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Chapados anônimos

Os ex-maconheiros da Califórnia

Fernanda Ezabella
ANDRÉS SANDOVAL_2018

O americano Joemar Gonzalez, um engenheiro de hardware de 33 anos, começou a usar maconha aos 13. Era o que aliviava seus ataques de pânico e ansiedade. De seus 20 anos, pouco reteve: estava diariamente drogado. Ainda assim, fez faculdade e arranjou um emprego. E também traficou.

Certa vez, esqueceu por completo que seu pai estava doente. Só se lembrou da existência dele quando precisou levá-lo às pressas ao hospital. A negligência foi o fundo do poço de uma série de problemas como um quase divórcio e muitas contas não pagas. Era hora de procurar ajuda.

“Oi, eu sou Joemar Gonzalez e sou viciado em maconha”, disse para as seis pessoas sentadas em círculo, na salinha de um centro de ajuda em Hollywood, Los Angeles. Cada uma se apresentou e recebeu tímidas palmas. “Achava que era algum culto religioso esquisito”, ele diria mais tarde. “Com o tempo entendi a importância da comunidade, de que você não está sozinho.”

As reuniões do Marijuana Anonymous (MA) acontecem toda semana em 38 locais no sul da Califórnia. Fundada em 1989, a organização está presente em dez países (nenhum na América do Sul) e emprega o programa de doze passos de recuperação dos Alcoólicos Anônimos.

Gonzalez está sóbrio há quase três anos. Na noite de Halloween, ele liderou o encontro, segurando uma pasta cheia de instruções e panfletos. “Sou bem nerd, gosto de ter tudo impresso”, disse o engenheiro com cara de garoto bonachão, alto e acima do peso, de gorrinho, óculos e barba por fazer.

No auge do vício, Gonzalez fumava 3,5 gramas de maconha por dia. Como um baseado costuma conter de 0,3 a 0,7 grama da erva, ele fumava entre cinco a onze cigarros todo dia. Para ser mais preciso, explicou, usava um bong – um tipo de cachimbo com um compartimento para água ou outro líquido – no qual queimava e inalava 0,5 grama de uma só vez. Ao longo dos anos, estima ter gasto mais de 60 mil dólares (227 mil reais) com a droga.

“Você nunca se vê como um viciado. Eu sabia que tinha um problema, que estava fumando demais, mas achava que podia parar quando quisesse. Afinal, maconha não vicia, não é isso que todo mundo te joga na cara?”, contou Gonzalez. Segundo estudos do Instituto Nacional de Abuso de Drogas dos Estados Unidos, 9% dos usuários de maconha podem se tornar dependentes; se o hábito começar na adolescência, o índice sobe para 17%.

 

Gonzalez decidiu visitar a MA por insistência da namorada, que já era habituée. Nos últimos oito anos de uso, o californiano tremia muito e sentia frio o tempo todo. Nos vinte primeiros dias de abstinência, a tremedeira só piorou, vindo a passar totalmente meses depois. Depressão e ansiedade voltaram com tudo. Dormir virou um problema.

A namorada Laura, que pediu para não ter o sobrenome publicado, contou que estava sóbria há quase três anos. “Nove meses depois de parar de fumar, ainda me sentia meio chapada”, disse a fotógrafa de 35 anos, que conheceu Gonzalez quando os dois trabalhavam numa loja de vídeos pornô, catorze anos atrás.

Na reunião no dia de Halloween, Gonzalez pediu a um colega que selecionasse os temas da noite, listados num papel. “Medo” e “prazeres da sobriedade” foram os escolhidos. Cada um teve dois minutos para falar, cronometrados. “Tinha muito medo de ser eu mesmo. Não sabia quem eu era sem a maconha”, disse um dos presentes, “limpo há 392 dias”.

Uma mulher entre 30 e 40 anos, vestida com um jaleco de enfermeira, pulou sua vez. Disse que fumara de manhã. Quase chorando, pediu para conversar com alguém depois da reunião. O próximo era o mais velho da turma, um senhor de 80 anos vestido de preto, incluindo um cachecol (tratava-se de uma fantasia, conforme fez questão de esclarecer com uma plaquinha em seu peito).

Na sequência, chegou a hora de distribuir as fichas de sobriedade – peças coloridas parecidas com fichas de pôquer que sinalizam há quanto tempo cada um está limpo. Foram entregues por Staci B., de 37 anos, atualmente desempregada e sóbria há onze anos. Ela chamou pelo tempo: sóbrios há um mês, dois meses, entre seis e nove meses, um ano, dois anos ou mais. Apenas uma pessoa ganhou a fichinha roxa de boas-vindas.

“Minha primeira ficha está até hoje pendurada no retrovisor do carro. Dei para minha mãe a dos meus onze anos”, lembrou Staci. “Às vezes dou fichas antigas para quem está passando por um período difícil, como um incentivo.”

Staci fumou constantemente dos 15 aos 25 anos. Acendia ao acordar, ao dirigir, no trabalho, para tomar banho, passear e dormir. Quando resolveu parar, frequentou com uma amiga os Narcóticos Anônimos e também os Cocainômanos Anônimos. “Não era meu tipo de gente. Eles não paravam quietos, se mexiam, falavam… Os maconheiros são mais relaxados.”

Gonzalez ainda trabalha nos passos 8 e 9, nos quais é preciso enumerar as pessoas que o vício do ex-dependente prejudicou e, se possível, fazer reparações. Ele tentou pedir desculpas à mãe, sem sucesso. “Ela achou que eu estivesse botando a culpa nela”, disse.

 

A Califórnia foi o primeiro estado do país a legalizar a maconha medicinal, em 1996. O uso recreativo teve início este ano. Além de centenas de outdoors espalhados pelas ruas, Los Angeles tem 169 lojas credenciadas para vender a droga – e outras dezenas que operam ilegalmente – para qualquer adulto com mais de 21 anos.

Staci e Gonzalez consideram que ainda é muito cedo para aferir o impacto que a legalização pode causar nos encontros da MA. Porém, o aumento da potência da erva e as novas parafernálias para usá-la preocupam, já que há pouca divulgação sobre as consequências do abuso.

“Nem todo mundo que bebe é alcoólatra, nem todo mundo que fuma é viciado. Agora, para quem tem problema, a legalização não ajuda”, acredita Staci. “Eles entregam em casa! Se fumasse hoje, estaria perdida.” Em seguida riu, lembrando-se dos anúncios da erva. Num deles, da rede de lojas MedMen, aparece a foto de um sujeito com a palavra “maconheiro” riscada e substituída pela profissão do indivíduo retratado – atleta, policial ou enfermeiro.

Fernanda Ezabella

Fernanda Ezabella, jornalista, é correspondente da Folha de S.Paulo em Los Angeles

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