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Fiscais do retrocesso

O perfil anônimo do Twitter que irritou Ricardo Salles

Giovana Girardi | Edição 179, Agosto 2021

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Na tarde de 23 de junho passado, pouco após uma edição extra do Diário Oficial informar que o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, havia sido exonerado, milhares de postagens de comemoração apareceram no Twitter. Uma delas era particularmente efusiva. Dizia: “Lutamos contra esse canalha desde sua nomeação.”

O post trazia uma cena do filme 300, em que o rei de Esparta, Leônidas (interpretado por Gerard Butler), chuta um oponente para um precipício. E afirmava: “Em fevereiro de 2019 ele [Salles] soube desse perfil e começou a nos caçar. Numa reunião no MMA [Ministério do Meio Ambiente] ofereceu um DAS [cargo comissionado] pra quem descobrisse quem era @fiscaldoibama. Ele deixou de ser ministro sem saber quem somos. E ainda somos do Ibama.”

Com cerca de 104 mil seguidores na rede social, o bem-humorado e muito ácido perfil “O fiscal do Ibama” é, desde o início de 2019, uma espécie de “grilo falante” da gestão ambiental do governo Bolsonaro. E foi durante muito tempo a nêmesis de Salles.

O ministro, logo que assumiu, impôs uma espécie de mordaça aos órgãos ambientais. Também dificultou o acesso da imprensa, recusando-se a falar com jornalistas especializados. Nesse período, “O fiscal do Ibama” tornou-se uma das primeiras vozes a trazer informações internas sobre o que estava ocorrendo no ministério e em suas principais autarquias – o próprio Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade).

Foi “O fiscal do Ibama” que, na manhã de 28 de fevereiro de 2019, alertou a opinião pública sobre uma escandalosa decisão divulgada no Diário Oficial daquele mesmo dia: a exoneração, de uma só vez, de 22 superintendentes – cargos que são de confiança e sem estabilidade – da autarquia que lhe empresta o nome. Muitos foram substituídos por militares sem conexão com temas ambientais.

Em maio do ano passado, quando o governo anunciou que enviaria as Forças Armadas para combater crimes ambientais na Amazônia, “O fiscal” chamou a atenção para a desproporção de valores empenhados na operação, dizendo que o custo da presença do Exército durante um mês na Amazônia “é quase o mesmo valor do orçamento previsto para a fiscalização do Ibama pra todo 2020”. Foi também o perfil que difundiu vídeos de fiscais sendo ameaçados em operações de campo.

Como “O fiscal do Ibama” é um perfil anônimo, descobrir a identidade do seu autor passou a ser um dos tormentos de Salles. Nas redes sociais o ex-ministro não chegou a mencioná-lo, mas consta que, a pessoas de sua confiança, não escondia a irritação, dizendo se tratar de coisa de “maconheiros comunistas”.

Já com os fiscais de carne e osso, mais fáceis de identificar, Salles praticou sua cólera: mais de vinte funcionários do órgão e do ICMBio foram demitidos durante os quase dois anos e meio em que ele esteve à frente do ministério.

 

A identidade de “O fiscal” é um segredo guardado a sete chaves. Como jornalista de meio ambiente, tento descobri-la há algum tempo – em vão. Várias pessoas me confirmaram se tratar de um perfil feito por uma fonte real, mas não quiseram revelar o nome dela ou dele. Ou delas e deles, pois “O fiscal do Ibama”, cujas postagens começaram em 2018, é um perfil colaborativo.

Consegui, porém, que no mês passado o principal responsável pela conta conversasse comigo, por escrito. A pergunta inicial foi se “O fiscal”, de fato, trabalhava na autarquia. “‘O fiscal do Ibama’ não pode se identificar como servidor. Porque acontece no órgão uma perseguição institucional e política. O perfil mexe com vespeiros”, disse. Foi a primeira vez que “O fiscal” falou com a imprensa, para o que recorreu a uma conta difícil de rastrear do Telegram.

Antes disso, enviou as perguntas para colegas envolvidos com a conta no Twitter, a fim de que elaborassem juntos as respostas. Essa integração também ocorre no dia a dia. As informações compartilhadas no perfil procedem de uma equipe que coleta relatos de quem está em campo, nos grupos de WhatsApp ou na “rádio corredor”, e depois pesquisa a procedência de todas as informações. Os colaboradores também enviam dicas de posts, documentos e notícias publicadas na imprensa.

O perfil colaborativo é uma estratégia para evitar punição e confundir eventuais tentativas de rastreamento. No ano passado, a Comissão de Ética do Ibama estabeleceu que servidores que usarem redes sociais para criticar a administração do órgão e o governo poderiam ser punidos – possibilidade confirmada depois pela Controladoria-Geral da União (CGU). Mas todas as postagens do perfil são feitas pelo principal administrador da conta, para evitar “ruídos e falhas de segurança”, diz. “As besteiras, os memes e a verborragia colérica vêm de uma cabeça só.”

 

Com o aumento dos problemas ambientais, o tom das postagens de “O fiscal do Ibama” foi se tornando menos factual e polido. Adquiriu um tom opinativo e raivoso.

O administrador principal admite a mudança, que atribui à gravidade da situação. “‘O fiscal do Ibama’ é um perfil reativo”, diz. “Nasceu em tempos mais leves, quando era possível fazer humor com a fama da instituição. Ao longo de 2019 virou uma ferramenta de denúncia ao desmonte e à perseguição. Após tantos reveses – aliados à fala absurda do ex-antiministro e à inação de instituições e órgãos que, teoricamente, poderiam deter o estouro da boiada –, o perfil virou a narração melancólica dos acontecimentos pós-abertura da caixa de Pandora, ou das porteiras para a passagem dos bois.” E resume: “É um diário do retrocesso.”

Salles tinha o dom de despertar os piores sentimentos de seus subordinados. Por isso, no dia em que o ministro foi exonerado, “O fiscal do Ibama” e seus colaboradores eram só alegria. “Servidores relataram gritos de comemoração em reuniões, teve gente pagando promessas e até ateu que foi à igreja para agradecer. Foi um grande dia, mas confesso que não tenho muitas lembranças devido à amnésia alcoólica”, conta.

As preocupações com os rumos da gestão ambiental, porém, continuam. Desde que assumiu, o novo ministro do Meio Ambiente, Joaquim Álvaro Pereira Leite ainda não disse a que veio – e o mês de junho fechou com as taxas mais altas de desmatamento e de queimadas desde 2016 e 2007, respectivamente.

O vice-presidente Hamilton Mourão, que lidera o Conselho Nacional da Amazônia Legal, resolveu mandar o Exército outra vez à floresta. “O fiscal” não perde a chance de zombar da decisão: “O vice-rei da Amazônia disse que serão 3 mil homens. Agora imagine a logística para arrumar estadia e rancho para todo esse pessoal. Imagine a agilidade de um caminhão de 15 toneladas transportando duas dezenas de homens.”

No governo Bolsonaro, os militares já se instalaram na Amazônia duas vezes: em 2019 e entre maio de 2020 e abril passado. A presença deles na região não teve efeito algum sobre o controle dos crimes ambientais. Para “O fiscal do Ibama”, essa empreitada militar sem utilidade pode ser sintetizada numa máxima: “Botaram um jabuti para fazer o trabalho da jaguatirica.”