ficção II

Dr. Carlão

Ele era o doleiro do Partidão, isso de mandar dinheiro, trazer dinheiro, essa era a tarefa dele

Bernardo Kucinski
ILUSTRAÇÃO: LABIRINTO_MARK WALLINGER_2013_SOB ENCOMENDA DE ART OF THE UNDERGROUND, LUL_CORTESIA DE ANTHONY REYNOLDS GALLERY, LONDRES_FOTO©THIERRY BAL_2013

Você me pergunta se eu conheço o Carlão, se dá para acreditar em tudo o que ele diz. Conhecer eu conheço, muitos conhecem o Carlão, mas ninguém sabe de fato quem ele é. Ele diz que viu teu pai preso no Dops? Eu é que pergunto: o que é que ele estava fazendo no Dops? O Carlão nunca foi preso. Ele próprio se gaba disso. Nem preso nem fichado. E olhe que ele começou no Partidão muito antes do golpe. Depois se meteu naquele atentado a bomba no aeroporto dos Guararapes, lembra? Só não explodiram o Costa e Silva porque deu pane no avião e o cara foi de carro para o Recife. Mas morreu gente. Depois disso o Carlão sumiu. Foi para Angola. É uma figura esse Carlão, vou te contar como conheci o Carlão e você tira as conclusões. Foi quando o Maciel lançou a revista. O Carlão às vezes aparecia na reunião de pauta dos sábados. Dava na vista, porque era muito mais velho do que nós e usava suspensórios. O que mais me atraiu nele foi o olhar vigilante; achei que o sujeito tinha crânio. O Maciel disse que ele era um empresário progressista chamado José Carlos e que se dispusera a ser o avalista do aluguel. A gente ia para a reunião de pauta com o cu na mão e dava umas voltas no quarteirão antes de entrar.

O Carlão sempre chegava bem depois de começar, sentava ali por cinco ou dez minutos, acompanhando as falas, como se quisesse sentir se estava quebrando algum pau muito feio, mas não abria a boca. Cutucava o Maciel e os dois iam para os fundos. Dez minutos depois voltavam e o Carlão ia embora, dando um tapinha nas costas de um ou outro. Um dia o Maciel me disse: o José Carlos quer falar com você, ele precisa de alguém de confiança para tomar conta de uma loja, e eu expliquei que você cuidou da loja do teu pai por uns tempos e devia ter alguma experiência. Também falei que você acabou de se formar em filosofia e está sem emprego. Eu pensei: a revista não era emprego, era uma mistura de bico e militância; uma grana regular cairia bem. Se o patrão fosse camarada e eu pudesse escrever nas horas vagas, melhor ainda. Peguei o número do Carlão e liguei. Fui atendido por uma tal de Neusa, toda melosa, que marcou para eu ir lá no dia seguinte e me deu o endereço. Depois me arrependi, devia ter me informado antes sobre o Carlão, assim como você está fazendo agora. Bom, mas isso já foi. Voltando à história… O endereço era na Mooca – loja de eletrodomésticos e televisores.

 

escritório do Carlão ficava num mezanino improvisado; ao subir a escada de madeira, percebi que nos fundos, separado da loja por um tapume, havia um espaço enorme, entupido quase até o teto de pilhas de caixas de papelão. A Neusa, como bem imaginei pela voz molhada no telefone, era uma morena que exalava sexo, de corpo cheio, os seios quase estourando na blusa de malha colante, calça jeans também justa.

O senhor é que é o filósofo?, ela disse, e foi me levando pelo braço, toda sorrisos, o doutor Carlos está esperando. O Carlão parecia impaciente; batia com um lápis no tampo da escrivaninha e foi direto ao assunto. Então você é o Medeiros? O Maciel disse que você já cuidou de uma loja. Cuidei, mas não era de eletrodomésticos; era de móveis, eu respondi. É quase a mesma coisa, ele falou. Mas não importa, a loja tem gerente, o Alcides, você não precisa se preocupar com a loja; eu quero alguém para cuidar do estoque, você já deve ter visto o tamanho do depósito. Eu disse que sim, que até tinha achado exagerado para uma lojinha daquele tamanho e num bairro decadente. Nesse momento a Neusa entrou, toda gostosa, com café e água gelada.

O Carlão esperou ela sair, depois explicou que tinha várias lojas na cidade abastecidas por aquele depósito. Vai chegar muita mercadoria e preciso de alguém para cuidar só disso. As peças vêm da Zona Franca de Manaus, entram e saem com meia nota. Eu tinha que conferir e dar baixa, ele falou. Combinou o pagamento, que era bem bom, depois descemos, ele me apresentou ao Alcides e mandou que ele me explicasse como funcionava tudo, os horários, o abre e fecha da loja e do depósito. Esse Alcides tinha uma cara bexiguenta e sotaque baiano. Ele me mostrou o depósito. Os fundos davam numa rua larga e morta, com casas só de um lado e linha de trem do outro. Depois me passou as planilhas de controle e explicou que os caminhões chegavam de manhã, entre oito e nove horas.

Naquela mesma tarde, conferi o estoque com os números da planilha. Estava tudo nos conformes. Logo começou a chegar uma quantidade descomunal de mercadoria. O caminhão descarregava a mercadoria toda, depois carregava a parte que devia ser distribuída para as lojas. O Carlão mal aparecia. Era como na reunião da revista: chamava o Alcides lá para cima, conversavam dez ou quinze minutos, depois desciam os dois e o Carlão ia embora. Me cumprimentava de passagem e fazia o sinal de quem pergunta se está tudo bem.

 

Assim que completei meu primeiro mês no depósito, também recebemos os atrasados da redação. O Maciel chamou um por um e pagou em dinheiro vivo, uma nota em cima da outra. Explicou que a campanha de venda de assinaturas entre os deputados da oposição tinha sido um sucesso acima da conta. Isso foi numa segunda-feira, dia meio morto no jornal. À noite, fomos todos ao Degas comer e encher a cara. Eu devia ter desconfiado desse dinheiro vivo… Como é que a campanha de vendas de assinaturas, que ia de mal a pior, de repente virou um sucesso? O Carlão também me pagava em dinheiro vivo.

A Neusa trazia a grana num envelope e eu assinava um recibo por serviços prestados. Até aí tudo bem. Mas olha o que aconteceu. Um dia descobri que uma das lojas de destino das mercadorias não existia. Foi por acaso, o motorista do caminhão veio com as ordens de entrega e eu percebi que o endereço era na rua da minha tia Flora, no Cambuci. Lá não tem loja nenhuma, é uma ladeira só com prédios de apartamentos. Caralho, pensei, vai ver que tudo isto aqui é um embuste, que essas lojas não existem.

Cheguei a abrir algumas caixas, desconfiando de coisa pesada, armas, drogas, sei lá o quê, pensei. Mas eram eletrodomésticos mesmo. Para onde será que ia tanta mercadoria? E se eu me enroscasse em alguma falcatrua grossa? E as caixas não paravam de chegar, setembro, outubro, o Natal se aproximando e o depósito cada vez mais atulhado. Então dei uma de detetive e chamei o Martins, que tinha uma moto – lembra do Martins? −, e seguimos um dos caminhões. Adivinhe onde é que eles descarregaram a mercadoria? Naquele dia era uma carga de televisores. Deixaram numa loja da rua Santa Ifigênia. Depois o Martins descobriu que o dono dessa loja tinha mais três na Santa Ifigênia, com nomes diferentes, uma simulando competir com a outra.

O Martins, que já conhecia o Carlão de outros tempos, ficou intrigado com a dimensão do esquema. Era muita grana. Sugeriu que a gente procurasse o Sidney, que tinha sido o pau para toda obra do Partidão e conhecia o Carlão e um tal de Takao, que também tinha militado com o Carlão. O plano era juntar as peças, como num quebra-cabeça, para tentar entender qual era a do cara. Nessa altura, eu estava fascinado pelo Carlão, e nem era mais por causa dos riscos que eu podia estar correndo no emprego; eu queria era entender aquele personagem.

 

Num domingo à tarde, sentamos os quatro num boteco da Lapa que fazia uns bolinhos de bacalhau maravilhosos, numa das esquinas da rua Coriolano, e cada um foi soltando o que sabia sobre o Carlão. O Takao falou do caso dos cristais da Tchecoslováquia, revelado pelo próprio Carlão numa noite de tempestade em que os dois estavam indo para o Rio num fusquinha. Naquela época eles trabalhavam quase sempre em dupla. O Carlão era o doleiro do Partidão, isso de mandar dinheiro, trazer dinheiro, essa era a tarefa dele. A história, em resumo, é que o pessoal de Moscou tinha mandado um lote de cristais da Boêmia para o porto de Buenos Aires como bagagem não acompanhada de uma família que havia se mudado para o Brasil. O contrabando era para financiar o partido e ajudar as famílias dos que estavam na cadeia ou tinham sido mortos. Encarregaram o Carlão da operação: achar um laranja que morasse num casarão, contratar o transporte por caminhão de Buenos Aires para São Paulo, cuidar das guias de aduana, tudo. Só que não era uma simples mala ou um baú; era um contêiner, e o Carlão contou que teve uma trabalheira enorme, se gabando do êxito da operação. Depois o Sidney deu uma informação impressionante: que o Carlão tinha uma morte nas costas e que ele ouviu isso do próprio Carlão na época em que estavam armando o atentado do Recife. Ele duvidou que o Carlão tivesse colhões para participar do atentado, ainda mais gordo como era, então o Carlão respondeu que para quem já tinha uma morte nas costas aquilo era fichinha. O Sidney não perguntou mais nada. Como eu disse, a gente não ficava perguntando. Mas essa história ficou gravada na cabeça dele.

Aliás, vou te contar uma coisa sobre esse atentado que pouca gente sabe. Um dos padres presos estava com o mapa desenhado pelo Carlão, e mesmo assim não pegaram o Carlão. Ninguém soube o porquê. Bom, voltando ao esquema dos eletrodomésticos… O Sidney matou a charada na hora. Não era só meia nota, era o golpe do sumiço, por isso chegava tanta mercadoria na véspera do Natal: ele ia passar tudo para o varejo e fechar o depósito sem pagar os importadores da Zona Franca. A meia nota era para impedir os fornecedores de reclamar ou de chamar a polícia. Golpe de milhões, calculou o Sidney. Essa conversa me convenceu a cair fora do depósito. Esperei o fim do mês, recebi, dei um amasso de despedida na Neusa e deixei um bilhete de demissão para o Carlão. Inventei que minha mãe tinha ficado doente e disse a mesma coisa no jornal, para não ter contradição.

Depois as coisas se precipitaram. Fiquei sabendo pelo Anselmo, que você deve conhecer, um que até hoje anda de colete para evitar crises de dor na coluna por causa do tempo que ficou no pau de arara; ele disse que o Carlão apareceu na redação num meio de semana munido de uma chave de roda pesada e berrando que ia acabar com o Maciel. Quebrou portas, cadeiras. O Maciel conseguiu pular o muro dos fundos, escapulindo pela casa vizinha. Foi coisa feia. O Carlão tinha passado uma grana gorda para o Maciel pagar aluguéis atrasados, mas o dinheiro foi usado para ajudar um pessoal do partido do Maciel a fugir para o exterior. A Justiça botou o Carlão no pau, ele não podia mais sacar dinheiro nem usar talão de cheque. Ficou puto, e com razão, não é mesmo? Imagine, você faz o favor de ser fiador, paga os aluguéis que o outro é que tinha que pagar e ainda fica com as contas bancárias bloqueadas? Ele quase matou o Maciel.

 

Mas a história não acaba aí. O melhor ainda está para chegar. Você sabe que, dois anos depois de a revista fechar, eu fui trabalhar num jornal de economia e negócios. Pois bem, logo de cara me escalaram para entrevistar o presidente de uma nova estatal criada pelos milicos para fabricar o primeiro computador comercial brasileiro. Era um modelo simples de computador de bordo, desenvolvido para equipar blindados encomendados pelo Iraque. Antes da entrevista, estudei tudo sobre o projeto, como é o meu jeito de trabalhar, mas não me preocupei com o perfil do presidente que eu ia entrevistar, um tal de J. C. Neuerbach; pelo nome esquisito, imaginei que fosse algum general aposentado – você sabe, os presidentes de estatais eram todos generais de pijama. Pois eu chego em Brasília, me apresento na sede dessa estatal, lá no setor de autarquias, e adivinha quem é a secretária? A Neusa, a gostosa da Neusa, vestida naquele estilo das secretárias de Brasília, toda empetecada, de terninho justo e cabelo engomado. Aí eu entro na sala, e adivinha quem é o presidente da estatal? O Carlão, o próprio. Ele me recebeu sem paletó, de suspensórios e com um olhar irônico. Gabou-se, mostrou os relatórios que recebia dos serviços secretos que funcionam em todos os ministérios e autarquias, disse que todo presidente de estatal recebe esse tipo de documento; é do protocolo. Dei uma olhada, tudo com carimbo de secreto. Então ele falou das mordomias, dos lugares reservados pelas companhias aéreas, dos esquemas de embarque sem check-in,dos jatos da Aeronáutica sempre à disposição, dos jetons que ele recebia por participar nos conselhos de quatro outras estatais, disse que todos participavam de uns quatro ou cinco conselhos, e o salário, assim, quase dobrava, e tudo legal. Eu fingia naturalidade, mas escutava estupefato. Os milicos tinham criado uma castade privilegiados, uma igual à dos países comunistas, e o Carlão era um deles.

 

Bem, essa é a história que eu queria te contar… Agora, voltando à tua pergunta: dá para acreditar que o Carlão viu teu pai preso no Dops? Você diz que a história dele bate com o pouco que se sabe, o dia, o lugar da prisão. Pode ser que ele tenha visto mesmo ou que alguém da nomenklatura viu e passou para ele. Você não tem escolha, precisa agir como se fosse verdade. Mas não se iluda, porque a dica do Carlão pode não passar de um estratagema para te desgastar, para impedir que você leve adiante a denúncia de que mataram o teu pai. Depois me conte o que você descobriu, porque um dia, quando tudo isso acabar, eu vou escrever uma novela, e esse caso pode ser a chave do enigma Carlão.

Bernardo Kucinski

Bernardo Kucinski é escritor e jornalista de política e economia.

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