diário

“Estou lá no Covid”

Como minha mãe enfrentou o violento ataque do novo coronavírus

Roberta Viola
Roberta Viola no hospital em Belo Horizonte: “Quanto tempo leva para a tosse parar? E a saturação, quando normaliza? A essas e tantas outras perguntas, os médicos só conseguem responder ‘Não sabemos.’ Ou ‘Ainda estamos aprendendo.’”
Roberta Viola no hospital em Belo Horizonte: “Quanto tempo leva para a tosse parar? E a saturação, quando normaliza? A essas e tantas outras perguntas, os médicos só conseguem responder ‘Não sabemos.’ Ou ‘Ainda estamos aprendendo.’” CRÉDITO: LÉO DRUMOND_NITRO_2021

Durante quase um mês, a linguista ROBERTA VIOLA, 29 anos, acompanhou num hospital a luta de sua mãe contra a Covid-19. Primeiro, no pronto atendimento, porque não havia leito disponível. Depois, numa ala de infectados pelo vírus, onde se deparou com o cotidiano angustiante de internados, enfermeiros e médicos.

 

7 DE NOVEMBRO, TERÇA-FEIRA_Minha mãe me ligou às onze da manhã e disse que estava passando mal: muita tosse, calafrios, dor no corpo… Decidimos que ela deveria ir direto a um laboratório fazer o teste de Covid-19 e, depois, se isolar. A voz dela estava tensa, ela repetia sem parar cada detalhe do que sentia, como se estivesse repassando os sintomas em voz alta para tentar chegar a um diagnóstico. Enquanto falava, foi crescendo em mim a certeza de que era Covid, mesmo porque a sensação que se tem agora é de que as gripes comuns deixaram de existir.

À noite, ela voltou a me ligar, dizendo que os sintomas tinham piorado. Por causa da febre, achou melhor ir ao pronto atendimento de um hospital, onde ficou mais de cinco horas sentada em uma cadeira rígida, em um contêiner instalado para atender pacientes com sintomas de gripe e problemas respiratórios. Uma tomografia indicou que podia ser mesmo Covid. A médica receitou alguns remédios e disse que ela podia ir para casa.

Já era muito tarde e fui buscá-la de carro, para levá-la de volta ao apartamento onde vive com minha irmã Izabela, de 16 anos, no bairro Gutierrez, em Belo Horizonte. Minha mãe é médica e provavelmente pegou o vírus no hospital onde trabalha como obstetra. Por causa da correria que é o setor dela, muitas vezes não dá tempo de a equipe se paramentar direito com o equipamento de proteção. Além disso, grávidas com o vírus são internadas na maternidade para serem acompanhadas pelos obstetras.

Ao chegar ao apartamento, dou algumas instruções à minha irmã: manter distância, separar os utensílios de cozinha, usar outro banheiro etc. Entrego também uma caixa com luvas descartáveis e uma máscara N95, aquela usada em alguns procedimentos hospitalares e que dizem ser mais eficaz.

No carro, quando eu voltava para minha casa, pensei no elevadíssimo número de pessoas afetadas pelo novo coronavírus. Senti um certo pânico, mas tentei me acalmar, dizendo a mim mesma que a quantidade dos que se recuperam da doença é também bastante alta.

 

18 DE NOVEMBRO, QUARTA-FEIRA_Acordei em sobressalto e liguei para minha mãe, às seis da manhã. Isolada em seu quarto, ela me disse que estava se sentindo ainda pior do que ontem. Comprei para ela um oxímetro, o instrumento que mede a quantidade de oxigênio no sangue. A saturação dela oscila entre 91 e 94 (abaixo da mais saudável, que é entre 95 e 100).

Às duas da tarde, ficamos sabendo do resultado do exame feito ontem. É Covid-19 mesmo. Minha mãe chorou. Ela tem um quadro de depressão grave e, embora não esteja em crise no momento, faz tratamento contínuo, para não se afundar. Sempre refratária aos medicamentos antidepressivos, encontrou uma solução na eletroconvulsoterapia. É um procedimento complexo, feito sob anestesia geral: estímulos elétricos são aplicados no cérebro, gerando uma convulsão que acaba por regular alguns neurotransmissores. Já faz mais de cinco anos que se trata assim, com ótimos resultados. Percebo que o medo que ela tem dos desdobramentos da doença está misturado com o medo de ter que dar uma pausa no acompanhamento psiquiátrico.

Por tudo isso, me mantive firme diante dela, a fim de transmitir segurança. Por dentro, eu estava tremendo.

 

19 DE NOVEMBRO, QUINTA-FEIRA_Minha mãe me contou que alguns de seus colegas de plantão no hospital foram afastados: também estão com Covid. O chefe da maternidade está feito doido tentando contatar outros profissionais nos grupos de WhatsApp e reorganizar as escalas dos plantões.

Enviei para ela outro oxímetro, para ter certeza sobre a taxa de saturação, que está oscilando.

 

20 DE NOVEMBRO, SEXTA-FEIRA_Como nos outros dias, minha mãe teve 38ºC de febre ou pouco mais, no fim da tarde. Seu estado de saúde só piora, e a minha preocupação só aumenta. Fui até a farmácia e comprei um anticoagulante, pois ela decidiu tomar o medicamento já de uma vez. Antes de eu sair, pedi que prometesse que voltaria amanhã ao pronto atendimento.

Pensei outra vez nas estatísticas. Elas contam os recuperados e os que se foram, mas não conseguem dar conta das lutas de cada um com o vírus, das aflições que atingem cada pessoa da família e, sobretudo, da solidão que vai progressivamente cercando o doente.

 

21 DE NOVEMBRO, SÁBADO_Ela acordou muito nervosa, se sentindo “como ontem, a mesma coisa”. Por telefone, me disse que não quer ir ao hospital: “Pra quê? Pra ficar naquela cadeira dura esperando por horas?”

Com jeito, tentei convencê-la do contrário, mas os médicos são os pacientes mais indóceis. Querem ser os doutores de si mesmos e, pior, sabem dos prognósticos possíveis e leem os próprios sintomas com uma exatidão enlouquecedora. Conversei por um longo tempo com ela e pedi que colocasse de lado o seu CRM e entendesse que, agora, ela é uma paciente. Temos nos falado apenas por telefone. Deixo as coisas que levo para ela na entrada do prédio, minha irmã as apanha e coloca na entrada do quarto. Minha mãe abre a porta, pega e se fecha de novo. Depois de muita conversa, consegui convencê-la a voltar ao pronto atendimento.

Fui ao encontro dela no hospital. Fazia quatro dias que não nos víamos, hoje foi a primeira vez. Levei um pão de queijo e um guaraná, que entreguei a ela de longe, num estacionamento aberto. Minha mãe comeu o lanche ali mesmo. Ficamos conversando, e o tempo de espera passou de maneira mais serena. Apesar dos sintomas, ela me pareceu razoavelmente bem, ou estável. A saturação de oxigênio segue na mesma, oscilando. Às vezes alcança 95, o que parece ótimo.

Depois de mais algumas horas, ela foi chamada para a consulta. Fiquei esperando no estacionamento. Poucos minutos depois, tocou o celular. “Vou ter que internar, espera aí fora que vou precisar de você”, disse minha mãe – e começou a chorar. Eu também chorei, mas só depois de desligar o telefone. Sentimos pavor dos desdobramentos dessa doença, é tudo muito rápido. Queria dar um abraço apertado nela, mas é muito perigoso.

Esperei bastante do lado de fora do hospital até que me chamassem para assinar os papéis da internação. Maisa, minha companheira, veio me fazer companhia. Enquanto eu esperava no estacionamento, enviei para minha mãe a melhor mensagem que consegui formular naquele momento: “Vai dar tudo certo! Tamo junta.”

Somos socialmente privilegiadas, pois temos convênio de saúde. Mas estão faltando leitos para doentes de Covid-19 em Belo Horizonte. Nem o hospital particular em que ela foi atendida nem qualquer outro da cidade tem lugar. Quando cheguei ao pronto atendimento, me deparei com minha mãe instalada numa poltrona, tomando medicamentos por via intravenosa e com um cateter nasal de oxigênio. Enfermeiros e médicos andavam às pressas, de um lado para o outro, com o semblante tenso. Apesar de tudo aquilo ser desconfortável, para mim foi tranquilizante saber que ela estava sendo medicada e cuidada. Como minha mãe tem 53 anos e pode se locomover sozinha, não deixaram que eu ficasse ao lado dela no quarto.

 

22 DE NOVEMBRO, DOMINGO_Fui ao hospital levar um lanche e alguns objetos: escova de dentes, pasta, fio dental e lenços umedecidos. O quadro dela não é dos mais graves. Por causa da idade, do histórico médico (sem qualquer doença que possa ser um agravante), do seu hábito de fazer exercícios e se alimentar direito, tudo leva a crer num desenlace positivo. Ainda assim, as minhas preocupações não cessam.

Adotei um protocolo de proteção: uma máscara N95 bem ajustada, outra máscara de tecido por cima e um escudo facial. O porteiro me autoriza a entrar, mas diz que não é permitido ficar ali por muito tempo. Quase prendo a respiração ao caminhar pelo local. Estico os braços para entregar as coisas para ela, e vou embora.

Minha mãe continua no pronto atendimento porque não surgiu nenhuma vaga em toda a rede particular de hospitais da cidade. As profissionais que trabalham na gestão de leitos são educadas e solícitas, mas raramente trazem boas notícias. Outras três pessoas estão na mesma situação que minha mãe, “internadas” no pronto atendimento, em poltronas reclináveis: duas mulheres e um homem, todos idosos. A única coisa boa dessa situação é que, ali, os pacientes têm a companhia das enfermeiras e dos outros pacientes. Fico apavorada ao imaginar uma pessoa se sentindo muito mal e completamente sozinha em um quarto.

Depois do almoço, chegou ao pronto atendimento, acompanhada da filha, uma senhora de 77 anos, dona Rute. Ela estava com baixa oxigenação e imediatamente colocaram nela uma máscara de oxigênio. Desnorteada, a filha não sabia o que fazer, não entendia nada dos procedimentos médicos nem compreendia a gravidade da situação. Ela contou que percebeu que, como dona Rute estava arfando muito, ligou para a psiquiatra com quem a mãe se consulta periodicamente. A médica a orientou a comprar um oxímetro e medir a saturação. Quando soube que a taxa estava em 76, mandou mãe e filha irem o mais rápido possível para o hospital.

As duas foram acomodadas em uma poltrona e uma cadeira ao lado da minha mãe. São pessoas muito doces e simpáticas. Troquei um par de palavras com elas durante o pouco tempo que estive lá hoje. Minha mãe me contou que os médicos estavam atarefadíssimos e, por isso, foi ela quem acabou monitorando e auxiliando dona Rute ao longo do dia.

 

23 DE NOVEMBRO, SEGUNDA-FEIRA_Fiquei sabendo que dona Rute e a filha, Fernanda, não têm ninguém que lhes possa dar suporte, por isso levei café da manhã para três no hospital: café bem forte, pão de queijo e salada de frutas. Para minha mãe, foi o terceiro dia na poltrona do pronto atendimento. Alguns dos pacientes que compartilham o espaço ainda não tiveram a confirmação do diagnóstico de Covid-19. Mas, depois de aguardarem ali por tanto tempo, é grande a chance de já terem sido contaminados. O espaço é pequeno, pouco ventilado e as pessoas precisam tirar a máscara para comer.

Minha mãe me disse que está sentindo muita dor no corpo. Todas as suas articulações doem: dos dedos das mãos aos dos pés. Além disso, está com tosse forte. Reclamou também de não poder tomar banho, o que não faz há três dias. No pronto atendimento não tem chuveiro, só um banheiro pequeno e um lavabo compartilhado por todos os pacientes.

Hoje, um senhor idoso foi intubado lá mesmo, na frente de todo mundo, pois não conseguiram vaga para ele. Minha mãe não se apavorou, pois está acostumada com essas urgências hospitalares e sempre diz que o seu trabalho na rede pública é “como enxugar gelo”. Mas os outros pacientes ficaram bastante assustados com a intubação.

A diretoria do hospital decidiu suspender a entrada de novos pacientes no pronto atendimento. Não adianta receber mais pessoas se não existem leitos para elas. Um homem saiu de lá aos berros, dizendo que pagava caro pela “merda do plano de saúde”. Outro discutiu com o médico porque queria tomar cloroquina. O médico se manteve calmo, tentou explicar que aquele não era o protocolo, que não havia nenhuma evidência científica da eficácia da cloroquina, mas não adiantou. O homem disse que não iria ficar ali nem mais um minuto. Tudo isso foi discutido em voz alta, no meio de todo mundo.

Às três da tarde, minha mãe me ligou e pediu que eu voltasse ao hospital. Havia aparecido um leito, mas ela tinha resolvido ceder a vaga para dona Rute. Eu precisava assinar o documento de cessão da vaga. Os leitos são ocupados não por ordem de prioridade ou de gravidade da doença, mas de chegada ao pronto atendimento. Por isso, minha mãe havia obtido um leito antes da senhora de 77 anos.

Ao saber que minha mãe iria ceder a vaga, dona Rute disse: “Você tem certeza que vai fazer essa caridade?” Minha mãe respondeu que não era caridade, que estava fazendo o que era justo e que todo o sistema de saúde deveria operar conforme essa lógica. Dona Rute comentou: “Já não se veem mais pessoas como você.” Mas dissemos a ela que, sim, existem muitas pessoas com consciência. Minha mãe observou: “Estamos num hospital, não num resort.”

Mais uma vaga surgiu, e minha mãe cedeu para outra pessoa idosa. Cedeu também a terceira vaga oferecida a ela. Às 18h30, quando o pronto atendimento já estava quase vazio, apareceu uma quarta vaga e, finalmente, minha mãe aceitou o leito. Como a troca de plantão ocorre às 19 horas, ela só conseguiu ser encaminhada para o quarto às 22 horas, depois de enfrentarmos toda a burocracia do hospital.

A enfermeira preparou a cadeira de rodas, ajustou o cateter e seguiu com minha mãe até o elevador. Fui atrás. Ao chegarmos ao segundo andar, o silêncio era aterrorizante. Seguimos por um corredor na penumbra, onde podíamos escutar o som intermitente da tosse das pessoas nos quartos. Durante o percurso, percebi que havia vários corações de papel afixados numa parede, com nomes escritos neles. Supus que fossem dos pacientes que receberam alta. Chegamos ao quarto individual, e minha mãe pôde, enfim, tomar um banho.

O hospital só autoriza acompanhantes nos quartos em tempo integral se os pacientes forem idosos ou precisarem de muita assistência. Em outros casos, recomendam que o acompanhante fique no quarto apenas o tempo necessário – e nunca passe a noite lá. Segui as recomendações, pois não posso adoecer. Quem irá acompanhar minha mãe, se eu ficar doente? Minha irmã não tem idade para isso. Minha avó também não pode. É difícil achar entre os familiares e amigos alguém que cumpra todos os requisitos e, além disso, não conviva com uma pessoa que seja dos grupos de risco.

Quando cheguei em casa, quase à uma da manhã, fui direto para o banho. Olhando meu rosto no espelho, percebi que está se formando uma ferida no topo de meu nariz, bem no local onde fica assentado o ferrinho da dobra da máscara.

 

24 DE NOVEMBRO, TERÇA-FEIRA_Por sorte, o meu curso de mestrado em linguística na Universidade Federal de Minas Gerais está em recesso. Apenas os laboratórios e projetos de pesquisa continuam ativos. Conversei com meus dois orientadores e eles foram extremamente compreensivos e zelosos: pediram para eu me concentrar no que era prioritário (cuidar da minha mãe) e não participar de nenhuma atividade ou reunião. Os dois me mandaram e-mails, colocando-se à disposição para qualquer necessidade e mandando boas energias. Me senti segura com as mensagens.

Passei pelo quarto de dona Rute para saber como ela estava, já que minha mãe certamente ia me perguntar a respeito. A filha dela vai com frequência ao nosso quarto, para ter notícias. Gosto dessa troca, é um suporte importante.

Minha mãe passou bem a noite, mas a tosse permanece e não há melhora no quadro geral. Toda vez que me despeço dela tenho a impressão de que, no dia seguinte, eu a encontrarei completamente curada, como ocorre quando temos um resfriado. Mas não é o que acontece. Parentes e amigos me ligam e mandam mensagens pedindo notícias. Respondo sempre assim: “Na mesma.” Vendo o estado das outras pessoas no mesmo andar em que minha mãe está internada, entendo que, para pacientes de Covid-19, estar “na mesma” é um ganho imenso.

 

25 DE NOVEMBRO, QUARTA-FEIRA_Ela está se sentindo mais cansada. Quando vai para o banho ou se senta para comer, começa a tossir sem parar. Um médico presenciou uma crise de tosse quando ela se sentou na beirada do leito para almoçar. Ele mediu a saturação, que estava baixa, e disse: “Nós aprendemos que, para o paciente de Covid, essa é a pior posição.” Então, a colocamos deitada de bruços. Tudo que podíamos fazer era mudar minha mãe de posição e ter calma.

 

26 DE NOVEMBRO, QUINTA-FEIRA_O celular chamou às seis da manhã. Era ela, e meu coração saltou pela boca. Com muito custo consegui entender que estava pedindo que eu fosse logo ao hospital, pois havia tido uma piora. Senti que estava com medo, porque, quando as coisas pioram, é de uma vez. Ela conhece os processos, pensa sem parar nos desdobramentos possíveis. Corri para o hospital, meio zonza. Desde o começo dessa história, tenho me sentido como num transe.

Minha mãe, que antes só usava o cateter nas narinas, estava com uma máscara de oxigênio. Soube que ela se sentiu mal durante a noite, quando se levantou para ir ao banheiro. O médico me disse que, a partir de agora, ela não deve sair mais do leito. Decidiram transferir minha mãe para um quarto que acaba de vagar perto do posto de enfermagem. A enfermeira e eu manobramos a maca pelo corredor, bem lentamente. Passamos pelo quarto de uma moça de uns 40 anos que parece tão desassossegada quanto minha mãe. Na maioria dos quartos, as portas ficam abertas, pois os doentes recebem medicamentos e têm seus dados medidos o tempo todo. Outra vantagem da porta aberta é que dá uma sensação de mais segurança. É bom ser visto pelos médicos e enfermeiras que passam pelo corredor.

Sou informada de que, a partir de hoje, será preciso que alguém faça companhia à minha mãe durante a noite. As regras para os acompanhantes são muito restritas: a pessoa tem que ter mais de 18 anos e menos de 60, e não pode ter qualquer doença ou apresentar algum fator de risco, como hipertensão e diabetes. Com isso, a nossa rede de apoio minguou bastante. De todos os familiares, só uma tia, Cris, cumpria integralmente os requisitos. Hesitei muito em chamá-la. Não é fácil pedir a alguém que se exponha a tamanho risco. Mas tia Cris nem pestanejou: veio hoje mesmo de Ipatinga, onde vive, a 200 km de Belo Horizonte.

Quando ela entrou no quarto, no fim da tarde, senti um alívio imenso, foi como se todos os músculos do meu corpo relaxassem ao mesmo tempo. Minha tia é uma pessoa leve e alegre, e com certeza vai tornar tudo mais fácil e tranquilo com sua presença. Ela entrou no quarto impressionantemente relaxada, nem parecia que estava numa ala de Covid-19. Tive a sensação de que ia nos pegar no colo e nos consolar. Ao vê-la, minha mãe abriu um sorriso.

 

27 DE NOVEMBRO, SEXTA-FEIRA_Hoje de manhã, o quarto de dona Rute estava vazio. Ela foi para o CTI, me contou sua filha por mensagem. Respondi: “Não esmoreça, Fernanda. Sua mãe tem sido uma guerreira e precisa de toda a energia que você tiver pra dar. Sigamos caminhando, um passinho bem pequeno a cada dia. Vai ficar tudo bem.”

No hospital, chamam de “Setor D” a ala com os doentes de Covid-19. É um eufemismo para não causar aflição e constrangimento nos pacientes. Quanto a mim, sempre que me perguntam onde estamos, digo logo: “Estou lá no Covid.” É onde de fato estamos, num covidário, com cada poro envolvido nessa situação desesperadora.

Minha mãe continua exausta. Só de virar na cama ela se cansa. As crises de tosse estão cada vez mais frequentes e intensas. Pioram quando ela se movimenta. Dei um banho nela sobre o leito, com lenços umedecidos. Qualquer atividade que tenha que realizar nos deixa apreensivas. Quanto menos se mexer, melhor. Às vezes, não é aconselhável nem mesmo trocar o lençol ou dar banho com os lencinhos.

Por volta de uma da tarde, saí rapidamente para comer algo. Comprei um lanche numa padaria e comi no estacionamento do hospital. Também comprei água mineral, pois nem água eu bebo no quarto da minha mãe, para não ter que tirar as máscaras.

Tenho conseguido dormir um pouco mais tranquila, sabendo que minha mãe tem a companhia de tia Cris à noite.

 

28 DE NOVEMBRO, SÁBADO_O setor estava em festa quando cheguei ao hospital, perto das sete da manhã: palmas, música, silhuetas de sorrisos sob as máscaras, lágrimas. Um senhor idoso, muito magro e de cabelos totalmente brancos, tinha acabado de receber alta. Ao ver aquilo, comecei a chorar. Foi uma das cenas mais emocionantes que já presenciei.

Por estarmos perto do posto de enfermagem, podemos acompanhar a festa de todos que recebem alta. A equipe se junta para cantar uma paródia da canção Sorte Grande (Poeira), interpretada por Ivete Sangalo: “Vai ter alta, vai ter alta, vai ter alta. Hoje vai ter alta!” Depois, a pessoa coloca um coração com o seu nome na parede dos recuperados. Eu costumo observar a festa da porta do quarto, cantando com eles. Minha mãe bate palmas lá do leito. Quando a pessoa que recebeu alta passa em frente ao nosso quarto, ela se esforça para dar um tchau e fazer um sinal de positivo com os dedos.

 

29 DE NOVEMBRO, DOMINGO_A moça desassossegada que vi outro dia não está mais no quarto perto do nosso. Uma das médicas comentou que a moça, que é também médica e pneumonologista, pediu para ser intubada. Disse: “Pelo amor de Deus, não me deixem ter falta de ar.”

Sinto uma profunda compaixão por ela e penso que o que faz mais falta aos profissionais de saúde internados com Covid-19 é um comprimido que provocasse o esquecimento momentâneo de tudo que eles sabem e testemunharam em seu trabalho. O conhecimento dos mecanismos do corpo, da doença e de suas possíveis consequências pode ser, nesse momento, um fardo terrível.

 

30 DE NOVEMBRO, SEGUNDA-FEIRA_Começo a desconfiar do motivo de haver tão poucos leitos para doentes de Covid-19 no hospital. Ouvi falar que, no início da pandemia, eram três alas destinadas só a eles: duas para internados e uma para os que aguardavam o diagnóstico definitivo. Agora, quem chega fica misturado com os outros, na única ala destinada a pacientes com o vírus. Também me falaram que a arrecadação do hospital em que estamos e de outros da cidade caiu muito nos últimos meses. O tratamento de Covid-19 é longo, dispendioso e pouco lucrativo. Quando comparados aos rendimentos trazidos por pessoas que precisam de cirurgias, os doentes do vírus são pouco atrativos para qualquer hospital particular. Soube ainda que, no último fim de semana, foram realizadas várias cirurgias que não eram de urgência e podiam ser feitas depois do fim da pandemia.

Mas foram apenas conversas de corredor. O fato é que a logística e a organização do hospital me deixam impressionada, tamanha a complexidade das tarefas: os remédios chegam etiquetados com o nome de cada paciente, a limpeza segue um protocolo rigoroso, as refeições são trazidas pontualmente… Penso também no trabalho dos profissionais: o pessoal da enfermagem, da copa, os médicos, os que cuidam das roupas de cama e de banho, da faxina, dos elevadores, da portaria… Todos eles, absolutamente todos estão diariamente expostos ao vírus e a sua violência. Serei sempre grata às pessoas que estão cuidando da minha mãe e se dedicam, diariamente, a zelar por tantas pessoas com uma doença tão grave: não consigo imaginar coisa mais admirável.

 

1º DE DEZEMBRO, TERÇA-FEIRA_Fui até o posto de enfermagem em busca de um par de luvas para dar banho na minha mãe. Com o inchaço do corpo provocado pelos corticoides e a alta dose de anticoagulantes, a pele dela está tão sensível que qualquer toque mais áspero gera um ferimento, um hematoma, um sangramento. Quando estava no posto, a acompanhante de uma pessoa doente chegou correndo, muito aflita: “Vocês podem chamar um médico? Ela está com taquicardia. Acho que foi porque ficou sabendo que está com Covid. Eu pedi tanto que ninguém falasse disso na frente dela!” A moça está acompanhando uma senhora bem idosa.

 

2 DE DEZEMBRO, QUARTA-FEIRA_As estatísticas sobre a Covid-19 são transmitidas o tempo todo pelas tevês nos quartos, e angustiam ainda mais. Tentei mudar de canal, mas minha mãe gosta de assistir ao jornal. Ela comentou: “A taxa de ocupação é muito mais alta que isso aí que estão falando… Nós vimos.”

 

3 DE DEZEMBRO, QUINTA-FEIRA_O psiquiatra da minha mãe ligou. A única coisa que ele pode fazer no momento é isto: conversar com ela e acalmá-la. Ele disse que é preciso tomar cuidado, pois a permanência prolongada em hospitais, o tratamento com corticoides, aplicados em altíssimas doses, dentre outras coisas, têm causado transtornos em muitas pessoas que tiveram Covid-19, mesmo nos que não têm histórico psiquiátrico. O médico pediu que, ao menor sinal de algum problema, alguém entrasse em contato com ele. Minha mãe agradeceu o carinho e o cuidado e disse que está firme e atenta.

Os médicos começaram a fazer o “desmame” da minha mãe. É como eles se referem à interrupção dos corticoides e antibióticos aplicados por via intravenosa.

 

4 DE DEZEMBRO, SEXTA-FEIRA_Uma enfermeira entrou no quarto e informou que minha mãe seria transferida para outro setor do hospital. Como ela não está mais transmitindo o vírus, deve liberar o leito para quem precisa ficar isolado. Ficamos apegadas à equipe desta ala de Covid-19. As enfermeiras são, todas elas, muito afetuosas.

A mudança de quarto nos traz a esperança de que, em breve, minha mãe receberá alta. Alguns remédios já foram suspensos, a tosse diminuiu, a taxa de saturação tem se mantido boa. A única queixa que ela tem é de uma leve dor no tórax, quando tosse. A outra boa notícia é que, agora, já não há perigo em abraçá-la.

 

5 DE DEZEMBRO, SÁBADO_Hoje, minha mãe tomou a última dose intravenosa do antibiótico. Assim que estiver adaptada a todos os medicamentos por via oral, poderá voltar para casa, me informou um dos médicos. Ela está passando um pouco melhor, mas a dor no tórax a incomoda um pouco mais.

 

6 DE DEZEMBRO, DOMINGO_A dor no tórax piorou. Agora ela sente doer o peito o tempo todo, e mesmo os analgésicos mais fortes não estão resolvendo. Os médicos decidiram pedir uma tomografia, exames do coração e de trombose.

Passei na casa da minha avó, Lúlia, para dar notícias. Ela tem 77 anos e está completamente sozinha desde o início da pandemia. Sempre que vou lá, converso com ela de longe – eu na calçada, ela na janela do apartamento, no segundo andar. Dá para ver que sua aflição por não poder visitar a filha é grande.

 

7 DE DEZEMBRO, SEGUNDA-FEIRA_Os resultados dos exames indicaram que não há nenhum problema com o coração, o que é um alívio. Houve uma pequena piora dos pulmões, mas está dentro do esperado para pacientes com Covid-19.
O exame de sangue, porém, traz a informação de que piorou um marcador importante do grau de inflamação.

Os médicos nos falaram que está ocorrendo um rebote da doença e se desculparam. Dizem que a Covid-19 foi, para eles, uma coisa inesperada, que estão aprendendo a lidar com o vírus na prática. Decidem receitar para minha mãe um novo antibiótico, ainda mais forte, a ser aplicado por via intravenosa. E retomam os corticoides, em doses ainda maiores. A doença é agressiva, o tratamento tem que ser mais agressivo que ela – e o corpo precisa dar conta das duas agressões.

 

8 DE DEZEMBRO, TERÇA-FEIRA_O rebote da doença parece com aquele pesadelo que nos leva a despertar no meio do sono, mas retorna ainda mais horrível depois que voltamos a dormir. É feito levar um gol aos 45 minutos do segundo tempo. Como torcedora do Atlético Mineiro, sei bem o que é isso. Não podemos baixar a guarda.

Chegam várias mensagens carinhosas enviadas por pessoas do grupo de WhatsApp que criei para transmitir notícias da minha mãe para parentes e amigos. Leio todas elas para minha mãe, que não tem força para pegar o celular. Tia Cris não esmorece e retoma os cuidados anteriores, como acompanhar o gotejamento do remédio no tubo. Desejo serenidade à minha mãe e vou para casa. O desgaste pelo qual ela está passando é enorme.

 

9 DE DEZEMBRO, QUARTA-FEIRA_Apesar do rebote, minha mãe está se sentindo um pouco melhor e não precisa mais de ajuda para cada mínima tarefa. Hoje passei boa parte do tempo sentada na poltrona do hospital, acompanhando a medicação que é dada o dia inteiro. Mesmo assim, cheguei em casa esgotada. Acho que a exaustão é sobretudo emocional. Ainda bem que conto com a presença amorosa da Maisa, que sempre me traz um copo d’água quando chego. Depois de um bom banho, tomei a sopa forte e temperada que ela preparou, e fui dormir.

 

14 DE DEZEMBRO, SEGUNDA-FEIRA_Ao deixar o hospital à noite, entrei no elevador acompanhada de uma mulher de cerca 55 anos, de um médico e uma médica. Depois que os dois profissionais saíram, a mulher virou-se para mim e disse: “Se teve uma coisa que me decepcionou nessa pandemia, foi essa classe médica.” Eu perguntei: “Por quê?” E ela me respondeu: “Tem tanto tratamento barato e disponível para evitar a internação. Mas eles não têm interesse, porque não dá lucro. É coisa de laboratório. Os médicos seguram, seguram até ter que internar.” Ela falava agitando os braços de maneira forte, parecia que estava liderando um protesto. E continuou: “Eu, graças a Deus, já comprei minhas ivermectinas, que são bem baratinhas, e já estou protegida.” Não consegui responder nada, e até agora me pergunto por que não consegui. Acho que ninguém mais é capaz de responder a pessoas assim. A mulher, ao menos, estava de máscara.

 

15 DE DEZEMBRO, TERÇA-FEIRA_Uma enfermeira bastante jovem que foi trocar o acesso venoso da minha mãe contou que, durante um tempo, trabalhou no setor de isolados do hospital. Antes da Covid-19, esse setor era para pessoas que tinham alguma bactéria resistente e doenças altamente transmissíveis. No início da pandemia, o hospital decidiu acomodar ali os leitos dos pacientes com o novo coronavírus, já que os profissionais que atuavam no setor estavam acostumados a lidar com pessoas que demandam cuidados especiais.

Ela contou: “O primeiro paciente com Covid que eu vi chegar no pronto atendimento foi internado em menos de uma hora. Passava tão mal que logo levaram para a UTI. Naquele dia, fui para casa chorando. Entendi o que estava acontecendo nos outros países e o que estava por acontecer no Brasil. Fiquei apavorada. Alguns meses depois, adoeci de Covid, mas não precisei ser internada. Fiquei em casa, e a médica do hospital me ligava duas vezes ao dia. Já faz seis meses isso, mas até hoje eu sinto que meu respirar não é mais o mesmo.”

 

16 DE DEZEMBRO, QUARTA-FEIRA_O marido de uma das enfermeiras está no pronto atendimento, aguardando um leito na UTI. Mas não tem vaga. De enfermeira do setor, ela passou a acompanhante do marido doente. Outra enfermeira comentou conosco que ela acompanhou a própria mãe durante três meses no hospital. Todos na casa dela pegaram Covid. A mãe, que tinha câncer, não resistiu e faleceu no início de novembro. Os olhos da enfermeira se encheram de lágrimas, mas em seguida ela disse para minha mãe: “Graças a Deus, você já está muito boa. Logo, logo, vai estar em casa.”

Os médicos fizeram a transição da maioria dos medicamentos venosos para os orais. Minha mãe está bem melhor. Hoje, pela primeira vez, ela conseguiu tomar banho de pé, segurando nas barras de ferro do banheiro. Ela e eu fizemos um pacto: não vamos criar nenhuma expectativa sobre a alta. Vamos comemorar as pequenas vitórias de cada dia. O que comemoramos agora é ela poder tomar um bom banho de chuveiro.

Tia Cris precisou voltar para Ipatinga hoje. Fiquei um pouco desesperada, pensando em quem poderia chamar para me ajudar, se for preciso. A opção é pedir para Maisa, o que eu não queria fazer, pois ela está trabalhando, tem feito todas as tarefas da nossa casa e ainda me aconchega quando eu volto à noite.

 

17 DE DEZEMBRO, QUINTA-FEIRA_Quanto tempo leva para o cansaço da minha mãe passar? Quanto tempo para a tosse parar completamente? E a saturação, quando normaliza? A frequência cardíaca sobe sempre assim mesmo? A essas e tantas outras perguntas, os médicos só conseguem responder: “Não sabemos.” Ou: “Ainda estamos descobrindo.” Ou: “Ainda estamos aprendendo.”

 

18 DE DEZEMBRO, SEXTA-FEIRA_O médico disse que muito provavelmente minha mãe receberá alta amanhã. As preocupações vão diminuindo. A depressão, sobre a qual evitamos falar (nem sequer dizemos o nome), não deu as caras em nenhum momento. Ainda bem! Vai ver que o tratamento da Covid-19 também tratou a depressão. Quem sabe? Ainda estamos aprendendo. Mas uma coisa é certa: sabemos que minha mãe não poderá retomar o tratamento com eletroconvulsoterapia tão cedo.

Ao saber da possibilidade de alta, Fernanda nos mandou um bolo delicioso, de chocolate e nozes, acompanhado de um bilhete ainda mais doce, em nome dela e da mãe. Dona Rute continua no CTI. Seguimos torcendo por ela.

19 DE DEZEMBRO, SÁBADO_O médicochefe da equipe entrou no quarto e disse para minha mãe: “Jacqueline, você me deu um trabalhão, hein? Como pode ser tão inflamada?” E riu. Seu riso era também uma manifestação de alívio. Ele e a equipe do hospital haviam salvado uma pessoa. Continuou: “Seu problema está resolvido, ver um paciente recuperado é tudo que um médico quer.” E, por fim, deu a boa notícia: “Podem ir para casa!”

Quando a enfermeira chegou com a cadeira de rodas, minha mãe pediu para passarmos pelo corredor da ala de Covid-19 porque ela queria colocar na parede o coração com o seu nome. Ao chegarmos lá, a equipe de enfermagem aplaudiu e cantou a canção da vitória: “Vai ter alta, vai ter alta, vai ter alta. Hoje vai ter alta!” Sonhamos tanto com esse momento.

Ao deixar o hospital, pedi aos céus para que os médicos e pesquisadores tenham a intuição, a ciência e a agressividade necessárias para lutar contra a Covid-19, junto de seus pacientes. E que estes sejam, de fato, muito pacientes. Tudo passa.

Quando chegamos em casa, minha avó e minha irmã nos esperavam. Elas tinham preparado um almoço gostoso e montado a árvore de Natal na sala. “Que saudade de vocês”, exclamou minha mãe. Ela estava fraca e debilitada, com o corpo inchado e vários hematomas manchando a pele, mas parecia não se preocupar com nada disso, pois ria feito uma boba. Nós também ríamos: todo mundo estava emocionado e feliz. Minha mãe sentou-se no sofá, suspirou fundo, passeou os olhos pela sala e disse: “Não tem lugar que eu goste mais do que a minha casa.”



Roberta Viola

É linguista, mestranda e pesquisadora do LIA (Laboratório de Inteligência Artificial) da UFMG

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