poesia

É como tocar a água por dentro

Bruna Mitrano
ILUSTRAÇÃO: LAURA ATHAYDE

I

na infância o sacolejo do ônibus
me dava enjoo
minha mãe me batia se eu vomitava
na roupa nova custou os olhos da cara

aprende garota
pra te valorizarem
é preciso estar bem-vestida

mais tarde manchas na camisa
e um objeto de remorso

você lembra com que idade
deixou de enjoar nas viagens?

você lembra com que idade
deixou de ter pra onde voltar?

gostava que ela ainda estivesse
me esperando no pé da escada

agora é o menino que suja
as roupas que puxa do varal
e resmunga quando cai
a camisa úmida na cara

agora sou eu que finjo
saber o que estou fazendo
enfiada num vestido velho
ralhando com o menino
toda tarde
o mesmo enjoo

e gostava que ela soubesse
que ainda pulo o último degrau
inclinando o corpo pra frente.

[Rosa cresceu num barraco de madeira sem banheiro. Aos onze anos, apanhou da tia por confundir o bidê com a privada. Rosa ou Rosângela Araujo Antonio é a minha mãe.]

II

a minha avó roubava leite
pra dar aos filhos
porque seus peitos empedraram
porque a sequidão é a sina
das mulheres da família
a minha avó roubava leite
por culpa
pela maternidade
que seu corpo descumpria
a minha avó até bem velha
dizia olha a minha língua
não tem saliva
por isso não consigo engolir
e eu via
o rosto da minha avó empedrar
a boca seca
a sua a dos filhos
punição pelos peitos vazios
a vida da minha avó}
esvaindo
e na boca do poço rosto
de pedra
uma voz fraca
vinda do mais fundo
onde uma mulher pode ser
mas nunca em excesso
– nunca o excesso
pra quem foi mãe
aos treze anos em 1934 –
líquida:
vai roubar leite minha neta
seus filhos vão chorar um dia.

[Todo fim de tarde, após pendurar as roupas dos cabos da Vila Militar no varal, Adelina enchia d’água o tanque de cimento. Adelina de Araujo Antonio foi/é a minha avó e o seu tanque foi a minha primeira banheira.]

 

III

não conheci o meu avô
dizem que ele foi morto de porrada pelos vizinhos
quando ameaçou matar a minha avó e os sete filhos

não conheci o meu pai 1
o que engravidou a minha mãe duas vezes
e abandonou a minha mãe duas vezes

conheci o meu pai 2
o que me deu sobrenome e me amou tanto
que fez coisas que um pai não devia fazer

não conheci nenhum homem
que tenha me conhecido

que tenha conhecido
a minha mania de reproduzir com o dedo no ar
as linhas do teto

que tenha conhecido
a história dos meus nove ossos quebrados

ou de quando consegui voltar
antes de anoitecer
pra pensão de moças
depois de me perder no bambuzal
com uma amiga que eu queria
que fosse mais que amiga

não conheci nenhum homem
que tenha conhecido
os sons do meu sono pesado
porque não durmo pesado
perto de estranhos

teve uma época até
sempre alerta e com a mão
direita na faca
debaixo do travesseiro

depois que um homem
na ilusão de me conhecer
fez do meu corpo o seu território
em guerra.

[Abortei espontaneamente numa tarde de verão de 2016. Eu ainda sangrava quando V. se aproximou, puxou a alça do meu vestido e apertou o meu seio esquerdo. Depois, levantou a parte de baixo. Cheguei a ver quando ele começou a se masturbar. Em seguida, apaguei. Acordei sozinha, sangrando e com esperma na barriga. V. me ligou pedindo desculpas.]

Bruna Mitrano

É poeta, autora de Não

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