carta do Japão

Fukushima: o elo perdido

O desastre nuclear ocorrido há dez anos e seu impacto em uma família nipo-brasileira

Juliana Sayuri
A família Kasai, nos anos 1950 (o bebê no colo é Tokiko, o menino de branco na frente é Junichi): a cidade de Namie das fotos da família não existe mais, destruída pela tripla tragédia
A família Kasai, nos anos 1950 (o bebê no colo é Tokiko, o menino de branco na frente é Junichi): a cidade de Namie das fotos da família não existe mais, destruída pela tripla tragédia CREDITO: ÁLBUM DE FAMÍLIA

“Kasai-san?”, perguntou o oficial, enquanto conferia nossos documentos de identificação em um posto de controle em Namie, cidade da província de Fukushima, no nordeste do Japão. “Hai”, respondeu Junichi Kasai. “Vamos visitar a casa.”

O checkpoint – uma pequena construção retangular com janelas de vidro e sem nenhuma ornamentação – lembrava um posto de polícia rodoviária nas estradas brasileiras. Como os demais funcionários, o oficial vestia um traje especial branco contra radiação, com um capacete que lhe cobria quase todo o rosto.

Outros cinco oficiais rodearam o carro em que estávamos, mas pareciam menos interessados em conferir o veículo e os passageiros que nos dizer um simples “oi”. Não são muitas as pessoas que aparecem naquela área quase proibida. Mais raro ainda é ver rostos novos por ali, como o meu e o de meu companheiro, Rodrigo Sicuro.

Depois de conferidos os documentos, outro oficial nos deu um kit de proteção, com objetos descartáveis: uma capa com capuz, luvas de borracha e protetores para os sapatos. A indumentária era parecida com as que estão sendo usadas nos hospitais durante a pandemia. Por fim, nos entregaram um medidor portátil de radiação nuclear com alça, para ser dependurado no pescoço (e devolvido na volta). É um pequeno aparelho, do tamanho de um pager das antigas, que registra o nível de radiação em um terreno.

“Obrigado”, disseram os oficiais quase em coro, ao final da vistoria, fazendo todos o ojigi, um tipo de saudação reverencial muito comum no Japão, que consiste em inclinar levemente o tronco para a frente.

Junichi Kasai ligou o Toyota Highlander branco e avançamos por aquela área bastante restrita de Namie, onde só se entra com autorização. Era uma tarde nebulosa e escura de outubro do ano passado, mas se podia avistar do carro, no fundo da paisagem, os montes cobertos de verde. Um ventinho fresco entrou pela janela do carro e, por um minuto, eu me esqueci de que toda aquela região está até hoje contaminada por uma forte radiação – como alertam vários cartazes azuis ao longo da estrada, que pedem para que ninguém fique perambulando a pé por ali nem se demore no local.

Namie é uma cidade litorânea de 223 km2 – área equivalente a um quarto de Angra dos Reis, no litoral do Rio de Janeiro. Durante a era Edo (1603-1868), o território onde fica a cidade era dominado pelo clã Sōma, que fez florescer na região a cultura da cerâmica Ōborisōma, com seu estilo de craquelados delicados, feitos propositalmente. Até o início do século XX, Namie era um povoado de agricultores. Em 1902, tornou-se vila. Em 1958, foi alçada à condição de cidade. Cercada pelo oceano de um lado e por montanhas de outro, é entrecruzada por dois rios importantes, o Ukedo e o Takase, e seus habitantes vivem basicamente da pesca e da agricultura. Ou melhor, viviam.

 

Em 1967, iniciou-se em Ōkuma, cidade ao lado de Namie, a construção da Usina Nuclear Fukushima Daiichi I, que começou a operar quatro anos depois. O complexo na orla do Pacífico tinha seis reatores que podiam atingir a potência instalada de 4,6 GW (gigawatts) – o que, até 2010, posicionava a usina nuclear como a décima maior do mundo, segundo dados da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). A primeira do ranking, com 8,2 GW de potência, também era japonesa: Kashi-wazaki-Kariwa, na província de Niigata. Em razão da escassez de fontes de combustível fóssil, como petróleo, no Japão, as centrais nucleares são consideradas estratégicas pelo governo e respondiam na época por 30% da energia elétrica consumida no país. Na propaganda oficial, sempre apareciam como a fonte de “energia do futuro” – projeção que desmoronou há exatos dez anos.

Às 14h46 de 11 de março de 2011, um terremoto de magnitude 9 ocorreu na Baía de Sendai, a 70 km da usina Fukushima Daiichi I. Os tremores abalaram sobretudo o Norte da ilha de Honshu, onde fica a província de Fukushima, mas foram sentidos também em Tóquio, a cerca de 200 km dali. Quase cinquenta minutos depois, ondas gigantes de mais de 10 metros de altura aproximaram-se da costa e avançaram quilômetros no interior da ilha, devastando cidades inteiras de três províncias – Fukushima, Iwate e Miyagi –, além de numerosas construções em outros locais. O tsunami “arrancou florestas pelas raízes […]. Descascou o pavimento das ruas, derrubou casas até os alicerces e alçou carros, caminhões, barcos e cadáveres no alto dos prédios”, descreveu o jornalista britânico Richard Lloyd Parry no premiado livro Ghosts of the Tsunami.

Mas a tragédia ainda não havia acabado. Uma onda ainda maior – de 14 metros de altura – atingiu as instalações da usina Fukushima Daiichi I, destruiu os geradores a diesel e provocou estrondosas explosões de hidrogênio em diversas unidades. Os reatores nucleares começaram a tombar como peças de um dominó: em 12 de março, às 15h36 (horário do Japão), o reator 1 explodiu. Dois dias depois, às 11h01, explodiu o reator 3 e, às 20 horas, o reator 2 deu sinais de que iria pifar. Em 15 de março, às 6h10, outra explosão: a do reator 4. Dez minutos depois, ruiu o reator 2. Os reatores 1, 2 e 3 derreteram, literalmente – e dali foi se alastrando uma nuvem radioativa que contaminou ar, água e terra. Foi o pior desastre nuclear da história, desde o de Chernobil, na Ucrânia, em 1986.

Mais de 18,5 mil pessoas morreram (o corpo de muitas delas nunca foi encontrado) por causa do terremoto e do tsunami. Só na província de Fukushima, foram 1 831 mortos e desaparecidos, além de mais de 160 mil desabrigados. No dia seguinte ao acidente, 12 de março, o governo japonês emitiu uma ordem de evacuação que atingiu 90 mil pessoas nas cidades próximas, incluindo Namie. Essa área tornou-se a chamada “zona proibida”.

Nos últimos dez anos, os habitantes obrigados a deixar as cidades mais castigadas foram tratados como “refugiados nucleares” e exilados. Estima-se que sejam mais de 40 mil pessoas que, ainda hoje, uma década depois, continuam a viver em uma espécie de exílio ou limbo, onde ficarão por tempo indeterminado. São, nas palavras do ativista japonês Sabu Kohso, as vítimas da violência invisível da radioatividade: “Fukushima não terminou. É uma catástrofe sem fim.”

Em março de 2011, Tomoko Kobayashi e seu marido, Takenori Kobayashi, cumpriram a ordem de evacuação e deixaram para trás a pousada que administravam na vila de Odaka, na cidade de Minamisoma. Ficaram instalados em abrigos temporários, como todos os evacuados, depois mudaram para uma casa em uma área liberada de Minamisoma. Enquanto viviam ali, viajaram três vezes a Chernobil, em busca de algum tipo de aprendizado. Só voltaram de vez à sua vila em 2016, quando reabriram a pousada, famosa na região por sua hospitalidade. “Odaka já está melhor”, disse Takenori Kobayashi, um senhor septuagenário e simpático, mas de poucas palavras, no escritório na entrada da pousada. “Já Namie…”

 

Em Namie, 182 pessoas morreram e 651 construções foram destruídas inteira ou parcialmente, entre elas a escola elementar Ukedo, a cerca de 200 metros do mar. Erguida no fim da década de 1990, a escola tinha um prédio principal de dois andares, um ginásio e uma torre com relógio, cujos ponteiros pararam de girar às 15h38 – é o horário que marcam até hoje. Todas as construções tinham estrutura de concreto reforçado capaz de resistir a terremotos. Um tsunami, entretanto, não fora previsto pelos engenheiros.

No momento do terremoto, estavam na escola 82 estudantes e 14 professores. Ao perceberem a aproximação do tsunami, os professores mandaram que os alunos corressem e se refugiassem em uma colina chamada Ohira, a cerca de 1,5 km. Todos sobreviveram – graças ao fato de, numa atitude rara entre japoneses, terem descumprido uma diretriz oficial, como reconhece um documento da Real Fukushima, organização criada para incentivar a revitalização da província: “Cerca de cinquenta minutos separaram o terremoto do tsunami. Como o tsunami é um evento muito raro, não havia um procedimento oficial a seguir. No Japão, escolas e colégios costumam ser locais onde as pessoas se refugiam no caso de desastres naturais. Então a ideia inicial prevista seria manter as crianças ali dentro. Felizmente, a equipe da escola ignorou essa diretriz.”

Outros estudantes não tiveram a mesma sorte dos da escola Ukedo. Na cidade de Ishinomaki, na província de Miyagi, 74 alunos e 10 professores de uma escola primária foram tragados pelas ondas. Nos meses seguintes, os pais dos alunos processaram a cidade e a província porque as autoridades não ordenaram, com a rapidez que a situação exigia, a evacuação da escola. Em 2016, as famílias de 23 vítimas venceram a causa conjunta que lhes atribuiu uma indenização histórica no país, em razão do alto valor – 1,4 bilhão de ienes (cerca de 70 milhões de reais), no total.

O ponto do monte Ohira que foi o refúgio dos estudantes da Ukedo agora abriga um memorial de granito preto onde foram talhados ideogramas que relatam a tragédia: os horários do terremoto e do tsunami, a fuga bem-sucedida dos alunos e professores, e o engolimento da escola pelas ondas do Pacífico. O episódio acabou se tornando uma “lição de vida” para os japoneses. No livro ilustrado Ukedo Shōgakkō Monogatari: Ohirayama o Koete (A história da escola elementar Ukedo: além do monte Ohira), o desastre e a fuga servem para transmitir uma mensagem de zelo para com a vida, como descreveu Junichi Kasai, que ajudou a publicar a obra: “Os professores e os alunos conheciam a área e puderam tomar a decisão repentina de fugir durante a emergência. As últimas palavras do livro dizem: ‘Nós não sabemos quando um terremoto ou outro desastre natural vai acontecer. Onde é o seu Ohira?’ Estas palavras contêm a mensagem de que precisamos, que é saber como salvar o que temos de mais importante: nossas vidas.”

Em 2019, um comitê pediu às autoridades de Namie para transformar a Ukedo em um marco de memória. As estruturas da escola estão sendo reforçadas para poderem receber visitantes, o que deve ser possível a partir de meados deste ano. Antes do desastre, Namie tinha cerca de 1,7 mil estudantes, matriculados em seis escolas elementares e três colégios. Kasai – que é superintendente do Conselho de Educação de Namie, cargo equivalente ao de secretário municipal de Educação – contou que agora a cidade tem “uns vinte alunos no curso elementar e vinte no jardim de infância. Todo mundo foi embora”.

Nos dias seguintes ao acidente nuclear, depois da ordem de evacuação, Namie virou uma cidade fantasma. Os residentes se dispersaram. Muitos foram para abrigos em cidades mais seguras na província. Outros deixaram definitivamente a região onde moravam.

“Os níveis de radiação de Namie variam agora de 0.1 a 0.3 µSv/h [microsievert por hora].[1] É menos da metade de Guarapari”, disse Shuzo Sasaki, diretor da organização Real Fukushima, citando a cidade no Espírito Santo que possui um nível alto de radioatividade natural, proveniente das areias monazíticas, ricas em tório. Segundo relatórios do Greenpeace, entretanto, os níveis de Namie ultrapassam 0.23 µSv/h (a média considerada tolerável pelo governo), inclusive em áreas já liberadas. Ao longo do rio Takase, ativistas registraram níveis ainda mais altos: 0.8 µSv/h, em média. De acordo com o Comitê Internacional de Proteção Radiológica (ICRP, na sigla em inglês), a tolerância máxima de radiação pelas pessoas em geral é de 1 mSv, isto é, 1.000 µSv por ano. No dia 15 de março de 2011, os monitores de radiação da usina nuclear chegaram a detectar um nível de radiação de 12.000 µSv/h.

 

Em 2017, seis anos após a tripla tragédia, o governo liberou trechos de algumas cidades para os moradores. De “proibidas”, algumas áreas passaram ao status de “zonas de difícil retorno ou acesso”, que, no caso de Namie, correspondem a 81% do território, segundo estudo de um urbanista da Universidade de Fukushima. Apenas uma parte do litoral Norte de Namie foi integralmente liberada, mas muitos moradores preferiram não regressar para lá, por medo dos resquícios da radiação. “Eles viraram a página e recomeçaram do zero em outras cidades. Não voltaram por serem velhos demais para pensar no futuro ou jovens demais para lembrar do passado”, disse Shuzo Sasaki, da Real Fukushima.

Cerca de 15 mil pessoas retornaram para suas casas depois da liberação das áreas, a maioria com mais de 60 anos. “Revitalizar nossas cidades natais é uma missão quase impossível”, afirmou Sasaki, de 58 anos. O vilarejo onde ele nasceu fica na fronteira de Namie com Minamisoma. Antes do acidente, tinha 230 pessoas vivendo em 73 casas. Hoje, são 12 casas e 22 pessoas, sendo que 18 delas têm mais de 60 anos. “Os mais jovens se mudaram para outras cidades e não voltarão mais, pois já refizeram a vida. Acontece o mesmo em outras áreas. Não vejo como elas poderão ser revitaliza-das sem as pessoas. Ervas daninhas cobriram as terras das cidades.”

A cerca de 500 metros da antiga casa de Sasaki fica o rancho de Masami Yoshizawa, um fazendeiro que se tornou um símbolo de resistência dos desabrigados. Logo nos dias seguintes ao desastre, ele foi protestar no Parque Hibiya, em Tóquio, em frente à sede da Tepco, a operadora da usina nuclear. Devido à nuvem radioativa que se alastrou rapidamente, Yoshizawa não conseguiu tirar a tempo da fazenda as suas 328 vacas da raça Wagyu, que rende os filés marmorizados Matsuzaka, muito apreciados na alta gastronomia. As vacas estavam avaliadas em 450 milhões de ienes (cerca de 23 milhões de reais). Todas foram contaminadas e as autoridades ordenaram que deveriam ser sacrificadas ou abandonadas no local. Mas o fazendeiro não aceitou nenhuma das sugestões.

Enquanto a área era evacuada, Yoshizawa voltou regularmente ao rancho para alimentar os animais, que não podem ser comercializados. Por fim, decidiu retornar de vez para a fazenda, que ele rebatizou como Rancho da Esperança e se tornou ponto de encontro de ativistas antinucleares. Em julho de 2018, se candidatou a prefeito de Namie, tendo como principal bandeira cobrar judicialmente a Tepco pelos danos causados à cidade. Não foi eleito.

Quando fui visitar a fazenda, Yoshizawa não estava lá. Na entrada, havia uma escultura de metal e malha, retratando um touro como se fosse um monstro radioativo. Foi batizada de Cow Godzilla, em referência ao famoso monstro dos anos 1950 que, na ficção, assusta os japoneses após ter sido despertado de seu sono milenar no fundo do oceano pelos testes nucleares no Pacífico. No rancho, havia algumas vacas ruminando tranquilas. Em uma das cercas, o proprietário afixou um cartaz em inglês, que indicava com humor a distância a tomar dos animais, a mesma indicada para evitar o contágio por Covid-19: Social distance 2 m.

 

Antes do apocalipse, Namie tinha cerca de 20 mil habitantes. No ano passado, moravam ali apenas 1 189 pessoas. Uma delas é Junichi Kasai, que nasceu na cidade há 63 anos e foi diretor do colégio Namie.

Quando o terremoto atingiu a região, Kasai estava no correio da cidade com seus dois filhos adolescentes. “Por alguns minutos tivemos dificuldade de ficar de pé”, ele contou. “Prédios e casas tombaram; outros ficaram a ponto de ruir. Paredes de concreto estavam caindo ao redor. E todo mundo sentia o cheiro de gás se espalhar pela rua.” Ao ouvir o alerta de tsunami, Kasai e os filhos correram para o carro e foram para a região montanhosa onde ficava a casa da família, bem longe do mar.

O pai e os dois filhos chegaram sãos e salvos na casa, mas nem a mulher nem a filha de Kasai estavam lá. Foi impossível contatá-las por celular. A apreensão tomou conta deles. Sua mulher era professora em uma escola primária. A filha trabalhava em um banco em Namie. No início da noite, as duas finalmente retornaram à casa, depois de dar voltas e voltas, pois as vias estavam obstruídas. Ninguém morreu nem ficou ferido na família de Kasai.

Na manhã do dia seguinte, eles ouviram a ordem de evacuação e decidiram se dirigir de carro a Fukushima, a capital da província, um trajeto que deveria durar normalmente noventa minutos. Tentaram pegar a rodovia principal, mas logo se depararam com filas e mais filas de carros. Kasai resolveu fazer um caminho alternativo pela montanha – e a família só chegou à cidade no fim do dia.

Foi em Fukushima que acabaram se instalando, já que estavam impedidos de voltar a Namie. Até hoje, a mulher de Kasai continua vivendo lá. Os filhos se estabeleceram em outras cidades. Em 2017, quando o governo liberou algumas áreas de Namie, Kasai decidiu retornar e passou a dividir sua semana entre os dois locais. De segunda a sexta-feira, ele trabalha na Prefeitura de Namie; nos fins de semana, vai para Fukushima.

Em Namie, Kasai mora no bairro de Gongendo, onde fica a estação de trem, reaberta apenas em 2017, pois a ferrovia que liga as cidades da região ao resto do país teve estações e trilhos arrastados pelo tsunami. De vez em quando, Kasai visita a antiga casa de sua família, que deverá ser demolida por ordem das autoridades. A casa na vila Murohara ainda está de pé, mas fica em uma “zona de difícil acesso”, contaminada pela radiação nuclear. A demolição estava prevista para o fim de 2020, mas Kasai conseguiu que fosse postergada para meados deste ano. Fomos visitar essa casa onde, antes de Kasai e sua família, moraram seus pais, avós e bisavós, ao longo de 120 anos.

 

Foi preciso subir um trecho de montanha para chegarmos à casa, um sobrado típico japonês, construído com madeira num terreno grande, no qual há um galpão de pedra e um poço d’água. Nas áreas vazias em volta foram empilhados sacos pretos contendo solo tóxico – estima-se que haja 16 milhões de sacos reforçados de 1 m3 com terra contaminada na província de Fukushima.

O sobrado continua firme, mas os estragos causados pelo terremoto são muitos (a casa não foi atingida pelo tsunami). Antes de entrarmos, Kasai confere o medidor de radiação, que marca 0.2 µSv/h, nível que ele não considera especialmente perigoso. Com isso, desistimos dos jalecos e das luvas, mas mantemos as máscaras enquanto andamos entre escombros, teias de aranha e cacos de vidro.

Kasai, então, abre as cortinas para deixar o sol entrar, como se ainda morasse no local e tivesse acabado de voltar de uma longa viagem. Na casa, o tempo parou em março de 2011, como mostra um calendário afixado na parede. Muitos objetos da família continuam ali: cartas, fotos, fitas de vídeo e livros, vários deles lançados ao chão durante o terremoto. Uma câmera fotográfica acumula pó em uma mesinha. Nos quartos ficaram os futons, quadros e objetos de decoração, inclusive um tatu empalhado made in Brazil (como diz a etiqueta desbotada). Peças de louça sobreviveram nos armários da cozinha. Amuletos Daruma, símbolos de resiliência e perseverança nas tradições nipônicas, foram deixados para trás.

Por causa do pó radioativo que ainda repousa nos objetos, não é recomendável revirá-los ou levá-los consigo. Dessa vez, porém, cutucando com os pés um amontoado de papéis num cômodo no segundo andar, Kasai avistou um colorido mapa-múndi e não resistiu: com um lencinho descartável de papel, pegou o mapa e o retirou do invólucro de plástico que o envolvia. Era um suvenir de uma viagem que ele fez à Austrália na juventude e mostrava os hemisférios invertidos, o Sul no Norte, e o Norte no Sul. “Um mundo às avessas”, ele disse, rindo. Decidiu levar consigo a lembrança garimpada na casa. Foi um pequeno ato de rebeldia, eu pensei.

Junichi Kasai e sua irmã mais velha, Shihoko Ogura, visitam o local ao menos três vezes por ano: em 11 de março (dia do Grande Terremoto de Tohoku, como a data é lembrada), no Obon (um feriado em meados de agosto para relembrar os antepassados), ou num dos feriados Higan (celebrado duas vezes, nos equinócios da primavera e do outono). A visita é uma forma de honrar os antepassados da família Kasai. Que são também meus ancestrais.

 

Meus bisavós maternos, Katsuo e Hatsu Kasai, agricultores, tiveram cinco filhos (Koichiro, Hiroshi, Kouchi, Noribumi e Masaru) e cinco filhas (Miya, Toshiko, Kinuko, Sachi e Yaeko). Todos já morreram, exceto Yaeko, a caçula, que tem 79 anos e mora na cidade de Iwaki. O primogênito, Koichiro, é o pai de Junichi Kasai. O segundo mais velho, Hiroshi, é o pai de minha mãe, Tokiko Kasai.

Koichiro nunca deixou Namie, pois a tradição mandava que assumisse a casa da família, por ser o filho mais velho. Na década de 1940, meu avô, Hiroshi, casou-se com Kiyoko. Foi um casamento arranjado, um omiai, como dizem os japoneses, coisa comum na época. O casal foi viver em uma casa de um só piso, a poucos metros do sobrado, e teve quatro filhos: Keiko, Chieko, Yasutaka e minha mãe Tokiko.

Em setembro de 1959, meus avós Hiroshi, então com 38 anos, e Kiyoko, com 30 anos, embarcaram com as quatro crianças no navio S.S. Argentina Maru, e foram para o Brasil, no segundo boom da imigração japonesa para o país. Meu avô foi o único dos irmãos Kasai que se permitiu essa aventura. A família chegou ao Porto de Santos em 8 de dezembro. Havia 744 passageiros e 108 tripulantes no navio – e a passageira nº 641 era minha mãe, então um bebê de 1 ano, segundo documento arquivado no Memorial do Imigrante de São Paulo. Meu avô registrou toda a viagem em mais de duzentas fotos, desde o momento em que tomaram o trem em Namie até atracarem em Santos, passando pelo Caribe.

Nos relatos da família, meus avós maternos tinham imigrado sonhando tornarem-se fazendeiros no Brasil. Ao desembarcarem, contudo, foram levados a uma fazenda em Mogi das Cruzes, para trabalharem na lavoura. Logo se deram conta de que dificilmente seriam donos de sua própria terra (eles não foram os únicos a vir do Japão com esse sonho e ter a mesma desilusão).

Em uma das fotos que meus avós guardaram da vida em Namie, pode-se ver, entre vários familiares, o garoto Junichi Kasai e minha mãe, Tokiko, ainda bebê. Os dois eram os mais jovens do clã e nunca mais se reencontraram. Junichi Kasai não tem nenhuma recordação de meus avós, seus tios. Lembra apenas que os familiares do Brasil e do Japão trocavam muitas cartas e mandavam presentes pelo correio, como borboletas secas e o tatu empalhado que vi acumulando pó em um dos quartos do antigo sobrado. A casa pequena em que viveram meus avós (e onde minha mãe nasceu) foi derrubada recentemente – no lugar só resta um amontoado de britas. Dentes-de-leão floresceram no terreno baldio.

Depois de vermos o que restou das casas, fomos visitar o jazigo da família, num cemitério nas imediações. De manhã, Kasai e sua irmã já haviam passado ali e deixado no túmulo uma penca de crisântemos e lisiantos – amarelos, brancos e rosas. Eu acendi um incenso.

 

Na manhã de 11 de março de 2011, sexta-feira (e noite do mesmo dia no Japão), acordei com uma ligação de minha mãe. Aflita, ela me disse as seguintes palavras: “Namie não existe mais, você viu? Foi destruída.”

Meus avós maternos morreram na década de 1990, quando eu era criança, e nunca mais voltaram a Namie. Mas desde muito pequena eu ouvia relatos sobre a cidadezinha, que, para a minha família, fragmentada entre Brasil e Japão, sempre foi a referência principal disso que se chama “lar”. Uma de minhas tias contava histórias idílicas da cidade, que nas lembranças dela era uma simples vila de agricultores, com ruas de terra, repleta de campos de arroz e árvores altas, cercada pelo mar e as montanhas, e onde a vida transcorria de maneira calma e agradável. Como minha mãe veio de lá ainda bebê, as memórias que construiu de Namie foram cristalizadas por sua irmã mais velha – que sempre nos recordava que foi “de lá que nós viemos”. Meu pai, Milton Ogassawara, nasceu no Brasil, neto de japoneses, e os galhos da árvore genealógica dele no país são mais longos que os de minha mãe. Essa situação faz de mim, ao mesmo tempo, uma nissei – filha de japoneses, pois do lado materno faço parte da primeira geração de descendentes nascida no Brasil – e uma yonsei – já que, pelo lado paterno, sou bisneta de japoneses e pertenço à quarta geração.

A tragédia ocorrida na região de Fukushima abalou também minha família no Brasil. Minha tia Chieko, de 70 anos, que costumava ir com frequência a Namie, ficou em estado de choque, mas foi ela quem teve forças para telefonar aos familiares japoneses para saber como estavam. Felizmente, todos passavam bem, embora tivessem sido obrigados a deixar Namie às pressas. Lembro-me dela, no seu antigo escritório na Liberdade, no centro de São Paulo, quando fazia consultoria de viagens para o Japão, mostrando-me um antigo álbum de fotos. “Aqui era a casa. Para chegar à escola, precisava atravessar esse campo, passar por essa ponte…”, recordava, saudosa. Mesmo com as restrições de visitação, tia Chieko continuou viajando de São Paulo a Namie para visitar a antiga casa da família e levar flores ao jazigo dos Kasai. Sua viagem mais recente foi em 2019, antes da pandemia.

Não foi apenas minha família que sofreu com o desastre. Elaine Sato, uma bancária paulista de 44 anos que me procurou por causa de um outro texto que publiquei na imprensa, me contou que em 2017 resolveu realizar um sonho de seu pai, Shigenobu Sato, e levá-lo para visitar Namie, sua cidade natal. “Era para ter ido antes, mas veio o tsunami, e tivemos que colocar esse sonho de lado por um tempo. Lembro que, na época da tragédia, todos aqui ficaram muito preocupados, tentando falar com os parentes de lá e ter notícias deles. Só sossegaram depois de descobrir que todos estavam vivos e bem”, contou Elaine Sato. À época, a imagem que ela tinha de Namie era parecida à de uma cidade japonesa pós-apocalíptica mostrada na série documental Dark Tourist, de David Farrier, exibida pela Netflix.

Apenas em 2019, ela conseguiu fazer a viagem com o pai. Ao chegar lá, Shigenobu Sato de início não reconheceu a cidade. Muita coisa havia mudado desde sua infância e outras tinham sido arrasadas pelo tsunami. Ele ficou desapontado: a cidade de sua imaginação não correspondia à real. Porém, pouco a pouco, em meio às ruínas, ele começou a identificar os lugares antigos: as ruas onde brincava quando criança, o rio em que mergulhava com os amigos, o local do antigo colégio… “Nunca vi meu pai tão feliz e se sentindo tão ‘em casa’. Era exatamente isso: ele estava em sua cidade e em sua casa”, contou a filha. De algum modo, Shigenobu Sato encontrou seu elo perdido.

 

Em 31 de agosto do ano passado, fiquei sabendo que o sobrado dos Kasai ia ser demolido. Em 16 de outubro, eu e meu companheiro tomamos o trem em Toyohashi, onde vivemos, e viajamos 500 km até Namie. Seria a primeira vez que eu visitaria a cidade. Eu precisava ir ao encontro daquele pedaço do meu passado, antes que a casa de meus avós virasse pó, em definitivo.

No trem, meu companheiro, que não descende de japoneses, me perguntou: “Como você se sente voltando para casa pela primeira vez?”

Eu não soube responder – e ainda não sei, mesmo depois de conhecer a cidade onde, na infância e sobretudo na juventude, eu às vezes passeava imaginariamente. A Namie retratada nas fotos de família não existe mais. O sobrado onde os Kasai viveram é uma casa abandonada. Onde existia antes um ideal de lugar, uma utopia, em breve não existirá mais nada, ou apenas um não lugar, literalmente. A Namie atual perdeu seus laços com o passado: é um monte de escombros, uma terra perigosamente radioativa e sem perspectiva, onde o tempo parece ter deixado de existir e a vida custará a prosperar de novo. A tragédia na província de Fukushima devastou também a memória de muita gente, inclusive a minha. Uma parte importante do passado de minha família que eu não tive a chance de descobrir foi destruída. Será que, para mim, Namie é um elo perdido para sempre? Também não sei responder.

Na volta, quando passamos pelo checkpoint – um outro, diferente do primeiro –, já era quase noite. Devolvemos o kit de proteção e o medidor portátil de radiação. Os oficiais, dessa vez, abriram as portas do carro para passarem um detector de radioatividade nas nossas solas de sapato e se certificarem de que não estávamos levando terra altamente contaminada para fora das fronteiras. Feito isso, eles repetiram: “Obrigado.” E inclinaram-se num gesto de saudação.

[1] A radiação é calculada usando-se a unidade sievert, que mede a quantidade de radiação absorvida pelos tecidos humanos. Um sievert (Sv) equivale a 1.000 milisieverts (mSv), e 1 mSv equivale a 1.000 microsievert (µSv).

Juliana Sayuri

É jornalista e historiadora brasileira radicada no Japão. É autora de Diplô: Paris – Porto Alegre (2016), finalista do Prêmio Jabuti.

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