esquina

Do corpo para dentro

A impaciência de um coreógrafo

Silvana Arantes
ILUSTRAÇÃO: Andrés Sandoval_2019

Débora Roots, 23 anos, a mais recente contratação do Grupo Corpo para o seu elenco de bailarinos, tentava pela quarta vez fazer o passo tal e qual pedira a assistente de coreografia Ana Paula Cançado. Mas a perna desobedeceu de novo. E Paulinha, como é chamada, se impacientou pela primeira vez no ensaio.

“Tadinha!”, murmurou na plateia o coreógrafo Rodrigo Pederneiras, ou simplesmente Digo ou Digão para os vinte suarentos bailarinos sobre o palco.

“Débora, é só uma questão de peso”, disse o coreógrafo. Para demonstrar seu ponto, ele deu um salto e aterrissou com a maior parte do peso do corpo apoiada sobre o joelho esquerdo – o direito jamais se recuperou de uma malsucedida cirurgia que sofreu em 1981.

Aos 64 anos, Pederneiras há muito não dança. Mas a decisão de deixar o palco, ele contou, “foi facílima para quem só queria mesmo coreografar”.

Naquela manhã de novembro, o grupo ensaiava o balé Gira, de 2017, que será apresentado nos Estados Unidos e no Canadá em fevereiro do ano que vem, quando o Corpo comemora seus 45 anos de fundação. Das 39 coreografias que Pederneiras criou até agora, Gira é uma de suas favoritas, mas ele reconhece que tem “um fraseado difícil para os bailarinos”.

Enquanto o grupo estiver em turnê pela América do Norte, a trilha do espetáculo comemorativo de 2020 estará sendo composta – mas ainda não se sabe por quem. Se dependesse apenas de Pederneiras, o compositor já estaria escolhido: David Byrne.

 

Aquele era o segundo ensaio de Gira desde o encerramento da turnê de Gil. Exibido no segundo semestre deste ano, o balé com trilha de Gilberto Gil teve 25 apresentações em quatro cidades. “Os ingressos de Gil se esgotaram antes da estreia. As críticas foram excelentes; a reação do público, maravilhosa. Fiquei satisfeito? Não!”, confessou Pederneiras.

O motivo da insatisfação é que ele julgava a coreografia “ainda cheia de altos e baixos, com um fio condutor muito quebrado”. Por isso continuou trabalhando no balé, com a turnê em andamento e mesmo depois. “Mexi, mas mexi muito.” Agora, acha que chegou ao ponto que queria. Ele disse que os defeitos que mais saltam aos seus olhos não são os dos outros, mas os seus próprios. “Sou mais exigente comigo mesmo.”

A paciência do coreógrafo anda muito curta ultimamente.

Ele contou que já não tem mais nenhuma com a maioria de seus pares, no Brasil e fora dele. Por isso mesmo, parou de assistir a espetáculos de dança. “Eu gostava de pouca coisa do que via. As pessoas começaram a se achar filósofas, muito pretensiosas. Mas quando você vê o espetáculo, cadê a filosofia? Só tem blá-blá-blá e filosofada.”

Sua paciência com o país também chegou ao limite. “O Brasil está me dando uma preguiça danada. Você tem que pensar duas vezes para falar alguma coisa. Se fizer uma brincadeira, então…”, reclamou. “Tudo muito chato, dividido, fragmentado. Cada grupo no seu canto, berrando contra o outro. Está faltando às pessoas olharem para os lados.”

“Recolhido, retraído e tímido” por natureza, como se define, ele tem preferido ficar quieto em casa com seus discos de música clássica, seus livros e a mulher, a ex-bailarina Flávia Couret – seu terceiro casamento. Do segundo, com Cristina Castilho, também ex-bailarina e atual diretora de Comunicação do Grupo Corpo, nasceu, em 1981, Gabriel Pederneiras, que hoje é coordenador técnico do Corpo e pai dos dois netos de Rodrigo. “É a pessoa que mais trabalha aqui dentro”, disse o coreógrafo.

 

Às 13h30, quatro horas de ensaio depois, Rodrigo Pederneiras desceu para almoçar na copa da sede do Grupo Corpo, num endereço de Belo Horizonte de onde se avista a cadeia de montanhas em torno da cidade. Sua salada (alface, rúcula, cenoura, beterraba, ovos e tomate), que é o menu de todos os dias, já estava pronta. “Gosto de rotina.” E de surpresas? “Não sou muito fã.”

Depois que Rodrigo deixou a mesa, Paulo Pederneiras chegou para almoçar. Naquele dia, o diretor artístico teve uma refeição com pratos da culinária árabe. “Se não fôssemos irmãos, talvez nem nos olhássemos mais”, comentou Rodrigo. E explicou que “a tal da intimidade, quando transposta para o ambiente de trabalho, leva você a ultrapassar os limites razoáveis”. Por outro lado, o laço familiar faz com que “as coisas sejam esquecidas mais facilmente”. E assim se vão 45 anos de convivência profissional.

No momento que essa convivência se tornou “muito difícil”, o irmão recolhido, retraído e tímido tomou a decisão mais ao seu alcance. Saiu de cena. “Atualmente, o Paulo decide tudo.” E Rodrigo cria suas coreografias, sem opinar nas demais decisões. Abriu mão inclusive de ter uma sala na sede do grupo. Seu espaço é o teatro onde se dão os ensaios e o pequeno anexo em que os bailarinos descansam e fazem as refeições.

Com eles, Rodrigo Pederneiras tem toda paciência do mundo. A cada um dirige uma pergunta específica na pausa para o café (chá para o coreógrafo): quer saber sobre o inchaço do joelho, a virose da filha, o peso do bebê, a festa do fim de semana. Trata os bailarinos por “filhote” e “filhota”.

 

Após o almoço, o ensaio foi dedicado à “limpeza” dos erros observados durante a manhã, um preciosismo medido em segundos – como o tempo exato de tocar o pé no solo – e milímetros – o movimento preciso da cabeça para cá ou para lá. É isso que garante a qualidade da “dinâmica, velocidade e acentuação” dos gestos, na forma pretendida pelo coreógrafo.

Novamente acomodado em uma poltrona na plateia do teatro, Pederneiras se lembrou de que havia autorizado a bailarina Yasmin Almeida a faltar ao ensaio do dia seguinte. Ele sempre diz sim a pedidos como esse. “Mas é porque há sempre um bom motivo. As pessoas são razoáveis.” O motivo de Yasmin é a estreia, em São Paulo, do curta-metragem Artem, de Jan Monczka, em que ela atua.

“Yá, fala com a Paulinha sobre sua ausência amanhã”, ele gritou para a bailarina.

Ela fez um gesto afirmativo com a cabeça.

“Ou eu falo?”, perguntou Pederneiras.

Yasmin abriu um sorriso de alívio: “Você fala!” E soprou entre as mãos um beijo que girou no ar, em busca de Digão.

Silvana Arantes

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