diário

Em busca de raízes orgânicas

Uma jornalista paulistana de 28 anos que decidiu buscar na internet um lugar onde pudesse tirar férias do mundo virtual foi parar numa comunidade agrícola orgânica nos Pirineus

Ana Carolina Moreno
“No  vilarejo percebi a extensão desse curto intercâmbio. Me senti em casa. Conhecia as famílias vizinhas, as crianças lembravam de mim, entendia o que as pessoas falavam, sabia quem tinha chegado de férias, quem tinha sarado da catapora…”
“No  vilarejo percebi a extensão desse curto intercâmbio. Me senti em casa. Conhecia as famílias vizinhas, as crianças lembravam de mim, entendia o que as pessoas falavam, sabia quem tinha chegado de férias, quem tinha sarado da catapora…” FOTO: TRISHA PATTON

Uma jornalista paulistana de 28 anos que decidiu buscar na internet um lugar onde pudesse tirar férias do mundo virtual foi parar numa comunidade agrícola orgânica nos Pirineus, no sul da França. Passou um mês cavando a terra, carregando engradados de batatas e morando numa yurt. ANA CAROLINA MORENO pagou 15 euros para acessar a lista de fazendas orgânicas que oferecem casa e comida em troca de trabalho voluntário. Essas fazendas, que se multiplicam no mundo todo, participam da rede WWOOF, a World Wide Opportunities on Organic Farms

DIA 1: 2 de julho, sexta-feira_Parti às cinco da manhã rumo à estação de trem e durante todo o trajeto mentalizei o discurso que dispensaria na imigração francesa: estou fazendo turismo, só turismo, esse par de botas pendurado na mochila é para fazer caminhada, o saco de dormir é para acampar e o chapéu… o chapéu foi um presente. Isso porque há dias descobri que o governo francês não gosta de wwoofers e já negou a entrada de vários deles. São gente que – como eu a partir de hoje – mistura o amor à natureza dos hippies com a vocação dos beatniks de vagar pelo mundo numa trilha alternativa (leia-se econômica).

Não é a flor no cabelo ou o mochilão o que desagrada às autoridades. É o passaporte sem visto de trabalho. Mas me preocupei à toa, já que a fronteira do País Basco com a França, de madrugada, é mais livre do que a mente de Timothy Leary durante sua primeira viagem de LSD.

Meu encontro estava marcado para as duas da tarde. Ao descer do trem, procurei pelo homem que me foi descrito como “alto, com cabelos compridos e bronzeado como todos os agricultores”. Comparado ao meu metro e cinquenta e pouco, Jonathan é altíssimo. E delgadíssimo como o palito de madeira que sustenta seus cabelos num coque. O bronzeado de agricultor não é propaganda enganosa.

Percebi de cara que nossa comunicação seria trabalhosa. Marielle, a mulher dele, havia avisado que o marido não fala inglês. Eu, com o meu francês básico e enferrujado, consegui compreender menos da metade da conversa no caminho até a fazenda. Pelo menos consegui entender que chegaríamos a tempo de assistir ao Brasil enfrentar a Holanda na Copa do Mundo.

Antes do jogo, Jonathan apresentou a sua propriedade rural. Começou pela yurt, a tenda redonda de origem mongol de 50 metros quadrados, onde ele dorme e faz as refeições com a esposa e a filha, Salomé, de 2 anos. Do lado de fora, dentro de um antigo trailer, fica o chuveiro. Também externo, protegido por cortinas, o banheiro seco – o vaso sanitário consiste num assento colado em uma tábua de madeira em cima de uma grande lixeira. “Para fazer pipi usamos o bosque”, esclareceu. Contornando o bosque, chegamos ao meu alojamento – uma barraca de acampamento das boas. Lá dentro, sou recepcionada por um colchão, um cobertor e uma almofada.

Em seguida, fui apresentada à área de cultivo propriamente dita. Protegidas por galpões cobertos estão as plantações de tomate, berinjela e abobrinha. Ao ar livre ficam as batatas e as alfaces. Num morrote, as cebolas e, ao fundo, os morangos. No extremo dos 8 hectares da fazenda está o lago de onde o casal retira a água que alimenta o cultivo. Jonathan explica que é possível nadar à vontade ali, desde que a ducha aconteça logo em seguida. O lago tem coliformes. Xixi no mato, chuveiro no depósito, coliformes no lago. Voilá o meu batismo wwoof. Mas a única má notícia do dia foi mesmo a derrota do Brasil.

DIA 2_Sábado é dia de mercado. Saímos às 6h30 num caminhão branco, com Erwann, o vizinho apicultor. Quarenta quilômetros depois chegamos ao que mais me pareceu uma feira de rua em São Paulo. As diferenças maiores são duas: cheiro de peixe e gritaria inexistem.

Jonathan se instala no seu ponto cativo, na esquina de uma praça coberta que compõe o pequeno setor “biô” (de biologique) da feira. À direita, Gilles vende queijo e Martine pão, tudo orgânico. À esquerda, mais pão e o mel do vizinho apicultor. Em frente está a loja de Françoise, que há mais de dez anos oferece centenas de produtos de origem orgânica certificada. Sabão em pó para lavar roupas, chocolate, iogurte de soja, creme de barbear, protetor solar. A variedade é enorme e, pelo que indica a fila no caixa, a clientela também.

No verão, o movimento cai devido às férias, e a venda dos legumes não passa dos 100 euros. O recorde de vendas de Jonathan ocorreu em maio passado (460 euros). Ele explica que sua renda provém principalmente da Amap, às quartas-feiras, mas não entendi a que se referia.

DIA 3_A yurt (em francês, o substantivo é masculino) é linda. Branca dos pés à cabeça, escondida da estrada pelo bosque, é mais lar do que muita casa por aí. A estrutura é de madeira e a parede externa tem isolamento de palha e camadas de lã. O interior tem divisórias de tecidos coloridos. Jonathan explicou que a motivação de morar nessa tenda, cada vez mais famosa na Europa, foi a economia financeira e ecológica na hora da construção.

Uma yurt custa entre 4 e 5 mil euros e sua construção não exige mais de oito horas de trabalho, com a ajuda de oito amigos. Além de não usar concreto nem exigir grandes equipamentos, custa menos de um décimo do preço de uma casa de alvenaria. Por lei, o terreno sobre o qual é erguida é restrito ao uso agrícola e, portanto, mais barato que terrenos residenciais. Uma vez passados os anos necessários para que a lei de zoneamento os considere fazendeiros estabelecidos e quitadas as dívidas contraídas durante a mudança da cidade para o campo, o casal pretende começar a construção de uma pequena casa.

Jonathan, Marielle e Salomé vivem ali há menos de três anos. Têm água encanada, eletricidade, uma porta de vidro (sem fechadura), uma janela tripla e lareira. Na cozinha, geladeira, fogão, pia, balcão e prateleiras. Passando os olhos, vejo outra prateleira com CDs, DVDs, livros e álbuns de fotos. Depois vem a cama do casal com mosquiteiro. O beliche da menina tem uma parte superior que faz as vezes de armário e prateleira de brinquedos, além de mesa. Por fim, um cabideiro para os casacos de inverno e um tapete onde são colocados sapatos e botas. No centro da yurt, sofá-cama, poltrona e a mesa de jantar.

DIA 4_Meu primeiro dia de trabalho foi leve, começou só às 9 horas porque antes o chefe teve que ir à estação de trem buscar a mulher e a filha. Trabalhamos até o meio-dia plantando sementes em potes de plástico preto. A gente se ajoelha de um lado da carriola abastecida com terra e água. De um lado estão os potes e, do outro, empilham-se os engradados cheios de potes com terra. Você enche o pote até a metade e pressiona com os dedos até que o fundo esteja socado. Depois completa o preenchimento fazendo pressão apenas para não deixar a terra fofa demais, sem impedir o crescimento da futura plantinha. O importante é manter a manha até o final.

Após a preparação dos potes (e de eu encontrar um banquinho para não sacrificar meus joelhos e costas), chega a hora de plantar as sementes. Elas são vendidas em pacotes de papel muito bem fechados e guardadas em contêineres de plástico dentro do trailer/chuveiro. Plantei alface: uma semente grande em forma de gota-d’água que deve ser plantada com a ponta aguda para baixo. Mais exatamente, aprendi, a 1 centímetro da superfície do pote. Cada engradado comporta sessenta potes e, claro, a regra número 1 numa fazenda orgânica é o aproveitamento máximo. Multiplicando sessenta por oito chegamos a 480 potes, onde plantamos cinco espécies diferentes de legumes.

Salomé acordou enquanto trabalhávamos. Apareceu de pijama azul e chupeta na porta, com um sorrisão e uma pelúcia de estimação: um pedaço de pano costurado. Marielle, tão alta quanto Jonathan, mas menos magra, trabalha algumas noites por semana como enfermeira num centro para deficientes visuais.

Estão satisfeitos com a guinada radical que deram em suas vidas. Ele (33 anos) e ela (29) se conheceram durante uma excursão de bicicleta. Ambos eram novatos na modalidade, mas desde então já fizeram até um tour de três meses pela Turquia e Grécia. Tudo em cima das respectivas velôs, como chamam as bicicletas aqui. Decidiram sair de Toulouse, a cidade em que moravam, para viver no campo. Jonathan, cozinheiro profissional, foi aprender agricultura. Marielle, cujos pais haviam feito a mesma migração da cidade para o campo quando a filha tinha a idade de Salomé, cogitou cuidar de animais. Mas acabou mantendo a profissão.

O casal optou por uma propriedade de 8 hectares em Pouy-de-Touges, um vilarejo de 600 habitantes a 50 quilômetros ao sul de Toulouse, onde os endereços e códigos postais são os mesmos para várias casas, uma vez que o carteiro conhece todo mundo.

DIA 5_O trabalho começou no horário normal, seis e meia da matina, na plantação de tomates. Minha tarefa consistiu em limpar a terra das ervas daninhas. Jonathan explica que o agricultor orgânico não precisa se preocupar com pragas ou doenças. Seu grande inimigo é a erva daninha, que suga a água das plantas e impede seu desenvolvimento pleno.

A pior delas é o cardo, que é coberto por espinhos da ponta da folha mais alta até o início da raiz. Depois de levar espetadas por uma hora consegui desenvolver um sistema quase 100% eficaz de remoção da peste. Lá vai a receita: jogue terra em cima da planta para diminuir as espetadas. Puxe (com os pés, se necessário) a planta rente ao chão, para encontrar um ângulo de ataque mais favorável. O próximo passo é cavar um pouco em volta da planta para conseguir agarrar o caule com firmeza numa área sem espinhos. Por fim, puxe a planta inteira com uma dose de força controlada. Erro de principiante: tentar arrancar a planta do solo a todo custo, porque é assim que se quebra o caule, e então a raiz continua a crescer e o seu trabalho terá sido meio inútil.

Depois do tomate fui ajudar Jonathan na colheita das batatas. Esse trabalho é feito em dupla: o mais forte usa uma forquilha para levantar as raízes da planta e a fracote aqui rapidamente recolhe as batatas que surgem na superfície, cava mais um pouco com as mãos para encontrar outras – aproveitamento máximo – e as guarda no engradado. Difícil é levar o engradado cheio ladeira abaixo, para buscar um vazio e continuar o trabalho. “Quando sair daqui, você estará tão musculosa quanto eu”, garante Jonathan.

Hélène, uma amiga de Marielle, veio almoçar conosco. De vez em quando, um ou outro amigo do casal vem à fazenda para ajudar em alguma tarefa que necessite de várias mãos. Hélène veio ajudar a plantar sementes de beterraba.

DIA 6_De manhã, colhi os últimos morangos da estação. Guardei-os dentro do meu chapéu de palha comprado há um ano e nunca antes usado. A plantação de morangos ocupa as duas últimas fileiras da fazenda, logo antes do lago. É a única que tem um toldo preto cobrindo a terra, com buracos para as plantas.

Ao contrário do tomate, há poucos espinhos, e cada morangueiro só enfrenta a concorrência de três ou quatro plantas daninhas. Mas elas criam um emaranhado de ramos por todos os lados, que torna bastante difícil o trabalho de remoção das raízes. É bom tomar cuidado para diferenciar a erva daninha do ramo mais longo do morangueiro, pois esta é a parte que será replantada.

Descobri o que é Amap: Association pour le Maintien d’une Agriculture Paysanne, Associação para a Manutenção da Agricultura Camponesa. A organização é produto da reunião de um grupo de pessoas, que assim compram produtos agrícolas diretamente do produtor, eliminando distorções do sistema de distribuição e garantindo a qualidade e a isenção de pesticidas nos alimentos.

Toda quarta-feira, no começo da noite, cada membro da Amap busca a sua cesta de legumes. É Jonathan quem escolhe quais legumes, e em qual quantidade, vão para cada cesta. A escolha é feita de acordo com a época do ano e o ciclo de plantações. Esta semana ele depositou vinte cestas completas no local combinado: atrás de uma igreja de um subúrbio de Toulouse.

Como o preço é fixo, e não é preciso encontrar os clientes, elimina-se o intermediário. Aprendi com meu hospedeiro que as Amaps são uma cadeia de produção e consumo nascida no Japão do pós-guerra, quando muita gente tentava evitar o consumo de alimentos contaminados com resíduos atômicos. Hoje em dia, elas estão na moda em toda a França.

DIA 7_Voltei à tarefa de désherbage do tomate. Eles ainda estão bem verdes. Em duas semanas estarão prontos para serem colhidos e vendidos. Jonathan arrancou um do pé e me fez degustá-lo ali, na hora. À primeira vista, se parece com o tomate que se pega na prateleira do supermercado, ou que é retirado da gaveta da geladeira e colocado no seu prato. Mas o sabor é outro, mais acentuado, mais terra e menos talher – um tomate de verdade. Inesquecível.

Fui promovida a podadora. A tarefa exige uma faca de bolso que desliza para fora do cabo, e que me fez lembrar a que o meu pai usava na fazenda em Araraquara. Poda-se o pé de tomate para que apenas um caule siga em desenvolvimento e não se desmembre para os lados. A planta, que cresce em espiral em volta de uma corda amarrada no teto, tem um caule principal, e nas bifurcações de onde saem os ramos, outros caules começam a crescer. São eles o alvo da poda. Muito cuidado para não confundir o raminho de onde sai o fruto com o caule a ser atacado. Há casos em que dois caules secundários brigam pelo protagonismo, e então entra o viés divino do agricultor. Ganhei autonomia para decidir a vida e a morte de caules e confesso que aplicar o darwinismo assim tão diretamente faz minhas mãos suarem.

Trabalhei nisso até a hora do almoço. E dormi a sesta no pequeno bosque atrás da yurt, na única área do meu novo mundinho com temperatura tolerável. Infelizmente, é onde os mosquitos também procuram uma sombrinha. A onda de calor deste verão europeu tem frequentado todos os noticiários.

No fim da tarde, fomos a um vilarejo próximo participar de uma festa local, típica do verão. Nessas festas há sempre um mercado noturno em grande atividade. Vi que além dos nossos legumes, havia brincos caseiros, bolsas de pano caseiras, gaiolas caseiras, utensílios de cerâmica caseiros, bolos e crepes caseiros e um suco de maçã delicioso. Feito em casa também.

Marielle e eu nos encarregamos das vendas, já que Jonathan só chegaria para o piquenique. Vendemos um total de 2,60 euros, mas não houve estresse. O casal sabe que ainda é novo na região, e que o investimento que fizeram vai se pagando lentamente. Distribuímos panfletos com o mapa da fazenda e o horário do mercado de sexta-feira, e começamos a comer.

Antes de dormir, subi o morro onde fica o galpão das abelhas e fui à fazenda do vizinho, a única da redondeza que tem internet – precisava mandar sinais de vida ao Brasil. Foi meu batismo com o teclado francês, que deve ser um marco da resistência da França em relação ao império americano.

Subir e descer ladeiras de terra desviando dos buracos e espinhos já é complicado. Imagina fazer isso quase à meia-noite, em pleno breu. Erwann, o vizinho, me emprestou uma microlanterna que funcionava literalmente a manivela. Ou seja, tinha que andar no escuro, ladeira abaixo, em meio aos espinhos e buracos, e ainda precisava girar continuamente a manivela para poder enxergar pelo menos o tamanho do matagal em volta. E aí vem a natureza de novo: Lost, o cão-lobo de Erwann, me acompanhou do começo ao fim, mostrando o caminho.

DIA 8_Já não sei há quantos dias estou aqui. Mas já deu para esquecer como é o som da descarga e a cor de unhas limpas. Sujeira e limpeza, aqui, ganham outros significados. Minha casa tem paredes brancas e teto verde. É feita de náilon e a porta é do mesmo tamanho da janela, as duas se fecham com zíper. Dentro, um colchão, meu saco de dormir, um travesseiro, uma mala com algumas roupas, alguns livros e a minha revista de palavras cruzadas, que já chega perigosamente ao final.

Os dias duram dezesseis horas. O calor é tão forte que saio da ducha suando, e até a água do lago deixa de refrescar a partir do quinto segundo. Meu vocabulário continua limitado: chaud, chaleur, canicule, été, lac, douche, eau são os substantivos que eu mais uso. O ser vivo mais citado é a mouche, a mosca. Ontem, na falta de um segundo mosquiteiro, Marielle montou uma tenda dentro da yurt para a filhinha poder dormir em paz.

DIA 9_A minha barraca de acampamento virou um condomínio com a chegada de Trisha, a nova wwoofer da fazenda. Ela tem 29 anos e mora no Havaí, embora seja natural do Missouri. Professora de biologia e formada em dança, tem olhos verdes brilhantes e cabelos curtinhos. Diz que os cortou pela primeira vez na Índia.

Trisha reservou o ano de 2010 para viajar pelo mundo. Começou em Guam, passou pela Índia, depois Israel e agora chegou à França. Pretende seguir para a Espanha em outubro e terminar a viagem “woofando” em várias partes dos Estados Unidos. Montou um blog sobre a viagem e pretende arrecadar 25 mil dólares em prol de organizações de educação ambiental e combate aos alimentos transgênicos.

Como ela não fala francês, acumulo a função de intérprete francês-inglês-francês.

DIA 10_É domingo e todo mundo está de folga. Fomos de carro até um lago aos pés dos Pirineus, nadar entre patos e crianças. À noite preparei arroz, feijão (pré-cozido), panqueca de queijo e brigadeiro. Aqui na roça francesa a comida é deliciosa para quem é vegetariana como eu. Nada de escargots, foie gras ou croissants. A alimentação vem de três fontes primárias: os legumes que sobram das vendas semanais, as trocas com os agricultores da região e a loja da Françoise.

O “fromage de Gilles”, por exemplo, não é camembert, não é emmental, não é gouda. É único e delicioso. Todo sábado Jonathan troca abobrinhas, batatas, alho e outras verduras por vários tipos de queijo de Gilles. De resto, arroz, quinoa, semolina ou batatas nunca podem faltar à mesa. Carne, geralmente frango ou peixe, só uma vez por semana. E, em matéria de sobremesa, ninguém escapa do iogurte (à base de soja) e creme de chocolate (à base de soja). Minha contribuição tem sido o “brigadeirô” na colher ou no pão.

Costumamos fazer cinco refeições por dia, a primeira antes de o sol nascer e a última logo antes de ele se deitar. Almoçamos entre meio-dia e 1 hora e, obrigatoriamente após, começa o momento mais sagrado do dia: a sesta. Quando todo mundo acorda, tomamos uma groselha com bolachas. O jantar é lá pelas oito, nove da noite.

DIA 11_A chegada de Trisha mudou tudo. Primeiro descobri que Jonathan, na verdade, não só entende como também fala inglês, ainda que um pouco. Já havia notado que ele prefere manter sua soberania linguística. Marielle agora só fala inglês conosco. Ela parece contente em praticar o idioma.

A vida na fazenda também ganhou nova perspectiva por causa de outra novidade: Marielle está grávida! Descobri casualmente, enquanto ela contava a história de como conheceu Jonathan. Perguntei brincando quando chegaria o segundo bebê, já que eles disseram que queriam mais crianças. Ela se virou de perfil e disse “Já está aqui”, enquanto imitava uma barriga grávida com os braços. Trisha e eu sorrimos como quem entende a brincadeira e soltamos um really? mecânico. Marielle abriu um sorriso largo e disse: “Yes, really.”

Duas crianças de 0 a 3 anos dentro da pequena yurt, um pai agricultor que trabalha todos os dias da semana, uma mãe que trabalha vários dias da semana à noite, uma fazenda inteira para cuidar e aquele trailer-chuveiro-depósito por arrumar? Foi Trisha quem deu a ideia de fazermos a faxina no trailer e vimos que era agora ou nunca. Bom, vai ser amanhã.

DIA 12_Dito e feito. Depois do trabalho conseguimos retirar tudo o que estava no trailer, limpá-lo de cima a baixo com o aspirador de pó, remover dezenas de teias de aranhas e recolocar todo o material de maneira organizada. Marielle se encarregou de separar o que jogaria fora, quais caixas de ferramentas guardaria no desnível abaixo da yurt, e que roupas doará.

Quando terminamos, foi nítida a sua satisfação de completar uma tarefa doméstica que nunca tinha conseguido fazer sozinha. Além da nova organização, o trailer agora não tem pó, teias e as milhares de bolinhas brancas que suspeitamos serem obra de alguma mariposa. Trisha ainda encontrou um abajur de papel amarelo para incrementar a iluminação e eu montei duas bandejas suspensas do lado de fora da ducha para xampus e sabonetes. Nossos próximos projetos são lavar o carro de Marielle por dentro e fabricar um charmoso cartaz de divulgação da fazenda para ser usado nos dias de feira.

DIA 14_Feriado nacional, aniversário da queda da Bastilha. Jonathan, que é um cara muito gente fina, nos deu o dia de folga. Trisha e eu recusamos. Afinal, Jonathan trabalha sete dias por semana, inclusive feriados, e faz jornada dupla às quartas-feiras, o dia da Amap.

DIA 16_Em meio ao bosque da “nossa” fazenda, há uma clareira onde troncos de árvores fazem as vezes de bancos e mesas ao redor de um forno de argila. Faz parte da casa de Jo, de quem escuto falar desde que cheguei aqui. Jonathan explicou que um amigo suíço vem se hospedar com Jo de vez em quando e gosta de ficar naquele espaço aberto. Por coincidência, Trisha o conheceu na Índia, quando ambos trabalharam numa mesma fazenda de lá. O próximo destino do suíço seria Moçambique.

Quando finalmente me apresentam a Jo, escutei português. Explica-se: um dos mais de 100 países que esse engenheiro naval e voluntário do Médicos Sem Fronteiras já visitou foi o Brasil. Começo a entender melhor a história dessa tribo errante. Há cerca de dez anos um grupo de amigos do norte da França decidiu deixar a cidade e adotar o campo como lar de uma associação anarquista. Compraram juntos um grande naco de terra e cada um começou a trabalhar o espaço que lhe cabia.

Com o passar do tempo, o grupo foi crescendo, casando, descasando, recasando e se mudou. Hoje, meia dúzia ainda vive na região. A casa de um deles, que no passado foi um estaleiro de porcos, hoje é cheia de equipamentos de ponta misturado a móveis retrô – inclusive um iMac. Os 8 hectares de Jonathan foram adquiridos quando o casal que ali vivia resolveu se mudar para um espaço maior.

DIA 17_Visitamos um casal amigo que literalmente elevou o nível dessa experiência de largar a cidade e ir para o meio do mato. Eles moram a mais de 2 mil metros de altitude, numa yurt na encosta de uma montanha. Há um ano, vivem a muitos quilômetros, morro acima, de lojas, padarias e outros serviços. Além disso, a casa fica a vinte minutos de caminhada da garagem. Mas têm eletricidade! Bem, só para cozinhar e carregar a bateria do celular. Antes de instalarem um painel solar, usavam velas e uma lamparina que também funciona com energia solar. Vivem da produção do queijo de cabra.

Ponto de vista é tudo: hoje minha roça virou hotel.

DIA 18_Trisha e eu estávamos embaladas para assistir a uma etapa do Tour de France in loco. Marielle nos emprestou o carro e partimos para os Pirineus logo após o almoço. Os ciclistas chegariam por volta das cinco e meia da tarde à linha de chegada da etapa de Pamiers, e por isso planejamos estar lá duas horas mais cedo. Deu tudo errado, é claro: os últimos 50 quilômetros da nossa estrada eram os mesmos que os ciclistas usariam, e o trecho já estava fechado por uma barreira policial. No final, conseguimos ver um total de 25 segundos da corrida.

DIA 21_Começou a chover ontem à noite e, embora seja uma delícia dormir na barraca ao som da chuva, levantar de madrugada para trabalhar não é simples. O aguaceiro parou dezoito horas depois. Passamos o tempo comendo brigadeiro debaixo das cobertas e assistindo filmes. Cinco filmes, para ser exata, de produções premiadas do cinema canadense a clássicos do Almodóvar. A família tem uma razoável coleção de DVDs, videogames e jogos de tabuleiro, principalmente para o inverno.

Começo a perceber músculos na parte de trás da coxa que nunca usei antes, nem quando treinava ginástica artística 35 horas por semana. Minhas costas não me permitem dormir em qualquer posição, minhas mãos estão endurecidas.

DIA 24_Acordei antes das sete para a Rando-Ferme, um piquenique coletivo que começa com uma caminhada de 9 quilômetros e termina com outra caminhada de 7 quilômetros. Marielle e Jonathan iriam direto ao local do almoço para vender tomate, alface e uma salada pronta. Acompanhei Trisha no percurso de ida, que me pareceu levar mais de três horas – mas sem relógio, celular ou vontade de medir o tempo, fica difícil fazer uma estimativa precisa.

Estávamos em companhia de mais de 100 pessoas. Juntos, mas cada um no seu ritmo, subimos morros, descemos morros, adentramos bosques, campos de girassol, fazendas e ateliês locais. Várias bicicletas nos ultrapassavam, mas acabavam ficando para trás nas ladeiras. Alguns poucos fizeram o percurso a cavalo.

No vilarejo consegui medir a extensão desse curto intercâmbio. Pela primeira vez me senti em casa. Conhecia todas as famílias vizinhas, as crianças lembravam de mim, entendia o que as pessoas falavam, conseguia responder com certa facilidade, sabia quem tinha voltado de férias, quem tinha sarado da catapora e até oferecia a bochecha esquerda primeiro na hora dos dois beijinhos.

Conhecemos um casal de Luxemburgo que também está na região e descobrimos que eles fazem wwoofing “de luxo”: trabalham as mesmas horas que nós, mas dormem em um quarto de verdade, com cama de verdade e um banheiro de verdade, além de exclusivo. Eles ofereceram a Trisha um intercâmbio de fazendas. Querem conhecer o wwoofing radical, hardcore, na veia. Yurt, barracas de acampamento, banheiros secos e todo o glamour da nossa vidinha.

Assim que vi uma roda se formar, corri para me somar à dança occitana. É um estilo musical da região e cada música tem sua coreografia, simples e repetitiva, mas deliciosa e sempre em pares, que fazem rodízio durante a canção.

DIA 26_Adiei minha partida da fazenda em um dia porque Salomé só chegou ontem de férias e quis curtir aquelas risadas mais um pouco. Minhas mãos manchadas e meus cabelos emaranhados estão iguaizinhos aos de Jonathan. O bronzeado de agricultor desisti de buscar quando vi as marcas das mangas de camisa nos braços dele. E minhas axilas já não são mais à la francesa. Depois de renunciar à cera e à gilete o mês inteiro, ontem raspei tudo. Mais como um ritual de encerramento do que uma necessidade.

Meu último dia começou como sempre: com o sol nascendo por detrás do bosque, um copo de leite integral puro e as batatas. Carregamos dois engradados inteiros e cortamos os pés de alface mais volumosos, lindos e brilhantes que o planeta Terra já brotou.

Depois do almoço tudo correu muito rápido. Fechei minhas malas deixando para trás as roupas de trabalho e muitas fitinhas do Senhor do Bonfim, me despedi da minha botina e do chapéu de palha. Era hora de passá-los adiante.

Minha última visão foi de Trisha e Marielle, com Salomé no colo, acenando do lado de fora do vagão. Quando me despedi de Jonathan na fazenda, semeamos a ideia de repetir a dose ano que vem.

Cheguei de noite à cidade seguinte do meu roteiro de férias, e descobri que não havia mais ônibus para me levar ao albergue – ele ficava no topo de um morro distante 2 quilômetros. Os táxis também não passavam. Mas carregar bagagem pesada já não era problema. Olhei meu reflexo em uma vitrine e perguntei a mim mesma: “Você tem noção de quantos quilos de batatas carreguei hoje de manhã?”

Ana Carolina Moreno

Ana Carolina Moreno é jornalista em São Paulo.

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