esquina

De magrela na Assembleia

Um deputado hare krishna

Eduardo Ribeiro
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

Jorge Gomes de Oliveira Brand abriu a porta de seu gabinete na Câmara Municipal de Curitiba e a segurou com um pé no batente. “Vamo aí, gurizada? Está na hora”, disse. Eram cinco da tarde de uma sexta-feira de novembro. Chovia muito, a gurizada se mostrava relutante. “Não podemos faltar num compromisso com os ciclistas”, ele insistiu. Recém-eleito deputado estadual, Goura, como se apresenta e é conhecido, cumpria as últimas semanas de seu primeiro mandato como vereador. Os onze funcionários que atuaram em sua gestão também eram ligados ao cicloativismo – e iam trabalhar de bicicleta. Enfim a gurizada se rendeu e saiu pedalando em direção à praça Padre João Bagozzi, no bairro do Portão.

Embrulhados em capas de chuva, dezenas de ciclistas se reuniam sob um aguaceiro ventoso para cumprimentá-lo e pedir melhorias (além das selfies de praxe). De jeans e tênis de camurça ensopados, Goura distribuía fitas sinalizadoras reflexivas. “É importante usar uma no braço e outra na canela, a população anda muito de bike aqui e essa via não tem ciclofaixa”, justificou. “Semana passada morreu um.”

O parlamentar é um homem magro e alto de cabelo castanho-claro, olhos verdes e uma barba espessa bem delineada. Aos 39 anos, filho de mãe psiquiatra e pai poeta e jornalista, ele é um entusiasta da magrela. “A questão sempre esteve presente na minha vida. Meus pais não tinham carro quando eu era pequeno, minha relação com a cidade passava pelo ônibus e muita bicicleta e skate”, disse ele, hoje casado e pai de duas crianças.

Mestre em filosofia pela Universidade Federal do Paraná – estudou a metafísica de Schopenhauer e a relação do filósofo com o pensamento indiano –, o curitibano é professor de sânscrito e ioga, escalador e peregrinador. Nos anos 90, se engajou no movimento Straight Edge – vertente da cultura punk que defende a abstinência de qualquer tipo de droga. Em 1998, participou de uma cerimônia de iniciação na Índia, ao longo da qual peregrinou durante um mês com trinta monges. Aderiu então ao movimento Hare Krishna – uma vertente do hinduísmo – e passou a se chamar Goura Nataraj Das, que significa “o servo dos reis dançarinos de Krishna dourado”. Não come carne há 23 anos, mas voltou a beber álcool e, ocasionalmente, fumar um baseado.



 

Em 2004, Goura entrou no Interlux Arte Livre, um coletivo de arte contemporânea, urbanismo e políticas libertárias fundado dois anos antes. Nas reuniões do grupo, começou a insistir que a bicicleta seria a solução para o caos urbano. Ele acompanhava pela internet os cicloativistas de São Paulo e estava lendo o livro Apocalipse Motorizado: a Tirania do Automóvel em um Planeta Poluído, uma espécie de bíblia do movimento. Logo no ano seguinte, o coletivo organizaria a primeira Bicicletada de Curitiba, um encontro de ativistas pela desmotorização dos centros urbanos.

Segundo Goura, suas bandeiras políticas são todas influenciadas pelo contato com bandas punk como Dead Kennedys, da qual continua fã. “Com o tempo, a contestação ao poder autoritário promovida pela música punk, as panfletagens e os happenings pela cidade já não me satisfazia”, disse. “Senti que precisaria me infiltrar no esquema para ter influência concreta nas tomadas de decisões.”

Foi pensando assim que, em 2014, Goura tentou se eleger deputado federal, sem sucesso. Acabou convidado pelo então prefeito Gustavo Fruet – do PDT, como ele – a integrar a equipe da Secretaria de Trânsito. Em 2016, elegeu-se vereador pelo PDT. No pleito de outubro de 2018, foi o único vereador da cidade a ser eleito deputado estadual, com 37 366 votos.

A figura fora do padrão do parlamentar hare krishna incomodou os opositores – a começar pelo prefeito Rafael Greca (PMN). O alcaide – que por diversas vezes criticara a implantação de ciclovias durante os embates contra Fruet nas eleições de 2016 – pareceu fazer troça com o nome do vereador ao evocar numa entrevista suas propostas para os defensores das bicicletas. “Comigo os ciclistas terão um plano de ciclomobilidade à altura de Curitiba, e não essa improvisação amadora dos agourentos”, afirmou Greca à Tribuna do Paraná em março de 2018.

Mas o prefeito não se referia a Goura, conforme alegou à piauí sua assessora Mônica Guimarães Santanna. “Por formação, Greca domina um léxico amplo, usando-o nas suas manifestações”, afirmou. A crítica do prefeito, continuou, “faz parte do jogo democrático e está dentro dos limites de educação no trato com os agentes políticos”. Santanna disse ainda que a gestão de Greca está equipando terminais de ônibus curitibanos com bicicletários e deve ampliar a malha municipal de ciclovias. “O plano cicloviário que está em fase de conclusão traz avanços muito mais significativos do que as parcas realizações nesta área na gestão anterior.”

 

Dos projetos de lei que o vereador Goura propôs, oito foram aprovados, seis aguardam análise do plenário, sete estão em análise pelas comissões e outros sete foram arquivados. É de autoria dele, por exemplo, a lei que obriga o registro do número de série da bicicleta na nota fiscal, para coibir roubos.

Há quem enxergue o dedo de Greca nos projetos que não foram adiante. “Vários caíram por interesse do prefeito, sobretudo os que dizem respeito ao transporte público”, contou um funcionário da Câmara simpático às ideias de Goura. Foi o caso de iniciativas que previam o compartilhamento de faixas de ônibus com bicicletas ou o incentivo aos carros elétricos na frota de táxis de Curitiba.

O parlamentar não se espanta com a resistência aos seus projetos. Lembrou que Curitiba está entre as capitais mais motorizadas do Brasil (com 1,24 veículo por habitante, fica atrás apenas de Belo Horizonte), e que muitos de seus conterrâneos são contrários às ciclovias. A cidade paranaense tem uma malha cicloviária de 204 quilômetros, menos de metade do que capitais como Rio, São Paulo ou Brasília. “A real é que Curitiba é uma cidade conservadora”, lamentou Goura.

Eduardo Ribeiro

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