esquina

Beatles à carbonara

Uma cantina que tem dois Lennons

Juliana Faddul
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2015

Jonh Lennon tinha até algum talento para a música. Tocava trompete na orquestra da cidade, a pequenina São Miguel, de 23 mil habitantes. Mas, quando o ousado projeto de estabelecer uma filarmônica no interior do Rio Grande do Norte foi interrompido, ele não pensou duas vezes e pegou a estrada. Pôs os pés em São Paulo pela primeira vez aos 18 anos, com uma única mala na mão – e sem o trompete.

Lennon, hoje com 26 anos, tem os cabelos pretos e 1,65 metro de altura. Parece desconfiado e é sério, quase sisudo, com quem não tem intimidade. Ao deixar a música para trás, Jonh Lennon Henrique de Freitas (por engano, o pai e o escrivão trocaram as letras do primeiro nome) já tinha nova ocupação e emprego garantido na capital paulista. Foi trabalhar na tradicional Cantina Gigio, em Pinheiros, por indicação de um conterrâneo seu, Claudenício Dantas, o Dedé, garçom no restaurante.

Seis meses depois, outro Lennon chegava para reforçar o atendimento no salão. John Lennon do Rego Barros, de 23 anos, também é moreno, mas é um pouco menos tímido e bem mais alto do que o colega e ex-trompetista: mede 1,80 metro. Como se não bastasse a coincidência improvável do nome, vinha da mesma cidade, São Miguel. Chegava pelas mãos, mais uma vez, de Dedé, uma espécie de Brian Epstein – primeiro empresário e descobridor dos Beatles – do Gigio.

“Enquanto as pessoas ainda choram a morte de John Lennon, eu tenho dois aqui”, gabou-se José Ailton Gonçalves da Silva, da casa. Foi ele, chefe da dupla, quem tomou a primeira e óbvia providência numa situação como aquela: determinou que o precursor, mais baixo e circunspecto, atenderia pelo sobrenome, Lennon. O outro seria o John. “John porque é nome de gente alta, e Lennon de gente baixa”, argumentou, com a confiança de quem prova um teorema.

A dupla acabou ganhando fama entre os fregueses mais assíduos e se tornou uma atração à parte. “Quando descobri que nosso garçom se chamava John Lennon, achei o maior barato e até pedi uma palinha”, brincou o comerciante Rogério Nogueira dos Santos, de 65 anos, que vai à cantina pelo menos uma vez por mês comer nhoque ao molho branco com filé mignon. “O moço fica roxo, coitado; essa gente é muito tímida”, observou Marilene, professora aposentada e mulher do comerciante, balançando as pulseiras douradas.

A piada, que até rendeu risadas da primeira vez, tem sido repetida com alguma frequência. “Eles não se cansam nunca. Tipo, sério, nunca”, comentou sem tirar os olhos do iPhone 6 a neta do casal, Valentina, de 12 anos. “Imagine all the people… que vem aqui e faz essa piada com eles, coitados”, arrematou o advogado Márcio, filho do comerciante e pai quarentão da adolescente. Pelo olhar fixo da mãe e da garota depois do comentário, Márcio parece ter herdado a veia humorística do pai.

 

Se em São Paulo a homenagem ao músico inglês provoca um ou outro sorriso condescendente, em São Miguel o nome é bastante comum. “Só lá na escola tinha uns dez Johns Lennons. Não entendo por que aqui é notícia”, questionou John, o alto. Os pais dos garçons se tornaram fãs dos roqueiros ingleses quando uma banda se formou na cidade, entre o final dos anos 80 e início dos 90, e passou a fazer apresentações com músicas dos Beatles, além de canções da carreira solo de Lennon. O conjunto animou muitos bailes e emprestou trilha sonora para os namoros de São Miguel.

“Meus pais se conheceram enquanto tocava Imagine. Quando nasci, meu pai quis fazer essa homenagem à minha mãe”, disse John. Ele próprio não se diz fã do quarteto de Liverpool. Tampouco o seu colega de salão. “Gosto de música com letra, que faz a gente pensar, que tem uma história”, explicou Lennon, o sério. “Principalmente das que têm história de amor. Ou sofrimento.” Ele não duvida que as letras dos Beatles tenham lá seu valor – “embora eu não entenda nada” –, mas prefere mesmo ouvir Zé Ramalho ou Roberto Carlos.

John gosta do nome: “Facilita na hora de fazer amigos.” Lennon, nem tanto. O padre da cidade a princípio recusou-se a batizá-lo, sob a alegação enfática de que “isso não é nome de gente”. Acresce que havia chegado aos ouvidos do religioso a desaforada declaração do marido de Yoko Ono de que os Beatles eram “mais populares que Jesus”. Foi preciso pedir a intervenção do avô paterno, católico assíduo e amigo do padre, para que a criança pudesse ser enfim reconhecida pela Igreja.

Lennon pensa em voltar para casa. Mesmo depois de quase uma década em São Paulo, diz que não se acostuma com a cidade. De uns tempos pra cá, anda alimentando o projeto de montar um pequeno negócio em São Miguel. Mas descarta abrir uma filial da cantina paulistana no interior do Rio Grande do Norte. “O povo de lá não come macarrão como os daqui, não.” John se incomoda menos com a vida na capital paulista: “São Paulo é ruim, mas não é tão ruim assim.”

Na cantina, os xarás se dividem em dois turnos, seis dias por semana. Lennon é da “turma que abre”, considerado um benefício entre os funcionários do restaurante. Pega às 10h e fica até as 15h. Depois volta às 17h e trabalha mais três horas. John, por outro lado, é da “turma que fecha”: trabalha das 12h às 15h e das 18h até o último cliente. No intervalo entre as duas jornadas, no meio da tarde, o pessoal faz da cantina um lar improvisado. Brincam, jogam conversa fora e improvisam partidas de futebol no estacionamento. Mas o esporte preferido dos funcionários é mesmo pregar peças e fazer brincadeiras com os novatos.

Em junho, a vítima da vez era um jovem caladão, magro e de cabelo preto, em tudo parecido com John – e não à toa, já que são primos. O novo garçom também é de São Miguel. Mas esse pelo menos não tem nome de Beatle, nem de ex-Beatle ou de qualquer outro músico famoso. Chama-se John Kennedy.

Juliana Faddul

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