poesia

Era uma vez um avô que ajuntava ossos

Diego Grando
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MEMORABILIA III
Afora os que estavam nos dedos
pouco soubera dos números
e por que se contasse com eles
a avó que viveu menos.

As letras que – sublinhadas
com a ponta da unha – se liam
trazendo tendência ao tédio
ficaram pra tias, pras tias.

Viver foi, afinal, ir vivendo
sem fórmulas ou aforismos.

A avó que viveu menos
terminou – como
disseram – confusa
mas isso não vinha ao caso.

Viveu menos e casou
com o avô que viveu mais:
inversamente proporcionais
na mesma gaveta do cemitério.

MEMORABILIA V
Nenhuma palavra além das inquebráveis
nenhuma história em potencial, nenhum
barulho ou cheiro ou gosto que tivesse em si algum segredo, que se insinuasse, que fosse
gatilho, chocalho do esquecimento
premissa de um ato falho
nenhuma palavra além, nem a quem
apenas bolacha maria em farelos molhados
no pires de nescafé com leite
ou nacos amassados do pão
que ela sozinha
na cozinha – e com
as próprias mãos.

Depois lavar os dentes
no tanque
e ir pra cama no quarto contíguo
independente e de frente
pra área de serviço.
(No projeto da casa nova
havia o quarto da vó.
Com janela e vista pro pátio
– vida breve, obra longa –
virou sala do computador.)

A avó que viveu mais
e o avô que menos.

O que será que escondia
enquanto misturava – no centro
da casca – com a colherinha
a gema líquida e viscosa na albumina
enquanto desfiava de memória
seu cento de Ave-Marias?
Será que lembrava do hálito
do gosto de vinho ou cachaça
que devia vir de dentro do semblante
que persiste severo na foto?
No que haveria pensado
naquela tarde de sábado
(por pouco não foi primavera)
indo deitar na cama
sem rezar, lavar os pés?

Minha avó, seus olhos sem ânsias
pequenos e descaroçados
que encontro no rosto do meu irmão
se a luz é baixa e estamos
bêbados e desacorçoados.
Minha avó e seu silêncio
sua data de nascimento:
seis dígitos – três pares
na senha do banco
da minha mãe.

MEMORABILIA VI
Era uma vez um avô
que ajuntava ossos.

Ajuntava os ossos
de quem vivesse
ou viesse pra ver
e fazia isso com gosto
fazia isso de graça.

Ajuntava osso com osso
fosse canela ou braço
pescoço, dedo, bacia
de gente que se achegasse
às vezes se debruçando
às vezes com dores tranquilas
às vezes caindo aos pedaços.

E não que lidasse com gesso
tampouco lidasse com aço
cirúrgico, prótese, pino
carbono em fibra – o cazzo:
muleta nascia da lenha
e galho e pedaço de tábua
eram tala – e um talagaço
de canha, de anestesia.

Sem raio x e diploma
meu avô percebia por fora
e revirava como ninguém
o que estivesse por dentro.

Poemas do livro Spoilers, a ser lançado este mês pela editora Confraria do Vento.

Diego Grando

Diego Grando é poeta gaúcho, autor de Sétima do Singular e Desencantado Carrossel, publicados pela Não Editora.

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