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    ILUSTRAÇÃO: ZUCA SARDAN

questões farsescas

Dramalhão sucessório

Xavier dos Remédios se rejubila com a alegria do povo e o interesse da imprensa nacional e estrangeira pelos dois mimosos pirralhos reais

Zuca Sardan | Edição 57, Junho 2011

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1º Ato

PARTEIRA

(ZURARO) – Os dois gêmeos, na hora do parto, entram em violenta luta corporal. A pobre Rainha Urraca sofre horrores e a parteira Ismália se afaina em sua delicada tarefa.

(PARTEIRA) – Vinde lá, pirralhos… oiço um crescente marulho!…

(RAINHA) – Valei-me, Santa Matraca!!! Estão-me a galopar pela bacia!!!

(PARTEIRA) – Coragem, Dona Urraca… o tropel se aproxima da porta de saída.

(RAINHA, sai-lhe a placenta, zunindo) – Ai!!, que me arrancam as tripas!!

(PARTEIRA) – Os pirralhos são aguerridos, Majestade, cada qual quer ser o primeirão… A placenta grudou no teto!… Deve ser bom sinal… força e saúde…

(RAINHA) – Ai!, que se decidam!! Estão a revirar-me ao avesso!!

(PARTEIRA) – Eis um morenito que mostra a cabeça!… Já apareceu a testa, e agora os supercílios, os olhos… pontas d’orelhas… que belezinha!…

(RAINHA, zune outra placenta– Pois que saia!!… AAAAiiii!!!

(PARTEIRA) – Ai!, que a placenta se me enroscou ao pescoço!! Mas eis que desponta o outro, está a torcer-lhe o gasnete! Ai!, que pilantra!… Já lhe vou desgrudar as mãos ou esgana o morenito… Solta o mano, ruivão!!! Soooolta!!! Que força da peste!!!

(ESTRONDO, dum baque no Ventre Real) – CAPOOOOOONNNNGA!!!

(RAINHA) – AAAAAAAi!!! Vão me quebrar a bacia!!!

(PARTEIRA) – Pois não é que o pilantrinha ruivão lançou o morenito chorão pros fundos do Ventre Real… Êta, pirralho magano!… Vai dar trabalho, Dona Urraca…

(RAINHA) – Ai!, que o outro quase me sai pelo rabo!…

(PARTEIRA) – Não vale sair pelos fundos… Agora é o braço do pilantrinha ruivão que aparece… ele s’agarrou à borda do balde… e vem saindo, Majestade, vem saindo…

(RAINHA) – Pois que saia!!… Não aguento mais… Ai!, minha Santa Antoxa!…

(PARTEIRA) – Já saiu-lhe a cabeça… é mesmo o ruivão… já apareceu o pescoço…

(RAINHA) – Ai!! Mas que saia duma vez!!… e o outro também, minha Santa Elastra!

(PARTEIRA) – Saiu-lhe agora o busto… o outro braço… barriga… o bilro!… Apareceu o bilro, Dona Urraca!… bem providinho, o pirralho!… vai dar trabalho…

(RAINHA) – Pois puxa-lhe todo pra fora, o bilro e o resto, Ismália!!!

(PARTEIRA) – Calminha, Majestade, que agora já está quase… já sacou fora a perninha direita… mas!… quem vem lá?… o morenito agarrou-lhe a perna esquerda…

(RAINHA) –  AAAAAAAiiiiiiii!!! Que me arrancam os borborigmos!!! POFF!! POOFFF!!!

(RUIVÃO E MORENITO, em coro) – AAAAAAAAAAAAA!!!

(PARTEIRA) – Ai!, que baque!, caem os dois bebés de trambolhão dentro do balde e seguem lutando e gritando CATAPONGA!!! NHÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉ!!! NHÉÉÉÉÉÉÉÉ!!! Ai!, que o Ruivão está amarrando o Morenito com o cordão do umbigo!!… já lhes passo a tesoura… corto-lhes os cordões… PLAC-PLAC!, pronto… agora vos aparto, meus traquinas!… Vamos!!… chega de birras!… ai, que eles são fortes!!! É impossível separá-los!!! UUUUUFFFAAAA!!!… Consegui!!!… Ei-los, Majestade!…

(RAINHA, fitando os pirralhos) – Ai!…meus dois safadinhos!… ides dar trabalho pra nossa Coroa!…  meus dois pilantrinhas malandros… e tu, Morenito… que és tão gira…

(PARTEIRA) – O Ruivão também é simpático, Majestade…

(RAINHA) – É simpático… mas o Morenito é mais gira… Qual nasceu primeiro?…

(PARTEIRA) – Estavam tão embolados, que eu nem sei, Dona Urraca…

(RAINHA, – Pois então foi o Morenito…

(PARTEIRA, ) – Cuidado, Majestade!…Havia um olho grudado no buraco da fechadura… todo gosmento, ai!… era do… Xavier dos Remédios… ele vai contar tudo pro Rei, Dom Diniz. Ai!, minha Santa Leocádia!, que eu não quero ir parar no Santo Offício!

2º Ato

NESSO

(ZURARO, na Torre do Tombo, ajeito a boina, abro o calhamaço do Cronicão, e escrevo) – Xavier dos Remédios se rejubila com a alegria do povo e o interesse da imprensa nacional e estrangeira pelos dois mimosos pirralhos reais. Parecem haver trazido novo lustro para a Coroa e a possibilidade de emissão de belos cromos postais. Xavier procura alegrar o Rei Diniz, que permanece de sombrio semblante.

(XAVIER) – Os Príncipes já estão famosos no mundo inteiro, Dom Diniz!… Morenito e Ruivão são hoje duas celebridades… Ainda nas fraldas e já pertencem ao jet set da mídia internacional. Nosso Reino mais garboso ora se perfila entre as Nações.

(REI) – Mas não temos mais tempo a perder com filigranas jurídicas. Precisamos definir imediatamente a primogenitura. Ao Morenito, que despontou a testa, mas foi lançado às cavas do Ventre Real, intitularemos Príncipe dos Fundos.

(XAVIER) – Príncipe dos Fundos?… Não seria mais digno talvez… Príncipe Tristão?… Aquele seu olhar de peixe morto, que tanto encanta a Rainha…

(REI) – Pois que se chame então… Tristão Moreno. E ao Ruivão, que lançou placentas, tirou fora cara e corpo primeiro e destampou o berreiro, chamaremos… Nesso Ruivão.

(XAVIER) – Néscio, Majestade?… Não seria talvez um nome negativo?…

(REI, irritado) – Eu disse Nesso, por ser ele galopador e flecheiro… NESSO!!!

(XAVIER) – Perdão, Dom Diniz, sou mesmo um néscio… um burro!!… mas fanaticamente fiel a Vossa Majestade. O vosso portador de relíquias…

(REI, suspirando fundo) – Haja paciência, meu São Saco… Eu disse que o menino se chama Nesso!!… É o nome de um famoso centauro.

(XAVIER) – O nome de um centauro pro nosso Príncipe Real?…

(REI) – Exatamente, Xavier… O Nesso é machão decidido, lascou um par de coices nos bagos do Morenito, tem o gênio da raça. É nosso Nesso Ruivão. Vai dar o que falar, Xavier, aos historiadores do porvir!

(XAVIER) – Não seria mais digno… Nelson Colérico?

(REI) – Pouco majestático. Pois que se chame então… Nelson Feroz. Mas a qual dos dois a progenitura? Ao Feroz?… Ou ao Tristão?… Eis a questão.

(XAVIER) – Difícil questão, Majestade, saíram embolados à luz.

(REI) – E embolados despencaram pra dentro do balde. Acho o Nelson Ruivão mais decidido. Mas a Rainha, sempre sentimental, favorece o Tristão Moreno.

(XAVIER) – Creio que o melhor, Majestade, seria nos decidirmos por Nelson Ruivão, que foi afinal o primeiro que mostrou seu bilro. O Tristão Moreno fica pras procissões.

(REI) – Máscula jurisprudência e bom conselho, meu sábio Xavier dos Remédios!

(XAVIER) – Ora, muito grato, Dom Diniz, por vosso régio renovado apreço a este velho Boticário, modesto, mas leal… na guerra e na paz, na vida e na morte!

(REI) – Mas… meu bom Xavier, embora tal decisão se afigure justa… precisamos não esquecer que os partidários morenistas, com o mal disfarçado apoio da Rainha Urraca, armarão inesgotáveis intrigas e conjurações pra nos perder.

(XAVIER) – Ora, ao Tristão Moreno escondemos na cava com uma mascarazinha de ferro. Com viseira apropriada, pra poder… mamar, pelas frestas, nas tetas…

(ZURARO) – Pra maior dramaticidade histórica, talvez eu faça dois buracos na folha do Cronicão, por onde passar as tetas que alimentarão o Morenito… Mas de quem as tetas?… certamente que não as da Rainha Urraca, que por então estará ela a chorar o misterioso sumiço do real pirralho… que tal as tetas de uma cabra?… ou de uma Tágide?…

3º Ato

MÁSCARA

(ZURARO) – Dos dois gêmeos, tem Rei Diniz mal disfarçada preferência pelo Nelson Ruivão. O fiel Xavier dos Remédios, pra resolver o problema sucessório, sugere encomendar, pro segundo gêmeo, o Tristão Moreno, uma bela mascarazinha de ferro. O Rei parece surpreso com a singular solução proposta pelo engenhoso Xavier.

(REI) – Uma máscara de ferro? Tens ideias deveras imprevistas, inéditas…

(XAVIER, mavioso) – Sim, naturalmente máscara ornamental, com filigranas de ouro, e bem confortável. E o berço, em ferro forjado, com ares de gaiolinha.

(rei) – Mas Xavier, aonde queres chegar, com essas ferralhadas?…

(XAVIER, soturno) – Nas cavas, Majestade… Nas cavas do Paço Real.

(REI) – Mas que queres nas cavas, Xavier?…

(XAVIER, gentil sorriso) – Colocar a gaiolinha do Principezinho Tristão Moreno.

(REI) – E o Principezito?… que faríamos do Principezito Tristão?

(XAVIER) – Colocá-lo-íamos dentro da gaiolinha, devidamente aferrolhada.

(REI) – Que ideia cruel… deixar-me-ia mal nos anais da História.

(XAVIER, cavo suspiro) – Nada contaríamos do caso a ninguém. A Razão de Estado, Majestade, impõe terríveis sacrifícios. Confesso-vos que mal contenho amargas lágrimas.

(REI) – Oh, negra tragédia!…Vontades dá-me de m’arrancar as barbas!…

(XAVIER, triste suspiro) – Razão de Estado, Dom Diniz… mas a gaiolinha será confortável, com guizos doiro e chocalhos pendurados. E pra mamar… as tetas roliças duma robusta Tágide!…O pirralho crescerá forte, com pendores poéticos…

(REI, ensandecido de dor) – Oh, negra, negra tragédia!…

(XAVIER, cambaleante) – Treme-me a carcaça… E ainda estamos no terceiro ato.

(REI, cofiando as barbas) – Mas quem traria pras cavas a gaiolinha do Morenito?

(XAVIER, estoico) – Este velho Boticário, o mais leal vassalo de Vossa Majestade.

(REI, pensativo) – Mas quem poria a mascarazinha de ferro no Morenito?

(XAVIER, arrasado) – Este velho desgraçado Boticário, o mais leal e… inexorável.

(REI, sottovoce) – E quem contaria à Rainha Urraca as exigências da Razão de Estado… e o inditoso, o cruel Fado que coube ao Tristão Moreno?…

(XAVIER, sottovoce) – Vossa Majestade, o divino fadista do Cancioneiro de Lisboa…

(REI, ressentido) – Mas ora essa, Xavier!… Não és tu o mais leal de meus vassalos?…

(XAVIER, heroico) – Sim, Dom Diniz, na paz e na guerra, na vida e na morte.

(REI, dialético) – Pois então faz o serviço completo e conta o caso à Rainha.

(XAVIER, maquiavélico) – Bem sabeis do ânimo guerreiro da Rainha Urraca. Em vez do Morenito, iria eu pro fundo da gaiola, o que não resolveria o nosso problema.

(REI, grave) –A Rainha Urraca é de uma fúria indomável. Quando está de veneta, a própria Megera não lhe chega às tamancas. E adora o Morenito!…

(XAVIER, dogmático) – Se lhe conto o caso, favas contadas são que baterei com gaiola e lombo nas cavas. Feliz eu ainda se não tiver de cabeça encafuada ao sovaco.

(REI, pensativo) – Seria bem possível… Melhor então, meu bom Xavier, deixarmos o caso em banho-maria. Devagar com o andor, muitas beatas, ladainhas, procissões…

(XAVIER, elegíaco) – … e fumaças aromáticas s’evolando do incensório. Dominus Vobiscum… E assim acabamos sossegados o terceiro ato. Mas… Dom Diniz!… e o quarto ato?? Não vai ser fácil…

(REI) – Ora, pois, o quarto ato… que fique lá pras calendas, enterrado no fundo do derradeiro baú do último porão da Torre do Tombo… e eu… cantarei um fado.

(ZURARO, tampo o tinteiro, fecho o Cronicão, apago o cachimbo) – Da fumaça vai caindo de mansinho uma cortina d’alcatrão…