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Em Gana, milhões de toneladas de sucata tecnológica

Christian Cravo | Edição 207, Dezembro 2023

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Às margens da Lagoa Korle, em Acra, capital de Gana, fica um imenso depósito de lixo chamado Agbogbloshie. São milhões de toneladas de produtos eletrônicos, restos de automóveis e roupas velhas, despejados ali tanto pelos habitantes do país africano quanto pelas nações do Ocidente, que despacham para os portos ganenses centenas de contêineres com produtos usados. Como convenções internacionais proíbem o descarte de resíduos de países ricos em países pobres, muitas vezes o argumento para a remessa do lixo é que estão enviando ao povo de Gana coisas ainda úteis, embora de segunda mão. Mas há quem descarregue o entulho em Agbogbloshie sem recorrer a argumento nenhum.

O processamento da sucata é uma opção de trabalho para quem vive em Old Fadama, uma favela perto do lixão com cerca de 80 mil moradores. A atividade emprega adultos e crianças, e muitos se dedicam à retirada dos restos de cobre, alumínio e ferro dos aparelhos descartados, uma das extrações mais vantajosas do despejo. Os métodos de processamento – como a queima de alguns produtos – ampliam as ameaças que o lixo representa à saúde da população, pois espalham na atmosfera e pelo solo uma série de substâncias tóxicas. Testes feitos pelo Greenpeace revelaram que a água e o solo em Agbogbloshie contêm concentrações de metais tóxicos em níveis cem vezes maiores do que em solos não contaminados.

 

Viajei a Gana não só porque queria entender melhor o impacto do consumo e da poluição em nossa sociedade, mas também porque estava atrás de soluções que podemos dar a esses problemas, causados por nós mesmos.

Agbogbloshie é um formigueiro humano, mas organizado, com as pessoas distribuídas nos lugares conforme cada material que recolhem para reciclar. Quando estive lá, alguns carregavam sobre a cabeça uma cabeleira de fios dos quais iriam extrair o cobre para vender no mercado local. Fogueiras de chamas verdes espalhavam uma fumaça escura (eram estranhamente bonitas). De repente, avistei uma montanha de cerca de 30 metros de altura formada por roupas usadas vindas do exterior e que foram parar no mercado de Kantamanto, na capital ganesa, onde ninguém quis comprá-las: acabaram no lixão, ao lado do Rio Odaw, que leva tudo para o mar. Em cima dessa montanha, pastavam algumas vacas.

Agbogbloshie representa o buraco sem saída do consumo desenfreado das sociedades ricas, e expõe o modo humilhante como elas tratam as nações pobres. O lixão é um grande problema para o qual os ganenses acharam uma solução – a reciclagem de quase tudo –, mas ao custo de poluírem o ambiente e prejudicarem a própria saúde. Nos dias em que fotografei o local, me veio várias vezes à mente o filme Wall-E, que conta a história de um pequeno robô que ficou na Terra para limpar todo o lixo, depois que a humanidade fugiu para o espaço. Há sinais de que estamos pavimentando esse destino.