despedida

Dois pesos, duas medidas

A vida venturosa de um caracol, e a vida melancólica de uma elefanta

Roberto Kaz
FOTO: CARLOS NADER - ACERVO ZOO/SP

O biólogo David Sischo soube do óbito às sete da manhã do dia 1º de janeiro. “Uma funcionária do laboratório me ligou e avisou, sem cerimônia: ‘O George morreu.’” Sischo disse ter sentido “um rápido aperto no coração”. Passado o susto, determinou o que deveria ser feito com o cadáver. “Pedi que ela tirasse o corpo da concha e o mergulhasse num recipiente com álcool.” As duas partes de George foram enviadas, então, ao Bishop, o museu de história natural do Havaí, onde ficarão guardadas para a posteridade.

George era um caracol idoso, de 14 anos, dono de uma concha miúda, com menos de 2 centímetros. Bege e marrom, equivalia, em termos cromáticos, a um sorvete metade café, metade brigadeiro, segundo seu obituário no New York Times. Vivia sozinho, se arrastando por uma plantinha ou outra, dentro de um recipiente transparente do tamanho de uma caixa de sapato. Como morreu sem deixar herdeiros, se transformou no último de sua espécie, a Achatinella apexfulva, que abundou nas florestas do Havaí até meados do século XX.

“Ficamos tristes”, contou o biólogo de 39 anos que dirige o Programa de Prevenção à Extinção de Caracóis do governo havaiano. “Por outro lado, a morte do George fez com que o mundo passasse a entender a dimensão do nosso problema.” No passado, o Havaí chegou a ser um eldorado dos caracóis, com 750 espécies catalogadas, praticamente a mesma quantidade de toda a América do Norte. Ao menos metade desapareceu nas últimas décadas. As razões vão da proliferação de predadores – como os ratos – aos efeitos do aquecimento global.

Sob um ponto de vista bem pragmático, a morte de George não teve muita importância. Ele morava num laboratório, sua espécie já era dada como extinta, e não havia muita esperança de que um animal solitário pudesse reverter a gravidade do quadro. Embora os caracóis sejam hermafroditas – o que torna todo exemplar, inclusive George, uma mãe em potencial –, eles precisam de parceiros para estimular a reprodução.

Já sob um ponto de vista menos prático, o desaparecimento de George colocou um ponto final numa história algo poética, quixotesca, sobre meia dúzia de humanos que tentavam salvar uma espécie pouco relevante, se levarmos em conta apenas o tamanho (na verdade, caracóis são importantes para o equilíbrio das florestas, por comerem o excesso de fungos sobre as folhas das árvores).

A saga começou em 1997, quando uma expedição pelas matas de Oahu – uma das oito ilhas principais do Havaí – recolheu dez remanescentes da espécie, que já beirava a extinção. Continuou com George nascendo no laboratório e virando o único sobrevivente de uma praga que assolou todos os seus parentes, na década passada. Novas expedições ocorreram, mas não conseguiram coletar um único exemplar. Em 2017, George foi submetido a uma cirurgia, que lhe arrancou 2 milímetros da pele de uma pata. A esperança é que o material genético, hoje congelado, seja usado, no futuro, para dar vida a um clone do caracol.

 

Cinco dias após a morte de George, o universo dos aficionados por animais sofreu outro baque – esse sem direito a obituário no New York Times, mesmo o defunto sendo 2 metros e 3 toneladas maior que o molusco. Teresita, uma elefanta africana, vivia no Zoológico de São Paulo desde 1996, quando foi entregue pelo Circo do México, onde havia trabalhado de maneira forçada por dez anos, até o dia em que matou o domador a pisadas. O zoológico não dispõe de dados precisos sobre sua procedência, mas a história que se conta é de que ela teria sido raptada no Zimbábue ainda filhote, depois de separada da mãe, e colocada a bordo de um navio com destino ao Brasil.

Elefantes são animais sensíveis, que integram, junto dos cetáceos e grandes primatas, o seleto grupo de bichos capazes de se reconhecer no espelho. Eles não apenas são conscientes da própria existência como têm cultura (formam sociedades matriarcais, em que várias fêmeas se ajudam na criação dos mais jovens), linguagem (comunicam-se por roncos, gritos e rugidos) e uma memória prodigiosa (guardam a lembrança de pessoas, rotas migratórias e lugares onde morreram outros elefantes). A riqueza emocional os torna mais suscetíveis à angústia e à depressão.

Nos 22 anos de zoológico, Teresita nunca teve a companhia de outro elefante. Permaneceu sozinha numa área de terra, com poucas árvores, um tanque para banho, uma poça de lama e um cocho em que se alimentava. O espaço media 726 metros quadrados, o que contrariava uma instrução normativa do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, o Ibama. O órgão prevê, no mínimo, 1 050 metros quadrados para cada elefante africano em cativeiro (na natureza, eles chegam a caminhar 50 quilômetros por dia). Uma placa educativa, fincada em frente à baia de Teresita, informava que elefantes africanos vivem em grupos “com até 100 indivíduos”.

A moradora do zoo paulistano adoeceu em maio de 2018, quando passou a comer menos e a expelir secreções pela tromba e pelos olhos. Foi tratada com antibiótico injetável. Mesmo assim, o quadro evoluiu para uma paralisia facial e exigiu uma cirurgia. A operação pretendia cuidar de um olho da elefanta – que havia ulcerado em função da pálpebra paralisada –, de uma orelha – que havia sido acometida por uma otite – e de um dente, que precisou ser extraído, devido à perda dos movimentos mastigatórios.

Teresita recebeu analgésicos, colírio e sessões de eletroacupuntura. Um especialista chegou a ser trazido do México para lhe examinar o ouvido. “Houve remissão da otite”, apontou o laudo do veterinário Fabrício Braga Rassy, “porém piora do quadro respiratório, da apatia e da diminuição do apetite”. A elefanta morreu num domingo, com cerca de 40 anos, relativamente jovem para indivíduos de sua espécie, que podem viver até os 70 em habitat selvagem. A necrópsia constatou broncopneumonia e infecção no ouvido.

“Quero reunir provas para mostrar que o ambiente em que ela estava ajudou a provocar a doença no pulmão”, disse a promotora que investiga o caso, Vânia Tuglio, do Grupo Especial de Combate aos Crimes Ambientais do Ministério Público de São Paulo. Em nota, o zoológico se colocou à disposição do MP e ressaltou ter adotado todas as medidas possíveis para salvar a elefanta. “Ficamos tristes, porque era um animal bem carismático”, lamentou a bióloga Amanda Alves de Moraes, uma das responsáveis pelo seu trato diário.

O corpo de Teresita foi esquartejado e conduzido a uma área de decomposição, no próprio zoo, onde ficará por três meses, até virar adubo.

Roberto Kaz

Roberto Kaz

Repórter da piauí, é autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras

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