minha conta a revista fazer logout faça seu login assinaturas a revista
piauí jogos

correspondência

Do Piauí ao Planalto

Da rua Betoven, numa favela da periferia de Teresina, para um gabinete da Presidência, em Brasília – e vice-versa

Carol Pires | Edição 39, Dezembro 2009

A+ A- A

Fazia calor no casebre de taipa na rua Betoven, na Vila Irmã Dulce, em Teresina, no Piauí. A Vila é a segunda maior favela da América Latina cuja origem é uma invasão, e lá apenas 8% dos moradores dispõem de água encanada. Francisca Edna dos Santos Feitosa levantou da rede onde dormia, pegou uma caneta vermelha e foi para o fundo do terreno, onde jazia um ipê apodrecido. Edna, como é chamada pelos familiares e vizinhos, botou a data de 10 de janeiro de 2003 no alto da página, apesar de ainda ser dia 9. Com uma caligrafia insegura, e o português de quem estudou até a 5ª série, preencheu a frente e o verso da folha que arrancara do caderno da filha mais velha:

Saudações

Senhor presidente Luiz Inacio Lula da Silva eu estou lhe escrevendo esta carta para conta a minha real situação eu estou passando, Olha senhor presidente eu tenho uma familia muito grande trabalha alguns nas terras aleia mais agora eles tem que sair por que meu pai esta doente e não pode mais trabalha, eu tambem tenho dois irmão que já são casado e também não tem condições para sobreviver trabalha nas terras aleia no interior distante da qui em cana brava um interior de Buriti Bravo maranhão o sonho deles é vir mora aqui comigo para cuida da sua saúde ele tem colesterio e presão muito alta tem dias que agenda olha pra ele ver que ele esta bom derepente ele comesa ficar todo incricriado echorando falando que vai morer e não vai mais ver nos que moramos aqui eu minhas irmãs quemora aqui nós somos 5 irmãos e meus 2 filhos e o meu marido ele já é bem velho, nos vivemos como apenas um salário e, é por que ele é aposentado por idade nos moramos noma casa pequena sem muito espaso e também tem do lado da minha casa os terreno do meu pai e do meus 2 irmãos mais senhor presidente eu estou comedo de me tomaram por que eu ainda não pude fazer nada e nem eles também , senhor presidente eu estou passando fome eu tenho um butijão já esta com 6 meses que eu não troco ele por que não posso eu estou cosinhando na lenha catando ponta de pau para bota no fogo o meu filho quase more no inicio por que não tinha costume, senhor presidente eu lhe pesso que você tenha pena da minha situação e da minha familia nos queremos uma moradia digina e não podemos senhor presidente eu estou estudando a noite este anos eu vou fazer a 7ª. Serie e gostaria de trabalha para sustenta os meus filhos e gostaria de um emprego para minha irmãs eu lhe pesso um trabalho que eu possa trabalha com dignidade eu amo a responsabilidade.

Senhor presidente eu lhe ploro não deixe mengem toma o pouco que eu a minha familia temos estes terrenos muito obrigado ass: sua fã numero 1. Fca Edna dos Santos Feitosa te amo meu presidente de coração.

O terreno da casa, na periferia ao sul de Teresina, fora comprado pelo pai de Edna com a venda de três porcos e algumas galinhas. Ela morava ali com os dois filhos, o marido Jaime, quatro irmãs mais novas e Samara, uma vizinha acolhida num sufoco: ela havia sido expulsa de casa pelo marido numa noite de chuva, 28 dias depois do nascimento da sua filha.

O mobiliário da casa consistia em dois sofás velhos, dados por uma antiga patroa de Edna, onde dormiam as crianças. Os adultos dormiam em redes penduradas nas paredes vacilantes. A luz puxada da rua não tinha força para ligar o ventilador, que servia para atenuar o calor e espantar insetos. Raimunda, uma das irmãs de Edna, tinha vergonha de ir à escola, tantas eram as marcas de picada de mosquito nos braços e no rosto.

Edna não botou a carta no correio. Dobrou a folha e a guardou num envelope branco.

A 1 800 quilômetros dali, em Brasília, o presidente recém-empossado se preparava para sair na primeira Caravana da Fome, uma de suas promessas de campanha, que percorreria cidades pobres do Piauí, Pernambuco e Minas Gerais. A caravana iria primeiro a Guaribas, o município mais miserável do Brasil. Mas a logística complicada – levar trinta ministros e assessores de avião e helicóptero para o local – provocou uma mudança de rota. O avião presidencial pousou em Teresina e a comitiva dividiu-se em três micro-ônibus, que tomaram o rumo da Vila Irmã Dulce.

Dos ministros anunciados, faltou apenas o dos Transportes, Anderson Adauto (hoje réu por lavagem de dinheiro e corrupção no processo do mensalão), e Tarso Genro. Como era o acontecimento do ano na cidade, Edna não poderia deixar de ir. Sem avisar, não foi à barraca de feira onde fazia um bico.

Lula caminhou meio quilômetro por ruas de barro vermelho antes de subir no palanque, de onde o governador Wellington Dias evocou as riquezas do Piauí, “abastado em ouro e opalas”. O presidente pegou o mote e emendou: “Wellington, você disse que este é um estado rico, que tem muito ouro, diamante, que tem Opalas, Chevettes, Fuscas, tem de tudo.”

Edna não pôde prestar atenção aos discursos. Estava empenhada em forçar o seu 1,48 metro através da multidão, das grades de isolamento e policiais que a separavam do homem de calça cáqui e camisa azul-clara arregaçada que discursava. Não conseguiu e se aproximou de um agente uniformizado que, imaginou, “podia ser da guarda presidencial”. Puxou-o pela roupa e fez um apelo: “Pelo amor de Deus, esta carta é muito importante, você entrega na mão do Lula porque ele precisa receber isto. É questão de vida ou morte.”

 

O Departamento de Documentação Histórica da Presidência da República tem a responsabilidade de receber, catalogar, responder e preservar tudo o que é endereçado ao presidente. Da posse de Lula até outubro passado, o Departamento recebeu 550 mil mensagens postais e eletrônicas, além de 12 742 presentes.

O serviço é dirigido por Cláudio Soares Rocha, um goiano de Catalão que desembarcou em Brasília ainda criança e tem a idade da capital, 49 anos. Formado em história pela Universidade de Brasília, ele é funcionário concursado do Arquivo Nacional, que lhe paga um salário mensal de 4 mil reais, e foi cedido à Presidência da República por outros 5 mil reais. Comanda 43 servidores, requisitados de outros órgãos do executivo, além de dois funcionários comissionados nos chamados “cargos de confiança”.

O Departamento de Documentação Histórica recebeu a carta de Edna no dia 13 de janeiro de 2003. A praxe é responder a todas as cartas em no máximo dez dias, mas como o grosso da correspondência havia se acumulado desde a eleição presidencial, em novembro, o envelope de Edna só foi registrado em 3 de fevereiro.

Em março, Edna chegou em casa depois de um dia de trabalho na Central de Abastecimento do Piauí, onde vendia frutas, legumes e verduras em barracas. As irmãs logo contaram que chegara uma carta para ela com o timbre da Presidência. Ela pensou que era uma cobrança de dívida, mas logo se lembrou do envelope que entregara ao segurança de Lula. A carta dizia o seguinte:

Prezada senhora,

Agradecemos a carta dirigida ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A sua solicitação foi encaminhada ao Ministério das Cidades pelo Ofício DDH/GP/PR 285 de 20/03/2003. 

Para obter informações sobre o andamento do seu pleito, recomendamos que escreva para o seguinte endereço: Ministério das Cidades – Esplanada dos Ministérios – Bloco A – sala 227 – Brasília/DF, 70054-900.

O presidente Lula faz um convite para que continue acreditando e participando cada vez mais da construção do país com que todos sonhamos.  

Atenciosamente,

Cláudio Soares Rocha, diretor

Diretoria de Documentação Histórica

A notícia logo se espalhou, e nas semanas seguintes Edna passou a receber vizinhos interessados na carta do presidente. Todos queriam anotar o endereço mágico de Brasília para também mandar cartas com pedidos. Não sabiam que basta escrever no envelope “presidente” ou, no caso do atual mandatário, “Lula”, e os Correios se encarregam de fazê-lo chegar ao Palácio do Planalto.

 

Com o início das reformas no Planalto, onde ocupava uma sala sem janelas no subsolo, Cláudio Rocha e sua equipe foram desalojados e encaminhados para o Palácio do Buriti, sede do governo do Distrito Federal. Foram necessárias 2 mil caixas, acondicionadas em oito caminhões, para fazer a mudança do Departamento de Documentação de um palácio para o outro. Rocha trabalha numa sala com janelas que vão do teto ao chão, e dispara com satisfação a enxurrada de estatísticas produzidas pelo Departamento.

Das pessoas que escrevem para o presidente, 39% são mulheres, 47% são homens e 14% não se identificam. Setenta e três por cento são adultos, 10% idosos, 2% jovens e 1% crianças. Autoridades e políticos somam 20% e os restantes são classificados como “populares”. Estão no Sudeste 45% dos remetentes, 31% no Nordeste, 11% no Centro-Oeste, 8% no Sul, 5% no Norte e 4% são estrangeiros.

Das 5 718 cartas escritas por crianças, onze convidavam Lula para festas de aniversário. O sistema registra que o presidente não foi a nenhuma das festas. “Presidente Lula, quero que você acabe com a fome no Brasil”, escreveu um menino que, no final da folha, deixou uma observação: “Não era isso que eu queria dizer, mas a professora mandou.”

Passaram-se dois meses. Em 23 de maio de 2003, uma segunda correspondência oficial chegou ao número 2623 da rua Betoven. Ela dizia:

Brasília, 21 de maio de 2003

Assunto: Habitação

Senhora Francisca Edna,

1. Em resposta à correspondência remetida ao Excelentíssimo Senhor Presidente da República, permito-me esclarecer que o Ministério das Cidades é o órgão do governo federal que, entre outras, tem a missão de cuidar dos problemas de habitação enfrentados pelos brasileiros.

1.1. Este é um ministério novo e estamos nos preparando para fazer o melhor trabalho possível. Algumas ações importantes já estão em andamento. Mas não há nenhum programa que permita sejam atendidas pessoas físicas ou casos isolados. Os projetos do governo são voltados para as coletividades, para que os ganhos sejam de todos. E os governos estaduais e distrital, bem como as prefeituras, são responsáveis por identificar comunidades que necessitam de apoio, elaborar projetos e formalizar solicitações de recursos, para análise.

2. Assim, lamentando não poder atendê-la na forma solicitada, sugiro que a senhora procure a prefeitura, levando este ofício, para saber se já existem planos para construção de moradias populares e quais as condições para inscrição.

Atenciosamente,

Dirceu Lopes

Chefe do gabinete do Ministério

O material endereçado ao presidente passa por várias mãos e seções no Departamento de Documentação Histórica. O setor Expediente protocola e divide o que chega, entre cartas e presentes ou malas-diretas. O Processamento Técnico separa o que é “museológico” (presentes, livros e material audiovisual) das correspondências (cartas e documentos).

Só chega à Coordenação, à mesa de Cláudio Rocha, o que é considerado importante. Ali, as mensagens são hierarquizadas com marcadores coloridos. Os de cor laranja, em maior número, dizem respeito à agenda do presidente – convites e pedidos de reuniões – e são encaminhados ao chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho.

A cor verde designa demandas que exigem atenção, uma categoria bastante elástica. Ela pode incluir desde ameaça de suicídio, como quando dois garotos alertavam que sua mãe se mataria se perdesse a casa, por falta de pagamento à Caixa Econômica; a casa foi realmente perdida, mas a dona não se suicidou.

Caso também catalogado como verde foi um envelope contendo 20 reais, sem identificação do remetente ou instrução adicional. Duas semanas depois, chegou um segundo envelope com 50 reais. No mês seguinte, de novo: 120 reais. O Departamento descobriu que o remetente era um cidadão solitário, abandonado pela família. O dinheiro foi reunido em um único envelope e devolvido pelo correio. “Muito obrigado, presidente. Eu estava muito precisando de dinheiro.
O senhor é um santo”, dizia a resposta de agradecimento.

Os pleitos marcados em cor-de-rosa são especialíssimos: podem ser levados ao conhecimento do presidente. Não há um critério claro. Foi o que ocorreu com uma carta postada em Recife, que chegou pouco depois de Lula ter sido eleito. A signatária não dizia o nome verdadeiro e avisava estar escrevendo como se fosse dona Lindu, a mãe do presidente, morta em 1980. Ela dizia que Lula deveria poder dividir com uma mãe – mesmo não sendo a sua – a alegria de tomar posse.

A funcionária do Departamento de Documentação que recebeu a mensagem da falsa dona Lindu entrou chorando na sala de Rocha e lhe deu a carta para ler. Cláudio Rocha levou-a ao chefe de gabinete do presidente e disse: “Leia isso, Gilberto.” Carvalho levou a mensagem a Lula e ficou postado de pé na entrada do gabinete, esperando que o presidente terminasse a leitura. Lula respondeu à mensagem de próprio punho. Ninguém no Planalto sabe o que ele escreveu.

Como ocorreu com todos os presidentes anteriores, a maioria das cartas a Lula é de pedidos de ajuda. O que mudou foi o tratamento. “Antes, se dirigiam ao excelentíssimo, senhor, doutor, estimado, caro. Hoje muitos começam com um despachado ‘Oi, Lula'”, disse Rocha.

Uma carta de Aracaju, recebida em abril dizia: “Toda vez que eu te vejo acho que posso contribuir com o crescimento do Brasil. Eu fazerei tudo o que senhor quiser, é só ligar no meu celular. Se não se importar, eu te chamarei de pai. Xau, pai Lula. Do seu filho, Lula Júnior.”

Na contagem de Rocha, as mensagens excêntricas representam cerca de 1% da correspondência. “Há um homem que escreve para o presidente todos os dias, desde o da posse. Uma carta por dia e nenhuma delas faz sentido algum. Mas nem todo mundo que escreve para o presidente é louco”, assegura ele.

 

Com o ofício do Ministério das Cidades em mãos, Edna foi à Companhia de Habitação do Piauí. Informada de que não havia programa de habitação popular disponível, mesmo assim preencheu um pré-cadastro antes de voltar para casa.

No ano seguinte, em 2004, uma enchente desgraçou ainda mais a Vila Irmã Dulce e, indiretamente, beneficiou Edna, apesar de a casa dela não ter sido invadida pela água. Os governos federal e estadual firmaram um convênio para fazer casas populares e os desabrigados de Irmã Dulce puderam se cadastrar. O nome de Edna, que já tinha feito registro na companhia, entrou na lista oficial. Melhor ainda: ela foi sorteada para ocupar uma das 183 casas de um novo conjunto, batizado de Tenho Fé, vizinho à favela. Ninguém teve de pagar nada. Alguns contemplados venderam suas casas por 300 reais. Edna, seus oito familiares e a vizinha Samara passaram a viver numa casa de 52 metros quadrados com dois quartos, sala, banheiro e cozinha.

 

Cartas com insultos e críticas agressivas são relativamente poucas, tanto para Lula quanto as que foram mandadas a Fernando Henrique Cardoso, Itamar Franco e José Sarney. Fernando Collor deu um pouco mais de trabalho para o Departamento, já que na Presidência dele recebeu até papel higiênico usado, devidamente embalado para presente. Em 2009, Lula recebeu mais cartas injuriosas do que de costume. O aumento tem nome: José Sarney, que foi defendido pelo presidente durante a crise no Senado. As cartas contendo xingamentos não são respondidas.

Entre presentes também há esquisitices. Um aposentado de Brasília se apresentou na portaria do Palácio do Planalto para entregar algo a Lula. Foi orientado a enviar o objeto pelo correio. Em vão: retornou tantas vezes que Cláudio Rocha decidiu ver do que se tratava. O presente era um torno mecânico da década passada, semelhante ao que decepou o mindinho da mão esquerda do presidente, e estava num caminhão. Lula riu da história e decidiu aceitar o presente. “Era algo muito grande, de ferro”, recordou Gilberto Carvalho.

Passado um tempo, durante uma conversa à toa, Lula perguntou a Cláudio Rocha: “Cadê meu torno?” Não havia mais torno. Dias depois de ter deixado o presente, o aposentado voltara à portaria, nervoso, reivindicando o torno de volta. E o recebeu. De lá para cá, voltou a frequentar o Departamento com um novo pleito: viajar no avião presidencial com Lula, para lhe dar sugestões de como o Brasil pode vir a ser um país do Primeiro Mundo. Nos dois últimos meses, já apareceu cinco vezes – toma água, café, conversa com as secretárias e pede audiência. A sugestão de que mantenha distância e se comunique por carta foi prontamente atendida: a primeira missiva já chegou.

 

Seis meses depois de mudar para o Conjunto Tenho Fé, Edna recebeu a visita de três funcionários da assessoria do presidente da República. Olharam sua casa, fizeram perguntas sobre a família, o trabalho, os vizinhos, e anunciaram que Lula faria uma segunda visita ao bairro para conhecer os moradores do novo núcleo. Sua casa estava no roteiro presidencial.

O trio voltou outras três ou quatro vezes, sempre anunciando a visita oficial. Desempregada à época, Edna arrumou 12 reais para preparar a casa para o grande dia: comprou um abacaxi, uma garrafa plástica e gelo. Queria ter pelo menos água gelada para oferecer ao presidente.

Em 3 de agosto de 2005, fazia um sol de rachar quando Lula desembarcou no aeroporto Petrônio Portella, em Teresina. O gelo já esfriava a água de bica dentro da jarra de plástico quando Edna foi avisada de que o presidente não visitaria mais a sua casa. Mas ela poderia encontrá-lo no palanque montado no novo bairro.

Lula chegou de terno preto, blusa social branca e gravata listrada em azul e vermelho. Cumprimentou assessores, políticos locais e foi apresentado a Edna. Ela entregou ao presidente um envelope contendo mensagens de quase todos os vizinhos, inclusive dela. Saiu de lá com um autógrafo do presidente que dizia “Abraço do Lul”, assim, sem o “a”. “Ele era cheiroso demais”, relembrou Edna, enlevada.

Há outras três cartas de Edna registradas no banco de dados do Departamento de Documentação. Como ela concluiu um supletivo noturno em 2007, a caligrafia e o português melhoraram. O seu status na vizinhança também – foi eleita presidente da associação dos moradores de Tenho Fé. Uma das suas cartas diz:

Saudações

Senhor presidente Luiz Inácio Lula da Silva eu lhe agradeso por ter me ajudado conseguir a minha casa própria que era o meu grande sono… mesmo com tudo o que acontece no Brasil hoje eu continuo acreditando…

Mais uma vez preciso de sua ajuda pois devo dois talão de eneria de 108,51 e outro de 110,16 centavos e devo também umas conta a Telemar… Além disso estou tomando 05 tipo de remédio controlado… hoje na minha casa somos 08 pessoas todos desempregado… os moradores querem um mercado municipal para trabalhar para manter sua sobrevivência com a família.

Ela também pediu a construção de um hospital.

… pois é muito dificultoso em hora de urgência pois o mais próximo é no bairro Promorar, e quando chamamos a ambulância dá tempo o paciente morrer…

Num domingo recente, o marido de Edna, Jaime, de 89 anos (55 a mais do que ela), estava sentado numa das cadeiras de plástico da sala da casa nova, que já está com a pintura descascada. A gata vira-lata Nina dormia na cozinha. Os filhos Edson e Edilene assistiam a desenho animado com a pequena Sarah Raquel, abandonada pela vizinha Samara e adotada por Edna. Edna dava plantão no orfanato municipal Lar da Criança Maria João de Deus. Trabalha 24 horas e folga as 48 horas seguintes.

Ela pensa em fazer faculdade e ser assistente social. Por motivo desconhecido, não recebeu a última correspondência enviada pela Presidência da República, devolvida ao Departamento de Documentação pelos Correios. A carta dizia:

Prezada senhora, 

Em resposta a suas cartas de 01/08 e 05/08, dirigidas ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, informamos que, apesar de ele reconhecer as necessidades de cada cidadão individualmente, seu projeto de governo é resolver os problemas da coletividade como um todo, especialmente o desemprego e a desigualdade social. 

A Presidência da República não tem postos de trabalho para oferecer, mas o governo Lula tem proporcionado condições para a iniciativa privada criá-los. Tanto é que o nível de emprego está alto e uma série de medidas tem sido implementada com o objetivo de elevá-lo ainda mais, especialmente nos grandes centros. É por isso que o atual governo apoia tão firmemente o setor produtivo nacional. 

Recomendamos inscrever-se nos postos de intermediação de mão de obra do Sistema Nacional de Emprego, SINE, de sua cidade. Lembramos ainda a possibilidade de conseguir emprego em algum dos níveis da administração pública – federal, estadual ou municipal –, após aprovação em concurso.

Entretanto, se avalia que a localidade onde reside não apresenta perspectivas, sugerimos procurar as que oferecem oportunidades. Os meios de comunicação, especialmente a tevê, têm repetidamente mostrado que em diversos polos industriais e artesanais, em várias regiões do Brasil, as vagas estão sobrando e falta mão de obra. Talvez a chance que procura esteja em um desses lugares. Contamos com sua compreensão e pedimos-lhe permanecer confiando nas ações do Governo, que visam tornar nossa nação mais justa, solidária e próspera para todos.

Quanto ao assunto relacionado com o hospital, informamos sobre o encaminhamento ao Ministério da Saúde para análise e eventuais providências.

O Presidente pede-lhe ainda para acompanhar as realizações do Governo pelo boletim eletrônico “Em questão”, no endereço http://www.brasil.gov.br/emquestao/.

Atenciosamente, 

Claúdio Soares Rocha, Diretor

Diretoria de Documentação Histórica 

Edna contou que escreverá mais uma carta ao presidente. Disse que será a última e não fará pedidos. Apenas agradecerá.