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Frascos fresquíssimos

Sorry, periferia: nem precisava, mas eles ainda têm perfume dentro

Christie Mayer Lefkowith
Assim se vestia um
perfume parisiense em
1920: <i>C’est?</i>, da Silka,
que fi cou fechada
durante a II Guerra
Assim se vestia um perfume parisiense em 1920: C’est?, da Silka, que fi cou fechada durante a II Guerra FOTO: CHRISTIE MAYER LEFKOWITH

Um frasco de Myrbaha, um perfume fabricado em 1913, está à venda na internet por 1 650 euros. É uma relíquia da Bichara, grife de um libanês estabelecido em Paris no fim do século XVIII, que se apresentava à sociedade da belle époque como “perfumista sírio”. O vidro, que tem na tampa uma cabeça de faraó em cristal fosco, é uma peça numerada da Baccarat, vidraria estabelecida na Lorena ainda no reinado de Luís XV, sob os auspícios do ministro Jean-Baptiste Colbert, cujas normas industriais inauguraram, para os artigos de luxo franceses, a fama que eles desfrutam até hoje.

Decadente, a Bichara fechou as portas na década de 1950. Não restou nenhuma gota de Myrbaha dentro do vidro. O frasco é, por si só, uma peça de coleção, típica do que Christie Mayer Lefkowith, comerciante de arte decorativa, considera o apogeu do luxo engarrafado: a virada do século XX, quando o rótulo tradicional em garrafa anônima já não bastava. Desenhistas como René Lalique, pintores como Salvador Dalí e costureiros como Paul Poiret começaram, de uma hora para outra, a engendrar invólucros de perfumes cada vez mais ostentatórios. Eles ganharam plumas, fitas, madeiras raras, filetes de ouro, estojos de jóia, curvas de esculturas em art nouveau e até adereços de baquelita, o primeiro plástico a entrar na moda. Lefkowith é autora de um guia para quem quiser fuçar as obras-primas da perfumaria clássica sem usar o nariz, mas os olhos. Eis algumas das peças que ela coleciona, descreve e recomenda.

Lançado no Natal de 1909 e baseado em um amuleto egípcio, como mandava o sincretismo religioso do colonialismo europeu, o Scarabée, da Piver, enfeitou-se com um verdadeiro festival de escaravelhos sagrados, no frasco, no estojo de couro e na caixa de talco.

Amour en Cage – ou seja, Amor na Gaiola – da Cadolle, uma fabricante de corpetes e sutiãs que estreou na perfumaria em 1929 com esta prova de perícia em confecção de suportes para ornamentos instáveis.

O altar portátil do Merry Christmas, lançado no Natal de 1927 pela Benoit, foi desenhado pelo vidreiro parisiense Maurice Dépinoix. A Benoit era adepta de rótulos explícitos e, para festas mais profanas, vendia um perfume chamado “Noite de Loucura”.

Un Peu d’Ambre –Um Pouco de Âmbar – da Houbigant, em frasco Baccarat de 1919. Estabelecida no século XVIII, a Houbigant perfumou Maria Antonieta até o fim.

Quand Vient l’Été – Quando Chega o Verão – da Guerlain, em 1910. Fundada no começo do século XIX, a Guerlain mantém o nome de família, mas mudou de mãos e passou a encomendar suas fragrâncias, em vez de criá-las em suas oficinas da praça Vendôme.

Christie Mayer Lefkowith

Christie Mayer Lefkowith é especialista em perfumes antigos. Parte de sua coleção foi publicada no livro The Art of Perfume, da Thames and Hudson.

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