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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2021

esquina

Burberry e Bíblia

Na Influchurch, também se tira o diabo do corpo

João Batista Jr. | Edição 184, Janeiro 2022

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Com a pandemia, muitas igrejas de todos os credos viram diminuir o número de fiéis e, em algumas, também o dízimo. Não foi o caso da Influchurch, em Guarulhos, na Grande São Paulo, que vive abarrotada de gente nos cultos das segundas, quintas e domingos. “Aqui temos gente não só de Guarulhos, mas de vários bairros de São Paulo”, disse Patrick Moura no culto de 9 de dezembro, quinta-feira, depois do qual um engarrafamento tomou conta da rua em frente.

O aumento do número de fiéis é um dos motivos por que a igreja vai se mudar do galpão que ocupa na Vila Galvão, com 500 m2 e capacidade para quinhentas pessoas sentadas, para um espaço bem maior, onde cabem 2 450, além de uma lanchonete e uma brinquedoteca. No culto, Moura pediu que os fiéis ajudassem na mudança, prevista para ocorrer até o fim do ano, e contribuíssem com 108 reais para a compra de novas cadeiras. Ele sugeriu que todos levassem um amigo que não frequenta a igreja e, “em um ato profético”, ajudassem a carregar as cadeiras antigas para o novo templo, a poucos quarteirões de distância.

Na pregação do dia 9, Moura vestia calça jeans com lavagem rasgada, camisa Burberry e tênis branco. O pastor de 34 anos gosta de roupas de grife, mas elas não são o seu principal cartão de visita. Ele é mais conhecido pelo carisma e a oratória vibrante, bem-humorada, conduzida por uma voz firme, de sotaque carioca – Moura nasceu em Petrópolis. Ele credita a sua eloquência e o poder de convencimento à formação que teve em coaching, programação neurolinguística e teologia.

Moura se autodenomina um “influenciador de Jesus” – e vem daí o nome da igreja. Uma das ferramentas que mais usa para atrair fiéis é o Instagram, onde se comporta como um influenciador digital e tem 42 mil seguidores. A religião é o mote de boa parte de suas postagens, mas o pastor também gosta de tratar de assuntos do momento, como a crise no Afeganistão, as séries da Netflix e as partidas do Corinthians, seu time do coração.

Ele assegura que seu trabalho como influenciador e pastor tem uma única finalidade: a manutenção de sua igreja. “Isso aqui não é meu, mas de todos nós”, disse no culto. “Eu me considero melhor do que a maioria de coaches que estão ganhando dinheiro, mas meu compromisso é estar aqui.”

 

A igreja criada por Patrick Moura surgiu depois de um escândalo que agitou o mundo evangélico em 2011.

Filho do bispo Saulo Moura, fundador da igreja Ministério Atraindo as Nações ao Altar de Deus, também em Guarulhos, Patrick estava em ascensão. Com 20 e poucos anos, era convidado a ministrar a Palavra de Deus em diferentes templos do país. Então, naquele ano, espalhou-se a notícia de que estaria tendo um romance com sua madrasta, a também pastora Roberta Moura, de quem o pai havia acabado de se divorciar.

Na época, sites e blogs evangélicos resgataram a filmagem de um culto ministrado por Saulo Moura antes da separação, que foi visto retrospectivamente como um indício de que o bispo já suspeitava do caso. No vídeo, Saulo chama Roberta até o altar da igreja repleta de fiéis e pede que ela faça um juramento. “Vem cá, minha esposa. Põe a mão sobre a Bíblia”, diz. “Não vale a pena trocar Jesus por mentira, por sexo ilícito, por vaidade.” Ela apenas colocou a mão sobre o livro sagrado.

Em novembro daquele ano, Patrick escreveu em seu perfil do Facebook, sem citar nomes: “O que fazemos com os irmãos, diáconos, evangelistas, presbíteros, pastores, bispos e apóstolos que caem? É nessa hora que tínhamos que abrir os braços e chorar! Mas o que fazemos? Detonamos e publicamos a queda parecendo que somos os justiceiros, determinamos o futuro dessas pessoas, no caso, o INFERNO!”

Patrick se divorciou de sua mulher, Viviane Ribeiro, e passou a viver com Roberta, sua ex-madrasta. Logo depois, abriu a Igreja Evangélica Ministério Influenciando uma Geração, que há três anos mudou o nome para Influchurch.

Em 2017, o site O Fuxico Gospel resumiu assim todo esse episódio: “Pastor famoso se casou com a esposa do pai. A história tem tudo para ser um bom romance de filmes de ficção, mas é uma das notícias gospel mais polêmicas de todos os tempos.”

 

Com a nova igreja, Patrick Moura tentou recuperar o prestígio entre os evangélicos. Ao menos entre os mais jovens, isso aconteceu. Boa parte dos seguidores da Influchurch tem menos de 30 anos, ou em torno disso. “Sempre lutamos para ser uma igreja relevante e não uma igreja grande”, diz ele à piauí, ressaltando que está empenhado também em um projeto social, “com a ideia de cuidar das crianças carentes nos contraturnos das atividades do colégio”. O projeto se chama Fábrica de Leões e atende trezentas crianças.

O clima no culto do dia 9, acompanhado pela reportagem, era de festa, com várias apresentações musicais entremeando as orações. “Os crentes que me perdoem, mas oração não é coisa só de evangélico”, pregou Moura. “É coisa de quem acredita em Deus, seja católico, espírita ou até mesmo pessoas sem religião. E sabe por quê? Todos que subirem ao céu vão se encontrar com Deus.” Os fiéis aplaudiram e seguiram filmando tudo, para depois postar nas redes sociais.

Um dos principais apelos de Patrick Moura é tirar o diabo do corpo, o que ele faz sem recorrer à teatralidade de algumas igrejas neopentecostais. Na Influchurch não há gritarias nem estrebuchamentos no altar, e a oratória predomina sob o drama. Mas nem por isso o demônio é diferente. “Não é acaso, não é destino, não é falta de sorte. É o diabo trabalhando”, disse ele na preleção.

Como há sempre quem duvide do poder do coisa-ruim, Moura propôs durante o culto que todos fizessem um teste. Ele pediu que cada fiel entrelaçasse as mãos, e as colocasse unidas sobre a cabeça. O público seguiu a orientação, e o pastor, de repente, soltou um sopro forte no microfone, simulando uma ventania. Era a dica para que as pessoas tentassem soltar as mãos. Os que conseguiram, estavam livres do demônio. Os outros, infelizmente, precisariam tirar o diabo do corpo.

No culto acompanhado pela piauí, catorze pessoas não conseguiram soltar os dedos. Tiveram que se dirigir ao palco, a fim de completar a tarefa e, com a ajuda de Patrick Moura, se livrarem o quanto antes do ardiloso Belzebu.