despedida

De ponta na Paulista

Chega ao fim a turnê das quatro bailarinas que dançaram na rua para ir a um festival francês

Fábio Fujita
Em meio ao barulho do tráfego, e apesar da pressa dos transeuntes, as meninas arrecadaram 500 reais em cada apresentação de balé clássico
Em meio ao barulho do tráfego, e apesar da pressa dos transeuntes, as meninas arrecadaram 500 reais em cada apresentação de balé clássico FOTO: EGBERTO NOGUEIRA_ÍMÃ FOTOGALERIA_2013

A reunião de urgência na casa dos Silva aconteceu numa noite em fins de fevereiro. Tão grave era a questão que o pai, José Roberto, e a mãe, Marta, abaixaram o volume da novela. Rosana Cristiane, a filha adolescente, pretendia fazer uma viagem ao exterior dali a dois meses. A direção familiar deliberava sobre como viabilizar financeiramente a empreitada.

Marta é dona de casa e seu Zé Roberto, eletrotécnico. Falou-se em organizar rifas. Marta sabia fazer alfajores, poderia vendê-los. Cogitou-se até sacrificar o automóvel da família, se necessário, para que a filha pudesse ir à França, o destino acalentado. Rosana é bailarina clássica e bolsista na Escola de Ballet Sônia Almeida, em Taboão da Serra, na Grande São Paulo. A escola tinha sido convidada a participar de um festival internacional de dança, o Odyssée, em Lyon.

Diante do desapego do seu Zé Roberto com o próprio carango, Rosana intercedeu: e se ela fizesse apresentações de balé na rua, em troca de contribuições espontâneas dos transeuntes? Atônitos, os pais se entreolharam. Mas a Rosana nada parecia mais legítimo do que dançar para conseguir participar de um festival de balé. Os pais ficaram de pensar.

No dia seguinte, ela já havia convencido outras três amigas bailarinas – Bianca Ramos (15 anos), Julia Togni (13) e Giovanna Furlan (13) – a aderirem à ideia. Logo, os progenitores formavam o pessoal de apoio, responsável pela missão de achar um pedaço de calçada bom o suficiente para servir de palco. A própria Rosana sugeriu a avenida Paulista, por onde circulam diariamente 1,5 milhão de apressados.



No primeiro sábado de março, uma expedição com três dos pais partiu na frente para mapear o terreno. Percorreram a Paulista de ponta a ponta, analisando os buracos do solo, a largura das calçadas, a posição do sol. O ponto ideal, avaliou a comissão, seria a calçada oposta ao Masp, o Museu de Arte da cidade. Um policial demoveu-os da ideia, argumentando que seu trabalho seria prejudicado. Tentaram, então, o próprio vão livre do museu, mas foram informados de que precisariam de autorização prévia.

Optaram, então, pela calçada em frente ao Shopping Center 3, num quarteirão nobre da Paulista. Ponto escolhido, a comissão foi buscar as bailarinas. Enquanto elas se trocavam no banheiro do shopping, os pais tratavam de colar no chão uma superfície de linóleo, para dar equilíbrio às sapatilhas. Uma mesinha amparava o equipamento de som.

Prontas, as meninas foram tomadas por uma timidez súbita. Observadas por centenas de olhares, cercadas pelos sons de buzinas e de rasantes de motoboys, o balé a céu aberto lhes pareceu uma experiência embaraçosa. Uma empurrava a outra: “Vai você!” Até que o quarteto todo foi. Pedestres se amontoavam para vê-las. Sacavam seus celulares para fotografá-las. Na caixinha, pingavam os primeiros reais.

 

Rosana já dedicara mais da metade de seus 13 anos ao balé. Aos 5, vivia imitando a cantora-dançarina Joelma, da Banda Calypso, que hoje renega. Aos 6, perguntou à mãe se poderia dançar balé na escola. Ela concordou, imaginando que fosse um plano futuro da filha. No mesmo instante, a menina sacou a ficha de inscrição, dizendo: “Assina aqui.”

A bailarina cursa o 8° ano e, até o 5°, estudou em escola pública. Em 2011, quando soube que sua turma passaria para o turno vespertino, deu-se o dilema: seria impossível conciliar as aulas de balé, que aconteciam à tarde. Para mantê-la no período matutino, os Silva a puseram num colégio particular. “Acho que é o mais barato de São Paulo”, especula Zé Roberto, citando a mensalidade de 297 reais.

Colocar a caçula no ensino privado só foi possível porque a filha mais velha, Marta Cristina, de 23 anos, trabalha e paga a própria faculdade, enquanto o rebento do meio, Roberto Renan, 18, seguiu no colégio público (e também já trabalha, numa tapeçaria). Mesmo assim, o novo gasto apertou o orçamento familiar. O pai passou a se desdobrar para conseguir mais fiações para reparar nos fins de semana.

No ano passado, uma queda no desempenho escolar de Rosana quase pôs tudo a perder. O pai foi duro: se não se recuperasse, a tiraria do balé. No bimestre seguinte, as notas do boletim já tinham voltado ao azul. “Ela fez a parte dela. Então eu também tinha que fazer a minha”, explicou seu Zé Roberto, sobre a hipótese de vender o carro para financiar a viagem da filha – ele nem acabou de quitar o Palio 2001, comprado em 2009 em 48 prestações. Rosana chegou a dizer à família que tudo bem se tivesse que ficar de fora da viagem. “Mas a gente sabe que ela ficaria arrasada”, confidenciou a mãe.

 

Passada a hesitação da estreia, as meninas ficaram eufóricas com a acolhida do público. Tanto que no dia seguinte, um domingo, voltaram para repetir a experiência. Mas ao chegarem à calçada, foram surpreendidas por uma dupla aparição de Michael Jackson. Dois irmãos que faziam cover do rei do pop reclamaram o espaço, argumentando usucapião: apresentavam-se ali havia meses.

O moonwalk não podia parar, e as meninas, resignadas, se afastaram cerca de 100 metros dos Jackson. Logo viraram sensação na avenida mais famosa de São Paulo. Houve quem chorasse vendo-as executar passos de O Quebra-Nozes no meio da balbúrdia urbana. “Muita gente nunca viu balé antes”, especula Rosana, sobre o impacto que o espetáculo causava nos desavisados.

Contagiadas, criancinhas muitas vezes invadiram o retângulo de linóleo para dançar juntas. Motoristas desaceleravam seus carros com os vidros abaixados. Seu Zé Roberto sempre se fez presente para blindá-las do perigo imponderável das ruas. Numa tarde em que um rapaz bêbado tentou ridicularizar as meninas, ele exigiu respeito e fez o abusado chispar do local. Por outro lado, o contato com mendigos surpreendeu as bailarinas. “A gente viu um deles dando todas as moedas que tinha. Juntando, davam 2 reais. Mas depois demos 5 reais para ele”, contou Bianca Ramos. “Eles ficavam muito comovidos com a gente.”

Rosana, Bianca, Julia e Giovanna chamaram tanta atenção que acabaram convidadas para participar de uma gincana televisiva, onde conseguiram um prêmio de 15 mil reais. Ainda assim, o montante não cobria todas as despesas e elas seguiram dançando a céu aberto. Foram dez apresentações no total. Cada vez em que puseram a ponta da sapatilha na rua, tiraram em média 500 reais.

O encerramento da turnê aconteceu no domingo 14 de abril. Quatro dias depois, a missão podia ser considerada cumprida: as meninas partiam para Cumbica, rumo a Lyon. No volante do Palio, seu Zé Roberto levou Rosana ao aeroporto.

Fábio Fujita

Fábio Fujita é jornalista baseado em São Paulo.

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