carta do líbano

A cidade sem janelas

Em poucos meses, entre Belém e Beirute, vivi uma vida inteira

Wafa’a Celine Halawi
Um homem recolhe cacos de vidro sobre o tapete de uma mesquita, no dia seguinte à explosão: “É como se uma fada tivesse ladrilhado Beirute inteira com pó de vidro”, descreve Halawi
Um homem recolhe cacos de vidro sobre o tapete de uma mesquita, no dia seguinte à explosão: “É como se uma fada tivesse ladrilhado Beirute inteira com pó de vidro”, descreve Halawi CREDITO: AZIZ TAHER_REUTERS

Tradução de Heloisa Jahn

A história começa depois da Segunda Guerra Mundial, quando uma jovem libanesa abandona seu país com dor no coração e vai para o Brasil. Na viagem, Emilie tenta superar as diferenças religiosas e encontrar a força para viver depois de muitas perdas. Ela procura um lugar seguro para chamar de lar. No mundo de hoje, essa história não soa exótica. Na verdade, é recorrente. Fala de um certo Oriente, onde acontecem tantas coisas, mas tantas coisas, que elas chegam a ser inacreditáveis.

Eu sou Wafa’a. Sou atriz. Emilie é o nome da personagem que interpreto num filme brasileiro, baseado no romance Relato de um Certo Oriente, do escritor Milton Hatoum. O filme é a razão pela qual visitei o Brasil pela primeira vez. Emilie é inspirada em várias mulheres e ganhou o nome da avó do autor, que, como tantos libaneses, emigrou para o Brasil na década de 1940. Deixou Beirute de navio, partindo do mesmo porto que, no último dia 4 de agosto, veio pelos ares.

 

25 DE FEVEREIRO, QUINTA-FEIRA_Cheguei a Belém do Pará. Era noite, como acontece tantas vezes quando as coisas estão prestes a se desvelar. Ernesto, o produtor, me levou “às docas”, onde tive meu primeiro encontro com as águas que fazem parte do delta do Amazonas*. Senti-me segura no Brasil. Emilie teve um encontro semelhante com o rio pela mão de Anastácia, a misteriosa xamã da Floresta Amazônica que lhe contou histórias sobre o Curupira, poderoso espírito que habitava as matas. Foi um encontro tocante: com suavidade, apontou para uma humanidade que não desaparecera. E embora não haja necessidade de palavras para sentir essas coisas, Emilie não entendia português. De modo que eu, a atriz destinada a lhe dar vida, resolvi aprender o idioma.



 

18 DE MARÇO, QUARTA-FEIRA_Com o surto do coronavírus já instalado no Brasil, a filmagem foi interrompida. O Aeroporto de Beirute estava fechado. Por um momento, nossas esperanças também estão interrompidas. Se pelo menos eu soubesse, já então, que o mundo iria mudar. Que mais uma vez eu teria de esperar, adiar e sepultar dentro de mim todo o desejo de viver, e me limitar a pensar, de novo, sobre como fazer para sobreviver. Nunca me senti tão intensamente livre quanto no Brasil. Eu não era libanesa, nem muçulmana, nem uma mulher numa sociedade patriarcal. Era livre. Mas a liberdade, como a felicidade, é sempre fugidia.

Um longo abraço apertado de Marcelo, o diretor do filme. Meu último abraço antes do coronavírus. E muitas lágrimas. Zak, meu irmãozinho no filme, fica retido no Brasil e não consegue voltar a Beirute para ver sua mãe antes que ela se vá. Charby, meu marido no filme, voa para Paris. Eu não sei bem para onde ir. É a eterna questão: e agora, onde é “lar”? Estou no Rio de Janeiro, que sempre quis conhecer. Mas será que uma cidade continua sendo a mesma sem sua gente?

A conta que me esperava era a seguinte: seis dias num Rio de Janeiro desorientado, quinze dias numa Paris em confinamento, um colapso, dois voos de emergência, três exames PCRs e, finalmente, estou de volta a Beirute. Segue-se a rotina de confinamento, desconfinamento, reconfinamento. A vida então começa a voltar ao normal e, enfim, posso estudar português. Para Emilie.

Conheço Natalie, a mulher brasileira do músico que se apresenta com Naima, a bailarina de dança do ventre de origem libanesa de São Paulo. Naima também é a melhor amiga da irmã de Pierre, o cinegrafista do nosso filme. Isso é tipicamente Líbano, onde de algum modo todo mundo se conecta. Seja como for, com o coronavírus o mundo inteiro parece menor.

 

18 DE MAIO, SEGUNDA-FEIRA_É meu aniversário corona. Charby, meu marido na ficção, virou um amigo de verdade e uma testemunha de meus pensamentos silenciados. O aniversário dele foi alguns dias antes do meu. Somos Touro e somos ambos altamente nostálgicos.

Charby me escreve:

Cá estou eu, sentado, ouvindo Velha Infância, a primeira canção que Zaatar [é como chamávamos nosso primeiro instrutor de português no Brasil] nos mandou. De repente, a música me transporta para o começo do confinamento. A fuga do Brasil, quando a gente achava que voltaria em três semanas… Mas cá estamos nós, meses depois… Com o fim do confinamento em Paris, torno a sair, vivo outra coisa. Você prepara suas cenas para Istambul, e não demora Zak estará de volta. Vai visitar o túmulo da mãe. Vai ver como se sente numa casa sem mãe.

A gente fala de férias no Líbano, fala de outros projetos e recebe um contrato que dá um frio na espinha. Um monte de imagens desaba por cima de mim. Lembranças, nossos intervalos na beira da piscina, excursões ao shopping, cafés da manhã no restaurante, as paredes azul-claras do seu quarto, os afrescos do meu, seus skypes com Pardan [é como Charby chamava meu namorado] e as loz akhdar [amêndoas frescas] à minha espera e que não cheguei a receber. E mais Mounir [Maasri, ator do filme e conselheiro querido] e sua camiseta onde se lia “Bahrein”, e Estrela [a alegre preparadora de elenco e o maior amparo], nossa angústia e principalmente seus primeiros dias de filmagem.

Quero guardar tudo isso na cabeça e no coração. Sua felicidade toda vez que voltava de cada um daqueles três dias. E digo para mim mesmo que vamos ter outros dias assim. Seremos diferentes, estaremos mais velhos. Já tivemos seu aniversário – e o meu!

É isso, velha infância.

Vamos pegar minhas botas, passear com minha capa de chuva laranja, comer pizza, rir de você, que sempre rouba a cena, mesmo sem querer. Vamos nadar no Amazonas, comer peixe, visitar o Rio, abraçar as pessoas que gostam de nós e chupar manga embaixo de uma mangueira em contra-plongée, em primeiro plano e em preto e branco.

Enquanto isso, desejo que você tenha meses muito coloridos.

Eu respondo:

Era a primeira vez que eu andava por cidades assim vazias. Vemos meios rostos, respiramos pela metade, dizemos meias palavras no dobro do volume e mal vivemos, isso se sobrevivemos. Charby, tudo isso é o oposto do que vivemos, é muita reserva, muita inibição. Venha e dançamos em português. Não quero mais respirar menos e não aguento mais esse contato plástico. Quero que o sol continue acariciando minha pele. Que qualquer um me acaricie simplesmente por podermos oferecer um pouco de ternura sem sentir medo. É essa a vida que quero, Charby, mergulhada nas dobras das nossas memórias, como um sonho que sonhamos juntos e que vai voltar, eu sei. Mas quando? E quanto teremos mudado até lá? Se o mundo muda, nós também vamos mudar, certo? Mesmo que neste momento eu sinta a vida um tanto atemporal. Sabe que dia é hoje, Charby? E sabe há quantos dias estou aqui? Há quantos dias saímos do Brasil? Não sinto os dias. O que você sente, em seu apartamento de Paris roubando alguns minutos de sol? Suas fotos são lindas. O sol lhe faz bem.

Quando vivemos situações como essa, nos perguntamos por que a gente se atormentava daquele jeito por bobagens. Como na guerra. Quando se está no modo sobrevivência, nos damos conta das coisas de que não temos necessidade. Mas por quanto tempo podemos sobreviver no modo sobrevivência? Sinto falta de ter vontades.

Como em Belém. E essas lágrimas que escorrem hoje e revisitam meus 38 anos… 38 velas, nenhum amigo, assim como você, frutos do mar como você. Um sobrinho. Um bolo. De chocolate, e a faca virada. Sabe o que eu queria?

 

28 DE JUNHO, DOMINGO_Ruptura. Até o coração explode quando não está livre.

 

4 DE AGOSTO, TERÇA-FEIRA_Bairro de Achrafieh, Beirute. Minha sétima aula de português. Converso com Natalie sobre a comida em Belém, a casquinha de siri, o arroz paraense com o jambu anestesiante… Marcelo gosta de comparar aquela sensação formigante com o champanhe, e mais as caipirinhas na festa da produção, a água de coco fresca de todos os dias, o açaí proibido que envenenou Charby e… De repente, ouço barulhos fortes. Aviões. Vou até a sacada. O ruído fica mais forte. São aviões militares. Tenho certeza, conheço esses aviões do tempo da guerra. E estão muito perto. Quando volto para dentro, uma primeira explosão. O vidro cai bem no lugar onde eu estava antes. Natalie segura minha mão e me puxa para dentro, me afasta da sacada. “O que é isso?” Ela nunca viveu nada semelhante, nunca viveu uma guerra. Outra explosão mais forte, mais violenta, que nos joga para dentro. Um momento que parece a eternidade. Não há ruído algum. Que estranho efeito de memória, que todas as explosões tenham perdido a trilha sonora… Os olhos aterrorizados de Natalie olham para os meus, seu cabelo voando, coisas caindo em torno de nós, pó. E o vidro. E mais vidro, vidro por toda parte. Não sei por quanto tempo ficamos ali. Não havia tempo, não havia espaço, nada em que pudéssemos nos agarrar para entender, não tínhamos como chegar até nossos telefones. O coronavírus já não existe, nessas dobras de tempo em que a primeira coisa que somos, que precisamos ser, é humanos. Nos abraçamos com força, tremendo, perdidas… Senti o abraço de Marcelo, senti o de Anastácia, senti todo o calor que não tive como expressar fisicamente ao longo de todo aquele tempo por causa do vírus. Senti a que ponto somos vulneráveis. E me senti grata. Por estar viva. Por não estar sozinha.

“Por favor, me diga que está bem…”

Quantas vezes temos de perguntar, temendo o pior e esperando o melhor? Quantos desafios temos que enfrentar, antes de encontrar nossa vontade de viver, antes de desfrutar de alguns momentos de paz sem precisar sobreviver? Quantas vezes temos a coragem de lamentar, de chorar, quando é por nós mesmos que choramos? Quantas vezes nos curamos e domamos o medo, a raiva, a tristeza, sem deixar que esses sentimentos nos dominem? Quantas vezes ousamos ter fé, ousamos crer? Quantas vezes ouvimos nossos filhos gritarem “Mamãe, não quero morrer”? Mila perguntou para a mãe se aquilo eram os dinossauros… E olha que nem eram os nossos políticos, os tais assentados nas mesmas velhas cadeiras para todo o sempre. Mas, já que estamos nisso, com uma revolução, uma crise econômica, uma inflação enlouquecida, uma crise política, uma pandemia e uma bomba que destrói nossa cidade, eu não me surpreenderia se avistasse um dinossauro em Beirute.

“Fique dentro de casa, o gás da explosão é tóxico!”

Olho ao redor. Não há “dentro de casa”…

Ando por Beirute, a cidade fantasma. Entulho por toda parte, o cheiro pútrido de sangue estagnado. Cheiro de fumaça. Edifícios rotos, membros rotos. Acima de tudo, almas rotas. Nunca vivi uma coisa assim. Nunca vi Beirute desse jeito, em nenhuma explosão, nenhuma revolução, nenhuma guerra. Não sei se é um jeito que minha mente encontrou para se proteger da realidade, mas minha cidade, meu lar, parece um cenário de um filme dantesco, sem exagero, sem efeitos especiais, sem filtros. É um apocalipse. E só o que se vê é vidro. Estilhaçado, como minha memória vacilante. Quem anda por Beirute vê uma cidade sem janelas, sem portas, sem delimitações. Todas as divisões sumiram. Uma tapeçaria cintilante de vidro estilhaçado na escuridão da noite recobre as ruas, como se uma fada tivesse ladrilhado Beirute inteira com pó de vidro. Não consegui deixar de pensar em como, apesar de tudo, o efeito parece mágico, e que talvez, só talvez, ele tornasse tudo um pouquinho o.k.

Mas nada está o.k.

Charby, você se lembra de quando nosso maior problema era o coronavírus? Em uns poucos meses os libaneses viveram mais coisas do que uma vida inteira pode conter. Eu vivi mais coisas do que tudo o que uma vida inteira pode conter, a tal ponto que se um dia eu tiver que voltar a contar essa história tenho a sensação de que ninguém vai acreditar.

 

9 DE AGOSTO, DOMINGO_Estava na hora de trocar Beirute por Istambul, por outro país, outro papel para interpretar. Estou realmente trocando um lugar pelo outro quando não há nada a deixar para trás? Em Istambul, no carro que me leva ao hotel, pela primeira vez desde a explosão não sinto pânico de morrer. Não me sinto ameaçada por todo som, toda porta que bate, toda vidraça, até mesmo por toda porta de carro sendo aberta e me levando outra vez para a ameaça dos carros-bomba. Sinto-me culpada por estar aqui, em segurança, estou triste por deixar minha família, meus amigos desabrigados, de luto. E choro. Choro horas a fio no chão do meu quarto de hotel em Istambul. Eu deveria estar em Beirute, deveria estar varrendo o chão de Gemmayze, deveria estar distribuindo mais roupas, mais comida… Parece tão absurdo que com tudo acontecendo eu precise estar fora “só” para atuar.

Nesse momento me dei conta de que todos nós temos um papel a interpretar. É esse o papel dos que sobrevivem. Alguém precisa ficar para contar a história. Talvez seja essa a razão pela qual sou atriz. Porque uma vida inteira não bastaria para minhas emoções. Um filme não bastaria para minha história. Porque atuar também é curar. É uma experiência de humildade em termos de humanidade. Uma experiência que nos obriga a ir a todos os lugares escuros e a perdoar. Estrela, nossa preparadora de elenco no Brasil, dizia que só exageramos na atuação quando não acreditamos em nossa própria humanidade. Não tenho outra saída senão acreditar nela. Porque nada mais é muito, nenhum sentimento é exagerado. E se para Antonioni as mulheres são filtros mais sutis da realidade, então o que dizer das atrizes?

Por Laila, que percorria as ruas de Beirute; por Manal, que lá se apaixonou; por Naila, a amável prostituta que se preocupava com as crianças abandonadas da cidade; por Lília, a noviça que orava por um amanhã melhor; por Nour, a musa que curava seus homens; por Maria, a garçonete que os confortava; por Ella, que queria se tornar mulher; por Amal e sua esperança inquebrantável; por Rana, que lutava pelos direitos das mulheres; por Hanna e seu desejo de encontrar o irmão “desaparecido”; até mesmo por Tamara, que partiu, pela paixão de Astir; por Salam; por todas as mulheres libanesas que tive o privilégio de encarnar, continuarei a sentir, a contar histórias de Beirute, de uma humanidade que pertence a todos nós. E acima de tudo, agora, por Emilie. E por seu filho.

Derrubem as paredes, tanto as feitas de vidro como as feitas de aço.

É por isso que voltarei ao Brasil e voltarei a contar esta história. Porque acredito que o cinema continua sendo uma das ferramentas mais poderosas, mais pacíficas para tocar as pessoas. E porque esta história fala de um certo Oriente com que sempre sonhei, um Oriente onde você não se limita a sobreviver, mas onde vive, onde está vivo e se sente intransigentemente, irrevogavelmente livre.

De agora em diante, toda vez que eu olhar para Beirute, é isso que verei.

*

Nota: Corrigido em relação à versão impressa, no trecho em que se lê “onde tive meu primeiro encontro com o indômito Rio Amazonas”. Belém não é banhada pelo Amazonas, apenas pelas águas do seu delta.

Wafa’a Celine Halawi

É atriz e diretora de cinema libanesa

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