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Dazibao!

A guerra de idéias dos jornais chineses em São Paulo

Adam Sun
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

A esquina da rua Tomás Gonzaga, com o largo da Pólvora e a avenida da Liberdade é uma das mais movimentadas do centro paulistano. Para os engajados na causa da independência nacional, a localização do quartel-general não poderia ser mais inspiradora. Na rua que louva um dos líderes da Inconfidência Mineira, no número 55, sobreloja, cinco imigrantes chineses fazem o Jornal Taiwanês Semanal.

A publicação é pró Partido Democrático Progressista, o DPP, atualmente no poder em Taiwan, uma ilha no Pacífico com 36 mil quilômetros quadrados (75% do tamanho de Marajó) e 23 milhões de habitantes. Até 1971, Taiwan, batizada pelos navegadores portugueses de Formosa, era conhecida como República da China. Naquele ano, para horror dos nacionalistas, as Nações Unidas rebaixaram o país a “província” da República Popular da China (9,6 milhões de quilômetros quadrados, 1,3 bilhão de habitantes). Hoje os ilhéus reivindicam o título de República de Taiwan, país soberano com direito a cadeira na ONU.

“Sou taiwanês, não sou chinês”, declara o diretor de redação, Tsuang Shen Hu, 68 anos, no Brasil desde 1970. Produtor de cogumelos por profissão e editor por militância, Tsuang não renunciou à sua origem étnica – é chinês –, mas faz questão de declinar sua nacionalidade. Seu pendor é francamente separatista.

A origem dessa dissidência tem data: 1949, ano em que Mao Tsé-Tung e seu Partido Comunista Chinês tomaram o poder na China continental, provocando uma debandada geral para Taiwan das forças aliadas do general Chiang Kai-shek, líder do Partido Nacionalista (o Kuomintang/KMT). De uma hora para outra, 6 milhões de ilhéus assistiram ao desembarque de 1,6 milhão de compatriotas do continente, considerados até hoje “forasteiros” pelos nativos. Pobres coitados, tiveram de engolir o regime que lhes seria imposto pelos invasores. De 1949 a 1987, Taiwan viveu sob a égide da lei marcial – espécie de AI-5 amplo e irrestrito –, gerida pelo KMT.

Em 1987, com a revogação da lei marcial, instaurou-se a democracia em Taiwan e legalizou-se o Partido Democrático Progressista, fundado um ano antes. Logo no segundo pleito direto para a Presidência, em 2000, o DPP saiu vitorioso – e a independência entrou na ordem do dia. Nesse mesmo ano foi fundado o Jornal Taiwanês, de circulação mensal. O semanário de oito páginas é editado às quartas-feiras. Os exemplares, gratuitos, são distribuídos às sextas, nas lojas e restaurantes dos patrícios da região.

A poucas quadras do QG de Tsuang, no número 724 da rua Galvão Bueno – batizada em louvor a um mestre da Faculdade de Direito do Largo São Francisco –, ergue-se a oposição: o Jornal Chinês “Americana” (com aspas), que circula de terça a sábado, com 7 mil exemplares. “Historicamente, Taiwan sempre foi parte territorial da China”, diz o diretor de redação, Lee Sang Tien, 43 anos, que emigrou com a família de Taiwan em 1977. “Somos parte da China, mas com um sistema político próprio, de democracia plena. Isso tem de ser mantido na nossa reunificação pacífica com o continente.”

Desde o ensino fundamental, concluído em Taiwan, Lee tinha gosto por história e literatura chinesa. Recebia elogios efusivos de seus professores. Em 1986, essa habilidade idiomática serviu-lhe para obter a vaga de tradutor no Jornal Chinês “Americana”, fundado três anos antes. Foi subindo, subindo, e chegou ao topo do jornal. Com uma equipe de dez funcionários, Lee produz um jornal que chega a doze páginas no fim de semana – 30% das notícias são sobre Taiwan e China, 30% sobre Brasil e São Paulo e o resto se preenche com mundo, cultura e demais penduricalhos. Os exemplares, disponíveis em cinco pontos-de-venda na cidade, custam 2,50 reais cada. O Jornal Chinês “Americana” defende a coexistência de dois sistemas de governo sob uma única bandeira. Ou seja, é 100% anti-secessão.

 

Se a coisa soa complicada, é porque é mesmo. Mais ainda do que parece. Tsuang Shen Hu, do Jornal Taiwanês – para quem já se esqueceu, aquele que defende a secessão –, não tem de se haver apenas com o anti-secessionista Lee Sang Tien. A cerca de 500 metros à esquerda do posto de comando do Jornal Chinês “Americana”, no número 113 da rua São Joaquim – em louvor ao pai da Santíssima Virgem Maria –, localiza-se a sede do Jornal Chinês para a América do Sul, aliado poderoso dos que lutam contra a emancipação.

Em 1993, o diretor Li Jianquan, comunista de carteirinha, trabalhava em Pequim num periódico sobre chineses no estrangeiro, quando recebeu o convite para reestruturar o pioneiro Jornal Chinês do Brasil, criado em 1960 por um grupo de empresários. Depois de três anos, nasceria o Jornal Chinês para a América do Sul, que hoje tem uma tiragem de quase 10 mil exemplares, a 2,50 reais cada, e circula de terça a sábado com catorze páginas em média. Para Li Jianquan, de 50 anos, se Taiwan consta do mapa da China, tem de se sujeitar à legislação vigente, o que significa acatar o decreto de 2404 que barra a separação da ilha. Ou seja, este é 100% alinhado com o governo de Pequim.

Dito isso, o diretor Li tende a evitar polêmicas, preferindo abordar assuntos menos dificultosos, como o concurso Miss Chinesa Cosmos 2007, que escolherá a mais bela chinesa da América Central e do Sul.

O Jornal Chinês para a América do Sul é o que mais agrada a David Shyu, de 69 anos, chinês da Indonésia que chegou ao Brasil há quase quatro décadas e hoje é professor da USP. “Os textos são mais elaborados e os assuntos, mais variados. No entanto, as três publicações cometem o mesmo erro: como são escritas em chinês, elas se isolam da comunidade. Notas bilíngües serviriam de incentivo para os que estão aprendendo o português e seriam entendidas pelos filhos dos imigrantes”, avalia. “O lado positivo é o exercício pleno da liberdade de expressão.”

Nessa seara de pluralidade made in Brazil, pode-se dizer que o público leitor chinês vive o tal momento em que “cem flores desabrocham, cem escolas debatem”, uma das citações prediletas do camarada Mao. Por lá, a coisa não deu muito certo. Como a poética abstrata não costuma ser páreo para a política concreta, a Grande Revolução Cultural do Proletariado (1966-76) pôs abaixo as escolas e despachou os intelectuais para campos de reeducação. Não se viram flores. Por aqui, em terras tupiniquins, a expectativa é que a contenda acabe em pizza, ou, no caso, em pastel. No máximo, num aguerrido Libertas Quae Sera Tamen na primeira página do Jornal Taiwanês Semanal – secessionista, lembrem-se –, estampado em louvor ao bravo Tomás Gonzaga, seu endereço e inspiração.

Adam Sun

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