poesia

Cinco poemas

José Almino 
ILUSTRAÇÃO: AMILCAR DE CASTRO_SEM TÍTULO, 1992_MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA_MAC PR_LICENCIADO POR INARTS.COM

OUTRO DIA

A luz era variável e branda,
sem tirar nem pôr.
E o rio corria lento atrás das casas,
só faltava falar.

Sem tirar nem pôr.

Cedinho, as costureiras,
gente tão mansa e afável,
passavam,
entristeciam a alva em surpresa.

E a poesia era desnecessária.

O QUE FAZER?

catando lixo pelas beiradas
da vida
encardida
que passeia pelo acanhado das ruas
puída como o riscadinho da camisa
gasta como solas do sapato
afogada nos suores do dia
em rumo incerto, cambaio
indigitado,
ao desamparo:
o sem-espanto.

[Soy este
que va a mi lado sin yo verlo;
que, a veces, voy a ver,
y que, a veces, olvido
. [1]]

Cheiro de maré, cheiro da maré,
Espessa, carniça espessa                                                                                                                                                La Charogne [2]

Bajo la lluvia, bajo el olor, bajo todo lo que es una realidad [3]

o cheiro da maré enchia a tarde
em campo vasto, inculto:
ócio da miséria
e a luz era um clarim
como as vogais do nome Apollinaire.

Comme la vie est lente
Et comme l’Espérance est violente

NADA NÃO

Se eu tivesse ficado em casa,
traria nos olhos, fixado em moldura
o meu quintal,
onde as palavras dormiam
e só o mundo era inquieto.

Viveria ao sopro do afeto
ou de ódios antigos
em meio aos deuses e a uma eterna paciência.

Não haveria mais cedo nem mais tarde
e o futuro não me seria arrebatado.

Encouraçado e cozido dentro da pele
em agulha e fio firme, um nó cego,
um baque n’água,
que ninguém ouve
ou jamais ouviu
ou ouvirá.

MESTRE, SÃO PLÁCIDAS TODAS AS HORAS QUE NÓS PERDEMOS [4]

O nada, o perene, o renitente

são varridos
por tudo
que alegra e apequena,
a nós, poetas de hoje em dia,
do dia a dia,
simpáticos e comuns
a coletar modestos inventários

na rudeza duma austera, apagada e vil tristeza. [5]

De súbito,
em um piscar de olhos,
uma camisa nova,
um ato falho,um golpe de brisa.
Há o quê? Vá saber o quê.
Quem sabe?

CRESCES COMO TODOS OS ESQUECIDOS [6]

Cresces como todos os esquecidos
e os dentes da manhã
e a névoa nos olhos do cão.

Por que não amadureceste,
não te fizeste mais sábio
e mais feliz?

Realmente povo,
tal como a gente gritava.


[1] Juan Ramón Jiménez.

[2] Baudelaire.

[3] Virgilio Piñera.

[4] Fernando Pessoa.

[5] Camões.

[6] Paul Celan.

José Almino 

É sociólogo, poeta e pesquisador da Casa de Rui Barbosa. Publicou A Estrela Fria, pela Companhia das Letras

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