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Esqueletos brancos

Os recifes de coral brasileiros vão sobreviver ao caos climático?

Herton Escobar
Corais branqueados ou mortos devido ao aquecimento da água no Parque Nacional Marinho dos Abrolhos: em 2019, após a maior onda de calor na região, pesquisadores registraram a mortalidade em massa de corais-de-fogo (à esquerda, ao fundo) –
Corais branqueados ou mortos devido ao aquecimento da água no Parque Nacional Marinho dos Abrolhos: em 2019, após a maior onda de calor na região, pesquisadores registraram a mortalidade em massa de corais-de-fogo (à esquerda, ao fundo) – CREDITO: JONNE RORIZ_2019

O professor Guilherme Ortigara Longo é sempre o primeiro a “cair na água”, como se diz no mundo do mergulho. Tão logo o motor do barco é desligado, ele pula no mar, tamanha a ansiedade para ver o que se esconde abaixo da superfície. Foi assim que ele tomou um dos maiores choques da sua vida, em abril de 2016, ao mergulhar num recife de coral do Atol Kiritimati, no meio do Oceano Pacífico.

Longo fazia pós-doutorado no Instituto de Tecnologia da Geórgia, nos Estados Unidos, e estava participando de uma equipe de pesquisadores que foi à longínqua república de Kiribati estudar os ecossistemas locais de recifes, que estão entre os mais remotos e bem preservados do planeta. Seu objetivo era analisar as interações ecológicas entre os corais, as algas e os peixes herbívoros dos recifes. Porém, assim que botou os olhos na água, Longo viu que o desafio seria outro, pois o recife estava morto.

Literalmente morto, cozido in natura pelo aquecimento global. A paisagem multicolorida e vibrante dera lugar a um cenário monocromático e estático. A estrutura tridimensional do recife ainda estava lá, intacta, mas coberta por uma “penugem” marrom, feita de algas e bactérias que crescem rapidamente sobre os corais depois que eles morrem, como ervas daninhas num pasto abandonado. “Foi como dar de cara com uma floresta fantasma, cheia de árvores mortas”, recorda Longo, professor de ecologia marinha da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

A expedição ocorreu no ápice daquilo que veio a ser chamado de o “terceiro evento de branqueamento global” de corais, associado ao fenômeno climático El Niño, que causa um aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Tropical – onde fica Kiribati –, e que foi excepcionalmente forte em 2015 e 2016. A elevação prolongada da temperatura da água causa um estresse na relação, em geral pacífica e mutualmente benéfica, que existe entre os corais e as microalgas que vivem dentro de suas células, chamadas zooxantelas. As zooxantelas fazem fotossíntese e possuem pigmentos que contribuem para a cor dos corais. Quando a água fica quente demais por muito tempo (da ordem de algumas semanas), isso desencadeia uma série de reações bioquímicas que destroem o pigmento natural dos corais e faz com que eles expulsem as zooxantelas de suas células. Consequentemente, seus tecidos perdem a cor e tornam-se transparentes, revelando o branco do esqueleto calcário que fica logo abaixo. Daí o termo empregado para caracterizar essa condição: “branqueamento” (ou bleaching, em inglês).

Tanto o branqueamento quanto o El Niño são fenômenos naturais, aos quais os corais estão evolutivamente adaptados, mas cujas frequência e intensidade estão aumentando de forma perigosa com o aquecimento global. Sem as zooxantelas, os corais perdem a capacidade de fazer fotossíntese, que é sua principal fonte de energia. Isso os deixa numa situação equivalente à de uma planta sem suas organelas de fotossíntese, os cloroplastos – estruturas que contêm o pigmento verde (clorofila) e realizam a fotossíntese nas células vegetais (com a ressalva importante de que os corais são animais, não vegetais, apesar de se parecerem mais com plantas do que com bichos). Assim, os corais ficam fragilizados e podem morrer, se o branqueamento persistir por muito tempo. Foi o que aconteceu em Kiribati, assim como em vários outros lugares no “grande branqueamento” de 2016. A Grande Barreira de Corais da Austrália, recife mais famoso e bem estudado do mundo, perdeu 30% de sua cobertura de corais só naquele ano.

 

Longo saiu da água transtornado. “Pensei: isso ainda vai chegar ao Brasil”, diz o pesquisador de 35 anos, que desde então se dedica a estudar o impacto das mudanças climáticas globais nos recifes de coral brasileiros. Para ele, a memória trágica de Kiribati voltou à tona em março de 2020, depois que um pescador lhe contou que os corais de Rio do Fogo, 60 km ao norte de Natal, estavam “brancos como ele nunca tinha visto”. “Quando um cara que vive lá há quarenta anos fala uma coisa dessas para você, é mais assustador que qualquer previsão da Noaa”, diz o professor, referindo-se à National Oceanic and Atmospheric Administration, agência federal norte-americana que monitora a temperatura dos oceanos e tem um sistema global de alertas para risco de branqueamento, o Coral Reef Watch.

O relato do pescador casava perfeitamente com as projeções da Noaa, que indicavam temperatura elevada e alto risco de branqueamento para toda a costa do Rio Grande do Norte naquele momento. Os recifes de Rio do Fogo ficam a cerca de 6 km da costa e fazem parte de um grande sistema de formações recifais rasas (localmente chamadas de parrachos), que se distribuem por cerca de 10 km entre os municípios de Touros e Maracajaú, dentro da Área de Proteção Ambiental Estadual dos Recifes de Corais.

Longo foi para lá com uma equipe do laboratório e deu de cara com um pesadelo. Todos os corais no topo do recife pareciam branqueados. A agonia foi tanta que ele nem caiu na água, como de costume; sacou o drone da mochila e pôs o bicho para voar. Não importava para onde ele apontasse a câmera, estava tudo manchado de branco.[1] Ele se lembrou da sensação que teve em Kiribati e pensou: “Chegou aqui.”

Que o branqueamento em massa chegou ao Brasil, não há dúvida. Se esse branqueamento vai causar uma mortalidade em massa de corais, como já vem acontecendo no Indo-Pacífico, no Caribe e em outras regiões, porém, é uma pergunta que divide opiniões na comunidade científica brasileira.

 

Os corais brasileiros sempre tiveram a fama de serem muito resistentes. Tanto que, até recentemente, não havia registros de mortalidade em massa por aqui em função do branqueamento. Com exceção, talvez, de um relato de perda significativa de cobertura de corais no Norte da Bahia, associada ao primeiro evento global de branqueamento, em 1998, cujos efeitos foram muito pouco estudados no Brasil. Em geral, os corais brasileiros ficam brancos, mas não morrem. Logo que a temperatura volta ao normal, eles absorvem novas zooxantelas, recuperam a cor e voltam a funcionar como de costume no prazo de algumas semanas ou meses. São os corais “casca-grossa” do oceano.

“O cenário brasileiro, embora também muito preocupante, é bem menos grave do que no resto do mundo”, diz o oceanógrafo Miguel Mies, de 34 anos, coordenador da Rede de Pesquisas do Projeto Coral Vivo e pesquisador associado do Instituto Oceanográfico da USP. Especialista em ecologia recifal, ele é o primeiro autor de um trabalho – publicado em junho de 2020 na revista Frontiers in Marine Science – que busca demonstrar que os recifes de coral do Atlântico Sul são menos suscetíveis ao branqueamento e representam um importante refúgio de biodiversidade marinha em tempos de aquecimento global (por Atlântico Sul entenda-se Brasil, pois não há recifes de coral expressivos em nenhum outro país dessa região oceânica).

Segundo o estudo – assinado por Longo, pelo oceanógrafo Thomás Banha e outros professores da USP e da UFRJ –, o número de eventos de branqueamento com mortalidade no Brasil nos últimos quarenta anos foi 50% menor do que no Caribe e 60% menor do que no Indo-Pacífico. Quantitativamente, foram 44 eventos no Brasil de 1980 a 2018, e em apenas 9 deles houve alguma mortalidade de corais; comparado a 411 eventos, com 197 registros de mortalidade, na região do Indo-Pacífico. E, mesmo nesses poucos casos mais graves, a mortalidade por aqui sempre foi baixa e restrita a algumas poucas espécies.

Isso se deve, segundo os autores, a uma combinação fortuita de fatores biológicos e ambientais, que tornam os corais brasileiros mais resistentes e resilientes ao estresse térmico causado pelo aquecimento da água. Talvez o mais relevante, segundo Mies, seja a turbidez aquática. A maioria dos recifes de coral no mundo ocorre em regiões tropicais de água clara, transparente, onde a incidência de radiação solar é maior. Em condições normais isso é ótimo, pois os corais dependem da fotossíntese (feita pelas zooxantelas) para sobreviver; é uma garantia de que, enquanto o Sol brilhar, nunca faltará comida. Quando a água esquenta demais, porém, o excesso de radiação solar torna-se uma agressão adicional, que pode agravar ainda mais os efeitos do branqueamento.

Já os corais brasileiros estão acostumados a viver em águas turvas, com uma carga bem maior de sedimentos do que a maior parte dos corais no mundo seria capaz de tolerar. Em tempos difíceis, isso acaba funcionando como um mix de filtro solar e isolante térmico, já que esses sedimentos dissipam uma parte da radiação luminosa, impedindo que ela atinja diretamente os corais e que o calor do Sol se some ao estresse térmico já causado pelo aquecimento da água. Essa turbidez ocorre, sobretudo, em função da grande quantidade de rios que desaguam na costa brasileira, despejando milhares de toneladas de sedimentos fluviais no oceano todos os dias. “Esses rios, que teoricamente seriam péssimos para os recifes, aqui nos fornecem proteção”, diz Mies.

Além dos sedimentos, os rios tropicais do Brasil também lançam no mar uma quantidade enorme de nutrientes, moléculas orgânicas ricas em nitrogênio e fósforo, que são péssimas para os corais, porque prejudicam o seu metabolismo e favorecem o crescimento de suas principais competidoras nos recifes: as algas. Mas os corais brasileiros parecem não se importar com nada disso. Afinal de contas, estão lidando com essa situação há milhares de anos. “Nossos corais evoluíram em condições tão adversas que são parrudos por natureza”, afirma Mies.

A primeira cientista a levantar essa hipótese foi Zelinda Leão, professora sênior do Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia (UFBA), matriarca da geologia de ambientes recifais no Brasil. Muitos dos dados apresentados por Mies e seus colaboradores corroboram hipóteses levantadas por ela duas décadas atrás. “Nossos recifes vêm resistindo a esses impactos ambientais há muito tempo. As espécies que sobreviveram até aqui são as mais resistentes, não há dúvida quanto a isso”, disse ela à piauí.

Não são muitas as que sobreviveram. Juntando tudo que a ciência já foi capaz de descobrir, há apenas 21 espécies de corais duros zooxantelados no Brasil, enquanto no Caribe são 70, e no Indo-Pacífico, 774. Isso se deve em grande parte ao fato de o Atlântico ser um oceano muito mais jovem que o Pacífico, e as espécies daqui terem tido muito menos tempo para se diversificar, tanto mais nas condições desfavoráveis da costa brasileira. Além disso, o soerguimento da Cordilheira dos Andes, alguns milhões de anos atrás, redirecionou o fluxo do Rio Amazonas para sua posição atual, criando uma barreira de água doce que isolou, evolutivamente, os recifes de coral do Brasil e do Caribe, resultando numa especiação única por aqui.

O que restou para contemplarmos hoje é uma fauna diminuta, porém robusta, composta principalmente de espécies “massivas”, que se caracterizam pela formação de colônias em forma de domos ou bulbos (como os famosos corais-cérebro do gênero Mussismilia, endêmicos do Brasil) – diferentemente dos recifes típicos do Caribe e do Indo-Pacífico, em que predominam os corais ramificados, com formato de galhos, chifres ou pétalas.

Essa seria outra grande vantagem da biodiversidade brasileira, segundo os pesquisadores, já que os corais massivos são naturalmente mais resistentes ao excesso de calor e outras adversidades ambientais, não apenas no Brasil, mas em qualquer parte do mundo. Tipicamente, essas espécies possuem pólipos maiores, com tentáculos maiores, que permitem a elas se limpar e se alimentar de modo mais eficiente. São duas características que vêm bem a calhar nessas águas túrbidas brasileiras. Em situações adversas de branqueamento, quando o coral fica impossibilitado de fazer fotossíntese, uma melhor capacidade de capturar plâncton da água para se alimentar pode ser uma questão de vida ou morte. O Projeto Coral Vivo também possui registros de corais-cérebro totalmente branqueados na Bahia que continuaram desovando normalmente em época de reprodução, o que é surpreendente. De alguma forma, esses corais conseguem se manter saudáveis por períodos mais longos, mesmo na ausência de fotossíntese.

Talvez por isso, também, o Brasil tenha proporcionalmente mais espécies adaptadas a viver em águas mais profundas, onde a quantidade de luz disponível para fotossíntese é menor, o que seria mais um benefício em tempos de calor extremo, já que a maioria dos casos de branqueamento ocorre nas camadas de água mais superficiais, até 20 metros de profundidade.

Por fim, os corais brasileiros teriam a vantagem de ser mais promíscuos no seu relacionamento com as zooxantelas. A maioria das espécies de corais daqui, segundo os pesquisadores, é generalista: aceita se relacionar com vários tipos de zooxantelas. “A capacidade dos corais de estabelecer relações com uma ampla diversidade de zooxantelas é um mecanismo importante para uma rápida aclimatação e adaptação a perturbações ambientais”, escreveram Mies e os demais cientistas, no trabalho que aponta o Atlântico Sul como um refúgio para a biodiversidade marinha.

Apesar de todas essas características, os corais brasileiros não são invencíveis nem estão livres de ameaças graves, dispensando proteção. Para Mies, a resiliência maior apenas indica que, se as previsões relacionadas ao aquecimento global se mantiverem, “nossos corais serão os últimos a morrer”.

 

Até os seres humanos começarem a jogar esgoto no oceano e entupir a atmosfera de gás carbônico, o branqueamento era um evento natural, porém raro, que não representava ameaça aos recifes de coral do mundo. Quando acontecia, era algo mais localizado, e os corais tinham tempo para se recuperar entre um evento e outro. A partir da década de 1980, a situação começou a mudar. Os eventos de branqueamento, que aconteciam apenas uma vez a cada 25 ou 30 anos, passaram a acontecer com frequência cada vez maior, chegando à média assustadora de um evento a cada seis anos, segundo um estudo publicado na revista Science em 2018, liderado por Terry Hughes, da Universidade James Cook. Um aumento que está diretamente ligado ao aquecimento global. E isso é só o começo. Vários estudos projetam que os branqueamentos em massa passarão a ocorrer anualmente, num futuro não muito distante, independentemente do El Niño, como já ocorreu em 2019 e 2020. Pelas projeções do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), um aquecimento global de 1,5°C levará à morte de 70% a 90% dos corais tropicais do mundo (já aquecemos 1°C). Se esse aquecimento chegar a 2°C, o que é muito provável, o extermínio chegará a 99%.

A situação é tão crítica que, dentre as vinte metas globais propostas pela Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) das Nações Unidas para serem atingidas durante a chamada Década da Biodiversidade (de 2011 a 2020), a única que tinha um prazo mais curto para ser cumprida era a Meta 10, relacionada aos recifes de coral. Ela era objetivamente simples: “Minimizar as múltiplas pressões antropogênicas sobre os recifes de coral [até 2015] de modo a preservar sua integridade e funcionamento.” Não foi cumprida nem em 2015 nem em 2020, quando venceram os prazos de todas as outras metas. Pelo contrário: a situação dos recifes de coral só piorou nos últimos dez anos, segundo a quinta edição do relatório Panorama da Biodiversidade Global, publicada em setembro. E a tendência é piorar ainda mais na próxima década.

Os últimos dez anos foram os mais quentes da história. E o ano de temperatura mais alta já registrado foi justamente 2016 – quando houve o terceiro evento global de branqueamento –, seguido de perto por 2019 e 2020, que tem grandes chances de assumir a liderança. Além das ondas de calor e do branqueamento, a superdosagem de gás carbônico emitida pelo homem tem outro efeito colateral grave para os recifes de coral: a acidificação da água do mar, o que reduz as taxas de crescimento e causa uma espécie de osteoporose nos corais-pétreos e outros organismos de esqueleto calcário. Alguns pesquisadores estimam que o declínio na cobertura de corais do mundo desde o início da década de 1980 seja de 30% a 50%. Em outras palavras: todos esses corais que vemos hoje seriam apenas metade do que existia até poucas décadas atrás.

Cada recife perdido é como uma floresta queimada. Os recifes de coral abrigam cerca de 25% da biodiversidade marinha do planeta em menos de 0,1% da área total dos oceanos. São o exemplo perfeito de um hotspot de biodiversidade: lugares muito especiais com grande número de espécies num espaço muito pequeno. Assim como as florestas, eles prestam uma série de serviços ecossistêmicos essenciais à sobrevivência de centenas de milhões de pessoas ao redor do mundo, entre eles segurança alimentar e econômica, além de proteção da linha de costa contra tempestades. Um estudo estima o valor desses serviços em 375 bilhões de dólares por ano.

Diferentemente da Floresta Amazônica, porém, os recifes de coral do Brasil recebem pouca atenção da comunidade científica internacional. Talvez por eles serem menos esplendorosos e abrigarem uma diversidade pequena de espécies, em comparação com seus correlatos do Caribe e Pacífico. Talvez pelo fato de os próprios brasileiros não darem a devida atenção a eles. Ou pelos dois motivos, segundo Mies. “Largamos muito atrás no estudo dos impactos do clima no oceano, e estamos pagando o preço.”

Mies se lembra de que, quando leu na Science sobre o aumento da frequência de eventos de branqueamento, seu primeiro sentimento foi de preocupação, por causa do futuro catastrófico projetado pelos autores do estudo. O segundo foi de decepção, ao ver que o Brasil não aparecia no mapa que mostrava cem eventos de branqueamento no mundo. Desde então, o foco principal das pesquisas de Mies tem sido este: “Colocar o Brasil no mapa do branqueamento.”

 

O ideal seria que o Brasil entrasse nesse mapa como um foco de resistência ao aquecimento global, mas as coisas não andam tão tranquilas por aqui. O primeiro susto veio em 2016. Mais de 70% das colônias de coral monitoradas por pesquisadores no Banco dos Abrolhos, no Sul da Bahia, branquearam. Um dado especialmente preocupante, considerando que Abrolhos é o local de maior biodiversidade marinha de todo o Atlântico Sul, com quase 9 mil kmde recifes, de diferentes tipos (alguns deles únicos no mundo, como os famosos chapeirões).

Nos primeiros meses daquele ano, a temperatura da água passou várias semanas acima do chamado “limiar de branqueamento” para os corais da região, que é de 28ºC, aproximadamente. Em abril, o índice de estresse térmico acumulado sobre os recifes da região chegou a 9,7 DHW[2] – numa escala adotada pela agência norte-americana Noaa, em que valores acima de 4 DHW indicam risco de branqueamento, e acima de 8 DHW, risco de branqueamento severo, seguido de mortalidade. Uma verdadeira sauna submarina, que acabou por desencadear um branqueamento em massa de diversas espécies de coral na região. Algumas, como Montastraea cavernosa e Favia gravida, chegaram a ter branqueadas mais de 80% de suas colônias. A situação foi agravada por uma segunda onda de calor no primeiro trimestre de 2017. É o que os cientistas chamam de eventos back to back – ou, “uma porrada atrás da outra”, nas palavras do pesquisador Felipe de Vargas Ribeiro, do Instituto de Biologia da UFRJ, que participa do monitoramento em Abrolhos.

Ainda assim, a mortalidade foi pequena, abaixo de 3% da cobertura total de corais da região, segundo um estudo publicado em março de 2019 na revista Coral Reefs por pesquisadores do Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo. A maioria das colônias recuperou a cor e a saúde alguns meses depois. As únicas espécies a sofrerem uma mortalidade mais expressiva (da ordem de 17%) foram as do gênero Millepora, popularmente conhecidas como corais-de-fogo. “Nossos resultados se somam às evidências recentes de que recifes profundos fornecem refúgio parcial para algumas espécies de corais, e que recifes de águas turvas podem ser menos suscetíveis ao estresse climático devido ao sombreamento, níveis mais altos de heterotrofia [neste caso, a capacidade de capturar alimento da água, em complemento ou substituição à fotossíntese] e adaptações locais”, avaliaram os pesquisadores, liderados pelo veterano Rodrigo Leão de Moura, do Instituto de Biologia da UFRJ. O estudo termina, porém, com a ressalva de que a possível resistência não deve ser encarada como “imunidade” ao branqueamento.

Não demorou até essa teoria ser colocada à prova. Dois anos depois, no verão de 2019, uma nova onda de calor, ainda mais forte que a de 2016, varreu a zona costeira do Brasil, pintando recifes de branco por toda parte. O grau de estresse térmico acumulado em Abrolhos chegou dessa vez à assustadora marca de 19,7 DHW, sendo que durante 117 dias o índice esteve acima do limiar de 8 DHW.

Em abril, quando a temperatura bateu 32°C e Moura e seus colaboradores da Rede Abrolhos foram a campo registrar o fenômeno, quase todas as colônias de Millepora nos recifes avaliados estavam branqueadas, e mais de 50% delas apresentavam sinais graves de mortalidade. Entre as demais espécies, a média de mortalidade foi de 4%; um número pequeno, mas preocupante para alguns organismos. O coral-cérebro Mussismilia braziliensis, espécie mais icônica (e endêmica) da região, teve quase 5% de mortalidade, comparado a 0% no evento de 2016-2017. “É uma progressão de mortalidade gritante para um período tão curto; não podemos ser reducionistas com esses dados”, afirma Ribeiro. Os números ainda não foram publicados em revista científica, mas não deixam dúvidas sobre o impacto devastador de mais essa “porrada” climática. “Pela primeira vez vimos uma mortalidade em massa de corais”, diz Moura, que monitora os recifes de Abrolhos há mais de vinte anos. Segundo ele, foi a maior anomalia térmica e o maior evento de branqueamento já registrado na região. “Nunca houve duas ondas de calor tão próximas uma da outra; e nunca houve tanto calor acumulado na água do mar.”

Um dos biólogos marinhos mais experientes do Brasil, Moura tem uma percepção do problema que vai além dos dados. “Dá para ver a fisionomia dos recifes mudando; é desalentador. Tem cabeço de recife em que você não encontra mais nenhuma Millepora viva.” Entre os corais-cérebro, é difícil achar uma colônia que não tenha alguma cicatriz de mortalidade parcial. “Cicatrizes do século XXI”, define.

No mesmo período, um pouco mais ao Norte de Abrolhos, nos recifes da Reserva Extrativista Marinha do Corumbau, pesquisadores registraram um quadro igualmente desolador: a morte de mais de 80% das colônias da espécie Millepora alcicornis e de 13% das colônias de Mussismilia harttii. No recife Coroa Vermelha, próximo a Porto Seguro, os índices foram de 43% e 8% para cada espécie, respectivamente. O biólogo Gustavo Duarte deu de cara com o problema em julho de 2019, quando mergulhava no Corumbau para coletar amostras de Millepora para um experimento em laboratório. Saiu da água arrasado. “Não tinha quase nenhuma colônia viva para coletar; estava quase tudo morto”, conta a professora Raquel Peixoto, do Instituto de Microbiologia da UFRJ e do Centro de Pesquisa Científica do AquaRio, que orientou o registro do fenômeno.

De cor alaranjada (quando saudáveis) e com formas semelhantes a uma galhada de alce, as Millepora têm um papel ecológico fundamental porque conferem uma tridimensionalidade essencial à arquitetura dos recifes, que, do contrário, teriam contornos muito mais lisos e arredondados. São os únicos corais verdadeiramente ramificados do Brasil.[3] Essa arquitetura cria uma série de hábitats adicionais para pequenos peixes e invertebrados marinhos, que buscam abrigo entre seus “galhos” para se proteger de predadores. O desaparecimento das Millepora, portanto, tem consequências sérias para todo o ecossistema recifal.

No trabalho que descreve os efeitos do branqueamento no Corumbau e em Coroa Vermelha – publicado em março na revista Frontiers in Marine Science –, Peixoto, Duarte e outros catorze pesquisadores põem em xeque a ideia de que os corais brasileiros são mais resistentes do que os de outras regiões. O fato de não haver registros anteriores de mortalidade em massa de corais na costa brasileira, segundo eles, pode não ter nada a ver com resistência ou resiliência diferenciadas, mas com o simples fato de que houve menos ondas de calor por aqui. “Em eventos de ondas de calor acentuados, como o de 2019, esses corais podem ser tão sensíveis quanto os de outras espécies em outros recifes”, escrevem os pesquisadores.

“Acho que não temos dados robustos para dizer nem uma coisa nem outra, nem que todos os corais do Brasil vão morrer nem que eles estão a salvo”, diz Raquel Peixoto à piauí. O comentário traz embutida uma crítica ao trabalho de Mies sobre a resiliência dos corais brasileiros – publicado três meses depois, na mesma revista –, que a pesquisadora considerou pouco convincente. “Não temos que perder tempo debatendo se é mais resistente ou não”, diz. “É hora de discutir o que está acontecendo no campo. Nossos corais não morriam antes, mas estão morrendo agora. Por quê?”

“Existem duas linhas de pensamento se formando no Brasil. Uma delas, capitaneada pelo pessoal da USP e do Coral Vivo, propõe que o Atlântico Ocidental Sul é um refúgio e que os corais brasileiros são os mais resistentes do planeta. A outra reconhece que os limites desse refúgio já foram ultrapassados”, afirma Moura. Ele se alinha com o segundo grupo. “Claro que os nossos recifes são mais resistentes; porém essa resistência está muito próxima do limite. Entramos numa zona crítica. Não estamos mais escrevendo trabalhos científicos, mas os epitáfios dos recifes.”

 

Outros pesquisadores que também monitoraram o branqueamento de 2019 no Parque Nacional Marinho dos Abrolhos encontraram indícios de mortalidade em 90% das colônias de Millepora alcicornis e em 13% das colônias de Mussismilia braziliensis. Ao apresentar os resultados da pesquisa no Encontro Recifal Brasileiro, em julho deste ano, porém, o grupo interpretou os dados mais como uma história de resiliência do que de vulnerabilidade.

“É uma questão de ponto de vista”, diz à piauí o oceanógrafo Lucas Cabral Ferreira, do Projeto Áreas Marinhas e Costeiras Protegidas (GEF Mar), do governo federal, que coordenou esse monitoramento em Abrolhos, em parceria com Guilherme Longo, da UFRN, e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), administrador do parque. “Certamente não podemos dizer que passamos ilesos; foi uma perda considerável”, pondera Ferreira. Por outro lado, levando em conta a intensidade e a duração da onda de calor, além do estrago que anomalias térmicas bem menores que essa causam em outros lugares, ele considera que a mortalidade observada em Abrolhos “pode ser considerada baixa”.

O único lugar com águas mais quentes do que Abrolhos em 2019 foi o litoral Norte do estado de São Paulo. A região quase não possui recifes de coral propriamente ditos (com exceção de um, descoberto há pouco ao redor da Ilha de Queimada Grande), pois as condições ambientais são desfavoráveis demais para isso, mas abriga populações grandes de algumas espécies de corais que crescem sobre costões rochosos de ilhas e praias, como a Mussismilia hispida. Em fevereiro, o índice de estresse térmico acumulado chegou a impressionantes 20,5 DHW no entorno do Arquipélago de Alcatrazes, e 18,5 DHW no litoral de Ubatuba, configurando a maior anomalia térmica já registrada para um ecossistema recifal na história do Atlântico Sul.

Um estudo sobre esse evento conduzido por pesquisadores paulistas (entre eles, Mies) e publicado na revista Coral Reefs apontou que, entre mais de mil colônias de Mussismilia hispida avaliadas, haviam branqueado mais de 18% em Alcatrazes e 79% em Ubatuba. A mortalidade, porém, foi de apenas 2%, muito abaixo de qualquer desastre provocado no Caribe ou no Indo-Pacífico por eventos com DHW muito menores. Conclusão dos pesquisadores: “Esse estudo demonstra que, apesar de as comunidades de corais marginais do sudoeste do Atlântico serem suscetíveis ao branqueamento, elas são surpreendentemente tolerantes.”

No Rio de Janeiro, o pesquisador Felipe Ribeiro chacoalha a cabeça e quase se levanta da cadeira, indignado, ao falar sobre o assunto, durante a entrevista via internet. Segundo ele, não tem cabimento usar o exemplo de uma espécie de coral que ocorre num ambiente marinho completamente diferente dos ecossistemas de Abrolhos e do Nordeste para defender a tese de que os recifes brasileiros são um refúgio contra as mudanças climáticas. “É muito prematuro afirmar uma coisa dessas”, diz. “A possibilidade de ser verdade é muito baixa; não é essa a tendência que estamos vendo nos dados.”

Os posicionamentos, apesar de antagônicos, não são necessariamente contraditórios. O Brasil tem milhares de km2 de ecossistemas recifais, com características bastante variadas (apesar de a diversidade de espécies ser pequena) e distribuídos ao longo de um amplo gradiente latitudinal. É natural, portanto, que a resposta desses ecossistemas ao aquecimento varie no espaço e no tempo, de acordo com as particularidades de cada recife e cada região. Assim como é natural que haja discordâncias entre cientistas nos estágios iniciais de uma discussão complexa como essa.

Mies rebate as críticas feitas à teoria de que os recifes de coral do Atlântico Sul são um importante refúgio para a biodiversidade com os mesmos argumentos dos seus antagonistas. Para ele, não se pode usar a mortalidade de um único grupo para dizer que toda a biodiversidade de corais do Brasil está em risco de extermínio, por mais preocupante que seja a situação das espécies afetadas, individualmente. Até agora, ressalta ele, as únicas a sofrerem mortalidade em massa foram as Millepora e, em alguns pontos, a Mussismilia harttii. “Não dá para dizer que estamos na mesma situação que o Caribe e o Pacífico”, onde dezenas de espécies estão morrendo, rebate Mies.

O fato de os recifes brasileiros serem menos suscetíveis ao branqueamento não quer dizer que estejam imunes aos efeitos do aquecimento global, segundo o pesquisador Ronaldo Francini Filho, coautor do trabalho sobre a teoria do refúgio e professor do Centro de Biologia Marinha (Cebimar) da USP, em São Sebastião. “Se aquecer demais, pode morrer muita coisa, sim. Nenhum refúgio é imune; eles são apenas menos suscetíveis”, como diz o título do estudo, ressalta ele. O professor Guilherme Longo, da UFRN, acredita que esse trabalho está sendo mal interpretado pelos colegas. “Ninguém está dizendo que os bichos não vão branquear e que eles não vão sofrer. Mas que nossa fauna tem uma taxa de recuperação maior, isso é fato.”

 

Em 2020, o calor se concentrou no litoral do Nordeste, e não foi relatado praticamente nenhum branqueamento expressivo de Abrolhos para o Sul. No litoral do Rio Grande do Norte, o índice de estresse térmico entre março e junho deste ano chegou a 16,8 DHW, um recorde na região. Desde que se depararam com o “pesadelo branco” de Rio do Fogo, no início desse período, Longo e seus alunos voltaram algumas vezes aos recifes para fazer um balanço do estrago. A maioria dos corais aguentou bem o tranco e se recuperou, mesmo após vários meses de branqueamento. Três espécies, porém, apresentaram altas taxas de mortalidade: Millepora alcicornis, Favia gravida e Agaricia spp. Dessa última, Longo não encontrou nenhuma colônia viva numa das últimas vezes que foi a campo, em 21 de setembro. “Não gosto de falar em 100% de mortalidade, porque sempre pode haver alguma colônia viva por aí, mas nós mergulhamos em dois pontos e não encontramos nenhuma”, conta. No caso da Millepora, ele estima que a mortalidade tenha chegado a 90%.

Já o coral-estrela, Siderastrea stellata, principal espécie construtora dos recifes da região, passou quase que incólume pela onda de calor. As colônias branquearam bastante, mas poucas morreram, assim como as da espécie Porites astreoides, um coral amarelo com morfologia de couve-flor. Resultados que, segundo Longo, se encaixam no modelo de refúgio proposto para o Atlântico Sul. Ele ressalta sobre a importância de fazer um monitoramento contínuo dos recifes atingidos. “Não podemos nos limitar a registrar o branqueamento, temos que acompanhar para ver o que acontece depois.”

Na Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais (APACC), que cobre toda a costa Norte de Alagoas e Sul de Pernambuco, a temperatura da água ficou quase todo o primeiro semestre de 2020 acima da média máxima histórica de temperatura para essa época do ano (de aproximadamente 28ºC), e o índice de estresse térmico ultrapassou o limite crítico de 8 DHW por dois meses, do início de abril ao início de junho, configurando a maior onda de calor na região desde 1985. A APACC é a maior unidade de conservação marinha costeira do Brasil, com cerca de 4 mil km2 e mais de quinhentas áreas recifais mapeadas entre Tamandaré (PE) e Maceió (AL). Com mais de 120 km de extensão, essas áreas podem ser consideradas a “grande barreira de corais do Brasil”, segundo o biólogo Pedro Henrique Pereira.

Pesquisador da APACC e coordenador do Projeto Conservação Recifal (PCR), Pereira acompanhou o evento de estresse térmico a distância, de seu apartamento no Recife, sem poder ir a campo por causa da pandemia do coronavírus. “A gente ouvia os relatos dos pescadores, dizendo que os corais estavam branqueando, estavam morrendo, mas não podíamos fazer nada.” Assim que o ICMBio autorizou a retomada dos trabalhos de campo, em julho, Pereira juntou sua equipe e foi para Maragogi, no Norte de Alagoas. Encontrou um cenário de guerra climática, com corais mortos por todos os lados. “Foi a cena mais bizarra que eu já vi num recife de coral”, diz. “Teve uma colega nossa que subiu do mergulho chorando, literalmente.”

Quando a equipe chegou ao local, o branqueamento já havia acabado e restavam apenas os esqueletos de calcário dos corais mortos, muitos deles já desmantelados ou cobertos por algas. As espécies mais atingidas foram a Millepora braziliensis e a Mussismilia harttii, com 70% e 40% de mortalidade, respectivamente. O segundo caso é especialmente preocupante por se tratar de uma espécie de crescimento lento e ameaçada de extinção, com área de distribuição restrita ao Nordeste. A taxa de cobertura por corais vivos como um todo nos recifes, segundo Pereira, caiu de 50%, no início do ano, para 30%, após o branqueamento.

Outras áreas da APACC também foram fortemente atingidas, mas os dados ainda estão sendo compilados. Seja como for, o que Pereira viu em Maragogi já é suficiente para colocá-lo no time dos céticos com relação à teoria do refúgio do Atlântico Sul. Assim como outros, ele acredita que os corais brasileiros chegaram ao limite. “Se um dia eles foram mais resilientes, agora não são mais”, avalia.

Pereira considera “perigoso” levantar uma discussão sobre refúgio térmico nesse momento, pois pode gerar a falsa ideia de que os recifes de coral no Brasil não precisam de proteção. “Tem que ter cuidado para não jogar contra o patrimônio”, diz. Para um dos coautores da teoria, Francini Filho, a mensagem é exatamente a oposta: “Globalmente, todo mundo está procurando por refúgios climáticos, justamente porque eles são prioritários para a conservação.” Num cenário de mudanças climáticas extremas, esses recifes talvez sejam os únicos capazes de sobreviver ao aumento da temperatura do mar e, portanto, precisam ser protegidos de outras ameaças.

 

O aquecimento global é amplamente apontado como a principal ameaça aos recifes de coral, mas está longe de ser a única. Independentemente da temperatura ou do pH do mar, outros problemas crônicos agridem a saúde dos ecossistemas recifais, como a poluição marinha, a pesca predatória, o turismo irresponsável, as espécies exóticas invasoras, a destruição de ecossistemas costeiros (como manguezais e restingas) e até mesmo o desmatamento de florestas em terras distantes rio acima, que aumenta a carga de sedimentos que vão desaguar no oceano.

“Agora temos mais um grande problema para resolver”, afirma a professora Beatrice Padovani Ferreira, da Universidade Federal de Pernambuco, especialista em ecologia e monitoramento de recifes de coral. “E como a gente faz isso? Resolvendo todos os outros problemas que não resolvemos até agora.” Eliminar as agressões locais seria uma maneira de reforçar a resiliência dos recifes brasileiros ao aquecimento global.

Há várias evidências ecológicas de que ecossistemas íntegros e com maior diversidade de espécies são mais resistentes e se recuperam mais rápido de situações adversas. Na Grande Barreira de Corais da Austrália, áreas protegidas resistiram melhor aos efeitos do branqueamento e de outras perturbações ambientais, como doenças e tempestades, segundo um estudo publicado em 2016 na Ecology Letters. “O que a ciência nos diz é que onde a saúde dos recifes está melhor, eles se recuperam melhor”, resume Ferreira, que desde 2002 coordena o Reef Check Brasil, um grande projeto nacional de monitoramento da saúde dos recifes de coral do Nordeste e de suas ilhas oceânicas.

Em Kiritimati, no Pacífico Central, corais localizados fora da zona de influência de habitações humanas (portanto, menos expostos a esgoto e pesca) também se recuperaram melhor do grande branqueamento de 2015-16, segundo um estudo publicado em dezembro de 2020 na revista Nature Communications. A pesquisa monitorou duas espécies de corais massivos ao redor do atol, que tem mais de 6 mil habitantes, apesar da sua localização superremota.

Que as ameaças locais precisam ser mitigadas, ninguém discute. Mas nem todos estão confiantes de que isso será suficiente para equilibrar o jogo contra as mudanças climáticas. Em Abrolhos, por exemplo, houve branqueamento e mortalidade de corais mesmo em áreas protegidas do Parque Nacional Marinho, a dezenas de quilômetros da costa. “Fica claro que o parque não imuniza os corais contra o aquecimento”, afirma Rodrigo Leão de Moura, do Instituto de Biologia da UFRJ. Combater o aquecimento global, para ele, deve ser “a pauta central da biologia da conservação” neste século.

 

Sem uma solução política à vista para o aquecimento global, muitos pesquisadores estão empenhados em buscar soluções alternativas para turbinar a capacidade dos ecossistemas recifais de sobreviver. A lista inclui diversas técnicas de reprodução, repovoamento e até manipulações genéticas ou fisiológicas dos corais, a exemplo do que se faz com culturas agrícolas; ou até intervenções mecânicas no ambiente, como colocar uma manta sobre a água para fazer sombra sobre os corais em períodos de calor extremo. Tudo, ainda, experimental.

Uma dessas possíveis soluções, nascida no Brasil, seria o uso de “probióticos” – um coquetel de bactérias potencialmente benéficas, isoladas de corais resistentes – para reforçar o microbioma de uma população. Seria uma estratégia equivalente a dar probióticos (lactobacilos presentes em iogurtes ou leite fermentado, por exemplo) para alguém que vai tomar antibióticos ou está com problemas intestinais, compara a professora Raquel Peixoto, da UFRJ. Os microrganismos selecionados seriam “pulverizados” sobre o recife para que os corais os absorvessem, sempre que as condições ambientais indicassem risco de branqueamento. “Seria uma medida preventiva, com o intuito de fortalecer os corais e torná-los mais resistentes a qualquer tipo de agressão”, ela explica.

Raquel Peixoto foi a primeira a sugerir a técnica, em 2017, num trabalho publicado com colegas do Brasil e da Austrália na revista Frontiers in Microbiology, que teve grande repercussão. Na sequência, eles testaram a ideia na prática e funcionou, pelo menos em aquários – o que não garante que vá funcionar no ambiente; mas é um primeiro passo. Os corais tratados com probióticos branquearam menos quando submetidos a altas temperaturas, e também resistiram melhor a infecções por uma bactéria patogênica. Moura acha que o caminho seja por aí, uma vez que as medidas clássicas de proteção parecem não ser suficientes. “Vamos precisar de uma solução de fora da caixa”, afirma. Outros são mais cautelosos. Mies diz que qualquer interferência humana no ambiente deve ser feita apenas como última alternativa e sempre com extremo cuidado, porque os resultados são imprevisíveis.

O fato de Mies defender a teoria do refúgio não significa que esteja otimista com relação ao futuro. Pelo contrário, ele acredita que a situação só vai ficar mais “amedrontadora” daqui para a frente. Numa expedição organizada pelo Projeto Coral Vivo, do qual ele é coordenador, em julho, pesquisadores fizeram as primeiras imagens submarinas do Banco Royal Charlotte, outra grande extensão da plataforma continental brasileira no Sul da Bahia, ao Norte de Abrolhos, praticamente desconhecida da ciência.

Em uma das imagens, aparece um pequeno recife de coral do gênero Montastraea, a 30 metros de profundidade, com muitos peixes recifais ao redor. Uma bela cena de biodiversidade marinha, a não ser por um detalhe: os corais estão branqueados. “É muito triste chegar num lugar totalmente inexplorado, e a primeira vez que você bate o olho nele já tem impacto climático”, lamenta Mies.

Beatrice Ferreira, da UFPE, concorda que as mudanças climáticas globais estão chegando a um nível que as ações locais de conservação talvez deixem de surtir efeito. “Mas certamente ainda não está na hora de jogar a toalha, nem para as mudanças climáticas nem para as ações locais”, pondera a professora, que é uma das mais experientes e respeitadas na área. “Tem muita coisa para a gente salvar ainda. Vamos ter que lutar palmo a palmo até o fim.”


[1] Essas imagens podem ser vistas no filme O Pesadelo Branco/The White Nightmare, produzido por João Paulo Krajewski, disponível no YouTube.

[2] DHW significa degrees heating week (graus de aquecimento semanal). É um índice criado pela Noaa que representa o excesso de calor acumulado na água do mar de uma determinada região num período de três meses.

[3] Apesar de serem genericamente chamadas dessa forma, as Millepora não são corais propriamente ditos. Pertencem a uma classe de organismos chamados hidrozoários, muito próxima mas diferente dos corais.



Herton Escobar

Repórter do Jornal da USP, é especializado em ciência e meio ambiente. É colaborador da revista Science

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