poesia

A cerejeira na calçada

o tronco não reage / nenhum sinal de folha

Alberto Martins
ILUSTRAÇÃO: CAIO BORGES_2019

morto
quase morto
o tronco não reage
nenhum sinal de folha
verde se mostra
nem mesmo quando
abro o canivete
raspo a casca seca
e a espremo feito
um tubo de tinta
vazio

*

do outro lado
da rua a cerejeira
na calçada
não me dizia muita
coisa até duas
semanas atrás

não era sequer
um parente distante
com quem se fala
ao telefone
uma vez por ano

era só um espantalho
plantado em frente
de casa ao qual
ninguém dava
atenção

*

mas um inseto
um inseto sendo
da mesma natureza
de uma árvore
num dia esquisito
de inverno
voejou ao redor
daquele tronco
que lembrava uma
pedra morta

*

isso aconteceu no
ano em que sentimos
as cabeças pesadas
com as bolsas de ar
envenenado que
enfermeiros perversos
amarraram ao nosso
pescoço enquanto
dormíamos e a
cerejeira era só um
rabisco esquecido
na calçada

*

súbito o inseto
atraído por aquele
quê invisível
que constitui a mola
secreta dos insetos
tentando por
todas as frestas
espreitar o milagre
que estava a ponto
de rebentar
ouviu o rumor de
milhares de gotas
de gomos de favos
misturados
e deu o alarme

*

poucas vezes
pensei naquela
árvore espremida
entre o muro e
a guia da sarjeta
à mercê dos
para-lamas
dos carros do
mijo dos
cachorros tão
mergulhado eu
andava aqueles
dias ouvindo
em looping as
canções de Boris
& Seus Problemas
Pessoais que
passou
uma eternidade
antes que
pudesse ouvir
os chamados

*

isso aconteceu
no ano em que G
completou 60 anos
nem festa fizemos
porque não havia
clima para festas os
incêndios limavam
o continente nas
fronteiras com a
Bolívia no interior do
Pará Rondônia Mato
Grosso as florestas
eram dizimadas
com risinhos
nervosos dentro
das gavetas

*

até que
vindas não
sei de onde
minúsculas
jataís fugindo
de lugares
mais secos
da cidade
rodearam a
ponta dos
galhos
daquela árvore
e da noite
para o dia eles
começaram a
romper de furo
em furo até
as flores
saltarem
diretamente
do tronco
para o ar
sem o verde
intermediário
das folhas e
a cerejeira do
outro lado da rua
se converteu
numa bruma de
algodão rosa numa roda
de algodão doce numa poça
de rosas pálidos roxos carmins
rosnando na calçada
de frente para mim

*

na esquina duas
makitas rasgavam o
asfalto passavam
um feixe de cabos
de fibra ótica para
ligar quem sabe
a rua de casa a um
recém-descoberto
buraco negro

*

abri o portão
atravessei a rua e
debaixo da
sombra rendada
da cerejeira ao
encostar minha cara
no tronco quase
deu pra ouvir
o ronco invejoso
da primavera

e

de repente de
baixo até em
cima uma alegria
nas narinas vi que tudo
ao meu redor era flor
flor de flor
em flor florada
exibindo à luz
o nada da sua cor
que é todo o rosa
do mundo

*

isso aconteceu no
ano em que as sereias
das ambulâncias
ganiam
morrer
morrer
……

Alberto Martins

Escritor e artista plástico, é autor Em Trânsito, pela Companhia das Letras, e das novelas A História dos Ossos, Lívia e o Cemitério

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