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cartas

Bípedes

| Edição 19, Abril 2008

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DESCENDENTES DE DARWIN

No meu entendimento, Otavio Frias Filho identifica o nó górdio da discussão: a biologia – como, de resto, todas as ciências da natureza – levanta questões cujas respostas estão fora de seus domínios, e leva a que, compreensivelmente, os sapateiros queiram ir além dos sapatos. Se os cientistas ousam apontar para realidades malucas, como a do gato de Schrödinger, ou criar situações borgeanas, como colher o óvulo de uma mulher, fecundá-lo com o espermatozóide de um doador anônimo, implantá-lo no útero de uma segunda mulher que levará a gestação a termo para, em seguida ao parto, entregar o concepto a uma terceira mulher para que o crie como filho, não cabe pedir a esses mesmos cientistas que expliquem o paradoxo existência/não-existência de um objeto quântico ou que esclareçam os conceitos de família, maternidade e paternidade, tarefa que cumpre às ciências humanas, que, nesses tempos pós-modernos, parecem, assim como os neuróticos (com raras exceções, como Agamben), sofrer de reminiscências. A cura possível está na ampliação dos limites da linguagem. Ou será essa uma tarefa da filosofia? Ou da arte?

MENDEL REISMANN_RIO DE JANEIRO/RJ

Cabe perguntar ao autor: existiria diferença entre o pior dos pesadelos e a maior das utopias? Nossa história tem mostrado que os dois andam juntos, do nazismo de Hitler à URSS de Stálin. Portanto: qual papel podem ter as ciências humanas no desenvolvimento da manipulação genética (e da ciência), para evitar que se construa a maior das utopias, que será o pior dos pesadelos?
ROBERTO ANDRÉS_BELO HORIZONTE/MG

Ao afirmar que o marxismo sofreu um “xeque-mate” com a derrocada do “socialismo real”, Otavio Frias Filho procura identificar o regime stalinista com o marxismo, como, por sinal, Stálin sempre tentou fazer. É sabido que Marx apenas concordava com a revolução em um país relativamente atrasado, como o Império Russo, se fosse o estopim de uma revolução no Ocidente. Caso contrário, a revolução fracassaria. Marx nunca considerou a hipótese do socialismo em um só país, eis que o capitalismo era (e é) um sistema mundial. Em face da apatia dos social-democratas e ausência de um partido verdadeiramente revolucionário, a revolução fracassou na Alemanha, quando, para os marxistas, seu sucesso era vital não apenas para a Revolução Russa.

São inúmeras as manifestações de Lê-nin e Trotsky, entre 1917 e 1923, segundo as quais, sem revolução no Ocidente, o bolchevismo seria liquidado pela contra-revolução interna, pela intervenção estrangeira ou uma combinação de ambas. Trotsky escreveu sobre isso em 1905! Ademais, Lênin sabia que, se o centro de gravidade político fosse transferido do partido para a burocracia, ocorreria a degeneração. Por isso, previu que a burocratização do Estado – levada ao limite por Stálin – não era um problema teórico.

Em cartas de 25 de dezembro de 1922 e 4 de janeiro de 1923, como que antevendo o futuro, Lênin, à beira da morte, propôs ao Partido Comunista a remoção de Stálin do cargo de secretário-geral e sua substituição por alguém “… que se diferencie do camarada Stálin em todos os demais aspectos por uma vantagem, a saber: que seja mais tolerante, mais leal, mais correto e mais atento aos camaradas, menos caprichoso etc.”. Só quem se recusa a ver o rio de sangue em que o despotismo burocrático stalinista aniquilou, ao longo de décadas, não apenas a velha geração bolchevique, como um setor importante da geração intermediária – que participou da guerra civil –, pode identificar o “socialismo real” de Stálin com o marxismo.

LUIZ MARIANO DE CAMPOS_RIO DE JANEIRO/RJ

 

NARIZES

Devo à coluna “Tipos Brasileiros – O connaisseur” uma boa quantidade de gargalhadas. Gostei especialmente do apelido de “Cyrano” que o autor pespegou em seu sensibilíssimo nariz. Cyrano de Bergerac é uma das minhas fixações. Já li a peça umas vinte vezes, umas dez em versão original e outras dez em português (na excelente tradução, rimada e metrificada, de Carlos Porto Carreiro). Sei vários trechos de cor nas duas versões. A tirada contra os falsos connaisseurs de vinho tupiniquins fez-me lembrar da tirada para cima do burguês idiota, que, por puro medo, disse achar pequeno o nariz de Cyrano.

PEDRO NEY PEREIRA_RECIFE/PE

 

CONCURSO NA MOLVÂNIA

Deparando-me com o último resultado do soi-disant flamifervente concurso literário, concluí que Coelho Neto, a exemplo de Elvis, não morreu. Sua reencarnação (ou o próprio, nunca se sabe) exibe um estilo transbordante de fluidez abochornada. Ideal para estes cyber-tempos de escassas letras. Resta saber se a próxima edição vai dar direito de resposta ao arqui-rival Lima Barreto (ou sua reencarnação).

Consta que na Molvânia foi organizado um concurso nos mesmos moldes do certame instituído pela piauí. Como o analfabetismo naquele simpático país beira os 99%, a procura pelos prêmios (primeiro prêmio: hospedagem de uma semana no Lutenblag Plaza; segundo prêmio: hospedagem de duas semanas no mesmo hotel) tem sido bastante tímida, por enquanto.
PAULO MARTINS MAGALHÃES_TAUBATÉ/SP

 

ENTRE POETAS

Salvo engano, o único presidente poeta – pelo menos, poeta de valor – nos tempos modernos foi Léopold Sédar Senghor. Não sei se Barack Obama é poeta com obra ou bissexto, na acepção criada por Manuel Bandeira. De todo modo, o poema “Meu pai”, publicado no último número, é sensacional.

ARMANDO FREITAS FILHO_RIO DE JANEIRO/RJ

NOTA DA REDAÇÃO: piauí não poderia deixar de registrar que Senghor não está sozinho no panteão dos presidentes poetas: o nosso festejado José Sarney, que além de ex-presidente, romancista-escritor-acadêmico e maranhense, também é poeta. Vide o inesquecível Os Maribondos de Fogo, que, segundo Millôr Fernandes, é “um livro que quando você larga não consegue mais pegar”.

 

PERDÃO, KAFKA

Acredito haver um erro na charge da página 31. Lá lemos: “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.” Tal citação é atribuída a O Processo, de Kafka, quando a mesma é o início de um outro romance, A Metamorfose.

BRUNO DE CARVALHO ALVIM_MESQUITA/RJ

NOTA DA REDAÇÃO: pobre Gregor, mais uma metamorfose na sua vida.