esquina

Depois do fogo

O recomeço de uma escola de samba

Juliana Faddul
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2018

Seu Jamil acordou de supetão às oito da manhã do dia 4 de janeiro. Ao ver os dois filhos à cabeceira, o presidente da Acadêmicos do Tucuruvi pensou logo no pior: “Quem morreu dessa vez?” Escaldado, ele se lembrava de um funcionário morto no barracão da escola de samba durante os preparativos para o carnaval de 2017. Um dos filhos tratou de tranquilizá-lo. “Está tudo bem, pai. Houve um pequeno incêndio no galpão, mas ninguém se feriu.” Coube ao outro dar a dimensão do estrago. “Perdemos cerca de 90% das fantasias, mas vai dar tudo certo.”

O dirigente tinha ido dormir num estado de espírito bem diferente. Ele se reunira na véspera com a diretoria para definir os últimos detalhes do desfile que aconteceria dali a cinco semanas. A escola defenderia o enredo “Uma noite no museu”, uma homenagem a grandes museus do Brasil e do mundo inspirada num filme americano de 2006. O presidente, alguns chefes de ala e o carnavalesco Flávio Campello dirigiram-se até o galpão onde estavam armazenados os adereços da escola. As fantasias já estavam embaladas em plástico para serem entregues aos passistas. Ele sorriu satisfeito: “Estamos prontos para sermos campeões.”

O galpão tinha pé-direito alto e 800 metros quadrados e desde 2010 era a base onde a escola fazia e guardava suas fantasias. Ficava nas imediações do Tucuruvi, na Zona Norte de São Paulo. A prefeitura havia cedido à agremiação um barracão na Fábrica do Samba, a cerca de 10 quilômetros dali, mas o presidente preferia centralizar os preparativos na sua própria vizinhança.

Ao receber dos filhos a notícia do incêndio, ele pediu licença e se recolheu no quarto para meditar. Ficou ali por quarenta minutos e saiu resoluto: a escola sairia a qualquer custo. Reunida para discutir o caso, a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo deliberou que a Acadêmicos do Tucuruvi se apresentaria no Sambódromo do Anhembi, mas não participaria da competição – e não poderia, portanto, ser rebaixada.

 

Outras escolas paulistanas já tiveram seu trabalho destruído pelo fogo, como a Unidos do Peruche em 2003 e a Mocidade Alegre em 2012, ano em que foi campeã apesar da tragédia. Em ambos os casos, porém, o incêndio atingiu os carros alegóricos, e não as fantasias. “Conseguimos levantar um carro em um mês, mas a escola toda tem 3 mil componentes”, comparou o carnavalesco Flávio Campello. “Não há tempo hábil para refazer todas as fantasias.”

Campello foi o carnavalesco campeão de 2017 em São Paulo, à frente da Acadêmicos do Tatuapé, que nunca havia vencido um Carnaval antes. Contou que estava há muito tempo pensando no desfile com a Tucuruvi. “Nas outras escolas eu recebia os enredos e executava, já aqui tive carta branca para realizá-lo”, ele disse enquanto mirava a fantasia incompleta da porta-bandeira. Para o fim do cortejo, o carnavalesco havia previsto uma alegoria em homenagem ao Museu da Língua Portuguesa, fechado desde 2015 devido a um incêndio.

A Acadêmicos do Tucuruvi decidiu que cada componente desfilaria portando ao menos uma parte da fantasia (o único setor a sair completo será a bateria, que buscou os trajes uma semana antes do incêndio). Um mutirão com mais de 100 voluntários se formou para reaproveitar plumas e pedaços de trajes resgatados do incêndio. As fantasias continuam à venda na quadra da escola, a preços que estão na faixa dos mil reais na maioria dos casos.

 

Onome de batismo do presidente da Acadêmicos do Tucuruvi é Hussein Abdo Elselam. Era para ser uma homenagem a um tio, que recusou a honraria por ainda estar vivo, e todos passaram a chamar o menino de Jamil. Aos 84 anos, o descendente de libaneses tem nariz avantajado e usa um bigode discreto. Nas semanas que precederam o desfile, ele foi diariamente ao velho barracão no Tucuruvi onde as fantasias estavam sendo restauradas a toque de caixa.

Numa tarde de janeiro, o presidente estava com a pistola de cola quente prestes a mostrar como pregar uma lantejoula diminuta num traje inspirado nos Jardins Suspensos da Babilônia. “Carnaval é feito de detalhes, não pode ser pré-fabricado”, disse, enquanto mirava com a pistola sem tremer as mãos. Mas o gesto tinha uma motivação mais comezinha: a proverbial sovinice de Elselam, à qual atribuem sua indicação para o cargo de diretor financeiro da liga paulistana de escolas de samba. O presidente queria mostrar que não precisava besuntar o tecido de cola. “O pessoal desperdiça material”, reclamou. “A fantasia fica uma maçaroca, e nós ficamos sem a cola.”

Para o dirigente à frente da agremiação há 26 anos, frequentar o barracão é também uma forma de manter viva a lembrança de Edna Trombini Elselam, uma mineira de olhos azuis com quem foi casado por 54 anos e de quem é viúvo desde 2012. Ele tem no escritório retratos imensos do casal no sambódromo e exalta a eterna primeira-dama da Acadêmicos do Tucuruvi sempre que canta o samba-enredo nos ensaios da escola.

A esposa era a única pessoa em quem o dirigente confiava para dividir a compra de materiais e outras funções. Depois que enviuvou, ele ganhou a fama de centralizador, e nem os filhos, ambos na casa dos 50, participam das decisões mais importantes da escola. Nos dias de ensaio, raramente desce para a pista onde a festa acontece. “Estar atento a tudo, toda hora, cansa”, disse Elselam, o mais velho e longevo presidente de escola de samba em São Paulo.

Em sua mesa, havia naquela tarde vasos com flores de plástico nas cores da escola: azul, branco, amarelo e vermelho. Organizando-os na ordem em que cada uma aparece na bandeira, ele contou que levaria os ornamentos no dia seguinte para o túmulo da esposa, que ele visita todas as sextas e domingos. Elselam prometeu a Edna só se aposentar depois que desse um título para a escola. “Tenho certeza de que vai ser no ano que vem.” Se a premonição estiver correta, será o primeiro campeonato da agremiação fundada há 42 anos.

Juliana Faddul

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