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Caça ao tesouro

Um humorista que (quase) virou garimpeiro

Samária Andrade
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

Ele estava acostumado a provocar gargalhadas nos teatros e numa emissora de tevê do Piauí, onde manteve um quadro de humor por sete anos. Também se apresentou em programas de tevê em rede nacional e realizou shows em Portugal. Em 2018, apesar do sucesso que fazia, Dirceu Andrade, 51 anos, decidiu colocar a vida de humorista em segundo plano. Muita gente não soube, mas ele foi se arriscar em um novo ofício: o de garimpeiro.

No início deste ano, quando Andrade anunciou um novo espetáculo no maior teatro de Teresina, logo os ingressos se esgotaram – o que não foi nenhuma novidade, pois seus shows costumavam ficar lotados. Surpreendente foi a pandemia de Covid-19, que levou à suspensão de várias atividades na capital do Piauí, entre elas a do espetáculo do humorista, previsto para estrear em 21 de março.

Para se entregar à caça a um tesouro, Andrade havia se mudado para Pedro II, a capital brasileira da opala. Em um terreno de 8 hectares, recebido por ele de herança, juntou-se a três garimpeiros, armou-se de pá e picareta e investiu na aventura de procurar a pedra semipreciosa. “Fiz isso por sonho ou ganância”, disse. O que o animava a ser garimpeiro eram as histórias de abundância da pedra naquela região. O humorista contou que opalas haviam sido encontradas em todos os terrenos ao redor do seu.

Mesmo na bucólica Pedro II, a 200 km de Teresina e com quase 40 mil moradores, Andrade não conseguiu escapar de sua vocação: extrair risos. Sempre lhe paravam para pedir alguma imitação, a especialidade do humorista, que sabe zombar como poucos de figuras famosas do Piauí, de preferência do mundo político.



Seu humor é “da gema”, legitimamente piauiense. Vai além dos textos e se esparrama em expressões corporais típicas do matuto. Ele contou que aprendeu os trejeitos observando o avô e se inspirando em outro humorista do Piauí, João Cláudio Moreno, que trabalhou com Chico Anysio. As lições de Andrade, por sua vez, chegaram até um dos youtubers mais famosos do país, o piauiense Whindersson Nunes, admirador confesso do humorista que quase virou garimpeiro.

 

A Austrália tem cerca de 90% das reservas de opala do planeta. Ali se encontram também as de melhor qualidade em todo o mundo, junto às de Pedro II, onde se estima que haja uma reserva geológica de 1,2 mil toneladas dessa pedra, a maior do país. Segundo dados do Ministério de Minas e Energia, um perímetro com raio de 10 km a partir de Pedro II é “potencialmente rico em opala”.

Na cidade piauiense, as pedras foram descobertas por acaso no final da década de 1930, mas a mineração teve que esperar até os anos 1960 para se desenvolver de fato, com empresas especializadas. Enquanto isso, moradores persistiram na exploração independente, em geral com recursos precários.

Na década de 1980, quando as reservas diminuíram, Pedro ii esvaziou-se de gente. Mas as décadas de mineração deixaram ali uma lavra de histórias preciosas, exploradas pelos moradores. Como a de Raimundo Galvão, o Mundote, que achou uma opala de quase 5 kg, hoje avaliada em mais de 1 milhão de reais. Na cidade se diz que ele ficou milionário, mas Galvão garante que nunca pôs a mão em tanto dinheiro e que a pedra foi parar no Museu de História Natural de Londres.

Outra história diz que opalas trazem má sorte para seus exploradores. O que não impediu que parte da economia de Pedro II continuasse a girar em torno da mineração. Segundo o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, cerca de 30% das opalas da cidade são exportadas, sobretudo para os Estados Unidos e a Alemanha, frequentemente para serem utilizadas em joias. Os dados não são precisos, mas estima-se que as oficinas locais vendam, por ano, cerca de 400 kg de joias com opala.

Em seu auge, a cidade tinha trinta minas em pleno funcionamento, a maioria sem os cuidados ambientais adequados. Hoje, boa parte dessas minas está abandonada ou é explorada, em grande medida, por garimpeiros que trabalham sozinhos, cheios de esperança de encontrar fortuna.

No garimpo rudimentar que montou em seu terreno em Pedro II, Andrade estava mais para os personagens das comédias pastelão que admira: era como se encarnasse todos os Três Patetas ao lidar com ferramentas ou, sem habilidade para as tarefas, parecesse um Jerry Lewis anarquizando o serviço. Apesar disso, segundo ele, conquistou o respeito dos colegas garimpeiros, devido à dedicação demonstrada.

Nas minas, poucos são os donos de terra que se envolvem em tarefas manuais. Menos ainda os que contam piada durante o trabalho pesado ou estão dispostos a satisfazer curiosidades dos trabalhadores no fim do expediente. “Diz aí como é a televisão por dentro, Dirceu”, pediam os colegas. E ele contava com gosto as histórias dos bastidores dos programas de Fausto Silva e Silvio Santos, imitando os apresentadores.

O humorista passou quase dois anos cavoucando a terra. Nunca encontrou as opalas que procurava.

 

Com o espetáculo cancelado em março, Dirceu Andrade seguiu a sugestão do público: fez um show em sua casa e o transmitiu pelo Instagram. No teatro, ele teria na primeira noite seiscentos espectadores. Na rede social, cerca de 28 mil pessoas assistiram à primeira live em 22 de março. “Fiquei foi assustado. Nunca que cabe esse tanto de gente em teatro nenhum do mundo”, disse.

Andrade se afeiçoou à fórmula e já fez mais de trezentas lives. Às vezes, encena várias num mesmo dia. “As pessoas se viciaram em mim.” As apresentações incluem não só piadas, mas também desabafos pessoais. Na maioria das vezes, ele trilha um caminho sem roteiro, e o show vai se fazendo de improviso, com a interação do público, que passou a acompanhar o cotidiano do humorista na casa onde ele mora com as duas filhas, em Teresina.

Qualquer situação vira esquete ao vivo, como no dia em que a campainha tocou e Andrade foi até o portão da casa, abrindo-o com cuidado: “Tomara que não seja um jovem empreendedor.” Enquanto testa as redes digitais, aguarda que Whindersson Nunes cumpra sua promessa e mande construir o Teatro Dirceu Andrade.

O humorista garante que, quando os teatros reabrirem, terá prontos os roteiros de quatro novos shows, criados em parceria com colegas humoristas e até com a filha mais nova, Luíza, de 13 anos. A levar em conta o sucesso obtido nas lives, não faltará público para os espetáculos. Parece que a sorte de Andrade foi não ter encontrado as opalas.

Samária Andrade

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