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    Girardi (esq.), a técnica de som Juliana Baratieri e Sidnei Casagrande, ex-presidente de uma associação comunitária: à beira do Rio Carvão, onde havia um lavador de rejeitos do minério CRÉDITO: JULIANA BARATIERI_2021

diário

Cinzas que queimam

A exploração de carvão está com os dias contados – mas o Brasil não quer saber disso

Giovana Girardi | Edição 189, Junho 2022

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Há pouco mais de um ano, a jornalista GIOVANA GIRARDI, de 45 anos, mergulhou em uma investigação sobre as forças político-econômicas que estão atrasando o Brasil no combate às mudanças climáticas. Suas reportagens, realizadas em diferentes partes do país, serão apresentadas no podcast Tempo Quente, produzido pela Rádio Novelo, em oito episódios. A estreia acontece no dia 7 de junho em todas as plataformas de podcast. Neste diário, Girardi conta detalhes da apuração do primeiro episódio, que trata da extração e queima de carvão mineral em uma termelétrica em Santa Catarina. Combustível jurado de morte no mundo todo, por ser um dos principais responsáveis pelo aquecimento global, o carvão tem ganhado no Brasil constantes incentivos do governo federal e estímulos do estado e das prefeituras. Apesar de ter participação minoritária no consumo de energia elétrica do país, o carvão é a base da economia do Sul catarinense, o que coloca as forças políticas em um dilema, já que elas parecem incapazes de encontrar – ou não têm vontade de encontrar – um modo de abandonar essa exploração que está com os dias contados.

 

25 DE OUTUBRO DE 2021, SEGUNDA-FEIRA_Embarquei à tarde em São Paulo, rumo a Florianópolis, com algumas das principais entrevistas que eu queria fazer já agendadas: com o diretor do sindicato dos mineiros, o prefeito da cidade de Capivari de Baixo e o principal lobista do carvão. Todos eles, já sabia eu, são defensores ardorosos da exploração do minério na região de Criciúma.

Eu ainda precisava encontrar gente que se posicionasse de modo crítico a respeito da exploração e do uso do carvão, mas já tinha sido alertada de que seria difícil. “A região é dependente do carvão e ninguém por lá vai falar mal, mesmo que ache tudo isso errado”, me disse uma fonte. Ninguém com essa posição crítica tinha topado conversar comigo. No avião eu estava preocupada: será que só conseguiria contar um lado da história?

Criciúma e seu entorno formam a chamada Região Metropolitana Carbonífera de Santa Catarina, com algumas dezenas de minas em exploração, abandonadas ou ainda por serem usadas. Quase todo o minério extraído ali é enviado para o Complexo Termelétrico Jorge Lacerda, a maior termelétrica a carvão mineral do país, em Capivari de Baixo.

 

26 DE OUTUBRO, TERÇA-FEIRA_Em Florianópolis, logo cedo fui ao encontro de Juliana Baratieri, técnica de som que me acompanharia na viagem, e pegamos a BR-101 rumo a Capivari de Baixo, a 137 km ao Sul da capital catarinense. Um pouco antes de chegar à cidade, quando placas já indicavam sua proximidade, a primeira coisa que vimos, surpreendentemente, foram dois aerogeradores de energia eólica.[1]

Achei graça do fato de que, na cidade que tem a maior emissão de co2 por área do Brasil (85 633 toneladas por km2) justamente por causa da usina termelétrica, a primeira imagem que se vê da estrada é de eólicas.

A surpresa durou pouco: logo que chegamos ao trevo de acesso à cidade, avistamos as finas e altas chaminés por onde sai a fumaça da queima do carvão na termelétrica.

Nosso primeiro compromisso foi entrevistar Luiz Antonio Barbosa, coordenador do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Energia Elétrica do Sul do Estado de Santa Catarina (Sintresc). Na fachada do sindicato, os dizeres de uma faixa com uma foto da usina deu o tom do que iríamos ouvir nos próximos dias: “O Complexo não pode parar.”

Barbosa contou que o anúncio, no fim de 2020, de que a Engie, a controladora do Complexo Termelétrico Jorge Lacerda, iria iniciar o descomissionamento da usina para desativá-la até 2025, em alinhamento com a decisão da sede da empresa na França de tirar o carvão de seu portfólio, pegou todo mundo de surpresa e causou desespero geral. “Foi um alvoroço na região, a partir dos mineiros, dos ferroviários, dos mineradores principalmente, que são os donos do negócio. Aí veio toda essa questão à tona. Até então estava tudo muito acomodado”, disse. “A casa ia cair.” Como o sindicato e praticamente todo mundo na cidade e na região carbonífera no entorno de Criciúma não têm plano b nem perspectiva de outras fontes de emprego, para eles o complexo realmente não pode parar.

Achei curioso Barbosa falar que somente após o anúncio da Engie a região começou a pensar que seria necessário considerar novas alternativas econômicas. Não é de hoje que se sabe que o carvão tem os dias contados. Pelo menos desde o Acordo de Paris – compromisso global assumido em 2015 por quase todos os países do mundo para reduzir as emissões de gases do efeito estufa –, sabe-se que o Brasil também tem que fazer sua parte. Ainda que a maior parte das emissões do país seja proveniente do desmatamento e da agropecuária, a energia se tornou um componente importante por causa das crises hídricas que têm reduzido a capacidade das hidrelétricas.

A parcela das usinas térmicas a carvão no total de emissões de gases do efeito estufa no Brasil é pequena – representa apenas 0,3%. Mas, por uma série de motivos, elas já poderiam começar a ser desativadas. Para os defensores do fim do carvão, é possível organizar o sistema energético do país sem recorrer a essa fonte. Além de ser a fonte mais suja que existe, o carvão existente no Brasil é de baixa qualidade.

Mais tarde consegui conversar, por telefone, com a primeira pessoa que poderia oferecer outro olhar sobre a questão, o pesquisador Carlyle Torres, da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc), que estuda os impactos da exploração do carvão na região. Segundo ele, 70% do que é extraído na região é rejeito e, dos 30% que são de fato carvão, 42% são cinzas. Seu uso só se mantém por causa do forte subsídio dado pelo governo federal. A parte da extração realmente usada para gerar energia fica em cerca de 20%, apenas. “É estúpido. Só se explica pelos interesses dos coronéis do carvão”, disse ele.

Barbosa sabe que a exploração do carvão não vai continuar por muito tempo. “Ser olhado como o patinho feio da energia é ruim. Sempre foi preocupante pra nós o futuro com toda a pressão ambiental internacional.” Mas, como sindicalista, ele está preocupado com os empregos. E cobra que o governo ofereça saídas para a população. “Empresário consciente é meio que raro, né? Eu não acredito que eles tenham uma preocupação. Ela veio mais à tona agora com a possibilidade de acabar o negócio deles. Mas é uma atividade econômica, e eles pensam: ‘Eu não tenho obrigação de pensar alternativas, não vou pensar, porque tudo que eu pensar vai me custar dinheiro e não estou a fim.’”

Logo percebemos que a tendência local vai ser esticar a corda e continuar usando o carvão até quando der. Há diversos relatórios internacionais, como os do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), da ONU, que recomendam que a queima de combustíveis já deveria estar sendo reduzida. No caso do carvão, a diminuição deve ser de 95% até 2050. Há também certo consenso de que o mundo deve alcançar até a metade deste século a chamada net zero, ou neutralidade de carbono (em que toda emissão de gases do efeito estufa que ainda estiver ocorrendo seja compensada de alguma forma).

Na região de Capivari de Baixo, porém, a data de 2050 parece ser encarada como o prazo que as pessoas têm para continuar recorrendo ao minério. “Nós temos um horizonte aí para trabalhar, nesse contexto; 2050 é o horizonte máximo, que é o compromisso de acabar com a emissão do co2 por térmicas, né?”, disse Barbosa.

Argumentei que não dava para acabar com o carvão só em 2049. Ele, então, lançou mão de uma série de argumentos que, logo eu descobriria, eram citados em uníssono na região: o de que o setor emprega direta e indiretamente cerca de 20 mil pessoas e que a economia local quebraria sem o carvão; que a fonte de energia é firme e o Brasil não pode abrir mão dela, como deixou clara a crise hídrica do ano passado; que projetos de captura e armazenamento de carbono (carbon capture, utilization and storage, CCUS, na sigla em inglês, considerados pela indústria carvoeira a tábua de salvação) ficarão prontos a tempo.

Barbosa usou outro argumento que é frequentemente repetido: o carvão degradou o ambiente, mas, se a indústria de carvão for extinta, esse estrago nunca vai ser resolvido. Ele até brincou com a situação: “Sem limão, não vai ter limonada.”

 

27 DE OUTUBRO, QUARTA-FEIRA_Pela manhã, fomos conversar com o prefeito de Capivari de Baixo, Vicente Corrêa Costa (PSL-SC). Médico pediatra, de 37 anos, novato na política, ele tem um estilo meio João Doria: é baixinho, usa roupas despojadas e sapatênis. É também simpático, sorridente, ponderado – até se revelar um negacionista. Ao final do seu primeiro ano de mandato, Costa recebeu a notícia bombástica de que o principal empregador da cidade, a Engie, planejava fechar as portas.

Logo no início da entrevista, ele disse que recebeu a notícia com apreensão, mas que sabia que o carvão está vivendo um momento de transição. “É conhecida por todos a transição da matriz energética por que o mundo está passando, e é evidente que isso está consolidado. É evidente que, no futuro próximo, não haverá mais a energia suja”, afirmou. “A cidade também vai viver isso, não tem como fugir. Estamos lutando é para que essa transição seja feita de uma maneira responsável.” Para ele, isso significa fazer a mudança de forma lenta. Do contrário, será “um desastre completo”.

Costa contou que 15% de toda a receita da cidade está diretamente relacionada à atividade da usina Jorge Lacerda e que 30% do PIB da região Sul de Santa Catarina depende do carvão. Às tantas, começou a contemporizar sobre os problemas. “A gente sabe que polui, que gera certa poluição, mas esse prejuízo ambiental que o complexo gera é muito baixo, e o prejuízo econômico-social seria catastrófico.”

Até que o prefeito deixou claro que, por ele, o carvão continuaria sendo explorado até o fim das reservas. “Por mim, queimaria por mais trezentos anos”, disse, com tanta empolgação que seus olhos azuis brilharam. Diante dos meus olhos arregalados, ele recalibrou o discurso com a boa e velha maquiagem verde. “Precisamos falar desses assuntos com impessoalidade, imparcialidade. É uma provocação saudável. Economia verde é o momento. É a política da cidade, estamos evoluindo muito, com vários incentivos em saneamento.”

Saneamento é muito importante, é verdade, mas e o plano para não depender tanto do carvão? Esse, por enquanto, vai ter de esperar. “Vamos estender o tapete vermelho para os novos empresários. Estamos muito felizes por ter um grupo que resolveu investir na nossa cidade. Temos muito orgulho do complexo, do carvão”, disse Costa, ao se referir aos empresários que compraram o Complexo Termelétrico Jorge Lacerda. Mais tarde seria feita a cerimônia oficial de passagem de bastão para os novos administradores.

Ao mesmo tempo que se definiu como “um homem da ciência”, o prefeito gabaritou o bingo do negacionismo, como bem notou minha colega Juliana. Duvidou dos impactos do aquecimento global, dizendo que não é consenso entre os cientistas, e, quando pressionado, culpou a China pelas emissões de gases, dizendo que o país nunca é cobrado por isso. Então foi um pulo para culpar o “globalismo”. “É curioso que se fala muito dessas questões. Eu creio que há um viés ideológico, socialista e globalista por trás disso. O Brasil está sendo literalmente prejudicado pelos interesses do globalismo.”

No momento em que deixávamos o escritório do prefeito, porém, ele colocou a mão no meu ombro e falou: “Voltem a Capivari, vamos acabar com o aquecimento global juntos.”

Algumas horas mais tarde ocorreu o tal momento do tapete vermelho, com a cerimônia de apresentação dos empresários que assumiram a Jorge Lacerda. Em um esforço que uniu o governo de Santa Catarina, a Assembleia Legislativa (com arranjos de um novo projeto de lei que cria incentivos para a cadeia do carvão) e a Associação Brasileira do Carvão Mineral (ABCM), a termelétrica foi vendida pela Engie por 325 milhões de reais para a ​​holding Fram Capital, que controla a Diamante Geração de Energia, a nova gestora da usina Jorge Lacerda.

A cerimônia aconteceu no auditório do bonito Parque Ambiental Encantos do Sul, onde antigamente eram depositados rejeitos de carvão da termelétrica. O local contíguo à usina foi recuperado pela Engie e é apresentado como um grande exemplo da capacidade do setor para cuidar dos seus problemas e de como o carvão propiciou para a cidade uma área verde e de lazer (mas onde o estacionamento é cobrado).

No evento, estavam o governador de Santa Catarina, Carlos Moisés (Republicanos), o deputado estadual Jair Miotto (União Brasil) – presidente da Comissão de Economia, Ciência, Tecnologia, Minas e Energia da Assembleia Legislativa –, o presidente da ABCM, Fernando Zancan, os empresários da Fram Capital e o presidente da Engie no Brasil, Eduardo Sattamini, fora a nata da produção carvoeira da região. Estavam todos ali para anunciar uma “transição justa, inclusiva, que envolva todas as fontes de energia”. Ou seja: sem abandonar o carvão.

Entre as muitas frases que expressavam orgulho, exaltação e também alívio, uma delas me chamou a atenção, dita por Zancan, o principal lobista do setor: “E falando da transição energética justa, outro dia me perguntaram o que é justa. Justa é não deixar ninguém pra trás. Justa é não destruir valor. Justa é fazer com que a gente olhe pra coisa mais importante que nós temos, que é o emprego.”

Quando ouvi Zancan falar em “não deixar ninguém pra trás”, me lembrei de uma pessoa que teve contato com ele há alguns anos, no Ministério de Minas e Energia. Essa pessoa me contou que Zancan era um dos lobistas mais inteligentes que ela conhecia, capaz de arrancar lágrimas dos ouvintes ao falar do risco de se perder empregos. A fala de Zancan em Capivari de Baixo não me fez chorar. Na verdade, soltei um sorrisinho, ao me lembrar da história contada por meu conhecido. Mas reconheci que o argumento do presidente da ABCM praticamente encerra qualquer discussão: o risco de gerar desemprego é o calcanhar de aquiles de todo governante.

 

28 DE OUTUBRO, QUINTA-FEIRA_Na terça e na quarta, ficamos focadas na ponta final da cadeia do carvão: a produção de energia na termelétrica. Hoje era o dia de ver onde tudo começa – uma das minas em que é feita a extração do carvão –, e verificar mais de perto alguns dos empregos que todo mundo quer tanto preservar. Saímos cedo de Capivari de Baixo em direção a Criciúma, a 72 km de distância, e depois fomos a Treviso, para visitar a Mina Mel, da Carbonífera Metropolitana.

Eu estava ansiosa para visitar essa mina – curiosidade científica mesmo, de ver de perto algo tão cercado de crítica e, conhecendo-a melhor, poder falar com mais propriedade sobre o assunto. Mas também estava um pouco tensa, por causa do histórico de acidentes de mineração em todo o mundo. Logo percebi que era bem normal me sentir daquele jeito.

Quem nos guiou até a Mel foi Lucas Jorge, assessor de imprensa do Sindicato da Indústria de Extração de Carvão do Estado de Santa Catarina (Siecesc). A primeira coisa que nos disse foi que gostava muito de levar jornalistas às minas para desmistificar a mineração. Pudera. O Brasil não é um país tradicionalmente ligado à indústria de carvão. Nunca fomos dependentes desse minério para gerar energia, como ocorre na Europa, nos Estados Unidos, na China ou na Índia. Tirando o Sul de Santa Catarina, quase ninguém vive do carvão no Brasil. “Muita gente nem sabe o que é carvão mineral [o combustível fóssil] e acha que se trata do carvão do churrasco”, disse Jorge. Não é de se espantar.

No caminho, enquanto ele tentava mostrar como o setor era sustentável, contando sobre áreas que tinham sido recuperadas, sobre como hoje a mineração é muito mais segura e limpa, sobre como tudo aquilo é importante para a região, me chamou a atenção um paredão enorme de montanhas que emoldurava a paisagem por quase todo o nosso trajeto na estrada. A região carbonífera se encontra ao pé da bela Serra do Rio do Rastro, onde fica Urubici, cidade conhecida por ser uma das poucas onde neva no Brasil. Mas o município-sede da serra é outro: Lauro Müller, que se autodenomina o “berço histórico do carvão mineral”.

No escritório da carbonífera, antes de entrarmos na mina, recebemos um minicurso sobre o que é o carvão, como é feita a exploração, quais são os cuidados que devemos tomar dentro da mina etc. Como era de se esperar, tínhamos sido levadas a uma mina-modelo, onde tudo funcionava com perfeição.

Na aulinha, perguntei se o carvão brasileiro é mesmo ruim. O engenheiro de minas Alfredo Febel reconheceu que sim, respondendo com uma frase que ele atribuiu a Aureliano Chaves, que foi governador de Minas Gerais, vice-presidente da República no governo João Figueiredo e ministro de Minas e Energia no governo José Sarney: “O carvão brasileiro é bom porque se paga em moeda nacional.”

Paramentadas com capacete, lanterna, macacão com faixas reflexivas, meião, galocha, máscara descartável e protetor auricular, partimos finalmente para a mina. Não sem antes ouvirmos uma frase espirituosa do bombeiro que nos acompanharia: “Aqui é mais legal que o parque do Beto Carrero porque lá tu paga e visita, mas aqui não é qualquer um que pode entrar. É um ambiente totalmente diferenciado.”

Nunca fui ao Beto Carrero World – em Penha, também em Santa Catarina –, mas já fui a alguns parques de diversão. “Mais legal” não seria exatamente a forma como eu descreveria a visita à mineradora. Mas certamente a experiência de “baixar mina”, como eles falam, foi importante para poder contar essa história.

A primeira impressão é de grandiosidade. A mina é larga, comprida, organizada em várias galerias, mas, como o teto é baixo, a apreensão não se dissipa quando entramos lá. Apesar disso, o local não chega a causar claustrofobia na entrada, parecida com a de uma caverna. Pegamos uma carreta que nos levou por algumas centenas de metros no interior da mina, onde estão as frentes de trabalho. Depois caminhamos. Como eu meço 1,54 metro, não precisei me abaixar durante o trajeto, mas as pessoas mais altas do grupo caminhavam, em alguns pontos, com o corpo levemente curvado.

A segunda sensação é de um pouco de frio. O sistema de exaustão para retirada de qualquer gás é constante, então dá para sentir o vento o tempo todo. O local também é muito úmido. A circulação de água é permanente, para evitar que fique suspensa no ar a perigosa poeira do carvão, que no passado matou muitos trabalhadores de pneumoconiose – doença pulmonar causada pela inalação de partículas de pó mineral e que, basicamente, transforma o pulmão em pedra. O chão, por esse motivo, é meio enlameado.

A terceira percepção foi o cheiro. Temi ser gás – até ser lembrada de que o metano, o gás que eventualmente poderia escapar dali, não tem cheiro. De todo modo, também lembraram que a ventilação permanente e o monitoramento dos níveis de gases estão ali justamente para evitar qualquer acúmulo. O cheiro constante, que lembra um pouco o enxofre misturado com umidade, deixando o ar pesado e provocando um pouco de dor de cabeça vem do carvão mesmo.

Aprendemos que a exploração de carvão atualmente ocorre basicamente por duas maneiras: com furação e detonação (em que se usam explosivos, como a dinamite); ou com corte do carvão, mecanicamente. A mina que visitamos se encaixa no segundo caso. A máquina – o minerador contínuo – é um monstrengo barulhento que vai comendo a rocha e jogando os pedregulhos em uma esteira, de onde o carvão será separado depois. Durante a operação, jorros de água são lançados sem parar, mas não impedem 100% a poeira, que faz os olhos arderem. A máscara branca que eu usava ficou coberta de um pó cinza-claro, meu bloquinho de anotações também. Do ponto de vista da engenharia, o que ocorre ali é uma operação realmente interessante (eu diria: brutal). Mas é impossível dissociá-la do que está sendo extraído ali. A pergunta que não saía da minha cabeça era: “Precisa fazer tanto estrago para gerar tão pouca energia?”

 

29 DE OUTUBRO, SEXTA-FEIRA_O último dia de viagem começou com uma conversa com o historiador Giovani Felipe, professor do Instituto Federal Catarinense, uma das raras pessoas de oposição no cenário pró-carvão de Criciúma e entorno. Mas nem sempre foi assim. Felipe, que hoje dedica parte do seu trabalho a trazer à tona os problemas da mineração, só atingiu essa consciência porque ele mesmo começou a vida adulta como mineiro.

Aos 18 anos, saiu de sua cidade natal, Imaruí, e foi para Criciúma, com o propósito de trabalhar na mineração. Para ele, parecia o emprego dos sonhos, com a possibilidade de se aposentar após quinze anos de labuta no subsolo, e ter o bônus de “um litro de leite por dia”. Não lhe ocorreu que o trabalho teria de ser muito insalubre para vir com esses benefícios.

Ele foi trabalhar como mecânico de subsolo na Mina Mel, a carbonífera que visitamos no dia anterior. Ficou lá por quatro anos, entre 2005 e 2009. Enquanto se questionava se “levava jeito” para aquele trabalho, viu amigos se acidentarem e morrerem. “Porque embaixo da mina tem a ideia de que o trabalhador, o mineiro, ele é heroico, bravo, aquele homem forte. Quando você lerdeia e não consegue desenvolver algumas atividades, você tem o bullying dos colegas”, contou Felipe. Ele continuou assim até o dia em que tomou um choque e quase morreu. Abandonou a profissão e resolveu se dedicar a entender todo aquele processo de mineração.

Na graduação de história, seu trabalho de conclusão do curso foi sobre acidentes nas minas de carvão de Santa Catarina, uma “história silenciada pela ideologia do progresso e pelos órgãos de comunicação regional”, como ele definiu. Depois, continuou a pesquisar esse tema no mestrado e, agora, no doutorado.

Felipe entende que existe um “negacionismo institucionalizado” na região a respeito do carvão – que constitui todo um imaginário social. “A cidade é estruturada para defender o carvão”, afirma. “As rádios e os jornais pertencem e são ligados à indústria do carvão. O prefeito é ligado à indústria do carvão. Os deputados são ligados à indústria do carvão. Então, a todo momento, as propagandas e os discursos são de sucesso, são de benefícios. E quem ousa falar o contrário?”

Após conversar com Felipe, fomos para a entrevista mais aguardada da viagem, com o gaúcho Fernando Zancan, com quem já tínhamos nos encontrado na quarta-feira, em Capivari de Baixo. Além de presidir a ABCM, ele é diretor executivo da Associação Beneficente da Indústria Carbonífera de Santa Catarina (Satc). A entidade mantém um centro educacional que vai do ensino infantil à pós-graduação – uma estrutura impressionante, moderna, com tecnologia avançada, onde o combustível fóssil é enaltecido. Na porta de cada sala, uma plaquinha com o número do local traz a mensagem: “Carvão mineral energia nacional.” Para lembrar bem quem está pagando tudo ali. Dentro do campus fica a sede do Siecesc, o sindicato da indústria do carvão, formado pelas seis principais carboníferas do estado, do qual Zancan é também um dos conselheiros.

Zancan é o principal lobista do carvão mineral no país. Atribui-se a ele boa parte das negociações que ajudaram, nos últimos anos, na manutenção dos subsídios para o setor. Seu nome é citado por todo mundo quando se fala dos esforços para dar sobrevida à exploração do carvão, desde as negociações no nível estadual às realizadas no federal.

Eu estava interessada em entender um pouco da história de Zancan, engenheiro de minas formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Aparentemente, ele não era de nenhuma família tradicional do carvão. O que o atraíra, então, a trabalhar com o combustível fóssil? “Sempre trabalhei com meio ambiente”, respondeu ele. Até achei que era ironia. Mas pelo jeito não era. A entrevista demorou a deslanchar, e Zancan se mostrou muito sério e pragmático. Por um momento, porém, ele se emocionou, quando me disse que vinha de uma família de cientistas, que uma irmã tinha sido presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Só então o associei à bioquímica Glaci Zancan, que morreu em 2007 e de quem eu me lembrava bem. Os olhos de Zancan se encheram de lágrimas ao me mostrar um porta-retratos com a foto da irmã, que cuidou dele na infância.

Passada a emoção, contou que, para ele, o carvão era um negócio como qualquer outro em que pudesse trabalhar. “Sou um executivo profissional. Estou extremamente feliz em ter contribuído durante 40, 41 anos, com a atividade carbonífera.”

Na conversa ficou claro que toda a esperança da região de que se desenvolva uma tecnologia capaz de reduzir as emissões de gás carbônico da queima do carvão tem origem em Zancan. A CCUS, ou seja, a captura, utilização e armazenamento de carbono, é a grande aposta para tornar a exploração do carvão sustentável. O plano implica interferir na última etapa da queima do carvão, capturando o co2 tão logo ele é emitido. É como se a chaminé fosse virada de cabeça para baixo, e o co2 fosse encaminhado para um reservatório, em vez de ir para a atmosfera.

Na Satc foi instalada uma planta-piloto, ainda em fase de testes, para fazer esse processo. É o xodó de Zancan, e por isso ele fez questão de mostrá-la em detalhes para nós. Durante as duas horas e trinta minutos da entrevista, o empresário passou boa parte do tempo defendendo que a tecnologia, já aventada há muitos anos em todo o mundo, agora vai deslanchar, finalmente.

Cuidadoso, ele falou pouco sobre como o lobby do carvão funciona, como atua junto ao governo federal. Mas se queixou dos reveses sofridos pelo setor em gestões anteriores. Disse que, com o governo Bolsonaro, a situação melhorou. “Pelo menos ele não é contra o carvão”, afirmou. Foi com o ministro Bento Albuquerque, da pasta de Minas e Energia,[2] que o setor conseguiu emplacar um programa de incentivo ao “uso sustentável do carvão mineral” no Brasil, com expectativa de investimentos de 20 bilhões de reais em dez anos para “modernizar” o setor, incluindo a instalação de novas usinas de carvão. “Quando Bolsonaro entrou, a gente mostrou isso, veio o ministro Bento aqui, ele apertou o botão pra rodar a planta-piloto, e voltou assim: ‘Bom, o carvão tem sentido’”, contou Zancan. Agora falta conseguir mais dinheiro para a pesquisa, o que ele está empenhado em obter.

Diante da minha insistência sobre a urgência imposta pelas mudanças climáticas versus o tempo necessário para que a tecnologia ganhe escala e se torne viável industrialmente, ele chegou a questionar algumas certezas da ciência sobre o problema, porém emendou: “Mas não vai dizer que o cara do carvão é negacionista, hein?” E voltou a esse ponto um pouco antes de nos despedirmos, ao falar em pragmatismo. “Na verdade, não importa o que eu penso sobre as mudanças climáticas. Existe uma pressão mundial pelo fim do carvão, então eu sei que a única chance que temos é se conseguirmos reduzir suas emissões.”

Foi somente no fim da entrevista, já um pouco mais relaxado depois de me mostrar todo o plano de salvar a indústria do carvão, que Zancan citou o lobby. “Aí o cara fala: ‘Ah, o cara é um lobista.’ Não, o cara não é um lobista, o meu trabalho é o de convencer as pessoas. O que eu estou fazendo contigo é um trabalho de lobby, estou te convencendo, não sei se vai te convencer ou não, mas estou fazendo isso aqui, posso estar certo ou errado, mas eu estou te mostrando, meu trabalho é mostrar, né?” E complementou, com certo orgulho, citando algo que ouviu uma vez do ex-governador de Santa Catarina Luiz Henrique Silveira (que comandou o estado entre 2003 e 2010): “Ele disse: ‘Zancan, eu sempre te achei um bom vendedor de peixe, mas agora eu sei que teu peixe é fresco.’”

Zancan é tão eficiente que consegue transformar carvão mineral – um combustível do passado, poluente e condenado à extinção – em peixe fresco. Eu não comprei esse peixe, mas o governo federal comprou. O estadual também.

Ao fim da entrevista, na faculdade onde tudo exalta o carvão, voltei a sentir que ainda faltava ver o outro lado dessa história. Mas chovia, era o início da tarde de uma sexta-feira e parecia que não daria para fazer mais nada. Foi quando piscou no meu celular uma mensagem que eu estava aguardando. O líder comunitário de uma região bastante afetada pela mineração havia concordado em nos ciceronear pelo entorno do Rio Carvão, na cidade de Urussanga, a cerca de 20 km de Criciúma.

Foi naquela região que, em 1984, ocorreu o pior acidente em uma mina de carvão do país. Uma explosão na Mina Santana matou 31 mineiros, em 10 de setembro. Faltara energia na véspera, os exaustores pararam de funcionar e o gás metano se acumulou. Os operários que chegaram para trabalhar no primeiro turno, às cinco da manhã, não tiveram nenhuma chance.

O nosso guia pela região foi Sidnei Casagrande, ex-presidente da Associação Comunitária do Bairro Rio Carvão. No entorno desse rio várias minas foram exploradas, como a de Santana, por décadas. De carro, seguimos pela estradinha de terra que margeia o rio, enquanto Casagrande nos contava sobre os problemas que afetam o lugar há décadas. Vimos áreas degradadas, cobertas de rejeitos de carvão – que mais parecem paisagens lunares, sem vida –, assim como as águas fluviais. Os moradores dizem que a cor amarelada do rio é por causa da pirita, um dos principais rejeitos.

Casagrande é pedreiro. Ele diz que nunca quis trabalhar com carvão por ter visto de perto, na sua família, os danos causados pela exploração do combustível. Seu pai, que foi mineiro, morreu aos 49 anos de pneumoconiose. Seus tios, também mineiros, tiveram outras doenças respiratórias. Ao longo da vida, ele viu toda a comunidade da região sofrer com a poluição do solo e do rio.

Antes de chegarmos às ruínas da Mina Santana, paramos em uma casa para pedir algumas informações. Casagrande conhecia o dono, mas não havia atentado para a história dele. Sem querer, tínhamos encontrado um parente de uma das vítimas da tragédia de 1984. Ézio Scarabelot, que trabalhou a vida inteira na mineração, perdeu o irmão Hedi Cesário Scarabelot naquele desastre. Para ele, a responsabilidade foi da carbonífera, que falhou em detectar que a mina estava cheia de metano. Apesar da tragédia, Scarabelot trabalhou vários anos para a mesma mineradora. “Eu peguei [serviço] nessa mineração aí, onde eles morreram. Assim lembrando, né, às vezes passava ali bem onde ele morreu… Eu tive que pegar ali, fazer o quê?” A resignação e a falta de alternativa pesam no semblante do ex-mineiro. Hoje ele defende a extinção do setor. “Eu tive emprego, ganhei dinheiro, mas a que custo?”

Depois da conversa, seguimos para a Mina Santana. Uma trilha não muito limpa leva até lá. Na frente da boca da mina, um alagado poluído, cheirando a enxofre, impede que se chegue perto. Ao contrário do que eu imaginava, não há um memorial no local. Não há nem mesmo uma cruz em homenagem aos mortos ou qualquer outro tipo de lembrança do que ocorreu ali. Com o abandono da mina – que ainda solta gases e lança rejeitos no Rio Carvão –, o mato foi crescendo à sua volta e escondeu de quem passa pela estrada o passado trágico.

 

13 DE NOVEMBRO, SÁBADO_Uma das coisas que mais me chamou atenção na conversa com Zancan foi a sua confiança de que o CCUS iria decolar dali para a frente. Naquele momento, o noticiário vinha destacando que países em transição para sair do carvão estavam enfrentando falta de energia, em especial a China e a Alemanha.[3]

Zancan argumentou que essas crises energéticas indicam que eliminar totalmente o carvão pode não ser possível. O que o leva a acreditar que podem aumentar os esforços mundiais para desenvolver as tecnologias que “limpem” o carvão e lhe forneçam uma sobrevida. Mesmo na China, onde a produção de energia renovável é cada vez maior (o país lidera mundialmente o investimento nessas fontes), a demanda por energia é tão grande por causa do aumento da produção industrial que o consumo de carvão continua subindo.

Durante as duas semanas que estive em Santa Catarina, aconteceu em Glasgow, na Escócia, a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, a COP26, e esse cenário energético mundial acabou pesando. O evento terminou hoje e havia uma expectativa de que o documento final da conferência traria uma mensagem firme, convidando os países a acelerarem a eliminação gradativa do carvão mineral e dos subsídios aos combustíveis fósseis. Mas, no cabo de guerra diplomático comum nesse tipo de evento, o texto recebeu uma suavizada de última hora nos compromissos que os países concordaram em assumir, o que me fez lembrar das expectativas de Zancan.

O jornalista Bernardo Esteves, da piauí, cobriu a conferência e explicou assim o que aconteceu:

​​No primeiro rascunho da decisão, os países eram convidados a “acelerar a eliminação gradativa do carvão e dos subsídios aos combustíveis fósseis”. Na versão seguinte do rascunho, a frase foi enfraquecida, e na plenária final ela foi novamente abrandada em resposta a uma objeção da Índia. No documento final, os países são estimulados a “intensificar os esforços rumo à redução gradual do uso de carvão mais poluente e à eliminação gradual dos subsídios aos combustíveis fósseis ineficientes”.

A simples menção a combustíveis fósseis no texto foi vista como algo positivo porque, por incrível que pareça, isso nunca tinha acontecido antes em documentos das COPs. É um sinal de que esses combustíveis estão na mira, mas não com a velocidade necessária. O presidente da conferência, Alok Sharma, disse várias vezes que um de seus objetivos em Glasgow era “encerrar a era do carvão”. Não rolou. Isso tudo me fez pensar se Zancan poderia estar certo. Se ainda vai demorar até que o combustível fóssil seja eliminado. Mas pode ser que o clima do planeta não espere pacientemente.

Tem um detalhe no documento, porém, que vai contra as expectativas de Zancan. O texto fala em eliminar subsídios ineficientes aos combustíveis fósseis. É exatamente o que muitos dizem sobre o subsídio ao carvão do Sul do Brasil.


[1] Mais tarde descobriríamos que os aerogeradores de energia eólica eram parte de um projeto de pesquisa e desenvolvimento realizado pelo grupo Engie (quando ainda atuava no Complexo Termelétrico Jorge Lacerda), em parceria com a empresa Weg, a fim de testar um novo tipo de turbina, bem do lado da usina.

[2] Bento Albuquerque deixou o ministério em maio deste ano, sendo substituído por Adolfo Sachsida.

[3] Isso antes da guerra na Ucrânia, que piorou o cenário por causa da interrupção de fornecimento de gás natural da Rússia para a Europa.