a arte da guerra

Galeto à iraquiana

Quem não gosta de frango assado? Fresquinho e crocante, com uma pitada de sal, ele se solta do osso e desmancha na boca. É ótimo – a menos que o preço seja de 2,5 milhões de dólares, tirados do bolso do contribuinte

Peter van Buren
ILUSTRAÇÃO: CAIO BORGES_D'APRÈS A RAINHA DO FRANGO ASSADO DE ALEX VALLAURI

Na condição de funcionário diplomático com uma carreira de vinte anos no Departamento de Estado, e como parte da guerra global ao terror de George W. Bush, fui enviado lá a fim de desempenhar um papel coadjuvante no maior projeto de construção de uma nação desde o Plano Marshall: a reedificação do Iraque, depois da invasão americana de 2003. Meus colegas empreiteiros e eu recebemos a incumbência de gastar dinheiro, muito dinheiro, para reconstruir sistemas de água e esgoto, consertar escolas e, acima de tudo, criar uma base econômica tão maravilhosa que os iraquianos largariam o terrorismo para apostar no capitalismo. Sacolas de compras abarrotadas substituiriam coletes à prova de balas.

Coube-me supervisionar a construção de um frigorífico de abate e processamento de frangos numa zona rural. O projeto visava induzir os iraquianos a abandonar o comércio de galinhas vivas, que praticavam há mais de 5 mil anos – inclusive nos 4 992 anos sem os americanos ou a Al Qaeda por perto. Tínhamos grandes ambições, e fizemos um vídeo para comemorar a inauguração da fábrica. Havia até uma placa agradecendo os Estados Unidos pela “reabilitação do massacre de aves”.

Pouquíssimas pessoas fora do mundo agrícola sabem que, se o galo de uma granja morre, as galinhas continuam a botar ovos férteis por até quatro semanas. Isso porque os “ninhos de esperma”, que ficam nos dutos do ovário das aves, coletam e armazenam o sêmen para ajudar na sobrevivência da espécie. Foram coisas desse tipo que tive de aprender para desempenhar a contento meu papel na reconstrução do Iraque.

Construiu-se, assim, com dinheiro de nossos impostos, um frigorífico de processamento de frangos. Mas a primeira indicação que eu e minha equipe de reconstrução tivemos foi a de que tudo não passava de titica. O odor que nos recebeu não era o abate de aves, e sim de tinta fresca. Não havia qualquer indício de abate de galinhas, apenas fileiras de refrigeradores.

Ao abrir a porta de um deles, esperando ver frangos resfriados, encontramos velhos baldes de tinta. Nosso guia procurou nos tranquilizar. Naquela manhã, informou-nos, tinham sido comprados 25 frangos. Eles seriam abatidos justamente durante a nossa visita de inspeção, para a produção de um vídeo sobre a arrancada da nova indústria. Dessa feita, a produtividade da fábrica daria um salto de 100% em relação aos dias anteriores, posto que, até então, nem uma única galinha havia sido processada.

 

A primeira etapa da cadeia iraquiana de matar galinhas me pareceu bastante arcaica. O frigorífico tinha uma pequena janela, na verdade a única janela do lugar, que dava para um estacionamento e, mais além, para o santuário islâmico de Meca, na vizinha Arábia Saudita. Um funcionário magro e triste tirou um frango de uma gaiola de arame, exibiu-o ao estacionamento e em seguida decepou-lhe a cabeça.

A sequência foi repetida 25 vezes, fazendo com que 25 cabeças se acumulassem a seus pés e boiassem em poças de sangue. Foi o suficiente para transformar todos nós, na hora, em vegetarianos radicais. O degolador de aves não parecia gostar ou desgostar de seu trabalho. Parecia entediado. Não nos dirigiu sequer um sorriso forçado. Tampouco se exibiu. Apenas matou os animais e depois foi embora. Seu trabalho terminava ali.

Concluída a primeira etapa, um punhado de operários ligou a máquina de processamento: uma extensa correia com ganchos que transportava os frangos através das diferentes estações de tratamento (caldeira, depenador, amputador de pernas). As aves foram penduradas pelo pé num gancho e seguiram para a pulverização com vapor pressurizado. Com isso, as penas se afrouxavam antes que a correia transportasse as aves para as escovas rotativas, que lhes arrancavam a plumagem. Água e penugem de frango voavam por todo lado.

Outro funcionário, ensopado e com penas até na barba, ficava por perto para recolher as aves derrubadas pelas escovas e enganchá-las novamente para a etapa seguinte – a do corte dos pés, que gerava uma grande quantidade de pó de osso. Sobrava a carcaça propriamente dita, imersa em uma grande banheira de aço inoxidável onde um funcionário a eviscerava, jogava fora as entranhas e empurrava para a estação final, onde seria embrulhada em plástico. Como pano de fundo havia uma barulheira infernal de chiados e solavancos metálicos.

 

Segundo o comunicado à imprensa, o projeto nascera de “uma pesquisa de mercado que apontava que os iraquianos estariam dispostos a pagar um pouco mais por frango fresco, com certificado halal, em vez do frango congelado, importado e mais barato, encontrado nas prateleiras das lojas do Iraque”. O problema é que essa pesquisa jamais existiu.

Até 2010, a maioria dos iraquianos comia frango congelado importado do Brasil. Os brasileiros rotulavam o frango como sendo halal, e se podia comprar 1 quilo por 2 200 dinares (1,88 dólar). O frango local, em comparação, era caro. Como o Iraque não produzia ração para aves, tinha que importá-la e o produto final não saía por menos de 3 mil dinares. O custo do frango do nosso frigorífico, por sua vez, chegava a mais de 4 mil dinares o quilo, pois pagávamos, além da ração importada e da mão de obra, sabe-se lá mais o quê.

Não espanta, assim, que o frigorífico ficasse ocioso. Simplesmente não havia mercado para o frango processado que produzíamos, e ninguém  verificara isso antes de gastar 2,58 milhões de dólares.

Para o funcionário do Departamento de Agricultura americano que visitou o frigorífico, a solução era gastar mais dinheiro. Outros 20 mil dólares seriam necessários para obtermos o licenciamento de quatro caminhões Hyundai, comprados e parados no estacionamento, despesa que não fora prevista em nossa dotação inicial. Algum dia, esperava ele, os caminhões transportariam frango pelo Iraque afora.

Outro colega da embaixada recitou a cantilena de que o frigorífico fora projetado para criar empregos em uma área de desemprego crônico. A notícia soara boa para o degolador de frangos, mas, afora isso, tinha pouco significado. Se o emprego era de fato a meta, por que fazer um frigorífico automatizado? Nesse sentido, cinquenta sujeitos fazendo o trabalho manualmente talvez fosse uma ideia melhor.

Outro funcionário da embaixada, que também integrava a comitiva daquele dia, comentou que o objetivo era pôr mais proteína na cadeia alimentar dos iraquianos – o que também poderia ser um argumento em defesa de uma fábrica de tofu ou de uma lanchonete de fast-food.

O frigorífico tinha um “plano de negócios”, que não contemplava onde e como os frangos seriam comercializados. Supunha-se que, se frangos fossem produzidos, as pessoas os comprariam – uma vertente galinácea do filme Campo dos Sonhos (ficavam faltando só um Kevin Costner e um James Earl Jones). Sem foco num objetivo mensurável, além do descerramento da fita inaugural, foram esquecidos detalhes como a forma de vender mercadorias que precisam ser armazenadas no frio, numa área sem refrigeração. Não tínhamos conseguido fazer a base de uma pirâmide – o que cria a possibilidade de um topo –, cerne de qualquer projeto de desenvolvimento bem-sucedido.

O plano de negócios do frigorífico também falava de “uma campanha publicitária agressiva”, em rádio e televisão, tendo como foco o processamento mecanizado de frangos, e não o produto em si. Para um país no qual a maioria das pessoas ia às compras em feiras ao ar livre, pechinchando pelos alimentos do dia, talvez não fosse a campanha mais indicada. Com uma renda per capita anual de apenas 2 mil dólares, o Iraque não era a praça em que anúncios de tevê venderiam frangos de luxo que custavam o dobro dos da concorrência. Em qualquer curso universitário de administração tal estratégia mereceria nota 4 – e mesmo assim apenas por estar muito bem digitada. Se o professor soubesse que o projeto engolira 2,58 milhões de dólares, contudo, a nota poderia cair para zero.

Consegui localizar um relatório sobre a indústria avícola, datado de junho de 2008, feito pelo Programa de Agronegócios Inma (palavra árabe que significa “crescimento”) da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, a Usaid. A conclusão do relatório, disponível antes da construção do nosso frigorífico, era de que vários fatores faziam do investimento na indústria iraquiana de aves frescas uma operação de alto risco. O relatório mencionava “a falta de uma cadeia funcional de refrigeração para vender carne de frango congelada, em vez de galinhas vivas; custos proibitivos de eletricidade; falta de dados sobre a demanda de consumo e preferência por frango fresco; falta de competitividade em relação às importações de congelados do Brasil e dos Estados Unidos”.

Apesar da conclusão preocupante de que “não existem dados sobre o tamanho do mercado para frango fresco”, o Exército e o Departamento de Estado foram em frente e construíram nossa fábrica de processamento de aves. Em resumo: embora a Usaid/Inma se posicionasse contra o frigorífico em 2008, e nenhuma pesquisa de marketing fosse realizada, gastaram-se mais de 2,58 milhões de dólares no projeto. Nenhum frango fora processado e, só para não deixar de mencionar, a Al Qaeda continuava ativa.

 

Logo após minha primeira incursão ao frigorífico, recebemos ali três “turistas de guerra” da embaixada. Ao contrário de uma minoria que viajava para efetivamente tratar de negócios, o grosso do pessoal da embaixada raramente saía da bem protegida Zona Verde de Bagdá. Pareciam bem satisfeitos, felizes por receber o adicional de zona de guerra, adicional de dificuldade e adicional de periculosidade durante o ano de serviço no país invadido. Apenas alguns poucos, curiosos, se dispunham a dar uma espiada nesse lugar chamado “Iraque”, onde trabalhavam durante meses. Para tanto, arranjavam uma desculpa para nos visitar. Nessas ocasiões, permitíamos que tirassem fotos, mostrando que estiveram “em campo”. Mas tratávamos de tornar a visita indigesta ​​o suficiente para que não quisessem voltar e nos aborrecer de novo sem um motivo concreto.

Enfrentávamos uma luta permanente para saber se o dinheiro que havíamos investido resultara em algo concreto. Como precisávamos checar constantemente se alguns dos poços de água, pelos quais estávamos pagando, tinham mesmo sido escavados, um trio entediado na embaixada viu na questão do abastecimento de água a oportunidade para uma excursão. Eram duas mulheres e um homem, recém-saídos da Zona Verde.

As mulheres ainda usavam brincos (sabíamos que o metal ficava quente e grudava nos fones de ouvido) e tinham os cabelos puxados para trás, presos com elásticos (quem tinha de viver no campo cortava-os curtos). O único homem do grupo estava vestido para um safári, com mais cintos e zíperes do que Michael Jackson, e bolsos e pochetes suficientes para carregar suprimentos para um fim de semana. Os sapatos dos três estavam impecáveis.

Em todos os lugares que parávamos, atraíamos uma multidão de desempregados e crianças, esperançosos de ganhar um trocado ou bala. O trio pôde, assim, tirar várias fotos ao lado de iraquianos. O contentamento durou pouco. Como fazia 43 graus à sombra, e os poços estavam localizados em terras empoeiradas a uma hora de distância, a inspeção foi breve.

Levamos mais dois turistas ao frigorífico: o chefe-adjunto de missão da embaixada (que proclamou a visita como seu melhor dia passado no Iraque, indicação de que precisava sair com mais frequência) e um jornalista amigo do general Raymond Odierno [comandante das forças americanas no Iraque], que, portanto, tinha direito a tratamento VIP.

Os VIPs andavam de avião e não de carro, e assim tendiam a ver ainda menos que os turistas de guerra comuns. Suas visitas também exigiam grande preparo, para que pudessem permanecer conectados a seus blogs e Tweets o tempo todo. Acontece que a maioria dos jornalistas não é tão inquisitiva quanto os programas de tevê e os filmes nos querem fazer crer. A maioria está interessada apenas numa matéria, não na matéria.

Era fácil desinformar o jornalista sobre os problemas dos nossos frigoríficos avícolas. Mandávamos matar algumas galinhas para que o lugar parecesse em pleno funcionamento – e pronto. Naquele dia, na unidade de abate, almoçamos frango fresco assado, comprado no mercado. Os iraquianos assam seus frangos lentamente, como os salvadorenhos. Com isso, o bicho estava suculento, com a pele crocante. Servidos ligeiramente salgados, eles se desmancham na boca. Jantamos bem e, como bonificação, consumimos a prova de nossa fraude.

Peter van Buren

Peter van Buren foi voluntário do serviço militar americano no Iraque e publicou We Meant Well: How I Helped Lose the Battle for the Hearts and Minds of the Iraqi People, sem edição no Brasil.

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