasmo

deixa pegadas como prova

antes que as ondas as apaguem.

*

O sol batendo no alvo

das garrafas equilibradas de Morandi

em cima do muro do maralto.

Reparava que de acordo

com a estação, com o seu sol particular

com sua disposição, elas variavam: eram outras.

Naturezas mortas por um instante apenas.

*

O mar vertical de montanhas

o sino que sai de si e soa

sobre os telhados de Guignard

não é o que se reflete no mar

feito de horizonte em Pancetti, ou então

é o mesmo em dois estágios:

a) levanta brusco em ondas paradas

b) e alisa ao reencontrar a praia

depois do tormento do maremoto.

De novo pensando e andando: Oscar Wilde dizia que quem inventou a neblina tão constante em Londres foi Turner. Se é assim, quem levantou a montanha piramidal de Sainte-Victoire tantas vezes foi Cézanne, pintando-a, pensando, comendo uma maçã.


Os poemas fazem parte do livro Arremate, a ser lançado neste mês pela Companhia das Letras.

Armando Freitas Filho

Armando Freitas Filho é poeta e seu livro mais recente é Dever, da Companhia das Letras.

Leia também

Últimas Mais Lidas

Marcadores do destino

Marcadores presentes no sangue podem aumentar ou diminuir os riscos do paciente infectado pela Covid-19 em desenvolver casos graves da doença

De puxadinho da Universal a queridinho da direita

No espaço deixado pelo PSL, Republicanos dobra número de prefeitos e se torna partido com mais vereadores eleitos em capitais

Foro de Teresina #128: As urnas, o racismo e o vírus

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Teatro político

Ricardo Nunes, vice da chapa de Bruno Covas, faz encontro em teatro que recebeu repasse de 150 mil reais autorizado pela prefeitura de São Paulo

Confiança no SUS tem crescimento recorde na pandemia

Pesquisa inédita do Ibope mostra que, em 2020, a população passou a confiar mais em quase todas as instituições – menos no presidente e seu governo

Virada eleitoral: missão (im)possível?

Só uma em cada quatro disputas de segundo turno teve reviravolta em relação ao primeiro nas últimas seis eleições municipais

Mais textos
3

Na cola de quem cola

A apoteose da tecnologia e o adeus aos estudos

6

A Arquiduquesa da canção e do escracho

Algum jovem, bem jovem mesmo, que por ventura me leia neste momento, não há de saber quem foi “Araca, a Arquiduquesa do Encantado”, estou certa? Assim era chamada a cantora favorita de Noel Rosa e tantos outros, a super Aracy de Almeida. Mulher absolutamente singular em sua figura e trajetória.

7

Janelas para o passado

Vêm da Inglaterra iniciativas interessantes lançadas na internet esta semana que ajudam a entender melhor duas civilizações antigas. Um projeto disponibiliza na rede fragmentos de papiros egípcios da época da ocupação grega, incluindo textos de Platão, Heródoto e Epicuro, e convida os internautas para ajudar a decifrá-los. Foi inaugurada também uma biblioteca digital de manuscritos de Avicena e outros nomes da medicina árabe do período medieval.

8

Miriam

Miriam, a mulher com um problema na garganta

9

PMDB decide apoiar Obama e Raúl Castro

"Abaixo o capitalismo e o socialismo! Viva o fisiologismo!", discursou Temer