vultos da república

Estou no páreo

O governador gaúcho está confiante de que pode ir do Pampa ao Planalto

Consuelo Dieguez
Leite, na ala residencial do Piratini: no segundo turno em 2018, ele deu a declaração que o persegue até hoje – anunciou voto em Bolsonaro. Hoje, faz oposição ferrenha ao presidente
Leite, na ala residencial do Piratini: no segundo turno em 2018, ele deu a declaração que o persegue até hoje – anunciou voto em Bolsonaro. Hoje, faz oposição ferrenha ao presidente CREDITO: FABIO BARTELT_2021

O Palácio Piratini, sede do governo do Rio Grande do Sul desde 17 de maio de 1921, é uma joia da arquitetura neoclássica, encravada no Centro Histórico de Porto Alegre. Num estado onde as paixões políticas extremadas levaram a revoluções fratricidas – a última delas em 1923, quando o Piratini era ocupado pelo caudilho Borges de Medeiros –, conta-se nos dedos as vezes em que a palavra conciliação foi mencionada nos corredores do palácio. As revoluções ficaram para trás, mas as relações entre os partidos políticos de esquerda, de centro e de direita que há décadas se alternam no poder não costumam ser das mais amigáveis. No dia 17 de maio de 2021, no entanto, dia em que o Piratini comemorou seu centenário, o jovem governador do PSDB, Eduardo Leite, de 36 anos, conseguiu uma façanha. Reunir, para um almoço, ex-governadores de distintas correntes políticas que ocuparam o Piratini nas últimas quatro décadas.

Pela primeira vez na história recente, a longa mesa do Salão dos Banquetes do Piratini, coberta por uma toalha bege de tecido adamascado, sobre a qual pousavam arranjos de rosas brancas, taças de cristal  e porcelana branca de um século atrás, foi ocupada pelo anfitrião e mais cinco ex-governadores de partidos que quase sempre estiveram em lados opostos: Jair Soares, mandatário do estado pelo então PDS, herdeiro do partido que dava suporte à ditadura militar; Pedro Simon, do MDB, que fazia oposição à ditatura; Olívio Dutra, do PT; Yeda Crusius, do PSDB; e José Ivo Sartori, derrotado por Leite nas eleições, também do MDB. Quatro ex-governadores vivos não compareceram: o petista Tarso Genro, o tucano Antônio Brito e o emedebista Germano Rigotto, que alegaram compromissos prévios, além de Alceu Collares, do PDT, por problemas de saúde. “É uma alegria poder estar com cada um deles hoje”, discursou o governador na live que transmitiu a abertura do evento. “Afinal, a história do Rio Grande do Sul passa por esses mandatos, conferidos pelo voto popular”, concluiu, ao lado dos convidados, antes de conduzi-los para o almoço a portas fechadas.

Dialogar civilizadamente com os opositores é uma das características de Eduardo Leite desde o início de sua curta, porém profícua vida pública, que começou aos 19 anos, quando ocupou a chefia de gabinete na Prefeitura de Pelotas, passando pela presidência da Câmara de Vereadores da cidade, onde se elegeu prefeito aos 27 anos, em 2012. Contrário à reeleição, deixou o cargo ao final do mandato, em 2016, com 87% de aprovação, mas emplacou no posto a sua vice, Paula Mascarenhas, do PSDB, eleita em primeiro turno. Foi o único prefeito das grandes cidades gaúchas a eleger o sucessor. Depois do sucesso na prefeitura, foi convocado pelo partido para concorrer ao governo do estado, em 2018. Venceu Sartori, que concorria à reeleição, e montou uma base de apoio que lhe garantiu maioria na Assembleia Legislativa. Com isso, nos primeiros seis meses de governo, conseguiu aprovar reformas para equilibrar as combalidas contas do estado, que exibiam a pior situação de caixa da federação.

Até agora, Leite foi o único governador a fazer duas reformas essenciais: a administrativa e a da previdência (de civis, incluindo os servidores do Judiciário, e de policiais militares). “Foi um feito importante”, disse ele, sem modéstia, numa conversa virtual em meados de abril. Seu estilo de fazer política, segundo ele próprio, foi decisivo para a aprovação das reformas. “Temos algo a contar do que estamos fazendo aqui. Não se trata apenas do que estamos fazendo, e sim de como estamos fazendo”, disse, com fala assertiva e pose de apresentador de telejornal. “É um jeito de fazer política que está em falta no Brasil. Com diálogo, respeito aos adversários, disposição para a negociação e para ouvir as outras partes.”

A elogiosa autodefinição mira mais o futuro do que o presente. Leite está convencido de que seu estilo conciliador e seu êxito como gestor, aliados à sua juventude, o credenciam para ser o nome do PSDB para concorrer à Presidência da República em 2022. Acha que o eleitor está cansado da polarização entre a extrema direita de Jair Bolsonaro e a esquerda de Luiz Inácio Lula da Silva. Nesse cenário, acredita que uma candidatura de centro poderia agregar os descontentes com os candidatos dos dois polos.

O ex-senador e ex-presidente do PSDB, José Aníbal, de São Paulo, um nome de peso dentro do partido, garante que as derrotas recentes de candidatos mais centristas – como a do tucano Geraldo Alckmin, de centro-direita, que estacionou em 4,7% na eleição presidencial – não significam que não haja espaço para um nome alternativo. Durante uma conversa virtual, ele disse que as pesquisas encomendadas pelo PSDB indicam que o topo do empresariado e do mercado financeiro, e parte da sociedade, estão em busca de um meio-termo. “Há um espaço à espera de um candidato nosso, ou um candidato nosso à espera de um espaço que está aí.”

Ainda que seu nome quase não apareça em pesquisa espontânea para presidente, Leite se considera a melhor alternativa do partido para enfrentar Lula e Bolsonaro. “Os dois candidatos que polarizam hoje a disputa têm, cada um, 40% de rejeição”, disse ele, com seu sotaque gaúcho carregado nos erres e esses longos. “Mais do que intenção de voto, tem muita gente que diz não querer votar neles. O eleitor vai para a urna com esperança, ele deseja algo melhor para o futuro. Tenho o sentimento de que o eleitor não quer se resignar com o que está aí, para evitar a volta ao passado, e não quer voltar ao passado para simplesmente tirar o que está aí. A gente precisa discutir com esse eleitor sobre o que a gente pode ser. O que a gente quer para o futuro.”

Apesar da ênfase das suas posições e da autoconfiança, antes de disputar espaço com Lula e Bolsonaro, Leite terá que ganhar seu próprio partido, hoje mergulhado em disputas intestinas pelo direito de apontar o candidato da legenda à Presidência. Outros três nomes estão no jogo: o senador cearense Tasso Jereissati, o ex-prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto, e o mais obstinado de todos, o governador de São Paulo, João Doria, que nunca escondeu suas pretensões presidenciais. Doria está acostumado a dobrar a espinha do PSDB. Contra o comando do partido, disputou e ganhou as prévias para candidato a prefeito da capital paulista, em 2016, e as de governador, em 2018. Mas vai encontrar no correligionário do Pampa um adversário determinado a romper a hegemonia de paulistas e mineiros no partido.

 

Eduardo Leite só surgiu como alternativa em resposta a um desastre promovido por Doria, em fevereiro. O governador paulista quis tomar a presidência do partido para garantir sua indicação para a disputa presidencial. No dia 8 daquele mês, promoveu um jantar no Palácio dos Bandeirantes, com a participação de graúdos como o ex-senador Aloysio Nunes Ferreira, o então prefeito da capital, Bruno Covas, morto em maio deste ano, o presidente do partido, Bruno Araújo, e outros tucanos ligados ao deputado Aécio Neves. De repente, para surpresa geral dos convivas, os apoiadores de Doria lançaram a ideia de colocar o governador na presidência da legenda. Doria, docemente constrangido, não previa a reação: a proposta foi tão mal recebida que acabou rechaçada ali mesmo.

Nos dias que se seguiram, a investida desandou ainda mais. Além da deselegância de lançar seu nome para o comando do partido na frente do atual presidente, o erro estratégico expôs a enorme rejeição de Doria dentro do PSDB. Dois dias depois do jantar, os 26 presidentes de diretórios estaduais fizeram um manifesto pedindo a manutenção no posto de Bruno Araújo, ex-deputado federal por Pernambuco. Foram seguidos por todos os deputados federais. Só ficaram de fora os deputados da bancada paulista. Alguns chegaram a ser instados pelo comando do partido a permanecer neutros apenas para evitar um vexame ainda maior para Doria.

Nesse mesmo dia, um grupo de tucanos voou para Porto Alegre e convidou Leite a disputar a vaga de candidato ao Palácio do Planalto. Leite topou na hora. Suas chances de ser o único nome nas prévias pareciam ganhar mais força. A Executiva Nacional antecipou em um mês uma reunião só para manter Araújo no comando da legenda, expondo a fragilidade do governador paulista, até então o principal competidor de Leite.

O movimento contra Doria, contudo, não foi suficiente para ungir o governador gaúcho. Haverá um longo caminho pela frente até que o PSDB decida quem o representará nas urnas em 2022. Depois de muita discussão, as prévias para escolha do candidato – as primeiras de um partido brasileiro – foram marcadas para 21 de novembro. E aí veio outra polêmica: Quem deveria ter direito a votar nas prévias?

Enquanto a discussão corria solta, nova confusão abalou o tucanato. Dessa vez, o tumulto foi criado pelo próprio Eduardo Leite. Embora boa parte do partido brigasse pelo seu nome, Leite se reuniu com a presidente do Podemos, a deputada federal Renata Abreu, de São Paulo, que o convidou para ser o candidato à Presidência pela sua legenda. Leite ouviu a proposta, não disse nem sim nem não. Os grupos de tucanos no WhatsApp pegaram fogo. Bruno Araújo, sentindo-se traído, lançou o nome do senador Tasso Jereissati como alternativa à sucessão presidencial. A ideia reverberou nas redes sociais do partido, que passaram a divulgar o slogan “PresidenTasso”, criado pelo próprio Araújo.

Era uma estratégia para enquadrar Leite, mas o senador Tasso Jereissati gostou da ideia. Em Manaus, Arthur Virgílio Neto, habituado a se lançar nas convenções partidárias, também se entusiasmou e resolveu participar do jogo. Resultado: falta voto no PSDB, mas sobram candidatos e brigas internas.

 

Foi em meio ao tumulto partidário que encontrei Eduardo Leite, em seu amplo gabinete no Piratini, num começo de noite, em meados de maio. O governador não apenas trabalha no palácio como – novidade na política gaúcha – optou por morar na ala residencial, cujas imensas portas, em caixilharia de madeira, se abrem para um jardim adornado por obras do francês Paul Landowski, o mesmo escultor da estátua do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro.

Como é solteiro e vive sozinho no palácio, os amigos sugeriram que adotasse animais de estimação. Assim, quem entra na antessala de seu gabinete é saudado por um casal de cachorros da raça schnauzer. O macho chama-se Bento, em homenagem ao coronel Bento Gonçalves, um dos líderes da Revolução Farroupilha (1835-45), a mais sangrenta do Rio Grande do Sul. A fêmea é Chica, por causa de Caetana Francisca, mulher do revolucionário.

Leite vestia-se de maneira informal, mas com elegância. Calça bege esportiva e camisa sob um pulôver no mesmo tom. Acomodado em uma poltrona branca, descreveu, como se fora um observador político e não um postulante à candidatura, a situação dos nomes que se colocaram na disputa no partido. “Não se trata aqui de falar apenas de capacidade de gestão, de capacidade política e técnica. Isso todos nós temos. Mas de capacidade eleitoral”, opinou. “A gente tem que olhar para o contexto político de 2022 e entender quem vai conseguir se conectar com o sentimento do eleitor. Quem consegue recuperar no eleitor a esperança e o sonho.”

Mantendo o tom de analista político, acrescentou. “Se houver convencimento do partido de que essa pessoa é o Doria ou o Tasso, eu sei que o país estará bem servido. Mas não tenho certeza de que sejam eles do ponto de vista eleitoral.” Naturalmente, Leite acha que quem reúne as melhores condições é ele mesmo. Sua juventude não é um empecilho. “Entendo que eu possa dar a minha colaboração inclusive por ser jovem, mas não apenas por isso. Porque mesmo jovem eu tenho uma experiência na vida pública de contornar problemas e entregar resultado de valor para a população.” E espeta a agulha em Doria: “Com a imensa exposição que ele teve com a vacina, era de se esperar que houvesse alguma reação nas pesquisas, o que não ocorreu.”

Leite acredita que sua baixa visibilidade por governar um estado fora do centro nacional de decisões também corre a seu favor. “Eu não tenho a rejeição dos outros candidatos, o que fará essa caminhada muito mais difícil para eles do que para mim.” Afirma que encomendou pesquisas sobre o perfil de candidato preferido pela população e garante que os resultados comprovam sua tese. “O sentimento que eu colho é que há frustração com Lula e Bolsonaro. O que está frustrado com Bolsonaro vota em Lula e vice-versa. Mas isso porque os eleitores não conhecem as alternativas. Pelo menos a mim, não conhecem.”

 

Eduardo Figueiredo Cavalheiro Leite é um homem de altura mediana, de barba cerrada, cabelos cortados rente à cabeça, olhos verdes e corpo atlético. Ele acorda às seis da manhã e se exercita na academia que montou na ala residencial do palácio, com aparelhos que pagou do próprio bolso, como faz questão de lembrar. Depois do café, inicia uma rotina que vai até as nove da noite. Lê já deitado na cama, mas acaba dormindo antes da segunda página, vencido pelo cansaço. Ainda não conseguiu terminar seu livro de cabeceira, Sapiens, o best-seller do israelense Yuval Noah Harari, lançado no Brasil em 2015. Suas leituras mais constantes acabam sendo os documentos oficiais que precisa assinar.

Às vezes, assiste a alguma série de tevê, todas relacionadas a política. “Para relaxar”, brinca. Gostou de House of Cards, drama político que se passa na Casa Branca, e, por sugestão dos pais, está assistindo à série dinamarquesa Borgen, que retrata a vida de uma fictícia primeira-ministra, com grande capacidade de negociação. “Minha tia disse que o estilo dela parece com o meu”, conta ele, rindo com alguma satisfação. Também costuma assistir a partidas de futebol, principalmente as disputadas pelo Brasil de Pelotas, do qual é torcedor fanático. É um tomador – quase compulsivo – de chimarrão.

Nascido em Pelotas, Leite é o caçula dos três filhos de José Luís Marasco Cavalheiro Leite e Rosa Eliana de Figueiredo, professores aposentados da Universidade Federal de Pelotas. O pai, advogado, foi, por vários anos, diretor da Faculdade de Direito, além de secretário de Educação na cidade e um dos fundadores do PSDB local. A mãe é cientista política. A cultura do serviço público, “na melhor acepção da palavra”, disse Leite, está no DNA da família. Um dos irmãos é agrônomo e trabalha na fiscalização do Porto de Rio Grande. O outro é policial federal.

A política sempre fez parte da vida familiar. Eram comuns as discussões à mesa, o que foi determinante para o envolvimento de Leite na militância estudantil. Primeiro, como representante de turma. Depois, como presidente do grêmio do colégio. Era tão encantado com a política, que, quando criança, trocava as brincadeiras de rua pelos programas eleitorais. O marqueteiro Fábio Bernardi, que trabalhou na sua campanha para governador e foi um dos marqueteiros de Fernando Henrique Cardoso, contou, divertido, que se impressionou ao constatar que Leite sabia de cor os jingles de campanha da época de FHC. “Não eram só os jingles do PSDB. Eram os de todos os partidos.”

Adolescente, Leite tinha por hábito sair do colégio e ir para a Faculdade de Direito, onde esperava pelo pai, para voltarem juntos para casa. O gabinete do então diretor da faculdade era um polo animado, onde se discutia bastante política. O filho acompanhava os debates entre os professores e, com o tempo, passou a opinar. Algumas vezes, discordando do próprio pai. Aos 16 anos, entusiasmado com aquele universo, filiou-se ao PSDB.

Em 2002, começou a cursar direito na mesma faculdade dos pais. Fluente em inglês e francês, chegou a pensar em seguir a carreira diplomática. Mas a política falou mais alto. Dois anos depois, aos 19, com apoio da família, decidiu concorrer a vereador. Os pais, os primos, os tios e os amigos eram seus principais cabos eleitorais. Perdeu, mas virou suplente. “O candidato da nossa coligação com o então PFL era um sujeito que se elegeu com voto de protesto. Ele aparecia na tevê dizendo ‘na minha casa falta comida, sabonete, mas eu quero o voto de vocês para resolver os meus problemas. Pelo menos eu não sou mentiroso’”, lembrou Leite.

No dia da apuração, ele recebeu a notícia da morte da avó paterna. Deixou tudo e foi se juntar à família. “Como foi um dia muito triste para nós, a minha derrota foi relativizada”, contou. No entanto, o prefeito eleito, Bernardo de Souza, convidou o jovem para ser subchefe de gabinete do secretário de governo. Quando o prefeito renunciou por problemas de saúde, dando lugar ao vice, do PP, com quem tinha desavenças, Leite estava preparado para ser demitido. Surpreendeu-se ao ser promovido. Aos 21 anos, tornou-se chefe de gabinete do prefeito, o que lhe deu experiência no Executivo municipal. Seis meses antes da nova eleição local, quando precisava se desincompatibilizar para concorrer à Câmara Municipal, Leite assumiu a vaga de um vereador cassado, o tal eleito com voto de protesto.

Ao final do mandato, candidatou-se novamente a vereador e, dessa vez, ganhou. Na Câmara, passou a combater os privilégios, criou a lei de transparência da cidade e conseguiu reduzir as diárias em viagens e as próprias viagens dos vereadores, além de alterar as licitações públicas, entre elas as de transporte coletivo. “As medidas não me faziam o mais querido entre meus pares, mas sempre mantive uma relação respeitosa com eles”, assegurou.

Em 2010, concorreu a deputado estadual. Perdeu e continuou seu mandato como vereador. Em razão de uma briga entre dois grupos políticos, acabou chamado por um deles para ser o presidente da Casa. “A disputa entre os grupos foi a razão da minha indicação, porque eu estava fora do jogo”, contou. Dali, saiu candidato à prefeitura e ganhou.

Leite faz um balanço positivo de tudo que lhe aconteceu naquele período. “Quando as coisas pareciam que iam dar errado, davam certo. Eu perdi a eleição para vereador e fui contratado para a prefeitura. Depois, achei que seria demitido e fui promovido. Ia me desincompatibilizar e virei vereador na vaga de quem a tinha me tirado. Tinha saído de uma derrota eleitoral para deputado estadual, e virei presidente da Câmara, que foi determinante para eu me eleger prefeito e, depois, governador.”

Garante que não se julga um predestinado. “Eu me sinto vocacionado”, esclarece. “Eu sempre tive uma força interior que me moveu, me fazendo acreditar que as coisas dariam certo. As coisas acontecem quando têm que acontecer.” Sem modéstia e sem arrogância, explica: “Diz um ditado que sorte é quando a oportunidade encontra o preparo. Eu acho isso bastante apropriado. Eu sempre me preparei e as oportunidades surgiram. Se isso é sorte, eu tive sorte, mas sempre estive me preparando.”

Na prefeitura, Leite não apenas terminou o mandato com 87% de aprovação, mas garantiu, a partir dali, sua eleição para o governo estadual: 90% do eleitorado de Pelotas, o mais numeroso da metade Sul do estado, cravou o voto nele no segundo turno. Na gestão municipal, ele criou um programa de saúde pública que acabou copiado por outros municípios e virou modelo citado no livro Social Value Investing (Investimento em valor social), de Howard Buffett e William Eimicke, professores da Universidade Columbia, em Nova York.

Ele também enfrentou a crise financeira na cidade adotando medidas pouco simpáticas. Uma delas foi tirar o dinheiro do Carnaval da cidade para colocar na saúde. “Nunca tive medo de tomar medidas duras, quando necessárias”, disse. “Chamei os carnavalescos e expliquei que, por causa da recessão, o governo federal não mandaria os recursos prometidos para a saúde. Portanto, eu teria que bancar a abertura da primeira Unidade de Pronto Atendimento da cidade com o nosso caixa e não sobraria dinheiro para o Carnaval. Foi uma decisão difícil. Mas todos compreenderam.” Nem tanto. Houve protestos dos carnavalescos. Leite também fez um programa de reorganização urbana, pavimentando ruas, melhorando a iluminação e a sinalização, retirando os camelôs da área central e recuperando o antigo casario de Pelotas que, no século XIX, era a cidade mais próspera e sofisticada do estado. A pujança vinha da produção de charque, que entrou em decadência com a chegada dos refrigeradores.

Ao assumir a prefeitura, Leite pediu assistência ao Comunitas, uma organização sem fins lucrativos, bancada por grandes grupos empresariais brasileiros, que prestam consultoria gratuita aos municípios. Luiz Idefonso Simões Lopes, vice-presidente da canadense Brookfield, um gigantesco conglomerado em infraestrutura, logística e mercado imobiliário, é um dos apoiadores do Comunitas e debulha-se em elogios ao ex-prefeito. “Leite fez um trabalho espetacular, aliando a habilidade política com a capacidade de gestão. O resultado foi uma melhora na saúde, na educação, na organização urbana e na infraestrutura do município. É alguém permanentemente interessado em aprender, em se aperfeiçoar. É bom ver essas qualidades em um político jovem.”

Quando Leite deixou a prefeitura, o Comunitas bancou uma bolsa de estudos para o ex-prefeito na Universidade Columbia, onde estudou com os dois autores de Social Value Investing. Quando voltou ao Brasil, iniciou, por conta própria, um mestrado em gestão, na Fundação Getulio Vargas, em São Paulo, interrompido para entrar na disputa para o governo do estado. Venceu, mas até hoje lida com a herança daquela campanha.

 

No segundo turno, a bordo de uma coligação com nove partidos, Leite enfrentou o candidato que apoiava Bolsonaro. A exemplo do “Bolsodoria” em São Paulo, José Sartori fez a campanha como “Sartonaro”, mas não teve o sucesso de seu colega paulista. Leite não fez campanha para Bolsonaro no primeiro turno, mas declarou seu voto ao  candidato da direita radical no segundo turno e fez questão de bater duro no PT. “Um presidente da República que busca conselho na cadeia, e um partido que patrocinou o maior escândalo de corrupção do país, que ataca a Lava Jato e é responsável pelo modelo econômico que gerou 13 milhões de desempregados não merecem voltar ao poder. Por isso, digo com todas as letras, o PT não.” Depois, deu a declaração que lhe persegue até hoje. “Neste segundo turno, para evitar a volta do PT, eu vou dar meu voto ao candidato Bolsonaro. É um gesto democrático acompanhando a decisão coletiva dos partidos da minha coligação.” Dado o rumo que as coisas tomaram, os adversários não perdoam a enormidade de ter dito que votar em Bolsonaro era um “gesto democrático”.

Como bom tucano, depois tentou relativizar sua decisão. “O fato de eu não querer a volta do PT não significa a minha adesão incondicional ao que não traduz a minha visão de mundo na vida e na política.” Em outras palavras, como queria ganhar a eleição para o governo gaúcho, e o grosso do eleitorado do estado votou em Bolsonaro, Leite achou que deveria fazer o mesmo. Na época, disse que se tratava de “um gesto natural de quem pretende vencer esta eleição, mas não quero vencer a eleição e perder a alma”. Hoje, a alma de Leite faz oposição ferrenha a Bolsonaro.

Leite entrou na disputa para o comando do estado com 8%, contra 19% do governador Sartori. Na primeira pesquisa depois da campanha na tevê, saltou para 18%. Fechou o primeiro turno com 36% dos votos, contra 31% de Sartori. Pela primeira vez em décadas, o PT ficou de fora do segundo turno. Mas a declaração de voto em Bolsonaro lhe custou eleitores. Estimava-se que ganharia por 60% a 40%. Ganhou com uma margem bem menor, de 54% a 46%. No final, acha que parte da esquerda acabou votando nele pelo fato de Sartori ser tão abertamente apoiador do atual mandatário.

No governo, Leite montou uma coalizão com quase todos os partidos da Assembleia Legislativa, exceto o PT, o Psol e o PDT. Conseguiu aprovar a autorização para privatizar uma penca de estatais – de energia elétrica, de saneamento, de mineração, de gás – que, pela lei antiga, só podiam ser vendidas mediante plebiscito. “Não estamos vendendo para fazer caixa, mas sim para permitir que elas operem com eficiência, recebam investimentos privados e melhorem a infraestrutura do estado”, disse ele. “A CEEE, nossa estatal de energia elétrica, estava a ponto de perder a concessão dada pelo poder regulador, pelos maus serviços, além de acumular uma dívida trabalhista monumental, e de sequer recolher ICMS ao estado.”

Sua maior vitória, no entanto, foi a aprovação das reformas administrativa e da previdência, duas das principais promessas de campanha, consideradas como única alternativa para tirar as contas estaduais do fundo do poço. A dívida com a União está na casa dos 70 bilhões de reais. Para estancar a sangria na previdência, cujo déficit até o ano passado era de 12 bilhões de reais, aumentou-se em cinco anos o prazo para aposentadoria, elevou-se a contribuição do pessoal da ativa e de aposentados, civis e militares, assim como a do estado. Com isso, o déficit caiu para 10 bilhões. Espera-se que esteja zerado em uma década. Só no ano passado, o estado fez uma economia de 700 milhões na folha de pagamento. Os salários do funcionalismo, depois de seis anos sendo pagos com atraso, voltaram a cair na conta em dia.

Um dos maiores sorvedouros, de acordo com o secretário da Fazenda, Marco Aurelio Santos Cardoso, egresso do BNDES, era o plano de carreira dos professores, em vigor desde 1974. O Rio Grande do Sul tem 100 mil professores aposentados e 50 mil nas salas de aula. O plano de carreira previa várias vantagens como anuênios e quinquênios, e outras gratificações que eram incorporadas às aposentadorias. “O estado não conseguia pagar melhor porque qualquer tentativa nesse sentido tinha repercussão na previdência. Para cada 1 bilhão de reais para melhorar o salário dos professores da ativa, eram mais 2 bilhões para as aposentadorias. Com a reforma administrativa, isso acabou. Agora o valor do salário é fixo, para as quatro faixas salariais. Não há risco de gratificações serem incorporadas, mais tarde, às aposentadorias”, explicou.

“Todas as reformas foram exaustivamente discutidas com todos os envolvidos. Cedemos em alguns pontos, em outros mantivemos a nossa proposta. O fato é que, sem as reformas, não tínhamos como renegociar esse endividamento e tampouco teríamos condições de investir em coisas fundamentais para o estado, como educação, saúde e infraestrutura”, disse o governador. “Para compensar as perdas dos salários mais baixos, fizemos alguns ajustes. Cortamos abonos de juízes e promotores e os repassamos aos professores, além de isentarmos de desconto de vale-alimentação os salários das faixas mais baixas.” Pela primeira vez em décadas, o estado, no ano passado, fechou com superávit primário as suas contas.

Leite acredita que uma das maiores razões para o sucesso na aprovação das medidas foi a promessa, feita na campanha, de que não concorreria à reeleição. “Se eu não fizesse isso, certamente eu teria muito menos apoio dos partidos da base aliada. Por isso defendo que o próximo presidente da República também assuma o compromisso de não tentar se reeleger. É a melhor forma de se conseguir apoio para governar.”

Helenir Aguiar Schürer, presidente do sindicato dos professores do estado, o Cpers, não vê as coisas da mesma forma que o governador. Numa conversa virtual, ela disse que a reforma administrativa prejudicou a categoria, e acusou Leite de dialogar mais com a imprensa do que com os servidores. “Conosco não tem esse diálogo. Ele não recebeu ninguém”, disse ela. Simone Leite, ativa empresária do setor metalúrgico, filiada ao PP e ex-presidente da Federasul, entidade que congrega empresas de vários setores da economia gaúcha, é outra que critica o governador. “Ele diz que é um ótimo ouvinte. Ele ouve muito e age pouco. Na verdade, ele ouve e, no final, faz as coisas do jeito que ele quer.”

Simone Leite reclama que o empresariado ajudou na aprovação das reformas, mas não recebeu sua parte na forma de redução de impostos, como fora prometido na campanha. Ao contrário. “No meio da pandemia, em agosto, ele encaminha para a Assembleia Legislativa um projeto de reforma tributária”, reclamou ela. “Soubemos pela imprensa, porque foi enviado na calada da noite de uma sexta-feira. Estava previsto aumento de tributos. Para completar, ele pedia ainda mais tempo para manter o ICMS elevado, ao contrário do que havia combinado conosco.” A briga entre os dois intensificou-se, e a imprensa batizou a disputa como “Leite x Leite”. Durante um debate, Leite, o governador, disse que Leite, a empresária, não estava entendendo a reforma tributária. “Aquilo foi um desrespeito. Um gesto machista. Dizer que eu, presidente de uma federação empresarial, não tinha entendido.” O governador ganhou no ICMS, mas a empresária ganhou na questão dos impostos, que nem foi a votação.

O atual presidente da Federasul, Anderson Trautman Cardoso, avalia que o estado fez alguns avanços importantes nos últimos dois anos, principalmente as reformas, mas salienta que o governador contou com o apoio dos deputados eleitos com espírito reformista. “Esses avanços só aconteceram porque houve um decréscimo significativo das bancadas de esquerda na Assembleia”, disse. “Dos 13 deputados do PT da legislatura anterior, por exemplo, restaram 8. O que se formou aqui nessa eleição foi uma bancada de centro-direita bastante diversificada, que entende a importância das reformas para viabilizar o estado.”

Na oposição de esquerda, a crítica ao governador vai além da falta de diálogo. O deputado Pepe Vargas, líder do PT na Assembleia, minimiza o trabalho de Leite como gestor. “Ele não tem nada de inovador. Ele repete uma receita que todos os governos neoliberais tentam fazer aqui, que é vender patrimônio, vender empresas. Em geral, esses governos terminam mais endividados e com a economia crescendo pouco”, disse. “E o que ele fez na previdência? Ele simplesmente passou a cobrar dos inativos um valor mais alto do que eles já pagavam.” E também minimiza o trabalho de Leite como articulador. “Não tem nada de extraordinário. Construiu a maioria da forma mais tradicional possível, dando cargos para os partidos apoiarem o governo dele. E joga pesado com os deputados da base dele que não o apoiam incondicionalmente.”

O deputado Fábio Ostermann, do Novo, que não apoia nem se opõe ao governo, concorda com Vargas. Ele disse que os deputados mais rebeldes da base e os do Novo sofrem represália até nos projetos que apresentam, sempre rejeitados. Seu maior incômodo com Leite ocorreu na questão do aumento do imposto. “Ele veio com um marketing de que estava fazendo reforma tributária. Na prática, era uma tentativa de recompor receitas que seriam perdidas após o fim da vigência do ICMS que tinha sido temporariamente aumentado.” Ostermann acha que a personalidade do governador não ajuda. “Ele tem alguns arroubos de arrogância que o atrapalham.”

 

Com mais de 500 mil mortos no país, a pandemia tornou-se um dado incontornável para avaliar o desempenho de governadores – e, neste ponto, Eduardo Leite divide opiniões, mas colocou-se sempre do lado da ciência. O empresariado não gostou, até prefeitos aliados reclamaram. Leite foi um dos primeiros governadores a fechar boa parte do comércio e da indústria. Embora tenha criado um sistema de bandeiras, em que apontava as zonas que podiam ou não funcionar mais livremente, o governador foi muito atacado pelos que se sentiram prejudicados. “Ele fechou o Rio Grande do Sul com uma sistemática de bandeira, que nós duvidávamos da eficácia, e agora está comprovado que não tem eficácia nenhuma, mas que deu um prejuízo enorme para a sociedade gaúcha”, reclamou, novamente, Simone Leite.

Pedro Hallal, ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas, é um dos mais destacados infectologistas do Rio Grande do Sul. Embora esteja no campo oposto ao do governador – ideologicamente ele se coloca mais à esquerda –, Hallal passou a compor a equipe de especialistas que ajudou o estado a enfrentar a pandemia. Ele elogia o trabalho de Leite. “Nos primeiros meses da pandemia, ele fez uma gestão histórica”, afirmou. “O Rio Grande do Sul teve um desempenho espetacular no enfrentamento da doença, porque seguia as recomendações científicas e foi pioneiro num modelo de distanciamento controlado muito sofisticado. O governador foi realmente um líder.”

Assim que o coronavírus chegou, o governo montou um sistema de monitoramento que acabou copiado por outros estados, inclusive São Paulo. Leany de Souza Lemos, presidente do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul, BRDE, a primeira mulher a assumir a presidência de um banco público estadual, coordenou o comitê de dados que desenhou o modelo de gestão. “Foi um trabalho de muitas mãos”, disse ela. “Envolveu várias secretarias, universidades, Ministério Público, empresários, sindicatos de trabalhadores e também o vice-governador.”

Mas Hallal divide a “gestão histórica” em dois períodos: antes e durante a campanha eleitoral para prefeitos. “Durante as eleições, a situação piorou. Ele acabou cedendo à pressão de candidatos do mesmo campo que ele, que queriam se eleger com um discurso baseado na dicotomia economia e saúde.” Leite, disse Hallal, flexibilizou as medidas de distanciamento quando não deveria, o que afetou seriamente a saúde pública. Ainda assim, o Rio Grande do Sul, até agora, disputa a liderança nacional em vacinação com Mato Grosso do Sul e vem sendo elogiado pelos cientistas.

Segundo Leany Lemos, foram feitos vários cenários mapeando todos os riscos: de logística, abastecimento, energia, leitos hospitalares “Tínhamos tudo mapeado. E tudo era diariamente revisto”, contou. Sem uma coordenação nacional, os estados sofreram para lidar com a pandemia. Além de não ajudar, o governo federal conseguia piorar a situação, ao protelar o envio de recursos à saúde num momento em que os estados enfrentavam uma brusca queda de arrecadação. O Congresso Nacional, então, pressionou o governo federal a aprovar um programa de repasse de recursos a estados e municípios. Quando finalmente chegaram os recursos federais, a perda do Rio Grande do Sul com ICMS já tinha sido de 2 bilhões de reais. Foi um alívio.

Até que, em março deste ano, quando o nome de Leite começou a circular como um possível presidenciável do PSDB, Jair Bolsonaro passou a divulgar que o governador gaúcho tinha usado a verba da saúde para colocar o pagamento do funcionalismo em dia – e o fez com a habitual truculência. Em entrevista a Rádio Bandeirantes, disse: “Eu queria saber onde o governador do Rio Grande do Sul enfiou o dinheiro da saúde. Eu não vou dizer pra ele, né? Mas eu acho que é feio onde ele enfiou essa grana toda aí”, disse. Dois dias depois, voltou à carga com insinuações homofóbicas, em conversa com apoiadores na porta do Palácio da Alvorada. “Ele pode ter enfiado em outro lugar. Pode até ser legal, mas o dinheiro era para a saúde.” Leite contestou Bolsonaro com números e entrou com uma ação de calúnia e difamação contra Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal.

 

Dois dias depois da nossa primeira conversa presencial, voltei a encontrar o governador em seu gabinete no Palácio Piratini. Ao contrário do contato anterior, Leite se vestia de maneira mais alinhada e formal, com blazer e calça pretos, seu uniforme para solenidades. Ele tinha uma cartilha publicada pelo governo, detalhando todos os gastos na saúde. “Toda a verba enviada pelo governo federal para a saúde foi exclusivamente utilizada na saúde. Mas, além disso, o estado colocou verbas próprias no combate à Covid-19. Está tudo detalhado aqui. Foi tudo auditado pelo Tribunal de Contas do estado e pela Procuradoria”, afirmou.

O ataque grosseiro do presidente à sua orientação sexual não o afetou. Eduardo Leite é homossexual. Embora ainda seja um tema delicado no meio político, ele não se furtou a falar do assunto em nossa conversa. Leite não esconde sua orientação sexual, mas também não expõe sua vida pessoal. “Eu nunca escondi que sou homossexual. Eu simplesmente não costumo tratar do assunto. Nunca criei um personagem e nunca quis parecer algo que não sou. Mas até aqui tenho preferido dar todo destaque ao meu trabalho como gestor. No entanto, para me apresentar nacionalmente sem ser acusado de estar escondendo o que não escondo, talvez chegue um momento em que isso precisará ser tratado”, admitiu. “Se for necessário, trarei o assunto à tona. Destaco que nunca escondi ou criei uma falsa realidade.”

O governador diz que está preparado para enfrentar a artilharia homofóbica que Bolsonaro e suas raivosas redes sociais vão acionar. “Eu tenho absoluta tranquilidade para lidar com isso”, assegurou. “Sempre tentaram me desestabilizar fazendo ilações, brincadeiras, ataques grosseiros em relação a isso. Nunca me desestabilizei. Não falo sobre minha vida pessoal porque não acho que tem que ser o assunto. Mas, se tiver que vir a debate, virá.” Uma coisa, disse ele, é debater a questão da homossexualidade, outra é transformá-la em arma eleitoral. “Um país que tem que discutir um problema sanitário, onde morreram mais de 500 mil pessoas. Um país às voltas com uma enorme recessão econômica, com uma economia cambaleante, milhões de desempregados, gente passando fome, uma educação que não está sintonizada com o que a economia vai exigir em termos de produtividade, uma temática ambiental que é renegada e que tem comprometido os negócios. Com todos esses problemas, me parece equivocado que a gente foque na sexualidade de um candidato.”

É intolerável a ideia de se atacar alguém por causa da orientação sexual, afirmou o governador. “São os mesmos que atacam as pessoas por racismo, gênero ou questões religiosas”, disse. O que ele não quer é que sua orientação sexual ofusque seu trabalho, mas se diz atento à questão e aos problemas que envolvem as vítimas de preconceito. Em 17 de maio, quando se comemorou o Dia Internacional de Combate à LGBTfobia, as paredes do Piratini foram iluminadas com as cores da bandeira gay. Quando o ministro da Cultura, Mario Frias, num gesto de intolerância, mandou cancelar a verba para um projeto em Santa Catarina que combatia o preconceito e o bullying contra crianças homossexuais, a Secretaria da Cultura do Rio Grande do Sul soltou uma nota de repúdio e se ofereceu para ajudar o projeto.

Por tudo isso, o governador admitiu, pela primeira vez, que é oportuno trazer o tema a público. “Fazer política, liderar um projeto para o país, não é só sobre ser gestor de recursos públicos. Não é só sobre fazer obras e organizar as finanças. É também sobre como liderar na direção correta do ponto de vista civilizatório. A gente precisa mostrar para o país que é possível conciliar um projeto em que haja eficiência da máquina, que se atribui à direita, com a tolerância e o respeito às pessoas que se atribui à esquerda. O apreço ao ambiente de negócios, com parceria com a iniciativa privada, que se atribui à direita, com o apreço à cultura e o respeito à diversidade que se atribui à esquerda.”

 

Ranolfo Vieira Júnior é vice-governador do Rio Grande do Sul. Encontrei-o no final da tarde de uma sexta-feira fria e chuvosa, em seu gabinete, no Centro Administrativo do governo. Antes de entrar para a política, e de concorrer como vice na chapa de Leite, Vieira Júnior foi, por mais de duas décadas, delegado da Polícia Civil. De calça jeans, botina e um casaco surrado, ele é o oposto do perfil aristocrático do governador. Ele mesmo pontua as diferenças, referindo-se a si mesmo na terceira pessoa. “O Ranolfo é um homem um pouco diferente do Eduardo. O Eduardo tinha 33 anos quando concorreu a governador, o Ranolfo, 52. O Eduardo era um homem da política, e o Ranolfo, um operador de segurança pública.” Quando o PTB se coligou ao PSDB, Vieira Júnior foi indicado como vice. Pela sua experiência na área, Leite o nomeou também secretário de Segurança. Seu trabalho tem dado bons resultados, por meio de uma política que se baseia em três premissas: integração, inteligência e investimento.

Com base em um estudo sobre a criminalidade nos últimos anos, o vice-governador e sua equipe concluíram que os crimes no estado se concentravam em 23 municípios, de um total de 497, e passaram a desenvolver um programa focado nesses locais. Contrataram pessoal, compraram carros semiblindados e aplicaram técnicas de inteligência. A violência no estado caiu em todos os indicadores. Para Renato Sérgio de Lima, presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, organização que acompanha a criminalidade em todo o Brasil, o Rio Grande do Sul está fazendo o que todos os estados deveriam fazer: atuar com base em dados e de modo integrado. “A criminalidade começou a cair porque o estado trabalha com planejamento e com programa de metas alinhado com o que a literatura técnica recomenda como o mais efetivo na prevenção e enfrentamento da violência”, disse.

Vieira Júnior não esconde seu entusiasmo com o programa e disse que conta com o apoio do governador. “Ele participa das reuniões mensais com os delegados e secretários de Segurança. Nunca vi isso nos meus mais de vinte anos de polícia.” Vieira Júnior, que pertence a um partido que apoia Bolsonaro, não tem dúvidas sobre o sucesso das pretensões presidenciais de Leite, mas teme pelas futuras alianças. “É claro que o governador é um excelente nome e tem muitas chances de ganhar o apoio da população”, disse ele, passando a mão na cabeça, como quem tenta esconder um constrangimento. Afinal, uma coisa é certa: o PTB nacional não estará ao lado do governador. O vice está de saída do partido e estuda para onde irá se mudar.

O PTB gaúcho rompeu com o presidente nacional do partido, Roberto Jefferson, um bolsonarista desmedido. O vice-governador, os cinco deputados estaduais e os dois deputados federais estão buscando outra legenda. A razão foram os ataques de Jefferson ao governador e ao próprio vice, durante o lockdown. Numa entrevista a uma rádio gaúcha, Jefferson acusou os dois de não deixarem as pessoas saírem às ruas. “Ele ofendeu a mim e ao governador no negacionismo da pandemia.” Mas Jefferson foi muito além no desrespeito. Disse que a política de distanciamento social imposta pelo governador era “coisa de viado, uma maldade tocada pelo calcinha cor-de-rosa”. E questionou, em seguida: “Qual é o comportamento sexual do Dudu Milk-Shake, o homem de Pelotas?” O governador e o vice entraram imediatamente com ação na Justiça contra Jefferson. A Executiva Estadual do partido soltou uma nota de apoio aos dois. Jefferson, por sua vez, interveio no PTB do estado, destituindo o seu dirigente.

Para Vieira Júnior, o partido – que um dia foi dos gaúchos Getúlio Vargas e Leonel Brizola – desvirtuou-se de suas origens. “Não podemos aceitar essa situação. A maioria dos integrantes do partido no estado deixará a legenda. Não tenho dúvida de que o Jefferson fez isso para se ligar ao atual mandatário do Planalto”, afirmou, com indignação. Sobre a orientação sexual do governador, foi objetivo. “Não discuto esse assunto com o Eduardo. Não acho que isso tenha importância. Eu o admiro pelo seu trabalho. E tenho certeza de que, no cenário nacional, ele é quem reúne as maiores condições de liderar o país.”

 

No dia 15 de junho, o PSDB conseguiu, finalmente, aprovar um modelo para as prévias de novembro. Depois de várias idas e vindas, acertou-se que o candidato será escolhido com os votos de todos os representantes do partido, com os seguintes pesos: 25% dos votos de prefeitos, vice-prefeitos e vereadores; 25% de governadores, vice-governadores, deputados federais, senadores e ex-presidentes do partido; 25% dos deputados estaduais e 25% dos votos dos filiados. A fórmula foi uma derrota para Doria, que brigou para que o voto dos filiados tivesse muito mais peso na votação. “Essa fórmula não era justa com os outros postulantes a serem candidatos do partido”, disse José Aníbal, presidente da comissão. “Como São Paulo tem muito mais filiados, era óbvio que a votação tenderia para Doria.”

A fórmula das prévias demonstra, de antemão, a má vontade do comando do partido com Doria. “Ele tem esse estilo trator, que pode funcionar em São Paulo, mas é rejeitado pelo PSDB no resto do país”, disse o ex-senador Aloysio Nunes Ferreira. “Talvez o Tasso e o Eduardo tenham estilos muito mais agregadores.” José Aníbal segue na mesma linha. “Acho que o partido vai trabalhar para o Eduardo ou para o Tasso. São dois nomes sem rejeição”, afirmou. Quanto a Doria, Aníbal acredita que, para vencer as prévias, precisa antes reduzir a rejeição no partido e na sociedade, inclusive em São Paulo. “Ele ficou muito marcado por aquela história do Bolsodoria. Vai ser difícil compor com um nome assim”, admitiu.

Aníbal acha que a orientação sexual de Leite não será um empecilho. “Pelo contrário”, disse. “Acho que isso é uma novidade saudável. Dá uma cara de modernidade ao partido e vai atrair muita gente jovem para o nosso lado. É preciso dessacralizar essa história. Acho que ele fará isso”, afirmou. E acrescentou: “Se até o Rio Grande do Sul estava preparado para um candidato homossexual, imagina o resto do Brasil.”

No dia seguinte à decisão sobre as regras das prévias, falei mais uma vez com Leite, pelo celular. Ele estava no carro, voltando para o palácio, depois de comparecer a um evento. Estava satisfeito. Afirmou que o resultado era coerente com a ideia de que as prévias representassem a vontade do partido nacionalmente, e não apenas a de São Paulo. “Era preciso buscar um equilíbrio federativo”, disse. “Agora temos um verdadeiro colégio eleitoral e não um faz de conta, o que dá legitimidade ao processo.”

O eleitorado que precisará conquistar é o seguinte: são 33 deputados federais, 7 senadores, 3 governadores e 2 vices,  520 prefeitos mais os vices, 4 mil vereadores e 72 deputados estaduais. “Temos um trabalho pela frente”, disse. O senador Tasso Jereissati, por mensagem no celular, também comemorou o resultado: “A comissão do PSDB fez um belo trabalho, pensado, estudado, e chegamos a um critério justo.”

O ex-presidente do PSDB no Rio de Janeiro, Paulo Marinho, que rompeu com Bolsonaro e hoje apoia Doria, disse que, apesar do revés no modelo de prévias, o governador paulista já está em busca de votos. “Acho que não resta dúvida no partido de que Doria, por sua visibilidade, por sua experiência administrativa, é quem terá mais condições de romper a polarização entre Lula e Bolsonaro”, afirmou. Adiantou que o governador sai em campanha aberta no começo do segundo semestre. “Ele vai correr os estados e mostrar suas realizações em São Paulo.”

Leite também já está em movimento. Ele tem conversado com lideranças de vários partidos. Entre elas, Eduardo Paes, prefeito do Rio, que acabou de se bandear para o PSD. Recentemente, Paes postou nas redes sociais uma declaração de apoio a Leite, dizendo que era o melhor nome para governar o país. Leite também teve encontros com o presidente do PSB, Carlos Siqueira, e do PSD, Gilberto Kassab. “Eu estou me fazendo conhecer no mundo político nacionalmente. Eu também tive que percorrer esse caminho quando concorri para a Prefeitura de Pelotas e depois ao governo do Rio Grande do Sul. Me fazer conhecer. É isso que farei a partir de agora”, afirmou.

O jovem deputado licenciado Pedro Cunha Lima, presidente do Instituto Teotônio Vilela, think tank do tucanato, é um entusiasta da candidatura de Leite. Ele disse que o governador gaúcho conta com a simpatia de muita gente dentro do partido. “Faço campanha para o Eduardo com muito gosto mesmo se ele tiver 2% nas pesquisas”, afirmou. “Ele conquista, tem discurso do liberal progressista e projeto de país que assino embaixo.” Mas Cunha Lima é realista. Acha que a terceira via só terá chances se agregar os partidos de centro-esquerda, centro e centro-direita em torno de um nome, seja ou não do PSDB. Hoje ele considera Ciro Gomes, do PDT, o maior obstáculo para essa composição. “Temo que ele seja um dos que irão dividir o projeto de terceira via”, disse.

O economista Eduardo Giannetti, observador da cena política brasileira, não está otimista. “Não vejo no cenário brasileiro, neste momento, uma liderança com o contato com o povo que Lula e Bolsonaro possuem. Mas são lideranças altamente divisivas”, afirmou. “O sonho é se ter uma força política relevante que possa superar a polarização raivosa.” E toca na questão fundamental: “O ideal seria nos apresentarmos unidos como alternativa a Bolsonaro, como as forças de oposição fizeram para derrubar a ditadura. Mas se o nome disso é Lula, acho muito prematuro afirmar.”

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tentou recentemente um movimento nos moldes do que disse Giannetti, ao se aproximar de Lula para mostrar uma unidade em defesa da democracia. No encontro, foi o primeiro líder político de expressão nacional a afirmar que, num segundo turno entre Lula e Bolsonaro, ele não votaria em branco – cravaria Lula. “Pelo menos é um democrata”, explicou. O aperto de mãos entre os dois ex-presidentes era para ser símbolo de uma união nacional, mas dentro do próprio PSDB já causou confusão. Bruno Araújo, o presidente tucano, chegou a dizer que o gesto de FHC atrapalhava a composição da terceira via.

Leite evitou polemizar. “São dois ex-presidentes conversando e, numa democracia, isso não pode ser visto com estranheza”, disse. “Não se pode desprezar, contudo, que um desses ex é um pretenso candidato.” Leite acha que FHC, preocupado com a preservação da democracia sob Bolsonaro, talvez tenha se sentido chamado a fazer esse movimento, sem pensar no partido. Do ponto de vista eleitoral, considerou o gesto um equívoco. “Eu me recuso a falar em cenário eleitoral no segundo turno, porque nem o primeiro está desenhado. Para mim, todo o esforço tem que ser no sentido de convencer o eleitor de que, entre o que está aí e o que já foi, há um caminho alternativo. É por isso que vou brigar.” Leite já se deu conta de que, diante desse novo desafio, reunir ex-governadores gaúchos num almoço festivo no Palácio Piratini é coisa simples.

Consuelo Dieguez

Repórter da piauí desde 2007, é autora da coletânea de perfis Bilhões e Lágrimas, da Companhia das Letras

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