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    A visão de um torcedor visitante em São Januário, com o Palmeiras campeão brasileiro Crédito: acervo pessoal

memórias do futebol

Carta ao pequeno campeão

Vivemos tudo isso, filho, no ano em que o Brasil mergulhou num período tenebroso

Rodrigo Barneschi | Edição 179, Agosto 2021

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Rio de Janeiro, 25 de novembro de 2018.

Lorenzo, meu pequeno,

O papai pôde comemorar um título no estádio somente no fim da adolescência, já aos 17 anos. Guardo com carinho cada detalhe do último sábado de maio de 1998. Ainda de manhã, a caminhada até o ponto para tomar o primeiro de dois ônibus em direção ao Morumbi. A expectativa desmedida enquanto sigo com o seu tio/padrinho dentro de um Terminal Capelinha tomado por alviverdes. As barraquinhas de pernil, o fluxo intenso nas avenidas ao redor, o estádio ficando repleto aos poucos. O desvio cirúrgico de Paulo Nunes para abrir o placar, na final da Copa do Brasil, entre Palmeiras e Cruzeiro. A chuva caindo, as capas plásticas que surgem sabe-se lá de onde. A cobrança algo surpreendente de Zinho, quando todos já tinham se conformado com a disputa nos pênaltis. O rebote. A finalização fisicamente improvável de Oséas, um herói, um ídolo, um dos grandes. A bola molhada que sobe. A bola que beija a rede no alto, onde ela quase nunca se deixa beijar. A bola que, ao deslizar pela rede, faz espirrar todas as gotículas que a chuva ali deixou. O grito de cada garganta. O estrondo da multidão. O desabar no concreto molhado. Os abraços e os braços erguidos para o alto. O apito final. O choro. O título. A taça.

Depois do primeiro grito de “É campeão!”, muitos outros vieram, e me orgulho de ter acompanhado o Palmeiras em todos os momentos decisivos das últimas décadas. Cada título – e cada classificação ou vitória memorável – teve lá sua importância, e nunca deixei de preservar em minha mente fragmentos bem particulares de cada glória.

Você, meu pequeno, teve o privilégio de ser campeão no estádio antes mesmo de seu segundo aniversário. E o fez em grande estilo: foi decacampeão brasileiro fora de casa, no Rio de Janeiro. Daí que escrevo esta carta para que você tenha a exata dimensão do que viveu em solo carioca em um domingo ensolarado de novembro de 2018.

A PRAIA. Passamos o fim de semana no Rio, a exemplo do que fazemos sempre que o Palmeiras joga lá. Fomos à praia (de Copacabana, é evidente), você brincou na areia, pulou ondas, se divertiu, dormiu sob o guarda-sol. Fomos ao Bar Madrid, ao Jardim Botânico, você adorou andar de metrô e de VLT.

A CANTINA. Almoço em família(s). Eu, você, mamãe, Nicolas na barriga da mamãe. O padrinho. Os irmãos Beto e Del Douek. O Boi. A Trattoria del Campo, agradável surpresa em São Cristóvão, bem perto da Quinta da Boa Vista. O proprietário veio até nós e propôs um menu degustação, com direito a entradas, pratos variados, sobremesas, vinhos, cervejas, caipirinhas, de tudo um pouco. Você comeu, mamou e dormiu.

A RUA. Chegamos cedo a São Januário. Encontramos amigos e conhecidos do papai, aquela gente que acompanha todos os duelos dentro e fora de casa. O Vasco corria risco de rebaixamento, mas isso em nada alterou a convivência harmoniosa. Churrasco nas ruas, bares apinhados, bandeiras desfraldadas e trocando de mãos, a cantoria alternada das torcidas-irmãs.

O ESTÁDIO. Você se sentiu em casa, andou pela arquibancada como se o lugar já fosse familiar, brincou com água no concreto. O sol brilhava forte e, depois de um dia inteiro indo para lá e para cá, você estava sonolento. Parecia querer dormir antes do jogo até, mas resistiu bravamente. E cantou – ou ensaiou cantar – as músicas que eu gritava. Você viu a partida quase inteira nos meus braços, às vezes com algum respiro para ficar com a mamãe ou com o padrinho.

O AMIGO. Não mais do que mil palmeirenses tiveram o privilégio de ir a São Januário. Foi o tanto de lugares que o Vasco colocou à nossa disposição. Mas, você poderá ver nas imagens, havia gente de verde também do outro lado da grade, junto dos cruz-maltinos, e eles puderam festejar, mesmo que aquilo significasse deixar os donos da casa ameaçados de cair para a segunda divisão. Foi, eu te digo, um tanto constrangedor comemorar o título em meio ao ocaso do nosso maior aliado, mas a amizade mostrou-se forte, como de costume, a ponto de superar eventuais ressentimentos.

O RIVAL. O Flamengo foi o perseguidor mais implacável durante a reta final do campeonato. É bem verdade que o alviverde chegou ao Rio de Janeiro para a rodada com cinco pontos de vantagem e precisando de apenas uma vitória – ou dois empates ou um tropeço do Flamengo – para assegurar o título, mas nunca se pode menosprezar um rival desse tamanho. Internacional e São Paulo, os outros dois que chegaram a sonhar com o título, já estavam matematicamente fora da disputa, e só restava um obstáculo até o decacampeonato.

O SUSTO. O empate de 0 a 0 persistiu em São Januário durante mais de setenta minutos. Em compensação, o Flamengo passou fácil pelo Cruzeiro. Por todo esse tempo, a vantagem caiu para três pontos – e poderia diminuir mais ainda, caso o Vasco abrisse o placar. Parece um cenário catastrófico diante da nossa vantagem ao final do certame, mas você bem sabe como o palmeirense se tornou um sujeito desconfiado. Os gols flamenguistas foram recebidos como mau agouro e nosso desejo era poder resolver a parada o quanto antes, evitando o risco de uma surpresa na última rodada.

O GOL. Foi só aos 26 minutos da etapa final, filho. E você chorou, como de costume. Sim, porque você se assustava com a explosão repentina, com a gritaria, com as feições transtornadas. Depois de um tempo, quero crer, você entendia não estar diante de uma ameaça e, vendo a felicidade de todos ao seu redor, sorria junto. Mas, seja lá a que altura da vida você estiver lendo esta carta, saiba que ainda vai chorar muitas e muitas vezes depois de gols do Palmeiras – ou, pior, contra ele.

O GRITO. Você participou de toda a comemoração pendurado no ombro do papai, “de cavalinho”. A ansiedade dos últimos minutos, depois segundos. O sinal da cruz meio desesperado para afastar qualquer cruzamento para a área. O olhar que fica metade do tempo no gramado e a outra metade torcendo para o relógio correr mais rápido. De repente, o apito final. A correria dentro e fora de campo. Abraços apertados, uns chorando, outros ajoelhados nos amplos degraus da arquibancada de São Januário. É campeão! Você sorri, pula e passa de colo em colo. É campeão! Você não entende direito o que acontece, mas passaria os dias seguintes balbuciando um delicioso “É campeão!”, com direito a uma conjugação verbal bem prolongada.

A ESBÓRNIA. Seu padrinho ainda não havia tomado tudo a que tinha direito, mas foi um dos mais incisivos na provocação aos funcionários da loja do Flamengo, quase no acesso à sala de embarque do Aeroporto Santos Dumont. Já dentro, nos encontrávamos aos gritos, pulando entre portões, guichês, lojas e quiosques. Músicas de exaltação foram entoadas – assim como provocações ao vice-campeão. A atendente de uma franquia de batatas assadas ameaçou chamar os seguranças. Mais palestrinos chegaram para se juntar à festa, deixando pequenas fortunas por uma cerveja gelada. Azar dos comissários de bordo, que tiveram de trabalhar em dobro para conter os ânimos durante a hora seguinte, nos ares.

O ÍDOLO. Chegamos com certa folga ao Santos Dumont e nos dirigimos ao portão de embarque. Sentamos em uma mesa e eu fui comprar algo para você comer. De repente, um homem passou por mim, tentando não se fazer notar, e sentou-se perto. Parei e olhei com atenção, custando a acreditar. Sim, era Luiz Felipe Scolari, o ídolo da Libertadores e de duas Copas do Brasil, o técnico que tinha acabado de nos levar a mais um título nacional. Eu não sou de pedir autógrafo ou foto, mas ali era uma exceção. Tentando não despertar a atenção de mais ninguém – pois ele claramente queria se manter incógnito –, pedi duas coisas: desculpas pelo incômodo e uma foto dele com você. “Que menino bonito”, disse ele. E então, recém-campeão brasileiro, encostou a testa na sua.

Vivemos tudo isso, filho, no ano que foi um marco para o início de um período tenebroso na história de um país que bafejava intolerância – e fazia isso quase orgulhoso de professar o ódio a tudo e a todos. Mas, ao menos por um domingo ensolarado, pudemos nos amar, gritar “É campeão!” e sorrir, sem pensar em mais nada.


Trecho do livro Forasteiros – Crônicas, Vivências e Reflexões de um Torcedor Visitante, a ser lançado neste mês pela editora Grande Área.