esquina

Futuro do pretérito

Um baú de velhas novidades

Paula Scarpin
ILUSTRAÇÃO_ANDRÉS SANDOVAL_2018

A cena viralizou no YouTube. No dia 7 de agosto, o ex-quase-presidenciável Luciano Huck sabatinava o candidato Geraldo Alckmin num evento sobre tecnologia em São Paulo. Assim que tomou a palavra, o tucano cumprimentou Huck e a plateia, e dirigiu-se à mulher do apresentador, sentada na primeira fila, dizendo que queria “saudar a Eliana”. Alckmin engatou um discurso sobre a desburocratização do governo até que, menos de um minuto depois, foi interrompido pelo entrevistador. “Vou precisar fazer uma correção, não vai ter jeito”, disse Huck, com um sorriso sem graça. Cochichou algo no ouvido do candidato, que, envergonhado, levou as mãos à cabeça e desceu à plateia para se desculpar com Angélica.

A saia justa não era apenas porque o ex-governador paulista confundira a mulher de Huck com outra apresentadora loira que, como ela, começara a carreira comandando programas infantis na tevê. Ocorre que de fato Eliana havia namorado Huck por dois anos no final da década de 90, quando ele ainda trabalhava na Band. No momento em que a gafe começava a se espalhar pelos portais de notícias, a conta do Twitter Revistas Antigas publicou uma capa da extinta Carícia, de 1999, que trazia Huck e Eliana. Na manchete, lia-se: “Vale a pena recomeçar?” No Facebook, a filial do mesmo perfil desenterrou uma foto do apresentador na praia, pouco depois de romper com a ex. “Estou sozinho, mas a Eliana ainda é a mulher que está mais próxima de mim”, declarava Huck a uma publicação não identificada. “Não é possível”, reagiu um leitor. “Vocês têm máquina do tempo e se preparam com antecedência.”

O leitor não estava totalmente errado. Marília Neves, a analista de dados goiana de 29 anos que criou as duas contas, ainda não descobriu como visitar o futuro, mas sempre que pode tenta vincular imagens de velhas revistas ao noticiário atual. Consegue se antecipar nas efemérides e datas festivas como o Dia dos Namorados ou Natal, mas nas demais ocasiões depende do acaso. “Postagens como a do Huck são mais raras, não dá para prever.”

O acervo de Neves inclui um reclame publicado numa O Tico-Tico de 1923, uma capa de Realidade de 1968, uma reportagem de Contigo de 1991, entre milhares de outros. A goiana é fã de revistas do início do século XX, como O Malho e Para Todos, mas seus seguidores preferem as mais recentes, que ainda repercutem na memória dos leitores. “O que faz sucesso mesmo é notícia dos anos 70 pra cá, principalmente bagaceira”, disse a analista de dados. Uma das postagens mais populares, com mais de 1 500 compartilhamentos, foi uma promoção da revista Grande Hotel em que os leitores concorriam a uma roupa de Sidney Magal. “Não tinha ideia de que ele fez esse sucesso todo.”

Páginas de jornais raramente são publicadas. Ela abriu uma exceção quando, na véspera do jogo entre Brasil e Bélgica na última Copa do Mundo, reproduziu uma reportagem do Diário do Nordeste que registrava a vitória brasileira sobre o mesmo adversário no Mundial de 2002. Precavida, separara 46 imagens para postar ao longo da Copa, pronta a reagir a diferentes cenários. As imagens que celebravam os cinco troféus levantados até hoje ficaram na gaveta; no dia da eliminação, ela divulgou uma capa da Placar de 1982: “Que pena, Brasil.”

 

Engana-se quem pensar que Marília Neves seleciona suas imagens a partir de um acervo pessoal de revistas. “Não, imagina!”, riu a tuiteira. “Pego tudo da internet.” Sua coleção foi montada consultando o Google, arquivos digitalizados de bibliotecas e o Mercado Livre, de onde salva as fotos das revistas velhas que os donos tentam vender. “Adoro pesquisar em sebos também, mas fico com vergonha de fotografar se não for levar”, contou. “E acabo não comprando nunca.”

A goiana pesquisa as imagens sem muito método, em sessões de navegação em que flana nas redes em busca de temas de seu interesse. Dedica pelo menos três horas por dia à coleção, seja procurando e classificando imagens, seja programando posts, e não ganha qualquer tipo de remuneração com o hobby. Formada em biblioteconomia, ela organiza meticulosamente os arquivos em pastas de seu computador, como as seções de uma revista (política, esportes, entretenimento), e algumas publicações têm subpastas próprias. As maiores pérolas surgem por acaso, como a reportagem “Os segredos de Myriam Rios para seduzir o Rei”, publicada em 1989 pela Semanário e ilustrada com uma coleção de calcinhas da ex-mulher de Roberto Carlos. Foi postada em julho passado, sem qualquer vínculo aparente com o noticiário.

Neves publicava as imagens uma vez ou outra em sua página pessoal nas redes sociais, até que em 2016 uma amiga comentou que ela era “o Pulp Librarian brasileiro”, uma referência ao perfil britânico que compila antigas capas de revistas. Ela não conhecia a página, mas se entusiasmou. Acabara de se mudar de Goiânia para Brasília a fim de trabalhar numa assessoria de comunicação e andava em busca de um passatempo na cidade onde ainda não tinha muitos amigos. “Foi um jeito de alimentar as minhas obsessões: história, política, esportes e celebridades”, disse.

Quase não há revistas na quitinete de 27 metros quadrados em que Neves mora no bairro Sudoeste – um único exemplar estava perdido entre os livros na estante no dia em que ela deu entrevista. “Não é porque estou falando com você, mas é uma piauí”, contou. “Só que de julho do ano passado.” Na casa dos pais, onde cresceu, estão armazenadas algumas dezenas de exemplares de Veja, que sua avó assinava.

Na semana anterior à entrevista, a Editora Abril, que chegou a editar mais de 150 revistas no século passado, anunciou o fechamento de dez publicações – a partir de então, operaria com apenas quinze títulos. Dias depois, a empresa entrou com pedido de recuperação judicial. Neves não fez qualquer postagem de repúdio ou lamento. “Claro que fico triste, mas a verdade é que não lembro quando foi a última vez que comprei uma revista”, disse.

Paula Scarpin

Paula Scarpin é repórter da revista desde 2007 e diretora da rádio piauí

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