ensaio

Crítica com alma

Alfredo Bosi, sua obra e seu último aceno

Pedro Meira Monteiro
Bosi com Pedro Meira, num passeio no Central Park, em 2008: ele relutou em visitar os Estados Unidos, mas, depois de se certificar de que Bush deixaria a Casa Branca, cedeu ao convite
Bosi com Pedro Meira, num passeio no Central Park, em 2008: ele relutou em visitar os Estados Unidos, mas, depois de se certificar de que Bush deixaria a Casa Branca, cedeu ao convite CREDITO: ANDRÉA DE CASTRO MELLONI_2008

Não é fácil deletar o endereço de quem morreu. Fico pensativo, como se houvesse o risco de varrer a pessoa da memória. Por estes dias topei com o nome de Alfredo Bosi (1936-2021) e quando vi a anotação ao lado do e-mail não tive coragem de apagá-la. Eram as instruções enviadas por ele há mais de vinte anos, quando nos convidou a visitar a chácara em que então morava com sua mulher, Ecléa Bosi (1936-2017), em Cotia, na Região Metropolitana de São Paulo: sair da Rodovia Raposo Tavares, entrar pela Rua Basileia, manter-se à direita, entrar na Zurique e, quando chegar, escreveu ele, “tocar o sino”.

Era a primeira vez que os visitávamos, e o sino parecia uma declaração de princípios. Ali seríamos recebidos como os viandantes eram acolhidos nos mosteiros. A simplicidade franciscana do lugar era comovente (“comovente” é uma palavra que Bosi utilizava muito). A casinha de tijolos ficava no fundo do terreno, com um pequeno campo de futebol para os netos na frente e as plantas que Ecléa cultivava espalhadas por todos os cantos. Jamais esquecerei da cozinha, que tinha um ar de roça, as louças de ágata, lajotas no chão, móveis de madeira e a luz que, coalhada pelas cortinas, parecia nos transportar a outra época.

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Pedro Meira Monteiro

É professor de literatura brasileira em Princeton. Autor de Conta-gotas (e-galáxia) e A Queda do Aventureiro(Relicário)

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