questões urbanas

Frankfurt, Salvador

Os percalços de uma mesma instalação – círculos de luz que iluminam o vazio – na Alemanha e no Brasil

Nuno Ramos
Ao montar sua obra na Bahia em lugares ermos, o artista temeu pela segurança da equipe: “Pois é claro que já não havia natureza nem mistério antropológico do outro lado da escuridão. Apenas os cacos de um capitalismo confuso e pouco regrado.”
Ao montar sua obra na Bahia em lugares ermos, o artista temeu pela segurança da equipe: “Pois é claro que já não havia natureza nem mistério antropológico do outro lado da escuridão. Apenas os cacos de um capitalismo confuso e pouco regrado.” FOTO: DANIEL LISBOA_2014

Iluminai os Terreiros, um trabalho de 2006 realizado como um filme (dirigido por mim, Eduardo Climachauska e Gustavo Moura), foi curiosamente ressuscitado em 2014 por dois eventos simultâneos, que ofereciam condições quase opostas: a Bienal da Bahia, em Salvador, curada por Marcelo Rezende, e o Evakuieren Frankfurt, produzido pela Künstlehaus Mousonturm a partir das ideias e da direção de Akira Takayama.

Como se sabe, “Iluminai os Terreiros” é um verso de um samba extraordinário de Assis Valente, e foi desse universo mítico e potente da música popular que meu trabalho partiu – ainda que os resultados viessem a oferecer apenas contraste e ironia.

Organizamos, para o filme, cinco “expedições noturnas” aos cafundós do Brasil. Lugares perdidos, desolados, esquecidos, lugares onde ninguém convive – pela dificuldade de acesso, pelo arruinamento do entorno, pela ameaça de violência, pelo simples desinteresse. Como lanternas gigantes, construíamos durante o dia enormes círculos de luz (entre 20 e 30 metros de diâmetro, entre sete e onze postes de 10 metros de altura, utilizando as mesmas luzes refletoras da iluminação pública) nesses pontos de difícil acesso. Desconectados de qualquer rede elétrica, acendíamos o círculo ao anoitecer, por meio de um gerador a diesel, e passávamos a noite ali filmando. No dia seguinte, começávamos tudo de novo.

Normalmente, não acontecia muita coisa – mosquitos nos visitavam, um cachorro faminto, alguma coruja, um morcego, um cavalo. Outras vezes, moradores locais apareciam; certa vez um monociclista perdido, um andarilho curioso, alguém querendo recitar poemas, pedindo que o fotografássemos. Na última noite, Climachauska carregou a enorme e pesada lâmpada acesa, em sua haste gigantesca, por um túnel abandonado de mais de 500 metros, numa longa e extenuante penetração físico-luminosa treva adentro (eu arrastei a pesadíssima fiação, que conectava a lâmpada gulliveriana ao gerador) – misto de Dom Quixote e sua lança com algum protagonista retirado do cinema marginal brasileiro dos anos 60.[1]



Talvez esse trabalho, de 2006, se contraponha de alguma forma aos anos de otimismo quase triunfal que vão do Plano Real à ascensão do lulismo, e que a história recente do país vem apagando rapidamente. Quer descobrir o noturno, o hiato, o esquecido, o inacessível, o de passagem e a paisagem que nunca se fixa. Para mim, estava completo nesse formato e não pensava em refazê-lo até que, por coincidência, oito anos depois, vieram os dois convites para montagens literalmente simultâneas, em situações tão absurdamente diversas como uma bienal em Salvador e um evento de arte urbana em Frankfurt.

Em ambos os casos, a condição agora seria a de uma obra pública, independentemente de sua documentação em filme, o que já continha um primeiro paradoxo – a obra não devia fugir do público ao isolar-se, ao cumprir-se durante a madrugada, ao iluminar o que nunca fora iluminado? Como lidar com isso? A mim parecia que trazer indiscriminadamente o público aos círculos de luz (fizemos três em cada uma das duas cidades) destruiria completamente a obra, transformando o que seria um não lugar perdido no meio do nada, um buraco urbano ou paisagístico, numa praça ou palco público, aproximando-o de um tipo qualquer de playground ou espaço lúdico-cultural. Precisávamos manter o paradoxo de um palco para nada, uma ágora para insetos.

 

A dificuldade toda em Frankfurt e nos arredores da cidade é que não há provavelmente um único metro quadrado verdadeiramente esquecido em toda a região (ao menos para os olhos de um brasileiro que esteve três vezes por lá). Tudo parece legislado, medido, previsto, discursado, documentado, compreendido, utilizado, preordenado, catalogado, estabelecido, mensurado, enumerado, descrito, poetizado, genealogizado, divulgado – em suma, já inteiramente tomado pela vida social. Apesar de todo o esforço da equipe de produção da Mousonturm, foi muito, mas muito difícil conseguir três espaços de alguma maneira deslocados na cidade. Tudo parecia pertencer a uma forma qualquer de legislação – de parques públicos, de espaços vazios que serão em seguida utilizados para construções X ou Y, de ruínas com destino e futuro antecipados, agendados e previstos.

Enquanto procurava meu caminho em Frankfurt, construí em Salvador o mesmo número de círculos luminosos – o primeiro numa encruzilhada, o segundo na ruína de uma gigantesca fábrica de cimento fechada há mais de dez anos e o terceiro numa praia em Itaparica, diante de uma igreja em ruínas. Como fiz as instalações alternadamente com as de Frankfurt, o contraste foi chocante.

A começar pelas condições de trabalho. Claro que em Frankfurt havia equipamento específico para tudo – cavar, prender, levantar, parafusar, transportar, acender, suspender (como na lista famosa de verbos de Richard Serra), e a cada um deles correspondia seu exato desdobramento mecânico, em máquinas especializadas. Em Salvador, ao contrário, o universal corpo humano dobrava-se, pulava, carpia, batia, marretava, pendurava-se, sorria, numa sucessão metamórfica, em fluxo, quase abstrata e pouco nítida. Tudo ali era ombro, suor, músculos, sandália de dedo, risada, grito, raiva e simpatia, e a lista de verbos de Richard Serra, por falta de especificidade, com certeza não funcionaria aqui (o infinitivo, aliás, com seu distanciamento genérico e indolor, não seria o tempo verbal adequado).

 

Numa passagem famosa de Tristes Trópicos, Lévi-Strauss refere-se à América como “uma terra que passou da barbárie à decadência sem conhecer a civilização”. Provavelmente lembrando-se dessa frase, Caetano Veloso diz numa canção que “Aqui tudo parece que ainda é construção e já é ruína”. Cito os dois porque em Salvador os lugares para erguer os círculos simplesmente saltavam à minha volta. Bastava sair um pouco das principais avenidas para encontrar aquele misto de caos urbano com monotonia cinzenta, feito de corcovas de asfalto velho e blocos sem reboco, luz amarelada e fumaça preta, grafites feios e árvores ilhadas, típicos da periferia das grandes cidades brasileiras. O abandono que o trabalho buscava estava em toda parte, e a dificuldade parecia justamente o oposto – diferenciar os círculos de luz do resto do tecido urbano, evitando que se integrassem a ele como mais uma de suas tantas ruínas.

Optamos por lugares realmente isolados, no meio do nada, onde quase ninguém compareceu. Iluminar a gigantesca antiga fábrica de cimento, que proveu material por décadas para a construção de Salvador e que parece agora cenário para um filme de Tarkóvski (motores, parafusos, canos, portas, parapeitos, escadas – tudo o que era metal na fábrica foi roubado por décadas, sobrando apenas as gigantescas estruturas de concreto), foi uma experiência particularmente assustadora; ver o incêndio espontâneo e súbito de um gerador novinho em folha (a ponto de perdê-lo inteiramente), numa encruzilhada escura, como se não tivéssemos pedido licença a alguma entidade, foi assombroso; ver o mar de Itaparica entrando lentamente no círculo conforme a maré subia, lançando depois espuma bem alto, entortando os postes acesos, como se estivessem bêbados, foi o momento plasticamente mais bonito de todo o conjunto.

Espalhada equitativamente à nossa volta, cobrindo cada milímetro de chão e de céu, como um cachorro rosnando perto ou o maestro invisível de uma orquestra macabra, essa divindade brasileira contemporânea – a violência. A cada lugar que escolhíamos, tínhamos de nos perguntar se poderíamos passar a noite ali sem colocar a equipe em risco. Pensávamos em pedir a presença de policiais, mas isso (nos diziam os líderes comunitários) apenas tornaria as coisas mais perigosas. Em Itaparica, enquanto montávamos o círculo, com toda a equipe presente e bem debaixo de nosso nariz, tivemos centenas de metros de fios elétricos misteriosamente roubados, o que nos obrigou a fazer um “gato” para puxar energia de um poste de alta tensão que passava ali perto.

Ao final, exaustos, um pouco assustados, como clandestinos em nosso próprio navio, passamos três noites em Salvador que terei dificuldade de esquecer. Feliz e meio culpado, excitado e deprimido, ouvindo o som monótono do gerador, conforme o frio ia aumentando e o cansaço crescendo, não conseguia evitar o ronronar baixinho da pergunta fatal: Para que estou fazendo isso? Ninguém viu nada!, que a resposta Mas o trabalho é exatamente isso! não conseguia calar de todo.

 

É curioso como me senti improvisando muito mais em Frankfurt do que em Salvador, e creio que, ao contrário do que se esperaria, o melhor do trabalho veio dessas mudanças de última hora. Fizemos o primeiro círculo sob a sombra envidraçada do centro econômico de Frankfurt, o Banco Central Europeu (ECB), um prédio algo sinistro, imponente e solitário em sua escala (muito maior do que o resto da cidade), que, com seus ângulos pontiagudos e vidro fumê absolutamente escuro, lembra um pouco a máscara famosa de Darth Vader.

Quando escolhi o lugar, em minha primeira viagem, parecia um descampado, sem luz alguma, a uns 200 metros das avenidas mais próximas. Achei que abrigaria o círculo muito bem, sob o totem ereto daquele centro financeiro de uma Europa em crise. Mas quando cheguei para a montagem, dois meses depois, tinha virado um estacionamento, com cerquinhas ordenando o fluxo dos carros, e uma enorme obra, com gruas e caminhões, tomara conta de tudo. Tinham me reservado um canto muito próximo às avenidas iluminadas e não vi nenhuma chance de criar o necessário contraste com a cidade.

No entanto, a apenas alguns metros, havia um resíduo já antigo de terraplenagem, que passamos a chamar de “Nossa Montanha”. Era um desses montes de terra, de uns 6 metros de altura por uns 10 de diâmetro, que escavadeiras deixam facilmente para trás e onde algumas sarças, ervas e gramíneas haviam crescido. Montamos nosso círculo em torno dele, as lâmpadas voltadas para dentro, iluminando-o fortemente, como se fosse um fragmento exótico de algo precioso. Depois de tudo estar pronto, ouvi mais de uma vez a pergunta – “Há quanto tempo vocês plantaram isso?”, como se o trabalho fosse um jardim e não um círculo de luzes em meio a um terreno baldio, e senti que havíamos criado uma espécie de horto maluco no Centro de Frankfurt – e que nesse sentido, embora de forma imprevista, o trabalho estava funcionando. (Sem que eu pedisse, aí pelas dez da noite o chefe da montagem começou a apagar as luzes de alguns postes na avenida próxima ao círculo, o que melhorou demais a performance. Achei que era uma atitude espontânea e temerária de um funcionário entusiasmado, mas ele logo me corrigiu, dizendo que havia ligado antes para seu chefe – àquela hora.)

A segunda montagem não formava um círculo – era feita por dois postes apenas, voltados um para o outro, colocados no cimo de dois imensos montes de paralelepípedos (uns 8 metros de altura cada um), que tinham sido erguidos com os restos de uma antiga rua de Frankfurt. Naquela acumulação semivertical, pareciam esperar realocação depois de servirem por anos e anos ao batimento horizontal da cidade, passando, provavelmente, por bombardeios e regimes políticos execráveis. Só vi esse trabalho por foto, mas imagino que, meio bambos, àquela altura, isolados no cimo desses montes de pedras, sob o ruído constante do gerador, os dois postes contíguos tenham emitido uma luz solitária e enigmática.

Erguemos o último círculo no parque Mainspitze, na confluência entre os rios Reno e Meno, perto de Mogúncia. É um lugar lindo, com uma relva algo clássica e água por todos os lados, enquadrado pelos arcos de um viaduto onde passa um trem. Montamos esse círculo com um único poste em pé e os demais deitados, apenas as lâmpadas na vertical, como que tombado por algum fenômeno natural. Essa também foi uma solução de última hora, para quebrar um pouco a institucionalidade do lugar. Havia alguma coisa do mundo dos óvnis nessa montagem, como aqueles círculos que aparecem pela manhã em plantações de trigo no sul dos Estados Unidos, deixados por supostos extraterrestres.

Talvez tenha sido assim que me senti nessa experiência frankfurtiana: um marciano propondo um trabalho que fugia, ou tentava fugir – das luzes, dos parques, do público, das normas urbanas, da civilidade adorável da equipe de montagem, da inteligência dos comentários que ouvi durante a noite. De alguma forma, senti que nesse movimento de fuga (“evacuar”, palavra usada em alemão no título do projeto, seria um termo adequado, se não tivesse em português um sentido escatológico) é que o trabalho conquistou alguma coisa de seu.

 

Em Salvador, ao contrário, não me senti fugindo, mas entrando inevitavelmente em algo que não conhecia por inteiro, embora viva no Brasil desde que nasci. O escuro em torno do nosso círculo de certa forma nos punha medo. Eu ansiava, no fundo, por um pouco daquelas margens institucionais de que fugia em Frankfurt. Pois é claro que já não havia natureza nem mistério antropológico do outro lado da escuridão. Apenas os cacos de um capitalismo confuso, pouco regrado, ao mesmo tempo tedioso e espontâneo, com seus assomos de simpatia e grandeza humana, mas também seus espasmos recorrentes de crueldade e anomia.

Nuno Ramos

Nuno Ramos é artista plástico e escritor. Publicou, entre outros, os livros Ó e Sermões, ambos pela Iluminuras

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