esquina

Deu a louca nas galinhas

A arte de vender ovos

Fabio Victor
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

 

“As galinhas ficaram maluuucas. As galinhas ficaram doidooonas. Quareeenta, quarenta ovos, você só paga 10 reais.” Movendo-se na velocidade de um velocípede, a picape compacta Ford Courier 1998, lataria gasta e pintura prata desbotada, circula pelo Centro de São Paulo, um alto-falante no capô a convocar a freguesia:

“Abaixou o preço, abaixou legal. Chega pra cá, freguês; chega pra cá, freguesa. É o carro dos ovos que chegou à sua rua, diretamente de Bastos. Vamos chegando, comprando e levando [bis]. Quareeenta, quarenta ovos, você só paga 10 reais. Tá boniiito. Tá baraaato. Quareeenta! Abaixou o preço, abaixou legal. As galinhas ficaram maluuucas. As galinhas ficaram doidooonas.”

O dono da voz é também o dono do negócio e o motorista da picape: Higor Alves de Aquino, 29 anos, paulistano que mora em São José do Rio Preto, a 450 quilômetros de São Paulo. Depois de circular com o carro dos ovos em sua cidade, ele toma a direção da capital, onde passa alguns dias até escoar toda a carga de 7 200 unidades.

A lentidão do carro (cerca de 5 quilômetros por hora, no cálculo do condutor) se justifica pela natureza do comércio. A ideia é que o pregão desperte a atenção dos moradores encastelados nos prédios e que estes tenham tempo de sair de casa e alcançar a loja ambulante.

No Brasil, a venda de alimentos nas ruas, anunciados pelos brados dos comerciantes, é uma prática antiga. Em uma passagem de Dom Casmurro, publicado em 1899, Machado de Assis registra os esforços de um ambulante de doce: “Tínhamos chegado à janela; um preto, que, desde algum tempo, vinha apregoando cocadas, parou em frente e perguntou: ‘Sinhazinha qué cocada hoje?’ ‘Não’, respondeu Capitu. ‘Cocadinha tá boa.’ ‘Vá-se embora’, replicou ela sem rispidez.”

Nos anos 60, carros com alto-falantes corriam as cidades do interior oferecendo o pão de forma Pullman e outros produtos da marca. Veículos vendendo pamonhas circulam pelas cidades do país desde os anos 70. Na década de 90, os “pamonhamóveis” tiveram um boom em São Paulo e foi nessa época que Aquino, ainda menino, começou no ramo, como ajudante de um tio que vendia frutas. Entrou para o negócio dos ovos há quase três anos, quando o pico da crise econômica e o aumento da informalidade levaram muita gente para atividades similares nas ruas.

 

O preço varia conforme a demanda, a produção e a freguesia. No Rio, em 2017, outros vendedores ofereciam trinta ovos a 10 reais, e o bordão mais conhecido era: “A galinha chorooou…” Em fevereiro passado, no Leme, Zona Sul carioca, uma Kombi vendia sessenta ovos por 15 reais. Este mesmo veículo oferecia outros produtos: ​“Hoje o moço tem alho, freguesa. Alho bonito, alho roxo, freguesa. Leva o sacão de alho, 10 reais, freguesa. Alho bonito no carro do moço, freguesa. Venha conferir.”

O que distingue cada comerciante e faz a diferença são a retórica e a prosódia. Em carros desse tipo, a mensagem é tão ou mais importante do que o produto e pode definir se o freguês ou a freguesa deixará o conforto do lar para ir ao encalço do carro na rua. E Aquino não tem dúvida de que o texto dele é poderoso.

Ele explica a gênese do script: “Eu estava em casa pensando, e falei para mim mesmo: ‘Tenho que bolar alguma coisa que chame a atenção, um marketing diferente.’ Perguntei: ‘De onde vem o ovo?’ ‘Da galinha.’ E as galinhas só podem ter perdido a cabeça para venderem seus ovos tão baratos. Aí surgiu a mensagem.” Estender as vogais durante a interpretação (“maluuucas”, “doidooonas”, “quareeenta”, “boniiito”, “baraaato”) é parte do charme.

Aquino, um sujeito de olhos claros, barba rala e cabelo liso espetado começando a ralear, conta que a solidão e o silêncio são fundamentais para criar e gravar as falas. “Vou sozinho para o quarto com o celular e gravo no aparelho mesmo. Às vezes escrevo antes, mas outras vezes fecho os olhos, e o texto vem naturalmente.” A etapa seguinte é passar a gravação para um pendrive, que é espetado no som da picape. A mensagem dos ovos tem 1 minuto e 43 segundos e é reproduzida em loop, enquanto o carro se arrasta pela cidade. O comerciante cumpre as jornadas ao lado da mulher, Cibelle, que o auxilia nas vendas.

Bastos, a cidade onde os ovos são comprados, é a segunda maior produtora do país, atrás da capixaba Santa Maria de Jetibá. Não é um detalhe. Propagandear a origem das mercadorias é a alma do negócio – elas costumam ser associadas aos estados ou cidades reconhecidos pela excelência da produção. Assim, os morangos vendidos na capital paulista são anunciados nos carros como provenientes de Atibaia (ainda que venham de outro lugar); as mangas, da Bahia; as pamonhas, de Piracicaba; e os ovos, de Bastos.​

 

Aquino diz que gosta do que faz. Ainda não consegue sobreviver só dos ovos – à noite atua como motorista de Uber –, mas almeja o mesmo sucesso de uma das lendas do ramo, o comerciante José Roberto Avelar, vendedor de pamonhas em São Paulo na virada do século passado para este. A fama de Avelar rivaliza com a de Dirceu Bigelli, que veio antes, nos anos 70 e 80, oriundo da própria terra da pamonha. Bigelli entoava: “Olhaí, olhaí, freguesia. Vai passando o carro das deliciosas pamonhas. Pamonhas caseiras, pamonhas de Piracicaba…”

Nos anos 90, a agência W/Brasil, do publicitário Washington Olivetto, pagou a Bigelli pelo direito de usar sua gravação das pamonhas na divulgação de um aniversário da empresa. O auge da glória de Avelar ocorreu em 2008, ano em que foi entrevistado no Programa do Jô, na Rede Globo.

Aquino é fã de Avelar, com quem seu tio chegou a trabalhar. “Minha inspiração é ‘seu’ Avelar. Ele foi ‘o cara’. Botava música nas mensagens, tinha um estúdio em casa. Vendia fitas cassete com as gravações dele, muita gente comprava, e não eram baratas, não. Mas valiam a pena”, comenta.

O áudio das galinhas doidonas ainda não obteve tanto prestígio, mas pode ser que chegue lá: seu criador diz que já vendeu a gravação a dois concorrentes – e se arrependeu em seguida. “As galinhas malucas são minhas, eu não posso vender minha propaganda, a não ser que paguem muito bem.” Cada comprador pagou 90 reais pelo áudio – valor que daria para comprar 360 ovos.

Fabio Victor

Repórter da piauí. Na Folha de S.Paulo, onde trabalhou por vinte anos, foi repórter especial e correspondente em Londres

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