biologia & botânica

Darwin e o significado das flores

Os seres humanos não estão ligados só a macacos e outros bichos, mas também às plantas. Vegetais e animais, sabemos hoje, têm 70% do DNA em comum. Mas devido à seleção natural, cada espécie é única e cada indivíduo é singular

Oliver Sacks 
IMAGEM: MARY EVANS PICTURE LIBRARY

Todos conhecem a versão canônica da história de Charles Darwin: o embarque no Beagle aos 22 anos, para uma viagem aos confins da terra; Darwin na Patagônia; Darwin no pampa argentino (conseguindo laçar as patas do seu próprio cavalo); Darwin pela América do Sul, coletando os ossos de gigantescos animais extintos; Darwin na Austrália, antes de perder a fé religiosa, espantado ao ver um canguru pela primeira vez (“dois Criadores distintos devem ter atuado nesse caso”). E, claro, Darwin nas Galápagos, observando como os pássaros – chamados tentilhões – de cada ilha eram diferentes, começando a experimentar a mudança sísmica na compreensão de como evoluem os seres vivos que, um quarto de século mais tarde, resultaria na publicação de A Origem das Espécies.

É aqui que a história atinge o seu clímax, com o lançamento de A Origem em novembro de 1859, e tem uma espécie de pós-escrito elegíaco: uma visão de Darwin mais velho e doente, ao longo dos vinte e poucos anos de vida que ainda lhe restaram, vagando pelos seus jardins de Down House sem nenhum plano ou finalidade especial, talvez escrevendo mais um ou dois livros, mas com a grande obra da sua vida há muito consumada.

Nada poderia estar mais longe da verdade. Darwin continuava intensamente sensível tanto às críticas quanto aos indícios que davam apoio à sua teoria da seleção natural, e isso o levou a lançar não menos que cinco edições da Origem. É verdade que se refugiou no seu jardim e nas suas estufas depois de 1859 (havia um vasto terreno em torno de Down House, com cinco estufas), mas para Darwin tanto um quanto as outras se transformaram em verdadeiras máquinas bélicas, das quais arremessava mísseis de provas sobre os céticos do lado de fora – descrições de estruturas e comportamentos vegetais fora do comum, que seriam muito difíceis de atribuir a uma Criação ou a um Plano particular – um corpo de provas, em favor da evolução e da seleção natural, ainda mais irresistível que o apresentado em A Origem.

Estranhamente, mesmo os estudiosos de Darwin prestam relativamente pouca atenção a essa obra botânica, muito embora ela se componha de seis livros e mais de setenta artigos. Assim, Duane Isely, em seu livro One Hundred and One Botanists (Cento e Um Botânicos), de 1994, diz que embora mais tenha sido escrito acerca de Darwin do que sobre qualquer outro biólogo de todos os tempos, ele raramente é apresentado como botânico. O fato de ter escrito vários livros sobre suas pesquisas com plantas é mencionado em grande parte dos estudos a seu respeito, mas de passagem, mais ou menos no tom em que se diria: “Bem, todo grande homem precisa se divertir de vez em quando.”



Ainda hoje, no bicentenário do nascimento de Darwin e do 150º aniversário de A Origem, o mesmo continua a ocorrer.

Darwin cresceu numa família de botânicos – seu avô, Erasmus Darwin, escrevera um longo poema em dois volumes intitulado O Jardim Botânico, e o próprio Charles foi criado numa casa cujos extensos jardins continham, além de flores, uma variedade de macieiras produzida por hibridação, para obter maior vigor. Durante seus estudos universitários, em Cambridge, as únicas aulas que Darwin nunca deixou de assistir foram as do botânico J. S. Henslow, e foi ele que, reconhecendo as qualidades extraordinárias do aluno, recomendou-o para uma posição a bordo do Beagle.

Foi para Henslow que Darwin escreveu cartas muito detalhadas, repletas de observações sobre a fauna, a flora e a geologia dos lugares que visitava. E foi para Henslow que Darwin, nas ilhas Galápagos, coletou cuidadosamente todas as plantas em flor, assinalando como as diferentes ilhas do arquipélago muitas vezes apresentavam espécies diferentes de um mesmo gênero. Esse se tornaria um indício crucial nas suas reflexões sobre o papel da divergência geográfica na origem de novas espécies.

Embora Darwin não tivesse o menor problema em definir-se como geólogo (escreveu três livros de geologia baseados nas observações reunidas durante a viagem do Beagle, e concebeu uma teoria de notável originalidade sobre a origem dos atóis de coral, que só seria confirmada experimentalmente na segunda metade do século XX), sempre reafirmava que não era botânico. Um dos motivos era que a botânica continuava a ser uma disciplina quase totalmente descritiva e taxionômica – as plantas eram identificadas, classificadas e ganhavam um nome, mas nunca eram investigadas. E Darwin era antes de mais nada um investigador, preocupado com o como e o porquê da estrutura e do comportamento das plantas, não só com a sua descrição.

A botânica não funcionava para Darwin como um mero passatempo ou distração, como era o caso de tantos vitorianos. Para ele, o estudo das plantas vinha sempre impregnado de finalidade teórica, e esta tinha a ver com a evolução e a seleção natural. Era, como escreveu seu filho Francis: como se ele estivesse repleto de um poder de teorização permanentemente pronto a escoar por qualquer canal ao menor movimento, de maneira que nenhum fato, por mais ínfimo que fosse, jamais deixava de provocar uma torrente de teorias.

E o fluxo corria nos dois sentidos. O próprio Darwin disse várias vezes que “ninguém pode ser um bom observador se não for um teorizador ativo”.

 

No século XVIII, o cientista sueco Lineu havia demonstrado que as flores continham órgãos sexuais (pistilos e estames), e neles baseara as suas classificações. Quase universalmente, porém, acreditava-se que as flores se autofecundavam – por que outro motivo, afinal, elas teriam tanto órgãos masculinos quanto femininos? O próprio Lineu fez graça com a idéia, retratando uma flor, com seus nove estames e um pistilo, como a alcova em que uma donzela vivia cercada por nove amantes. Idéia semelhante aparece no segundo volume da obra do avô de Darwin, O Jardim Botânico, intitulado “Os Amores das Plantas. Foi nessa atmosfera que cresceu o jovem Charles Darwin.

Um ano ou dois depois do seu regresso da viagem no Beagle, no entanto, Darwin sentiu-se obrigado, por motivos teóricos, a questionar a idéia da autofertilização. Num caderno de notas de 1837, escreveu: “Será que as plantas que têm órgãos masculinos e femininos ainda assim não sofrem a influência de outras plantas?” Para que as plantas evoluíssem, raciocinou ele, a fertilização ou fecundação cruzada era fundamental – de outro modo, mudança alguma, modificação alguma jamais poderia ocorrer, e o mundo se veria obrigatoriamente povoado por uma única planta capaz de se reproduzir sozinha, em vez de apresentar a extraordinária quantidade de espécies que na verdade possuía. No início da década de 1840, Darwin começou a pôr sua teoria à prova, dissecando uma variedade de flores (entre elas rododendros e azaléias) e demonstrando que muitas delas apresentavam estruturas destinadas a impedir ou minimizar a autopolinização.

Mas foi só depois da publicação de A Origem das Espécies, em 1859, que Darwin pôde dedicar toda sua atenção às plantas. E enquanto seu trabalho botânico anterior era primariamente de coleta e observação, a partir daí as experiências se tornaram seu principal meio de obtenção de novos conhecimentos.

Ele havia observado, como outros antes dele, que as flores das prímulas ou primaveras podiam apresentar dois aspectos diferentes: um em forma de “alfinete”, com o estilete – a parte fêmea da flor – mais longo, e outro em forma de “borla”, com o estilete bem mais curto. Até então, ninguém atribuía significado especial algum a essa diferença. Mas Darwin tinha as suas suspeitas e, examinando maços de primaveras que seus filhos lhe traziam, descobriu que a proporção entre “alfinetes” e “borlas” era exatamente de um para um.

A imaginação de Darwin foi imediatamente espicaçada: a proporção de um para um era o que geralmente se encontrava nas espécies em que machos e fêmeas são distintos – será então que as flores de estilete mais longo, embora hermafroditas, não estariam no processo de se transformar em “flores-fêmeas”, e as de estilete curto em “flores-machos”? O que ele tinha à sua frente seriam na verdade formas intermediárias, a evolução em andamento? A idéia era muito boa, mas não se sustentava, pois as flores de estilete mais curto, os supostos “machos”, produziam tantas sementes quanto as “fêmeas” de estilete mais comprido. O que ele contemplava era (como diria o seu amigo T. H. Huxley) “o assassinato de uma belíssima hipótese por um fato feiíssimo”.

Qual seria, então, o significado dessa diferença entre estiletes e da proporção de um para um em que apareciam? Desistindo de teorizar, Darwin dedicou-se à experimentação. Penosamente, pôs-se a agir ele mesmo como polinizador, estendendo-se de bruços no jardim e transferindo grãos de pólen de uma flor de estilete longo para outra de estilete longo, de uma flor de estilete curto para outra de estilete curto, de uma de estilete longo para outra de estilete curto e vice-versa. Quando as plantas produziram sementes, ele as coletou, pesou e descobriu que as maiores quantidades de sementes vinham das flores submetidas à fecundação cruzada.

Ele concluiu que a heterostilia, em que as plantas apresentam estiletes de comprimento diferente, seria um recurso que a evolução fizera surgir a fim de facilitar a fertilização cruzada – e que o cruzamento aumentava o número e a vitalidade das sementes. Mais tarde, Darwin escreveria: “Acho que nada na minha vida de cientista me deu tanta satisfação quanto descobrir o significado da estrutura dessas plantas.”

Embora o assunto tenha continuado a representar um interesse especial para Darwin (que publicou um livro a respeito, em 1877, chamado As Diferentes Formas de Flores em Plantas da Mesma Espécie), sua preocupação central era saber de que maneira as plantas floríferas se adaptavam ao uso de insetos como agentes da sua fertilização. Sabia-se que os insetos eram atraídos por certas flores, pousavam nelas e podiam emergir cobertos de pólen. Mas ninguém concluíra que isso tivesse muita importância, pois todos supunham que as flores se autopolinizassem.

Darwin já desconfiava disso em 1840, e na década seguinte pôs cinco de seus filhos para trabalhar, determinando as rotas de vôo de mamangavas (bumblebees) do sexo masculino. Admirava especialmente as orquídeas nativas que se desenvolviam nas campinas em torno de Down, e decidiu começar por elas. Em seguida, com a ajuda de amigos e correspondentes que lhe enviavam orquídeas para estudo, especialmente o botânico Joseph Dalton Hooker, diretor do Kew Gardens, ampliou seus estudos de maneira a abordar orquídeas tropicais de todos os tipos.

O estudo das orquídeas progrediu com rapidez e, em 1862, Darwin enviou seu original para a impressão. O livro tinha um título tipicamente longo e explícito, à moda vitoriana: As Várias Maneiras Como as Orquídeas São Fertilizadas pelos Insetos. O que ele pretendia, ou esperava, ficava claro nas páginas de abertura:

Em meu volume Sobre a Origem das Espécies, apresentei apenas razões gerais em apoio à convicção de que, por uma lei quase universal da natureza, os seres orgânicos superiores requerem um cruzamento ocasional com outro indivíduo. Pretendo mostrar aqui que não falei sem ter entrado em nenhum detalhe. Este tratado me fornece ainda uma oportunidade para tentar mostrar que o estudo dos seres orgânicos pode ser tão interessante para o observador plenamente convencido de que a estrutura de cada um deles se deve a leis secundárias, quanto para aquele que encara cada pormenor ínfimo da estrutura como resultado da interposição direta do Criador.

Aqui, em termos da maior clareza, Darwin atira a luva, dizendo: “Expliquem melhor isto aqui – se puderem.”

Darwin interrogava as orquídeas, interrogava as flores, como ninguém antes dele, e em seu livro sobre as orquídeas apresentava inúmeros detalhes, muito mais do que se pode encontrar em A Origem. E não porque fosse obsessivo ou pedante, mas por acreditar que cada detalhe era potencialmente significativo. Já disseram que Deus se encontra nos detalhes, mas para Darwin não era Deus, e sim a seleção natural, atuando no decorrer de milhões de anos, que se revelava claramente a partir dos detalhes, detalhes que só eram inteligíveis e faziam sentido à luz da história e da evolução. Suas pesquisas botânicas, escreveu seu filho Francis, forneceram um argumento contra os críticos que dogmatizavam com liberdade a respeito da inutilidade de certas estruturas, e da consequente impossibilidade de terem se desenvolvido por meio da seleção natural. Suas observações sobre as orquídeas permitiram a ele dizer: “Posso mostrar o significado de algumas dessas dobras e protuberâncias sem sentido aparente; quem poderá dizer agora que esta ou aquela estrutura não tem utilidade?

 

Num livro de 1793, intitulado O Segredo da Natureza Revelado na Estrutura e Fertilização das Flores, o botânico alemão Christian Konrad Sprengel, observador extremamente cuidadoso, assinalara que as abelhas carregadas de pólen o transportavam de uma flor para outra. Darwin sempre achou esse livro “maravilhoso”. Mas Sprengel, embora tenha chegado perto, deixou escapar o segredo final, pois ainda se encontrava preso à idéia lineana de que as flores se autofecundavam – e julgava que as flores da mesma espécie fossem essencialmente idênticas.

Foi então que Darwin decifrou o segredo das flores, mostrando que as características especiais de cada uma – a variedade de padrões, cores, formas, néctares e perfumes atraentes aos insetos, levando-os a esvoaçar de uma planta a outra, e os recursos que asseguram que eles não deixem de colher o pólen antes de decolar da flor – eram todas “artimanhas”, como ele dizia. Todas haviam sido produzidas pela evolução a serviço da fertilização cruzada.

O que antes era a imagem pitoresca de insetos zumbindo em torno de flores multicoloridas transformava-se, agora, num drama essencial da vida, cheio de significado e profundidade biológica. O colorido e o aroma das flores eram adaptados aos sentidos dos insetos. As abelhas são atraídas por flores azuis e amarelas, e ignoram as vermelhas, uma cor que não enxergam. Por outro lado, sua capacidade de ver além do violeta é explorada pelas flores que utilizam marcas ultravioletas, que dirigem as abelhas para os seus nectários. As borboletas, com uma boa visão do vermelho, fertilizam as flores vermelhas, mas ignoram as azuis e de cor violeta. As flores polinizadas por mariposas noturnas tendem a ser pobres em colorido, mas emanam perfume à noite. E as flores polinizadas por moscas, que vivem de matéria em decomposição, podem imitar o odor desagradável (para nós) da carne podre.

Não foi só a evolução das plantas, mas a coevolução de plantas e insetos, que Darwin ilustrou pela primeira vez. Assim, a evolução natural garantia que os órgãos bucais dos insetos se encaixassem na estrutura das suas flores prediletas – e aqui Darwin se permitiu um prazer especial, formulando algumas previsões. Examinando uma orquídea de Madagascar, dotada de um nectário de quase 30 centímetros de extensão, profetizou que um dia descobririam uma mariposa com uma probóscide do mesmo comprimento, capaz de chegar às suas profundezas; e tal mariposa foi finalmente descoberta, muitas décadas depois da sua morte.

A Origem foi um ataque frontal (embora apresentado com toda a delicadeza) ao criacionismo. Embora Darwin tenha tido o cuidado de pouco falar no livro sobre a evolução humana, as implicações da sua teoria eram perfeitamente claras. E o que provocou ultraje e tantas piadas foi a idéia de que o homem pudesse ser visto como um simples animal – um macaco – descendente de outros animais.

Para a maioria das pessoas, as plantas eram outra história – não se moviam nem sentiam nada; habitavam um reino próprio, separado do reino animal por um abismo gigantesco. A evolução das plantas, pressentiu Darwin, podia parecer menos relevante, ou menos ameaçadora, do que a evolução dos animais, sendo assim mais acessível à calma e à reflexão racional. De fato, escreveu ele a seu amigo botânico Asa Gray: “Ninguém mais percebeu que meu interesse principal, no livro sobre as orquídeas, era executar um ‘movimento de flanco’ contra o inimigo.” Darwin nunca se mostrava beligerante, como o seu “cão de guarda” Huxley, mas sabia bem que uma batalha estava em curso, e não era avesso às metáforas militares.

O que emana do livro sobre as orquídeas, no entanto, não é o tom belicoso ou a veia polêmica – é a alegria franca, o encantamento diante do que ele via. Esse deleite e essa exuberância explodiam nas suas cartas:

Você não pode imaginar o quanto as orquídeas me deliciaram. Que lindas estruturas! A beleza das partes adaptadas me parece sem igual. Fiquei quase louco diante da fartura de orquídeas. Uma flor esplêndida de Catasetum, a orquídea mais linda que já vi. Feliz do homem que chegou a ver bandos de abelhas voando em torno de uma Catasetum, com a polínia colada às costas! Nunca me interessei tanto na vida por um assunto quanto esse das orquídeas.

Mas as plantas precisam sobreviver, florescer e encontrar (ou criar) nichos no mundo, para que consigam chegar ao ponto de se reproduzirem. Daí o interesse equivalente de Darwin pelos sistemas e adaptações por meio dos quais as plantas sobreviveram e seus estilos de vida variados e às vezes surpreendentes, envolvendo inclusive órgãos sensoriais e capacidades motoras comparáveis às dos animais.

Em 1860, durante uma viagem de férias, Darwin encontrou pela primeira vez as plantas insetívoras, pelas quais se apaixonou – o que desencadeou investigações que culminariam, quinze anos mais tarde, na publicação de Plantas Insetívoras. Esse volume tem um estilo fácil e agradável, e começa, como a maioria dos seus livros, com uma recordação pessoal:

Fiquei surpreso ao descobrir como era grande o número de insetos capturados pelas folhas da sundew comum (Drosera rotundifolia), numa charneca de Sussex. Numa das plantas, todas as seis folhas haviam capturado presas. Muitas plantas causam a morte de insetos sem auferir com isso, até onde podemos perceber, qualquer vantagem; mas logo ficou evidente que a Drosera estava excelentemente adaptada à finalidade especial de capturar insetos.

A idéia da adaptação estava sempre no espírito de Darwin, e um exame da Drosera bastava para lhe mostrar que essas adaptações eram de um tipo novo, pois as folhas da planta, além de uma superfície pegajosa, eram cobertas de filamentos delicados, com glândulas nas pontas. Para que serviriam essas glândulas, ele se perguntou? “Se um pequeno objeto orgânico ou inorgânico é colocado em cima das glândulas do centro de uma folha”, observou Darwin, elas transmitem um impulso motor aos tentáculos marginais. Os mais próximos são afetados primeiro, e lentamente se inclinam para o centro, e depois os mais distantes, até que todos ficam finalmente infletidos na direção geral do objeto.

Se o objeto não fosse nutritivo, porém, era rapidamente liberado.

Darwin conseguiu demonstrar esse fato dispondo fragmentos de clara de ovo em algumas folhas e, em outras, fragmentos de matéria inorgânica de tamanho semelhante. A matéria inorgânica era rapidamente liberada, mas a clara de ovo era retida, e estimulava a formação de um fermento e um ácido que em pouco tempo digeriam e absorviam o alimento. E coisa semelhante acontecia com os insetos, especialmente quando vivos. Assim, sem ter boca, entranhas ou nervos, a Drosera capturava a sua presa com eficiência e, lançando mão de enzimas digestivas especiais, conseguia absorvê-la.

Darwin examinou não só de que maneira a Drosera funcionava, mas também por que motivo ela adotara um estilo de vida tão fora do comum: observou que a planta crescia em charcos, locais de solo ácido, relativamente pobre em matéria orgânica e em nitrogênio assimilável. Poucas plantas conseguem sobreviver nessas condições, mas a Drosera encontrara um modo de absorver o nitrogênio diretamente dos insetos, em vez extraí-lo do solo. Admirado com a coordenação quase animal dos tentáculos da Drosera, que se fechavam em torno da presa como os de uma anêmona-do-mar, e pela capacidade quase animal de digestão da planta, Darwin escreveu a Asa Gray:

Você está sendo injusto quanto aos méritos da minha querida Drosera; ela é uma planta extraordinária, ou na verdade um animal muito sagaz. Vou acompanhar a Drosera até o dia da minha morte.

E mais entusiasmado ainda ficou com a Drosera depois de descobrir que um pequeno talho em uma das metades de uma folha paralisava apenas aquela metade, como se um nervo tivesse sido cortado. As folhas assim afetadas, escreveu ele, lembravam “um homem com a espinha quebrada e as extremidades inferiores paralisadas”. Mais tarde, Darwin receberia espécimes de outra planta da família das droseráceas, a dionéia (planta nativa dos Estados Unidos, onde é conhecida como venus flytrap), que, no momento em que algo encosta em seus pêlos, fecha as duas metades das suas folhas sobre o inseto e o aprisiona.

As reações da planta eram tão rápidas que Darwin se perguntou se não haveria alguma eletricidade envolvida, algo análogo a um impulso nervoso. Discutiu a questão com seu colega fisiologista Burdon Sanderson – e ficou encantado quando ele demonstrou que, de fato, uma corrente elétrica era gerada pelas folhas, e podia estimulá-las a se fecharem. “Quando as folhas são irritadas”, explica Darwin em Plantas Insetívoras, “a corrente é perturbada da mesma forma como ocorre durante a contração do músculo de um animal.”

 

As plantas são geralmente consideradas seres imóveis e desprovidos de sentidos – mas as plantas insetívoras representavam uma refutação espetacular dessa idéia, e então, ansioso por estudar outros aspectos do movimento das plantas, Darwin começou a pesquisar as trepadeiras. Subir usando algum apoio era uma adaptação eficiente, que permitia às plantas prescindir de um tecido de sustentação rígido e usar outras plantas para se elevarem. E não havia um único meio de subir, mas vários. Havia as plantas que se enlaçavam em outras, as que se prendiam com as próprias folhas e as que se prendiam ao suporte por meio de gavinhas. Essas últimas eram as que mais fascinavam Darwin – ele quase tinha a impressão de que possuíssem “olhos”, “vasculhando” seus arredores à procura do suporte mais conveniente.

Para Darwin, as plantas que se enlaçam em outras, como as lianas, eram as ancestrais das outras trepadeiras, e ele achava que as plantas dotadas de gavinhas tinham evoluído a partir delas; as que se prendiam com as próprias folhas, por sua vez, teriam descendido das plantas dotadas de gavinhas. Cada um desses desenvolvimentos abria a possibilidade de ocupar novos nichos – novos papéis para o organismo no seu meio. Assim, as trepadeiras tinham evoluído ao longo do tempo – não tinham sido criadas todas num mesmo instante, por um ato divino. Mas como teriam começado a subir? Darwin observara movimentos de torção nos caules, nas folhas e nas raízes de todas as plantas que examinara, e esses movimentos (que ele chamava de circum-nutação) também podiam ser observados em todas as plantas “inferiores”: as cicadáceas, as samambaias e até as algas marinhas. Quando as plantas crescem na direção da luz, não se estiram verticalmente, mas vão se torcendo, descrevendo um movimento de saca-rolha, na direção da luz. A circum-nutação, concluía Darwin, era uma disposição universal das plantas, antecessora de todos os outros movimentos giratórios nos vegetais.

Essas idéias, juntamente com dezenas de belíssimas experiências, foram expostas em seu último livro de botânica, O Poder do Movimento nas Plantas, publicado em 1880. Entre as muitas experiências encantadoras e engenhosas que Darwin relata, figura uma em que, depois de plantar sementes de aveia, fez a luz incidir sobre elas de diferentes direções e constatou que as mudas sempre se inclinavam ou se retorciam na direção da luz, mesmo quando esta era tênue demais para ser percebida pelo olho humano. Existiria (como imaginava ele ser o caso da ponta das gavinhas) alguma região fotossensível, uma espécie de “olho”, na extremidade das folhas das mudas? Criou pequenas tampas, escurecidas com nanquim, para cobrir a ponta das folhas, e constatou que, quando as usava, as plantas paravam de responder à luz. Ficava claro, concluiu ele, que quando a luz atingia a extremidade da folha estimulava essa parte da planta a liberar algum tipo de mensageiro que, chegando às partes “motoras” da muda, fazia com que se contorcesse na direção da luz. De maneira similar, Darwin constatou que as raízes primárias (ou radículas) das mudas, que precisam contornar todo tipo de obstáculos, eram extremamente sensíveis ao contato, à gravidade, à pressão, à umidade, a gradientes químicos etc. E escreveu:

Não existe estrutura mais admirável nas plantas, no que diz respeito à função, do que a extremidade da radícula. Não estou exagerando ao afirmar que a extremidade da radícula atua como o cérebro dos animais inferiores, recebendo impressões dos órgãos dos sentidos e dirigindo vários movimentos.

Mas como assinala Janet Browne, O Poder do Movimento nas Plantas foi “um livro inesperadamente polêmico”. A idéia da circum-nutação foi amplamente criticada. Darwin sempre reconhecera que se tratava de um salto especulativo, mas a crítica mais contundente veio do botânico alemão Julius von Sachs, que, nas palavras de Janet Browne, reagiu com desprezo à sugestão de Darwin de que a extremidade da raiz pudesse ser comparada ao cérebro de um organismo simples, declarando que as técnicas experimentais domésticas de Darwin eram risivelmente deficientes.

Por mais improvisadas que as técnicas de Darwin pudessem ser, porém, suas observações eram precisas e corretas. A idéia de um mensageiro químico transmitido da extremidade sensitiva do broto para o seu tecido “motor” abriria caminho, cinquenta anos mais tarde, para a descoberta dos hormônios vegetais, como as auxinas, que, nas plantas, desempenham o mesmo papel do sistema nervoso nos animais.

 

Darwin passou quarenta anos inválido, com uma doença enigmática que o atacou desde sua volta das Galápagos. Às vezes, passava o dia inteiro vomitando, ou confinado ao seu sofá, e à medida que envelhecia apresentou também problemas cardíacos. Mas sua energia e criatividade intelectuais nunca diminuíram. Escreveu um total de dez livros depois de A Origem, muitos dos quais submeteu a extensas revisões – para não falar de dezenas de artigos e inúmeras cartas. Persistiu nos seus interesses variados por toda a sua vida.

Em 1877, por exemplo, publicou uma segunda edição, muito ampliada e revista, do seu livro sobre as orquídeas lançado originalmente quinze anos antes. Meu amigo Eric Korn, antiquário e especialista em Darwin, conta que recentemente teve nas mãos um exemplar desse livro, em cujas páginas encontrou o recibo de uma ordem postal de 1882, no valor de 2 shillings e 9 pence, assinada pelo próprio Darwin, em pagamento por um novo espécime de orquídea. Darwin morreria em abril daquele ano, mas ainda estava apaixonado pelas orquídeas, que continuava a colecionar para estudo, poucas semanas antes de morrer.

Seu último livro, A Formação do Mofo Vegetal Através da Ação dos Vermes, com Observações sobre os Hábitos Destes, publicado no ano anterior à sua morte, voltava a um dos seus temas favoritos – as minhocas, sobre as quais escrevera pela primeira vez mais de quarenta anos antes. Partindo de experiências domésticas realizadas em seu jardim, e extrapolando a partir delas, Darwin revelou que essas criaturas aparentemente insignificantes – até então qualificadas, nas raras vezes em que eram referidas, como uma praga – tinham sido instrumentais na transformação da geografia e da geologia da Terra, digerindo matéria orgânica e transformando-a em solo fértil. Segundo os cálculos de Darwin, apenas na Inglaterra as minhocas eram capazes de submeter mais de 100 bilhões de toneladas de terra a essa transformação num prazo de mil anos.

A beleza natural, para Darwin, não era apenas estética – sempre refletia a função e a adaptação em andamento. As orquídeas não eram apenas flores ornamentais, a serem exibidas em jardins ou ramalhetes; eram dispositivos fascinantes, exemplos da operação da imaginação da natureza, a seleção natural. As flores não precisavam de um Criador, mas eram totalmente inteligíveis como produtos do acaso e da seleção, de pequenas mudanças incrementais que se desdobravam ao longo de centenas de milhões de anos. Esse, para Darwin, era o significado das flores, o significado de todas as adaptações de plantas e animais, o significado da seleção natural.

Diz-se muito que Darwin, mais que qualquer outro, ajudou a pôr fim ao “significado” do mundo – no sentido de uma intenção ou finalidade geral divina. De fato, no mundo de Darwin não existe intenção, desígnio e nem projeto; a seleção natural não tem direção nem finalidade, e nem algum objetivo em direção ao qual avance. O darwinismo, pelo que se afirma, representou o fim do pensamento teleológico. Ainda assim, seu filho Francis escreveu:

Um dos maiores serviços prestados pelo meu pai ao estudo da História Natural foi o renascimento da Teleologia. O evolucionista estuda a finalidade ou o significado de órgãos com o zelo do antigo teleologista, mas com um objetivo muito mais amplo e coerente. Ele tem a consciência revigorante de que está adquirindo não concepções isoladas da economia do presente, mas uma visão coerente tanto do presente quanto do passado. E mesmo quando não consegue descobrir a utilidade de alguma parte, ele pode, graças ao seu conhecimento da estrutura, decifrar a história das vicissitudes passadas da vida da espécie. Dessa maneira, o estudo das formas dos seres organizados adquire um vigor e uma unidade que antes lhe faltavam.

E isso, sugere Francis, “deve-se quase tanto aos trabalhos botânicos de Darwin quanto à Origem das Espécies“.

Perguntando “Por quê?”, procurando o significado das coisas (não num sentido final, mas no sentido imediato de seu uso ou finalidade), Darwin encontrou em seu trabalho de botânico as provas mais convincentes em apoio da evolução e da seleção natural. E, no processo, transformou a própria botânica de uma disciplina meramente descritiva numa ciência evolucionária. A botânica, na verdade, foi a primeira ciência evolucionária, e o trabalho de Darwin na área abriria caminho para todas as outras ciências evolucionárias – e para a descoberta, como define Theodosius Dobzhansky, de que “na biologia, nada faz sentido senão à luz da evolução”.

Darwin define A Origem como “uma longa discussão”. Suas obras botânicas, em contraste, eram mais pessoais e líricas, menos sistemáticas na forma, e obtinham seus efeitos por demonstração, não pelos argumentos. Asa Gray observou que, se o livro sobre as orquídeas “tivesse saído antes de A Origem, Darwin teria sido canonizado, em vez de anatematizado pelos teólogos naturais”.

 

Linus Pauling assinala, num ensaio autobiográfico, que leu A Origem aos 10 anos de idade. Não fui tão precoce quanto ele, e com essa idade não teria sido capaz de acompanhar a “longa discussão” do livro. Mas tive um vislumbre da visão de mundo de Darwin no jardim da minha própria casa – um jardim que, nos dias de verão, enchia-se de flores e abelhas zumbindo de flor em flor. Foi minha mãe, que tinha inclinações botânicas, quem me explicou o que as abelhas estavam fazendo, com as patas amarelas de pólen, e como elas e as flores dependiam umas das outras.

Embora a maior parte das flores do jardim tivesse perfumes intensos e um colorido rico, também tínhamos dois pés de magnólia, com flores imensas, mas desprovidas de cor ou perfume. As flores de magnólia, quando maduras, ficavam cobertas de insetos diminutos, besouros minúsculos. As magnólias, explicou minha mãe, estavam entre as mais antigas das plantas floríferas, e tinham surgido mais ou menos 100 milhões de anos atrás, numa época em que os insetos “modernos”, como as abelhas, ainda não tinham se desenvolvido. Por isso, precisavam contar com um inseto mais antigo, um besouro, para a sua polinização. As abelhas e as borboletas, as flores coloridas e perfumadas, não estavam pré-encomendadas, esperando nos bastidores para entrar em cena – e na verdade podiam nunca ter aparecido. Desenvolveram-se juntas, por etapas infinitesimais, ao longo de milhões de anos. A idéia de um mundo sem abelhas ou borboletas, de flores sem perfume ou cor, deixou-me num estado de profunda admiração.

A noção de extensões tão vastas de tempo e do poder de mudanças minúsculas e sem direção que, por acúmulo, criavam novos mundos – mundos de imensa riqueza e variedade – era vertiginosa. A teoria da evolução proporcionava, para muitos de nós, uma sensação de significado profundo e satisfação que a crença num Plano Divino jamais conseguiria transmitir. O mundo transformava-se numa superfície transparente, através da qual era possível ver toda a história da vida. A idéia de que ela podia ter transcorrido de outro modo, de que os dinossauros ainda poderiam estar percorrendo a face da terra, ou de que os seres humanos pudessem nunca ter aparecido, era estonteante. Fazia a vida parecer ainda mais preciosa, uma aventura extraordinária, sempre em andamento (“um glorioso acidente”, nas palavras de Stephen Jay Gould), não fixada ou predeterminada, sempre suscetível à mudança e a novas experiências.

A vida no nosso planeta tem vários bilhões de anos de existência, e literalmente encarnamos essa história nas nossas estruturas, nos nossos comportamentos, nos nossos instintos, nos nossos genes. Nós, os seres humanos, retemos, por exemplo, os vestígios dos arcos branquiais, muito modificados, dos nossos ancestrais aquáticos – e inclusive os sistemas neurais que, no passado, controlavam o movimento dessas brânquias. Como escreveu Darwin em A Origem do Homem e a Seleção Sexual, “o homem ainda traz em sua estrutura corporal a marca indelével de sua origem primitiva”.

Em 1837, no primeiro de muitos cadernos de notas que manteria sobre “a questão das espécies”, Darwin esboçou o desenho de uma árvore da vida. Sua forma muito ramificada, tão arquetípica e poderosa, refletia o equilíbrio entre evolução e extinção. Darwin sempre enfatizou a continuidade da vida, o quanto todos os seres vivos descendem de um ancestral comum e como, nesse sentido, somos todos ligados por parentesco. Desse modo, os seres humanos não estão ligados só aos macacos e aos outros animais, mas também às plantas. (As plantas e os animais, sabemos hoje, têm 70% do DNA em comum.) No entanto, devido ao grande motor da seleção natural – a variação – cada espécie é única e cada indivíduo também é singular.

A árvore da vida revela, à primeira vista, a antiguidade dos organismos vivos e o parentesco entre todos eles, e que existe (como Darwin definia antes a evolução) uma “descendência com modificação” a cada subdivisão dos seus ramos. Mostra também que a evolução nunca pára, nunca se repete, nunca volta atrás. Mostra ainda a irrevocabilidade da extinção – se um ramo é cortado, um certo caminho evolucionário se perde para sempre.

Eu me alegro com o conhecimento da minha singularidade, da minha antiguidade e do meu parentesco biológico com todas as demais formas de vida. Esse conhecimento me dá raízes, permite que me sinta à vontade no mundo natural, faz-me ter consciência do meu significado biológico, independentemente do meu papel no mundo cultural e humano. E embora a vida animal seja muito mais complexa que a vida vegetal, e a vida humana muito mais complexa que a dos outros animais, atribuo essa consciência do meu significado biológico à epifania de Darwin quanto ao significado das flores, e ao meu próprio vislumbre desse fato num jardim de Londres, quase uma vida inteira atrás.

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Tenho uma dívida especial com David Kohn, Eric Korn e, no Jardim Botânico de Nova York, Robbin Moran, Dennis Stevenson e Jan Stevenson, pelo estímulo e utilíssimas críticas a este artigo.

Oliver Sacks 

Oliver Sacks é neurologista e escritor britânico.