ficção

Contra a parede

Sigo fechada num quarto, durante boa parte do tempo, a explorar objetos e escrever frases curtas, repetindo o ofício fugidio de transformar um castigo em diversão

Adriana Lunardi
IMAGEM: JAY BELMORE DESINGS_GETTY IMAGES

Os olhares diziam tudo, mas a crítica maior era o silêncio, incomum na casa e sobretudo anormal para aquele momento. Entre a platéia, a presença de meu pai tinha o efeito de agravar o que se anunciou tenebroso. Eu ia ser sugada pelo abraço de mamãe quando percebi que ainda segurava a mão do policial, parado junto à porta que ninguém se lembrara de fechar. O colo de minha avó foi um alívio, logo extinto por um vozeirão.

— Vamos à delegacia.

Cravei os olhos em papai. Uma brincadeira, só podia ser. Uns instantes de tensão e daí a gargalhada. A promessa viraria fumaça. Não era sempre assim? Nesse dia, ele se escorou na estante de livros e cruzou os braços. Procurei o rosto de minha mãe, que o havia escondido entre as mãos. Vovó mirava o assoalho. O policial mordeu o beiço e levantou as sobrancelhas. Senti que algo precisava ser dito.

— Foi a última vez, juro.

Uma agitação ligeira desarrumou as poses de estátua. Os braços foram descruzados, o pescoço virou para a parede, a ponta de um pé balançou um “não”. Foi quando entendi o que significava possuir um passado.

— Quarta, filha. É a sua quarta fuga. E estamos em fevereiro.

Um assobio de exclamação voou pela sala: até o guarda ficara impressionado.

Não era hora de reclamar, mas havia um exagero naquela conta. Somava-se nisso a ida à casa de uma prima, que eu esquecera de avisar.

Papai quis saber do guarda onde eu tinha sido encontrada.

— Num farol. Vendendo chicletes.

Mentira. Eu estava jogando. Três bolinhas de tênis, uma em cada mão, a terceira no ar. Ia aprender aquilo quando a moto encostou. Os meninos deram no pé. O policial tirou o capacete e perguntou meu nome. Depois conversou no walkie-talkie e me pôs na garupa. Só paramos em frente de casa.

Os homens se afastaram, foram conversar num canto. Minha mãe inclinou-se para ouvir e vovó perguntou se eu tinha fome. Neguei, acenando a cabeça. Papai limpou a garganta e, sem dirigir-se a alguém em especial, anunciou:

— O Juizado de Menores pode querer ficar com ela.

O grunhido raivoso de minha mãe. A colher de açúcar contra o copo nas mãos de minha avó. Nenhum deles disse nada. Passaram a se comunicar num pingue-pongue de olhares que me excluía. Por fim, o policial coçou a cabeça.

— Criança perdida, é como vou notificar — ele disse, e pôs-se a anotar num talão tirado do bolso.

Papai o levou até a calçada.

A sala, mesmo após a saída do guarda, não voltava ao normal. Ninguém foi para o quarto nem se lembrou de ligar a televisão. Eu continuei parada, temendo qualquer movimento que desmanchasse aquela ordem. Papai entrou. Num salto, ajoelhou-se diante de mim. Nossos rostos ficaram na mesma altura pela primeira vez. Vovó pediu que ele se controlasse, eu era uma criança. Minha garganta fechou-se de medo.

Só de perto a gente nota. Os olhos nunca param no lugar. As pupilas deslizam rápidas como se tivessem de unir os pontos de uma figura. Um trapézio. Quanto mais meu pai me fitava, mais ligeiro aquele trapézio se desfazia. De tão colados um no outro, mal pude vê-lo articular a explicação.

— Oito anos. Ela sabe o que está fazendo.

Gostei de ouvir aquilo. Alguém tinha de me conhecer, entender quem eu era, aprender a lidar comigo.

De repente, meus braços arderam e senti um vazio sob os meus pés. Havia sido tirada do chão. Atravessei, assim suspensa, a cozinha e o quintal. Papai me largou em frente à lavanderia. Eu ia passar umas horas ali. Para aprender, ele disse.

Ouvi o trinco ser fechado por fora. Vozes abafadas vieram, depois partiram. Olhei ao redor. A lavanderia funcionava também como um depósito de coisas velhas. Peças soltas, garrafas vazias, aparelhos quebrados. Tudo o que perdia o uso acabava ali, no fundo de uma estante. Levantei-me e fui explorar aqueles trastes. Encontrei duas pilhas de discos e uma caixa de jornais antigos. Um candelabro e uma bola murcha atrás de uma centrífuga. E também pregos, martelo e ferramentas de jardim há muito não tocadas. As paredes sem pintura pareciam acentuar o abandono dos objetos. Um papel desbotado forrava as prateleiras.

Voltei a sentar-me. Precisava me concentrar. Achei que estivesse com fome, vi que não. Tentei pensar mais um pouco. Eles tinham descoberto um bom quarto para castigos. Entendi que futuro me esperava. Iria voltar àquele depósito até perder o gosto da rua, até entender qual o lugar certo para mim, a fujona.

Fui até a porta, forcei a maçaneta. Lá fora, apenas os grilos anunciavam estar vivos. Cheguei a imaginar como seria minha vida trancada ali dentro. Teria de beber água da máquina, me alimentar de bichos, um nojo. Ia ficar pele e osso, adoecer, mas jurei que insetos eu jamais comeria. Num susto, vi um rato. Olhei melhor, era uma meia. Esperei uns segundos. Nada se mexeu. Levantei-me e cutuquei uma caixa que ficava junto ao sabão e o amaciante. No interior, encontrei uma flanela, escovas e tintas de sapato. Abri um tubo. Na tampa vinha acoplado um pincel de ponta dura. Escolhi o marrom e comecei a pintar as minhas unhas. Primeiro as mãos, depois os pés. Em seguida, assinei o meu nome no piso. Não era bem uma assinatura, só o nome completo em letra cursiva. Passei os dedos em cima. A tinta fora absorvida pela madeira sem deixar nenhum borrão. Escrevi de novo. A caligrafia saiu nítida como se feita em pincel atômico.

Eu ainda não sabia formar frases, a menos que fossem curtas. Pensei em algumas, todas soaram bobas.

Queria palavras que dissessem coisas.

 

Comecei então a fazer uma lista de tudo o que eu via. Anotei cada item, descrevendo, quando não podia identificar. Do chão passei às paredes e no marrom emendei o preto. As palavras alcançavam a altura de meu braço esticado. Só parei ao acabar a tinta. Os objetos estavam ali, agora por escrito. Recostei-me na máquina para descansar um pouco.

Acordei com um barulho na porta. Papai entrou. Ia dizer algo, mas interrompeu-se. Pela cara, não gostou do que viu nas paredes. Aquele, eu acho, foi o meu primeiro livro.

Nada mudou muito desde então. Sigo fechada num quarto, durante boa parte do tempo, a explorar objetos e escrever frases curtas, repetindo o ofício fugidio de transformar um castigo em diversão.

Adriana Lunardi

Adriana Lunardi, escritora e roteirista de televisão catarinense radicada no Rio, é autora do romance Corpo Estranho, da editora Rocco.

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