poesia

Era bom não morrer agora

Eucanaã Ferraz

ENCANTAMENTO

A mão que riscava
o mapa do mundo
no chão – vi – a mão
que traçava setas
cruzamentos círculos
flechas luas – vi –
a mão que arranhava
com giz no assoalho
de pedra as quinas
irreconhecíveis
dos nossos destinos
em pontos e retas
cristalinos – vi –
o Todo explicava-se
o Nada dizia-se
e as almas os mares
montanhas galáxias
os mortos os bichos
as rosas completas
os números livres
razão divindade
riscados a giz
nos arcos simétricos
riscados a giz
nos anéis concêntricos
riscados a giz
tudo iluminado
ladrilhando a pedra
repisada – vi –
a mão que contava
as rotas do mundo
no chão – vi – a mão
que firmava flechas
que cruzava flechas
em circunferências
estrelas esquinas
luas setas – vi –
a mão que feria
com pedra na pedra
a sabedoria
incompreensível
dos tempos perfeitos
ao lume dos símbolos
na ardósia do chão
à tona das coisas
diante dos olhos
tratados compêndios
– eu vi – eram linhas
não havia morte
nada perguntava
eram só respostas
ao conhecimento
que silenciasse
que se resumisse
a flechas e grafos
– eu vi – era claro
era só o olho
linhas transversais
os centros abertos
sem dentro sem fora
as línguas caladas
o Todo translúcido
o Nada era sólido
na pronúncia pura
de seus diagramas
riscados na laje
mas símbolos eram
apenas desenhos
diante dos olhos
que compreendiam
sem nunca entender
e nem perguntar
nenhuma ciência
– eu vi – em prodígio
a pedra cantava
na pedra cravava
seu giz encantado.

 

NO PAIOL ONDE SONHAVA
para Fabrício Corsaletti

Quando ao pé da casa em festa
mesmo as pedras eram jovens
eu era o mais belo e moço
entre a relva e as estrelas.
As nuvens me obedeciam
repetindo passo a passo
a dança que lhes dançava
girando nas capoeiras
recém-abertas na mata.
Caçador pastor flautista
eu era verde dourado
por entre campos de feno
e o perfume de carvão
nas tardes lentas de água.
Os galos imaginavam
se os galos imaginassem
que eu era o sol que nascia
quando eles cumprimentavam
bom dia e eu respondia
tão simplesmente bom dia
depois de uma noite em claro
no colo que eu mais amava.
E de fato eu poderia
dizer que mesmo os cavalos
a chuva e as margaridas
sabiam de cor meu nome.
O tempo não me pedia
nada e eu nada lhe dava.
Os deuses quando existissem
tinham decerto esse rosto
onde exulta a juventude.
Palavra tão desvairada
juventude juventude
pássaro de tantas cores.
Na casa era sempre festa
grandes panelas risadas
primos primas correria
desejos groselha maio
escorrendo pelo tanque
de cimento que brilhava
como os olhos de Raquel
como a voz de minha mãe
cantando rosas de pano
em varais de sol a pino.
Juventude juventude
tédio beleza arrogância.
Quem disse que a morte existe?
Nenhuma pluma é tão bela
juventude juventude
quanto as da sua camisa
diz-lhe o espelho submisso.
O cansaço era bem-vindo
e o sono fácil beijava
meus olhos sem nenhum susto.
Um dia (talvez dormisse
no paiol onde sonhava
cidades só de futuro)
acordei num tempo alheio:
nenhuma lua nem céu
nem sequer a madrugada
nem o rumor cristalino
do voo das lavadeiras
nem o tremor de uma folha
caindo sobre o capim.
A casa era outra agora
distante daqueles dias
quando as pedras eram jovens
quando eu era rude e moço.
Ou não há casa nenhuma
só a terra envilecida
onde o tempo nos despreza
quando já não somos verdes
e nossos versos são tristes.
Tivesse havido um tal tempo
dos homens e deuses juntos
era a mão da juventude
tomando pela cintura
a eternidade dos dias.



 

CONTA-CORRENTE

Antes que o dia se quebre
fazer o cadastro breve
de tanto tempo perdido.
Os jornais não foram lidos
há catástrofes recentes
e as guerras nunca terminam.
Fazer as contas de novo
para fazer o que seja.
Os meses não duram muito
não duram mais que dois dias.
É preciso então fazer
com que se cumpra o contrato.
Um pouco de paciência
e era até fácil fazer
do trabalho um sacerdócio
da obrigação uma virtude.
Bastava isso e ser santo.
Fazer o sinal da cruz.
Fazer jus. Fazer justiça.
Um cavalo de batalha
não basta. Era preciso
estar bem longe dos mísseis.
Era preciso estar onde
caem os mísseis. Parece
longe. Não faz diferença.
É perto. Mesmo que não
pareça. É sempre a nossa
pele. O jogo está feito.
Mas era bom não morrer
agora. Não. Por favor.
Ela dorme. Está bonita assim:
o braço estendido os cabelos tudo nela está distante sonhando.

Política prioridades olheiras exame de urina.
A luz – ouro! – do dia entra pelas esquadrias.
Esta hora é um bandido que vem e leva tudo embora.
Leva o tanto faz. Leva o tanto fez.

 

UMA VEZ
Ils s’en vont, ces rois de ma vie…
François de Malherbe

Era um rei entre nós.
E nos amava.

O amor do rei nos liberta.
O rei livra-nos de toda mesquinharia.

Era um rei e dava-nos fidalguia
a nós – o que significava a qualquer um.

O rei nos disse que também ele
era qualquer um.

Não acreditamos.
Queríamos que o rei fosse eterno.

Queremos que os reis em nossa vida sejam eternos
sejam deuses.

Susana não queria deuses nem suseranos.
E nos disse que ninguém é qualquer um.

Era um rei: gestos certos elegantes
engraçados

sem adjetivos
como seus cães e árvores.

Queria saber das galáxias dos macacos dos poemas
dos palhaços e os sábios embevecidos à sua roda

faziam-se mais sábios para dar notícias
das mais novas descobertas ó majestade!

quanta naturalidade quantos cometas praias
países antigos futuros nos seus olhos

nas mãos pelos cabelos
para despenteá-los porque um rei

tem de estar ligeiramente desalinhado
em sua absoluta distinção.

E nos mais altos momentos o rei veste-se
apenas de sua nudez

ela nos disse antes de mostrar
por fim – e nosso espanto nunca será demais –

que também os reis se vão.

 

CORAÇÃO DO BRASIL

O céu não termina é todo alumínio as nuvens são lentas
o carro a duzentos parece parado a estrada atravessa
monótona e reta planícies de soja e milho transgênicos
a estrada é a ordem o céu a duzentos parece parado
as nuvens são lentas o carro atravessa monótono e reto
planícies paradas de milho transgênico a estrada é o progresso
seguimos em frente a estrada a duzentos o carro é a ordem
é tudo alumínio o céu não termina as nuvens são todas
planícies de soja monótonas retas o milho é o progresso
parado transgênico a estrada é o céu o milho parado
a reta a duzentos seguimos em frente o céu do progresso
é todo transgênico as nuvens de milho de milho parado
são lentas planícies o carro é o progresso a soja é a ordem
o céu de alumínio são lentas o carro duzentos as nuvens
parado atravessa o milho em planícies transgênicos lenta
a estrada é o céu o carro prossegue parecem paradas
as nuvens de milho e nunca arrebentam a ordem é a ordem.

Eucanaã Ferraz

Poeta e ensaísta carioca, publicou Sentimental e Retratos com Erro pela Companhia das Letras

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