questões de segurança

Dentro do caveirão

Improvisação, precariedade, quebras constantes - como funcionam os blindados que circulam pelas favelas cariocas

Cristina Tardáguila
Os faróis do Caveirão, que costumam ser trocados quatro vezes por mês, são idênticos aos das velhas Brasílias, e os retrovisores podem ser substituídos pelos de microônibus. Os blindados ficaram lá atrás, enquanto as armas e o know-how dos traficantes evoluíram
Os faróis do Caveirão, que costumam ser trocados quatro vezes por mês, são idênticos aos das velhas Brasílias, e os retrovisores podem ser substituídos pelos de microônibus. Os blindados ficaram lá atrás, enquanto as armas e o know-how dos traficantes evoluíram FOTO: ROGÉRIO REIS_TYBA_2008

Ao ser aberta, a porta do blindado que a Polícia Civil do Rio de Janeiro usa para circular nas favelas cariocas emite um estalo seco, seguido de um rangido rouco. O ar que escapa de dentro do veículo, uma mistura de suor, pólvora e sangue coagulado, revira o estômago, de tão quente e úmido. O policial Hamilton não se abala com o mau cheiro. “Com o tempo, isso aqui vira a sua casa e você nem percebe”, disse ele, numa madrugada recente, ao entrar no Caveirão, o apelido do blindado.

De botas militares, calça cargo e camiseta preta, com o focinho de um jaguar estampado em branco no peito, ele pediu para que o seu sobrenome não fosse divulgado. Antes de mostrar o Caveirão por dentro, Hamilton tirou das costas um fuzil M-16 e se certificou de que a pistola 9 milímetros estava bem atada à perna direita. Nascido em Madureira, Hamilton é investigador da Polícia Civil e há cinco anos trabalha na Coordenadoria de Recursos Especiais, a Core. Em plantões de 24 por 72 horas, o cinqüentão de estatura média, cabelos grisalhos cortados curto e barba espessa cumpre uma função-chave na polícia: é motorista de Caveirão.

Por dentro, a caixa preta de 3 metros de altura por mais de 5 de comprimento se revela mais compacta do que o esperado. Diante de um painel parecido com o de um carro comum, há dois bancos de couro sintético e a caixa de marchas. No teto, um rádio transmissor novo, com inúmeros botõezinhos, chama a atenção. “É a herança do Pan”, explicou Hamilton. Entre as duas portas laterais, um vão amplo e alto permite que policiais fiquem de pé sem tocar o teto. É a torre de tiro, de onde, através de pequenas aberturas, se pode disparar para todos os lados. No fundo, perpendicular à porta traseira, um banco de assento curto, afixado no centro, tem oito lugares, quatro virados para a esquerda e os outros para a direita. O chão é recoberto por uma chapa metálica antiderrapante, e as paredes dispõem de mais de vinte buracos para que os policiais coloquem o cano de suas armas para fora e atirem. As janelas são pequenos retângulos com vidro à prova de balas. O pára-brisa leva a proteção de uma chapa de aço que, além de reduzir em mais de 90% o campo de visão do motorista, diminui pela metade a luminosidade no carro. Escuro e sem ar circulante, o espaço é claustrofóbico.

Hamilton abriu o capô, levantou a chapa que protege o motor e constatou com uma vareta que o óleo do motor estava o.k. Com o polegar, conferiu o nível de água no radiador e, satisfeito, tornou a travar a tampa. Acomodou-se no banco do motorista, girou a chave e pisou no acelerador. As luzes internas piscaram e o ranger do motor transformou a conversa em gritaria. O radiotransmissor foi conectado e no painel um ponteiro indicou que o tanque estava cheio.

A vistoria que Hamilton criou por conta própria para se certificar de que pode sair a campo terminou com uma volta em torno do Caveirão. Percebeu um problema: o pneu traseiro, do lado direito, estava murcho. “Quando o carro fica muitas horas parado, o gel que garante a blindagem se acomoda, e deixa o pneu desse jeito aí, baixo”, resmungou, arremessando longe a guimba do terceiro cigarro do dia.

Às seis da manhã, onze policiais com coletes à prova de bala, fuzis e pistolas emergiram da escuridão e entraram no blindado. Uma vez lá dentro, alguns ofegavam e todos transpiravam. No rádio do Caveirão, Hamilton disse: “Bom dia, companheiro. Dando início à missão 380.”

O Caveirão saiu para a rua, à frente de quatro veículos policiais sem blindagem. A sirene não respondeu ao comando de Hamilton, e ele deixou que um dos carros menores passasse à frente. No primeiro sinal vermelho, o Caveirão brecou e o carro que vinha logo atrás se surpreendeu. Além do pneu baixo e da falta de sirene, o motorista percebeu que o Caveirão estava com um problema nas luzes de freio. A do lado esquerdo queimara.

 

A entrada em operação do primeiro Caveirão – cujo nome oficial é Veí-culo Blindado de Transporte de Pessoal, VBTP -, em 2002, serviu de marco para o novo patamar da repressão policial nos bairros pobres do Rio. Desde então, a criminalidade no estado só fez aumentar. Segundo a Secretaria de Segurança, entre janeiro e novembro do ano passado houve 290 mil furtos e roubos, e 1 250 mortes em confronto com a polícia. Aumentou também o número de VBTPs. Há hoje uma dúzia deles na cidade, dez da Polícia Militar e dois da Civil. Concebidos no governo de Anthony Garotinho, os Caveirões seriam produto de três fatores. Primeiro, a configuração geográfica e social das favelas, com escarpas e vielas estreitas. Superpovoados e de difícil acesso, os morros facilitam o ataque a policiais e a fuga de criminosos. O segundo é o poder de fogo dos traficantes, que dispõem de armamento pesado, capaz de impedir a circulação das forças da ordem. Por fim, há a existência de grupos organizados de criminosos, um deles com mais de trinta anos de vida – o Comando Vermelho -, que controlam significativas parcelas das áreas pobres.

Os antecessores dos Caveirões foram os Paladinos e Brucutus, usados pelo Batalhão de Choque da PM nas manifestações populares e estudantis dos anos 60. Destinados a dispersar passeatas, eles avançavam sobre a multidão e disparavam jatos d’água. O Caveirão, por sua vez, permite que se atire de dentro do veículo, mas seu objetivo é levar policiais até o ponto de confronto de forma rápida e segura. Também abre passagem para companheiros a pé ou sem blindagem, e garante a retaguarda do resto da tropa.

Sentado à mesa mais discreta de um restaurante do centro do Rio, Rodrigo Pimentel, ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais da PM, Bope, disse que os Caveirões foram uma resposta tardia a uma foto que apareceu nos jornais em 1988. Ela mostrava o traficante Ednaldo de Souza, numa laje da Rocinha, empunhando um fuzil AK-47. “Até aquela foto do Naldo, a luta entre traficantes e policiais era de igual para igual”, disse Pimentel, expulso da PM pelas críticas feitas publicamente a comandantes da corporação. “Os dois lados usavam revólveres e pistolas que atingiam alvos a 30 metros de distância. Com o AK-47, os traficantes passaram a acertar policiais a 300 metros.”

Um dos roteiristas do filme Tropa de Elite, Pimentel avalia que os Caveirões estão defasados. “Os blindados ficaram lá atrás, enquanto as armas e o know-how dos bandidos evoluíram”, disse. Ele prevê que, em pouco tempo, os traficantes usarão lançadores de granadas disparados por foquetes, os RPGs, de fabricação russa: “Quem vende AK-47 para bandido vende RPG também.” A Polícia Civil já apreendeu ao menos uma dezena desses lançadores.

Indício da defasagem apontada pelo ex-capitão é o manuscrito de cinqüenta páginas encontrado pela polícia, em abril de 2005, na favela da Fazendinha, no Complexo do Alemão. O texto, entre outras instruções de combate a policiais, ensinava a atacar e destruir um Caveirão. O documento apresentava também um desenho, detalhado, com setas indicando os pontos supostamente frágeis dos VBTPs.

 

Num galpão de cúpula oval erguido num subúrbio do Rio, o homem que participou da fabricação de três dos doze blindados, disse, rindo, que com quinze chapas de aço balístico se faz um Caveirão. “Quinze chapas com blindagem certificada pelo Exército para resistir a tiros seguidos de fuzil calibre 7.62”, detalhou. Na linha de produção, as placas são primeiro cortadas e moldadas por máquinas especiais antes de serem instaladas sobre chassis comuns da Ford. Não fosse pela blindagem dos pneus, e pela proteção extra do motor e da transmissão, os Caveirões encarregados de entrar nas 752 favelas cariocas seriam bem parecidos com os blindados que transportam dinheiro nas ruas asfaltadas do Rio.

David Sampaio é consultor da empresa que faz a conservação dos Caveirões da Polícia Civil. Ele disse que sente um frio na barriga quando vê na televisão os blindados derrubando muros e barricadas com os pára-choques: “O veículo é frágil, não foi feito para isso.”

Com dois telefonemas e uma consulta ao laptop, Sampaio constatou que o blindado número um passou por sua oficina seis vezes no ano passado. E que o número dois, entregue à corporação em agosto de 2007, precisou de três reparos em menos de seis meses. Nenhum dos consertos, ressaltou, demorou menos do que três dias, ou saiu por menos de 2 mil reais, o preço para substituir um único vidro estilhaçado.

“O Caveirão não foi pensado para ficar cinco horas subindo e descendo morros”, explicou Sampaio. “Ele pesa 8 toneladas, dez vezes mais do que um Fusca, e, usado assim, ao extremo, quebra a embreagem, quebra a suspensão, esquenta.”

 

Eram nove e meia da manhã, e o termômetro marcava 27 graus, quando Hamilton entrou de marcha a ré no pátio da Polícia Civil e estacionou o Caveirão 01 na sua vaga cativa. A primeira operação do dia, feita no morro do Dendê contra uma quadrilha que vendia anabolizantes, havia resultado na prisão de doze suspeitos e uma repercussão considerável na imprensa. Molhado de suor, ele foi o último a descer do blindado. Pálido, pediu água e explicou: “O ar-condicionado pifou, e a temperatura no carro passou dos 50 graus.”

Passando a mão sobre a lataria ainda quente do Caveirão, Hamilton contou a história de algumas das vinte marcas de bala do veículo. A maior delas, um círculo prateado em baixo relevo acima da roda direita da frente, não surgiu em um plantão seu. “Deve ser fruto de um fuzil disparado de longe, ou de uma pistola acionada bem de perto”, arriscou. No alto do capô, um círculo enferrujado é indício de que uma bala foi desviada de seu caminho antes de se espatifar contra o pára-brisa. Cabisbaixo, Hamilton comentou: “O primeiro tiro na cara a gente nunca esquece.”

As marcas mais vistosas estão do lado do motorista. São mais de dez cavidades, de cerca de 1 centímetro de diâmetro, que vão da roda à janela esquerda. “Há mais de um ano, no Complexo do Alemão, um maluco jogou uma granada bem na hora em que nossos homens desembarcavam”, disse o policial. “A granada bateu no chão e explodiu contra essa chapa. Os cacos machucaram um colega. O carro resistiu bem, mas balançou como se estivesse em alto-mar.” Apontando para as marcas de bala perto do retrovisor, encerrou as explicações: “Essas aí aconteceram no meu mês de férias. Devem ser de fuzil também. De gente que mira na cara do motorista.”

Quinze minutos depois, Hamilton recebeu a notícia de que haveria uma segunda operação naquela dia. O Caveirão deveria estar pronto para subir o morro do Borel, na Tijuca, ao meio-dia. O investigador pediu licença e fez uma segunda vistoria no blindado. Antes de partir, encheu um boné preto de água, enterrou-o na cabeça e explicou: “Vai ser meu ar-condicionado pelo tempo que durar.”

Em maio passado, um dos blindados da PM teve problemas de freio na favela da Chatuba, no Complexo do Alemão. Com as rodas travadas, não tinha condições de ser rebocado e ficou sob fogo inimigo por quase sete horas, até ser empurrado para uma área mais segura por outros quatro blindados. Dois meses depois, na favela do Jacarezinho, outro Caveirão teve os pneus traseiros rasgados e um farol perfurado a bala. Atingido por duas granadas, precisou de um guincho para retornar ao quartel.

“Em 5 de novembro, o panorama foi ainda pior”, disse o tenente-coronel Alberto Pinheiro Neto, o comandante do Bope, enquanto buscava em seu laptop as fotos que sua equipe tirara naquele dia. Elas registravam o resgate de um dos quatro Caveirões que quebraram em seqüência, sob fogo cruzado, no Complexo da Penha. “Normalmente, quando os blindados da Polícia Civil quebram, são os do Bope que resgatam”, afirmou. “Quando o que quebra é um dos nossos, a situação é difícil, mas contornável. Agora, quando são os quatro carros do Bope que param, vira um drama.”

Para evitar uma repetição da quebra em seqüência, o Bope determinou que uma equipe, composta por quatro homens – um especialista em hidráulica, um eletricista, um mecânico geral e um motorista sobressalente -, deve seguir todos os Caveirões. O objetivo do grupo é prestar auxílio ao blindado. Uma espécie de baby-sitter móvel. No ano passado, o Bope somou 2 200 horas de operação com pelo menos um blindado em campo – o que dá uma média de seis horas de Caveirão por dia, todos os dias do ano. De todas as operações, a equipe de suporte só não precisou atuar uma única vez.

Na garagem do Bope, dez homens fazem todo tipo de improvisação para conservar os Caveirões. Sob o comando do tenente Wolney de Paula, integrante da tropa de elite desde seu surgimento em 1978, eles descobriram que os faróis dos blindados, que costumam ser trocados quatro vezes por mês, são idênticos aos das velhas Brasílias, e que os retrovisores, sempre visados nos tiroteios, podem ser substituídos pelos de microônibus.

“Um farol original sairia por 100 reais”, disse De Paula. “Já um de Brasília, novinho em folha, custou seis. O retrovisor custaria 600 pratas. O de microônibus saiu por 25.” Com esses e outros remendos improvisados, o tenente e seus mecânicos vêm encompridando a vida dos Caveirões. Mas, como disse um dos fabricantes do veículo, “eles não passam de colchas de retalho blindadas”.

 

Chovia fino quando Hamilton retornou da incursão de cinco horas aos morros do Borel e da Formiga. Seu grupo havia capturado um suposto assaltante e recuperado dois carros roubados. “O carro quase fundiu lá no morro”, contou o investigador. Ao acelerar numa viela íngreme, o ponteiro da temperatura do Caveirão entrou na faixa vermelha e acionou o alarme. Hamiltou desligou o motor, abriu a porta e, escoltado por nove homens, foi ver o que acontecia sob o capô. “A tampa do radiador estava tão quente que me obrigou a ir de casa em casa na favela, pedindo uma garrafa de água para jogar em cima.” O conserto foi feito sob rajadas esporádicas e demorou quinze minutos. Hamilton disse que só ficou tenso quando, ao reassumir o banco de motorista, se deu conta de que seu colete à prova de balas havia ficado dentro do carro.

Às sete e meia da noite, depois de tomar uma ducha fria, o celular de Hamilton tocou e ele atendeu com rapidez. Poderia ser a mulher, com quem está casado há 26 anos, ou uma das duas filhas. Mas não. Era alguém querendo saber se o Caveirão poderia rodar. “Olha, não tem condições de trabalhar”, respondeu o policial. Seguindo as instruções vindas do outro lado da linha, escalou o pára-choque e pôs a cabeça dentro do capô. Com a ponta dos dedos, que ficaram imundas de graxa mais uma vez, confirmou que a correia do ar se soltara. Ao retornar à sala de plantão, onde ficaria por pelo menos mais dez horas antes de encerrar seu turno, abriu o livro de ocorrências e anotou: “Blindado número um esquenta em operação. Ar-condicionado não funciona. Correia parece solta.” Esqueceu da sirene, do pneu baixo e da luz de freio. Ao fim de mais um cigarro, procurou um canto e se deixou levar pelo sono.

Roberto Sá, o subsecretário estadual de Planejamento, acha que, mesmo avariados, os Caveirões são essenciais para combater criminosos. Pelos dados da Secretaria de Segurança, o uso de veículos tem reduzido a mortandade de policiais em ação ano a ano. Em 2004, foram 44 baixas na PM, enquanto no ano seguinte o número não passou de vinte. “É curioso que ninguém reclame do médico quando ele põe a luva cirúrgica para se proteger, e critiquem o policial que anda de Caveirão”, disse Sá. “As duas coisas são instrumentos de trabalho que garantem a saúde, o bem-estar e a vida do profissional.”

No ano passado, uma comissão liderada por Roberto Sá foi a Israel em busca de alternativas para os Caveirões. Na sede da Plasan Sasa, empresa do kibutz de mesmo nome, a comitiva brasileira conheceu o Sandcat, blindado desenhado para que as Forças de Defesa de Is-rael, as IDFs, circulem na Faixa de Gaza. “Era um carro moderno, mais leve, para oito homens apenas”, lembrou Sá. “Ele é bem mais fácil de manobrar, e tem um equipamento opcional antichama, uma espécie de extintor para que o pneu incendiado não bote fogo no carro inteiro.” Segundo o subsecretário, o Sandcat seria uma boa opção para o Rio – se não custasse 400 mil dólares, quase três vezes mais do que um Caveirão novo.

Para o comandante Pinheiro Neto, a viagem não foi em vão. Serviu de prova para aquilo que ele já pressentia: os conflitos entre a polícia e os traficantes cariocas são mais violentos dos que os que se dão em zonas de guerra. “Um caminhão italiano que havia servido por um ano no Iraque e estava na empresa para manutenção só tinha cinco marcas de bala na lataria”, disse ele. “Outro dia, um de nossos blindados foi à oficina com nada menos do que 4 mil tiros.”

Uma segunda comissão de autoridades fluminenses analisou o blindado Tigre, da Gorkovsky Avtomobilny Zavod, empresa russa que produz VBTPs há oitenta anos, e descartou o veículo. Além do preço alto (400 mil dólares), a blindagem usada pelo Exército russo nos confrontos com terroristas chechenos foi considerada insuficiente. Ela é capaz de segurar balas de fuzil calibre 7.62 por 39 milímetros, enquanto no Rio proliferam armas de 7.62 por 51 milímetros.

Voltando ao laptop, o comandante do Bope mostrou um vídeo do veículo que considera ideal para a sua tropa: o sul-africano RG32M. O blindado é mais estreito e alto do que o Caveirão, tem proteção antiminas e atravessa galhardamente desertos, pântanos e rios. Ele custa 1 milhão de dólares.

Em dezembro, a Secretaria de Segurança abriu uma licitação internacional para a compra de oito VBTPs. O governo acreditava que israelenses, russos e sul-africanos apresentariam propostas com preços acessíveis. Mas uma única empresa se apresentou, a brasileira Reifasa. A proposta dela foi rejeitada por técnicos da polícia com o argumento de que a Reifasa nunca produzira blindados, e as instalações da empresa não comportariam a fabricação dos oito Caveirões no prazo estipulado pela licitação.

No início de março, uma terceira comissão, com doze autoridades da segurança do Rio, foi ao Haiti. Eles viram em Porto Príncipe a atuação da Força de Paz da ONU, coordenada pelo Exército brasileiro, e voltaram com a certeza de que mais blindados devem ser usados na cidade. “O ideal é substituir essas Blazers que circulam pela cidade por mini-Caveirões”, disse o delegado Rodrigo Oliveira, chefe de Hamilton, que integrou a comissão. Segundo ele, existe um protótipo em teste no Centro Tecnológico do Exército.

Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva inaugurou simbolicamente, no dia 7 de março, as obras do Programa de Aceleração do Crescimento, PAC, em três favelas, foram mobilizados pára-quedistas, fuzileiros navais e atiradores de elite para protegê-lo. No mesmo dia, a primeira página do jornal O Globo mostrava a foto de um Caveirão, na Cidade de Deus, com um pneu estourado por uma bomba de fabricação caseira. Na internet, o clipe do funk Caçador de Caveirão, do desconhecido MC Bocão, atingia a cifra de 367 mil visitas. Seus versos dizem o seguinte:

Caveirão tentou brotar
Foi rajada a noite inteira
Foi parar no ferro-velho
Caveirão virou peneira.
Na favela a bala come.
Nós pode até morrer
mas vai como sujeito homem.
Fuzil, lança-granada,
bota a chapa pra ferver.
Se o Caveirão tentar,
Muita bala vai comer!
Caçador de Caveirão,
Caçador de Caveirão
Se brotar lá na Mangueira,
você vai ficar no chão!

Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é diretora da Agência Lupa e autora do livro A arte do descaso (Intrínseca)

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