despedida

Claque! Ziruiiiiir!

Na Lapa, a lenta agonia da fotografia vapt-vupt tem data para terminar

Douglas Duarte

Com gestos mais elegantes que as circunstâncias lhe permitem, Sérgio Silveira dobra o corpo até nivelar a câmera com a freguesia, que se arruma à sua frente para caber no enquadramento. Por trás do visor, ele eriça a sobrancelha esquerda, aperta o botão do disparador e – claque! – desperdiça a primeira fotografia.

O “claque” comanda as próximas cenas. Sua máquina não faz “clique”. É uma Polaroid – grande, ruidosa, cada vez mais parecida com as câmeras de fole que andavam em voga em 1939, quando ela inaugurou a fotografia instantânea. Os fregueses conferem o resultado na hora, assim que a imagem se revela no retângulo de papel desbotado pelo excesso de luz. Como o flash os lavou, os fregueses parecem almas penadas, assombrando a noite carioca num restaurante da Lapa.

Silveira não espera que eles peçam. Oferece outra fotografia, de graça. Mexe nos controles da engenhoca e – claque! – a mágica, dessa vez, dá certo. “Ziruiiiiir”, diz a Polaroid, expelindo a foto. Os clientes examinam, aprovam, ele recebe os 15 reais pelo serviço, insere num envelope a segunda tentativa, dá baixa da primeira com uma anotação breve – “uma superexposição” – e sai pelo salão, em busca de outros interessados em experimentar a última palavra em obsolescência tecnológica.

Silveira, na Lapa, é o Gaúcho. Como a Polaroid, ele foi desenhado em outra época. Usa o cabelo grisalho para trás, com fixador, e bigode aparado com rigor geométrico. Veste calça bege, camisa branca, blazer preto e gravata borboleta. Não ficaria desambientado numa galeria de presidentes latino-americanos dos anos 30 ou 40 do século passado. Ele sabe disso. “Olhe para mim: com este terno, minha câmera e essa gravata, eu sou uma vitrine”, comenta.

Em seu estilo, tudo tem uma explicação: “Sem gravata, sou um qualquer, ninguém me deixaria entrar para vender minhas fotos. Com uma gravata comum, sou um cliente comum. Por isso, tem que ser a borboleta. E bordô, para não me confundirem com um garçom.” Correndo atrás de trabalho, desde que saiu do Rio Grande do Sul, Silveira já morou em Santos, São Paulo e Brasília. Tentou o interior do Paraná, antes de se fixar de vez no Rio de Janeiro. Fez um pouco de tudo. Vendeu contrabando, foi chefe de pessoal numa construtora, defendeu empresas em ações trabalhistas, vendeu clássicos da literatura de porta em porta.

Os clássicos da literatura lhe mudaram a vida. Sua mulher o traiu com um vendedor da equipe e ele a devolveu à mãe. Foi morar então atrás da Central do Brasil, “com um despertador”. Reaprumou-se ao ganhar de presente uma Yashica, cópia japonesa da Rolleiflex, e conhecer um espanhol capaz de consertar no laboratório qualquer erro que ele cometesse com a máquina.

Assim, virou fotógrafo. Ou “homem-vitrine”, de Yashica no pescoço, flash na mão, bateria a tiracolo e uma grande ampliação pendurada nas costas. Passou a eternizar os encontros efêmeros de casais nas mesas boêmias do velho centro carioca. Apesar da gravata bordô e dos olhos esbugalhados, ele é discreto, e passa entre as mesas sem dizer palavra. Limita-se a acenar com a câmera e esperar que um dedo se levante para chamá-lo. Com o tempo, trocou a Yashica pela Rolleiflex legítima, mas ela não o livrou da rotina de tirar a foto, receber um sinal, levar o filme para a revelação e voltar no dia seguinte para entregar a mercadoria e receber o pagamento.

 

A Polaroid foi uma revolução em sua carreira. Com ela, acabou o vai-e-vem, era claque! ziruiiiiir! Ou seja, vapt-vupt! Com o que ela lhe rendia, bancou os estudos do filho no Colégio Naval e se mudou para uma pensão mais decente. Até que as coisas deixaram de funcionar como antes. Em meados da década de 90, teve problemas de visão. Logo ele, um fotógrafo. Com descolamento de retina, perdeu 100% do olho direito e 40% do esquerdo. Mas aprendeu a fotografar, como ele diz, “de canhota”. Garante que, hoje, enxerga melhor através do visor do que sem ele.

Catástrofe mesmo, a seu ver, foi o advento das câmeras digitais. Pior que elas, só os telefones celulares com câmera, que induzem até os casais menos equipados a esticar o braço nas mesas da Lapa e se fotografar como se estivessem examinando os dentes num espelho de bolso. Supra-sumo da quinta-essência da tecnologia moderna, num vapt-vuptíssimo a Polaroid virou velharia. O que não é brincadeira, para quem andou por tantas décadas nas mãos de profissionais, testando a iluminação dos estúdios, gravando locações no cinema para garantir a continuidade das filmagens ou tornando ainda mais imediata a produção de artistas como Andy Warhol.

Para Silveira, foi um desastre. Ele teve que se especializar, nos últimos anos, em retratar saudosistas, desses que, mesmo em mesas de bares, têm ouvidos para ouvir e entender seu claque! ziruiiiiir! Depois de perder o mercado consumidor, os fornecedores o desertaram. Minada pela popularidade avassaladora das câmeras digitais, a Polaroid Corporation, de Massachussetts, jogou a toalha no ano passado. Silveira recebeu, meses atrás, uma carta avisando que a empresa garantiria o fornecimento de filmes para os donos de suas máquinas até dezembro de 2007 no máximo.

Os fãs da Polaroid tradicional se organizaram e, por meio do site savepolaroid.com, iniciaram uma campanha internacional reivindicando a sobrevivência da máquina. Em vão. As fábricas da Polaroid começaram a fechar nos Estados Unidos, no México e na Holanda. Em seguida, veio a PoGo, a nova impressora da empresa. Portátil, alimentada a bateria, menor que uma caixa de seus antigos filmes, a PoGo imprime em qualquer lugar fotografias tiradas por câmeras digitais e celulares alheios.

Com os pés no chão, Silveira estocou todos os filmes que conseguiu encomendar em São Paulo, no Peru e na Colômbia. Pelas suas contas, tem munição até o fim do ano. E, do próximo réveillon em diante, ainda não decidiu o que fará. A fotografia digital não lhe parece uma alternativa razoável: “Estou com 75 anos. Levei 40 para ser o melhor com uma Polaroid. Se mudar agora, vou levar outros 40. E a essa altura vou estar com 115. Ora, com 115 não vou querer pegar sereno na rua, entende?”



Douglas Duarte

Douglas Duarte é jornalista. Seu primeiro documentário é Personal Che, que foi exibido na Première Latina do Festival do Rio.

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