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Futebol romântico

Atletas escoceses abrem mão do salário para o time não falir

Felipe Marra
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

“Se a vida lhe parece totalmente podre/ É que você se esqueceu de algo/ De sorrir, gargalhar, dançar e cantar/ Quando estiver se sentindo um lixo/ Não seja um perfeito estúpido/ A solução é assobiar.” Foi com os versos de Always Look On the Bright Side [Veja sempre o lado bom da vida], música do Monty Python, que os torcedores do Celtic F.C. provocaram os arquirrivais do Rangers F.C. num melancólico domingo de abril em Glasgow. Jogando fora de casa, os Rangers perderam o clássico por 3 a 0. Cabisbaixos, os jogadores foram para o vestiário enquanto o sistema de som do estádio Celtic Park tocava Don’t Look Back in Anger [Não olhe para trás com raiva], do Oasis.

Rangers e Celtic são as duas maiores forças do futebol escocês. Conhecidos coletivamente como The Old Firm, a velha firma, os dois times de Glasgow já ganharam, juntos, 97 títulos nacionais. Sua rivalidade remonta ao século XIX e ultrapassa as quatro linhas. Enquanto o Celtic representa a população católica e apoia a unificação da Irlanda, os Rangers, protestantes, simbolizam a lealdade à rainha e à unidade do reino. Quando os Rangers jogam em casa, no Ibrox Stadium, a torcida desfralda enormes bandeiras do Reino Unido e da Irlanda do Norte e canta estrofes do hino nacional britânico, God Save the Queen [Deus salve a rainha].

Não foi diferente na partida seguinte ao clássico, quando os Rangers receberam o Dundee United numa tarde ensolarada de quarta. O jogo prometia ser fácil, mais uma etapa do caminho suave rumo ao segundo lugar do campeonato escocês, para ratificar a vaga para o mais importante torneio continental, a Champions League. Não obstante, os torcedores estavam macambúzios, sem qualquer sinal do fanatismo habitual. E não era por causa da derrota para os arquirrivais. Seus corações estavam partidos desde o Dia dos Namorados.

Celebrado na Europa em 14 de fevereiro, o Valentine’s Day foi marcado por um dos episódios mais sombrios da história recente do time: sua direção foi assumida por administradores externos. O objetivo da intervenção era encontrar um comprador que financiasse as dívidas acumuladas, da ordem de 134 milhões de libras, ou 431 milhões de reais. Se isso não fosse possível, a alternativa seria liquidar o clube.

 

Num gesto abnegado para evitar a falência imediata do time, alguns jogadores abriram mão de até 75% de seus salários semanais. O capitão dos Rangers, o meio-campista Steve Davis, com salário estimado em 28 mil libras (89 mil reais), e o goleiro Allan McGregor, que ganhava perto de 26 mil libras (83 mil reais), aceitaram ter seus vencimentos reduzidos para menos de 10 mil libras (32 mil reais).

É verdade que nem todos aderiram de imediato. “Soubemos de um jogador que teria relutado em aceitar um corte no salário, porque tinha questões financeiras que ficariam complicadas”, contou Michael Grant, editor de esportes do Herald, principal jornal escocês. “Mas ele acabou aceitando: foi uma decisão unânime.”

Que tenha sido motivado por amor ao clube ou por medo de perder o emprego e todo o salário, tanto faz: o gesto foi apreciado pelos torcedores. “O que eles fizeram foi fantástico”, disse Richard Cleary, da torcida organizada Nithsdale Loyal. “Muitos jogadores cresceram torcendo pelos Rangers e queriam ajudar. Eles aceitaram os cortes para preservar o emprego do pessoal da limpeza, da cozinha e até dos olheiros.”

 

Para enfrentar o Dundee, os Rangers entraram em campo aplaudidos de pé, ao som de Simply the Best [Simplesmente o melhor], de Tina Turner. O apito inicial trouxe mais ovações e um coro de insultos à federação escocesa de futebol, puxado pelas duas principais torcidas organizadas: a Blue Order e a Union Bears. O apupo só foi interrompido pelo primeiro gol dos Rangers, num chute rasteiro de canhota do zagueiro Steven Whittaker, aos seis minutos de jogo. O nigeriano Sone Aluko ampliou o placar aos dezessete e aos vinte minutos do primeiro tempo, mas a torcida continuava apática, festejando apenas os lances de gol.

Nem o movimento “O Fortuna”, da ópera Carmina Burana, tocado no sistema de som do estádio durante o intervalo num volume muito mais alto que o recomendado, foi suficiente para animar a torcida. No segundo tempo, gols de Ness e Bedoya tampouco inflamaram os torcedores. Em contraste gritante com os 5 a 0 do placar ao fim da partida, havia um clima soturno em Ibrox. Não bastasse a crise financeira, a goleada fora inócua. Punidos com a perda de dez pontos por improbidade administrativa, os Rangers não teriam mais como evitar o 43º título escocês do Celtic.

O mesmo ambiente de velório marcou a entrevista coletiva depois do jogo. Enquanto esperavam a chegada do técnico Ally McCoist, os jornalistas se serviam no open bar e comentavam os lances do campeonato espanhol exibidos na televisão. Lacônico, McCoist falou pouco da goleada e preferiu abordar a ansiedade da torcida – naquele momento, havia duas propostas de compra dos Rangers na mesa. “O que queremos é alguém que nos dê alguma estabilidade”, disse o treinador. “Entendo a preocupação dos torcedores, mas pediria que dessem uma chance a quem quer que compre o time.”

No fundo da sala, um garçom notou que o clima era exatamente o oposto do que tinha visto na semana anterior, quando o estádio fora palco de uma partida da equipe de masters. “Com a equipe principal, as coisas têm sido assim desde o início dos problemas financeiros”, observou. “O futuro? Ninguém sabe.”

O futuro acabou chegando mais rápido do que todos imaginavam. No dia 13 de maio, o executivo inglês Charles Green teve sua proposta de compra no valor de 8,5 milhões de libras (27 milhões de reais) aceita pelos administradores dos Rangers. Quem sabe seus torcedores ainda poderão, seguindo o conselho dos rivais, assobiar e olhar para o lado bom da vida.

Felipe Marra

Felipe Marra é jornalista e editor brasileiro residente em Londres. 

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