ficção I

A gente tá de olho em vocês

Os policiais mandaram descer do ônibus, mas a cabeça dele estava em São Petersburgo

Jeferson Tenório
A brutalidade policial de sempre: “Então, você viu as cores vermelhas de uma sirene se aproximarem. Você rezou para não ser abordado mais uma vez. No entanto, sua reza não funcionou”
A brutalidade policial de sempre: “Então, você viu as cores vermelhas de uma sirene se aproximarem. Você rezou para não ser abordado mais uma vez. No entanto, sua reza não funcionou” ILUSTRAÇÃO: JOÃO PINHEIRO_2020

Na manhã do dia 21 de agosto de 2016, você foi abordado pela polícia. Você estava na frente do seu prédio esperando uma carona para ir trabalhar. Você tinha 50 anos e não pensava que ainda teria de passar por isso. Enquanto você conferia a hora no seu relógio, dois policiais em motocicletas da Brigada Militar se aproximaram de você e perguntaram o que fazia ali parado. Você demorou alguns segundos para responder, na verdade queria se recusar a responder, pensou em confrontá-los, perguntar por que estava sendo abordado, mesmo que já soubesse a resposta. Você estava cansado daquilo. Cansado de ter que dar explicações para a polícia. Por fim, você acabou respondendo que estava ali parado numa esquina esperando uma carona para ir trabalhar. Os policiais te deram uma boa olhada; poucas vezes na vida você se preocupou com suas roupas, em se vestir bem. Um deles te perguntou onde você trabalhava. Numa escola. Sou professor, você respondeu. Depois, educadamente, eles te solicitaram os documentos e te perguntaram onde você morava e se era usuário de drogas. Além disso, você teve de ouvir a sua própria descrição através de uma voz feminina vinda da central policial: o suspeito é negro, natural do Rio de Janeiro, estatura mediana, casaco preto. Se já revistou, pode liberar, ele tá limpo. Mas acontece que o policial não te revistou. Eles estavam convencidos de que você não era uma ameaça para a sociedade. Eles sorriram, te desejaram um bom-dia, subiram em suas motos e foram embora. Você ficou ali na esquina, parado, ainda sob o olhar de gente desconfiada. Porque um suspeito é sempre um suspeito, mesmo que a polícia te libere e te diga bom-dia e tenha-um-bom-trabalho. Você, aos 50 anos, continuou sendo um suspeito. Quando você entrou no carro, Ângela, a professora que costumava te dar carona, perguntou se estava tudo bem, pois sua cara não era das melhores. Você disse que sim, que estava tudo bem. Mas não estava. No caminho para a escola, você inevitavelmente foi lembrando de algumas abordagens policiais que sofrera na vida.

 

1 A primeira vez que você recebeu uma abordagem, você recém havia chegado do Rio de Janeiro e nem sabia que se tratava de um paredão. Você tinha 13 anos e estava jogando futebol numa praça com seus amigos da escola: o Caminhão, o Juca, o Sadi, o Nego Tinho, o Michael Jackson e o Pão com Ki-Suco. Nos fins de semana vocês costumavam ir naquela praça do bairro Três Figueiras, uma zona nobre de Porto Alegre. Vocês até podiam jogar bola na Vila Bom Jesus, mas vocês preferiam aquele lugar. Um dia, no meio do jogo, uma viatura da polícia parou ao lado do campo. A princípio, vocês não ligaram, porque vocês não acharam que a coisa era com vocês, no entanto um dos policiais que saíram da viatura entrou na quadra, mandando a porra da bola parar. Depois gritou para todo mundo sentar no chão. Vocês se olharam. Vocês já sabiam o que vinha pela frente. O policial pôs a mão na arma que estava na cintura e repetiu, dizendo que não ia falar de novo, caralho, senta logo aí, porra. Vocês sentaram. O outro policial pegou a bola e colocou debaixo do braço. Perguntaram onde vocês moravam. Na Bonja, respondeu o Caminhão. Os policiais se olharam e continuaram o interrogatório. E por que vocês vêm jogar bola aqui, por que não ficam na vila de vocês? Porque a gente gosta de jogar aqui, respondeu o Pão com Ki-Suco. Os policiais se olharam novamente, dessa vez com ironia. Vocês são cheiradores de cola? Ninguém respondeu. Alguém aqui cheira cola, loló? Você tomou coragem e disse que não, que ninguém ali era cheirador de cola. Depois eles mandaram todos ficarem de pé e levantarem a camisa. O policial que segurava a bola avisou: a gente tá de olho em vocês, aqui nesse bairro é lugar de gente direita, se a gente souber que vocês fizeram alguma coisa errada por aqui, a gente vai atrás de vocês, entenderam? E todos nós balançamos a cabeça positivamente. Depois o policial pegou a bola e deu balão para o alto. O Pão com Ki-Suco foi atrás dela. Os policiais entraram no carro e foram embora. Vocês seguiram o jogo sem saber bem o que tinha acontecido.

 

2 Quando você fez amizade com o Edmundo, as coisas na escola melhoraram, porque o Edmundo gostava das mesmas coisas que você. De videogame e artes marciais. Edmundo já havia feito dois anos de judô. Você também queria muito fazer judô, mas sua família não tinha dinheiro para te pagar umas aulas e o quimono era caro. Além disso, na época sua mãe tinha voltado para o Rio de Janeiro porque brigou com a sua avó. Você e suas duas irmãs ficaram com ela em Porto Alegre. Você sabia que as coisas estavam difíceis, e por isso seria impossível pedir para sua avó pagar aulas de judô. O Edmundo te ensinou a contar em japonês até dez, te ensinou os nomes dos golpes em japonês e te contou sobre a vida do mestre Jigoro Kano, o criador do judô. Então o Edmundo disse que podia te ensinar uns golpes. Vocês combinaram de fazer isso na casa dele, porque na escola poderia ter uns babacas debochando de vocês. Edmundo morava no Bom Fim. Edmundo era judeu, na época você não sabia disso. Para não gastar passagem, você foi a pé da sua casa até a casa dele. Você passou mais de uma hora caminhando sob o sol, pela Avenida Protásio Alves. Ele morava num prédio de dez andares chamado Village Garden. Ao chegar, você apertou a campainha e esperou. Pessoas passavam por você na rua e te olhavam. Ninguém respondeu no interfone. Você apertou novamente. Nada. Decidiu ficar ali na frente do prédio e pensou que ele poderia ter saído com a mãe dele. No entanto, em minutos surgiu o policial da Brigada Militar ao seu lado dizendo para você circular que ali não era lugar para pedir coisas. Você disse que não estava ali pedindo nada, que estava indo na casa de um colega seu de escola. Que escola?, perguntou o policial. Você respondeu, mas ele não acreditou. Mandou de novo você circular. Você fez o que ele disse. Voltou para casa a pé e sem suas aulas de judô.

 

3 Na oitava série você teve uma namoradinha, a Katiane, mas ela não sabia disso. Talvez ela até desconfiasse, mas vocês nunca tiveram nada. A verdade é que vocês andavam juntos para cima e para baixo. Se a Katiane fizesse parte de uma pesquisa do IBGE, ela seria considerada parda. Um dia você até chegou a escrever uma carta anônima para ela declarando todo o seu amor. E na sua cabeça ela jamais perceberia que aquelas garatujas que você chamava de letra não eram suas. Ela certamente sabia da sua paixão recolhida, mas não te dizia nada ou se fazia de desentendida porque ela gostava de você apenas como amigo e não queria te magoar. A mãe da Katiane era empregada doméstica. Trabalhava no bairro Boa Vista, onde as casas eram todas enormes e tinham muros muito altos. Um dia vocês foram até lá. A Katiane entrou, mas você ficou sentado no meio-fio esperando, pois ela disse que não ia demorar e também que a mãe não gostava de ajuntamento na casa dos patrões dela. Era meio da tarde de sexta-feira. Então, no início da rua, você viu uma viatura com as sirenes tocando, e àquela altura da sua vida, aos 14 anos, você já havia aprendido que aquela visão era um problema, não que você tivesse consciência de que a polícia te abordava porque você era negro, mas sua experiência já te dizia para se manter longe das viaturas. Então, quando eles pararam na sua frente, baixaram o vidro do carro, puseram os braços para fora, você pôde ver que dentro da caminhonete havia mais policiais. Um deles, de óculos escuros, sem sair do carro, perguntou o que você estava fazendo ali. Você já conhecia aquela pergunta. Então você, ainda sentado, respondeu que estava esperando uma amiga que morava naquela casa. Eles riram do que você disse. Amiga? De onde, neguinho?, um deles perguntou. Da minha escola, você disse. Eles desligaram o carro. Resolveram que precisavam te dar uma geral. Você ficou paralisado ao ver aquele bando de policiais armados saindo do carro por sua causa. Mas, antes que eles te mandassem levantar, o portão da casa se abriu e dali saíram a Katiane e a mãe dela. Os policiais deram boa-tarde. A dona Teresinha (mãe da Katiane) perguntou o que estava acontecendo. Então você se levantou e foi para junto delas. O policial que até então estava de óculos tirou-os e disse que estavam fazendo uma patrulha, e que receberam uma notificação feita por um vizinho de que havia um suspeito sentado na calçada, mas vimos agora que era um engano, sabe como é, a gente tem sempre que averiguar as situações. Eles não te pediram desculpas, mas era para vocês entenderem que aquilo era um pedido de desculpas. Todos eles entraram no carro e foram embora. Vocês também foram embora. A mãe da Katiane disse para vocês tomarem cuidado na rua. Dias depois, quando Teresinha recebeu a filha na casa dos patrões, ela disse para não te levar mais lá, pois os patrões não gostaram de ver a polícia na porta da casa deles.



 

4 Você e seu amigo Juarez precisaram voltar a pé para casa após uma noite na danceteria, novamente vocês tiveram que dividir um cachorro-quente. Novamente vocês não ficaram com ninguém. Na volta para casa, vocês foram acompanhados por vários outros jovens que também estavam voltando a pé ou apenas se dirigindo para o Centro de Porto Alegre. No meio do viaduto, na Avenida João Pessoa, havia uma barreira policial. Vocês já sabiam o que iria acontecer. Os policiais estavam com armamento pesado. Estavam parando carros, ônibus e pessoas. As meninas foram liberadas, os meninos tinham de botar as mãos na cabeça. Vocês tiveram os bolsos de vocês revistados. Suas identidades foram conferidas. Os policiais cheiraram as mãos de vocês e perguntaram onde estava a maconha. Vocês disseram que não fumavam maconha. Eles devolveram a carteira de identidade a vocês, e vocês foram liberados. Ao olharem para trás, vocês viram um rapaz negro levando um tapa dos policiais, no rosto. Estava amanhecendo, e vocês só queriam ir para casa.

 

5 Um dia você ouviu o professor Oliveira falar sobre um livro, sobre um certo personagem russo, Raskólnikov. E foi como uma iluminação ouvir o professor lendo aquelas páginas de Crime e Castigo. Você não sabia que aquele seria um livro que te acompanharia até o fim da vida. Embora não entendesse metade das coisas que eram ditas ali, quando você resolveu ler aquela história você queria descobrir mais sobre aquele estudante miserável que morava num minúsculo apartamento em São Petersburgo. Queria saber mais como aquela mente criminosa funcionava. Aquela arqueologia da culpa te fascinava, e por isso você andava com aquele livro-tijolo para cima e para baixo. Ficava feliz quando pegava algum engarrafamento e podia ficar lendo mais um pouco no ônibus, ou então quando não tinha muita coisa para fazer no escritório e colocava o livro estrategicamente na gaveta para poder ler sempre que o Bruno Fragoso não estivesse por perto. E, mesmo quando o ônibus estava lotado, você dava um jeito de se segurar e continuar lendo. Às vezes alguém se compadecia de você e se oferecia para segurar sua mochila, de modo que você pudesse ter mais equilíbrio. Às vezes também, quando você ficava até mais tarde no escritório, voltava nos ônibus mais vazios e podia ir sentado. Foi num desses dias em que você estava na parte de trás do ônibus mergulhado em Raskólnikov que, sem que você percebesse, surgiu um policial bem na sua frente. Na verdade, eram três ou quatro. Eles mandaram todos os homens descerem. Era uma blitz. Mas você custou a entender, porque sua cabeça ainda estava lá em São Petersburgo. O policial pediu com mais ênfase que você descesse do ônibus. Você obedeceu, estava cansado, estava com preguiça, mas tudo que você queria era terminar o Crime e Castigo. Um rapaz, branco, sentado ao seu lado, também fez menção de levantar para descer do ônibus, mas o policial disse que ele não precisava descer. Você desceu e foi para a parede ainda segurando o livro. Ao olhar para o lado, percebeu que havia mais cinco homens negros na parede sendo revistados e questionados sobre para onde estavam indo, o que faziam da vida. O policial que te abordou pegou seu livro e, depois de te revistar, perguntou que livro era aquele. Você disse que era um livro de literatura. Ele folheou o livro, perguntou se era poesia. Você até pensou em dizer que aquilo era um romance, mas não queria parecer arrogante nem dar uma de sabichão com o policial armado atrás de você, então você disse que sim, que eram poesias sobre o arrependimento. O policial pareceu ter gostado. E disse que costumava ir à igreja rezar. É bom os jovens lerem poesia e a Bíblia também. Você já leu a Bíblia?, ele perguntou. Você disse que sim e acrescentou que o personagem do livro também virava católico. O policial ficou feliz. Te pediu desculpa pelo incômodo, mas é que era o trabalho dele, porque Porto Alegre tá cheio de vagabundo, ele disse. Você e os outros homens subiram no ônibus. O rapaz que não precisou descer, ao ver você chegar, trocou de lugar e foi sentar mais à frente. O ônibus partiu, e você voltou para São Petersburgo.

 

6 O anúncio dizia que era preciso ter boa aparência. E ler uma frase daquelas significava que aquele emprego não era para você. “Boa aparência” significava, na maioria das vezes, ser branco. Você já havia terminado o ensino médio, suas irmãs ainda estavam estudando e sua mãe trabalhava no setor de serviços gerais do metrô, ganhava muito pouco, portanto você se sentia culpado por não conseguir um trabalho. Você acordava cedo na segunda-feira e ia para a fila do Sine. Você sempre era encaminhado para serviços do ramo alimentício. Três meses desempregado te fizeram aceitar um emprego de serviços gerais numa pizzaria. Ali você era uma espécie de faz-tudo: tinha de lavar os banheiros, varrer o salão antes de chegarem os clientes, lavar a louça. Ou então passava horas cortando toras e toras de muçarela, de modo que a sua mão chegou a fazer uma ferida nas primeiras semanas, porque o cabo da faca te machucava. No entanto, em seis meses você se acostumou com aquela rotina, mesmo depois que você trocou de horário e passou a trabalhar de madrugada, pois dava mais dinheiro, e na época você só queria ter dinheiro para comprar um bom tênis, um bom boné importado, comprar a última fita do Racionais, sair nos fins de semana para dançar passinhos, e ajudar sua mãe com as contas. Você costumava sair da pizzaria por volta das quatro da manhã. Caminhava por uma rua deserta até chegar numa parada de ônibus na Avenida Osvaldo Aranha. Você até tinha medo de ser assaltado, mas na época você tinha apenas 21 anos. E essa idade, você me dizia, não é uma idade para ter medo de nada. Num desses dias, você estava sozinho, esperando o ônibus corujão chegar. Você estava novamente cansado, com sono. Não via a hora de chegar em casa. Então você viu as cores vermelhas de uma sirene se aproximarem. Você rezou para não ser abordado mais uma vez. No entanto, sua reza não funcionou. Eles desceram de arma em punho, não apontaram para você, apenas mandaram você se virar e pôr as mãos na cabeça, perguntaram para onde você estava indo. Para casa, você respondeu. Eles abriram sua mochila, vasculharam suas coisas, na verdade eles viraram a mochila de cabeça para baixo e você ouviu suas coisas todas caírem no chão. O policial passou o coturno sobre seus pertences, como que procurando alguma coisa. Depois disse que aquela não era hora de estar na rua, você disse que era trabalhador. O policial mandou você calar a boca que senão te levo em cana, neguinho. Eles guardaram as armas, entraram no carro e foram embora. E você ficou ali diante das suas coisas no chão, diante da sua mochila aberta. Era o mês de junho. As ruas estavam desertas. Fazia frio, mas você não sentia frio por fora, o frio estava dentro.

 

7 Você nem sabia muito bem o que fazer com seu primeiro salário como assistente administrativo do escritório de advogados. Bruno Fragoso aprendeu a confiar em você, mesmo você sendo negro, ele dizia. Era um negro bom. Naquele mês, você ajudou sua mãe com as contas e depois, ao passar diante da Tevah, comprou uma jaqueta preta reversível. Era uma grande aquisição e você gradativamente começou a deixar os tênis e os bonés de lado. Passou a usar calça e camisa social. Agora você queria se parecer com os advogados do seu escritório. Certa vez, Bruno Fragoso te deu um terno que ele não usava mais. Foi a primeira vez que você usou um terno na vida, e um dia, quando estava entrando no banco, você foi chamado de doutor por uma atendente. Aquilo te fez pensar na sua aparência, nas suas roupas, nos seus sapatos, no seu cabelo. Como num estalo, percebeu que o modo como se vestia poderia ser o motivo de haver recebido tantas abordagens policiais durante a vida. Assim, pelos próximos meses você cuidará da sua aparência, manterá o cabelo sempre bem aparado e curto, as roupas bem alinhadas e passadas. Além disso, você começaria a frequentar ambientes aonde nem imaginava que poderia ir, ambientes onde pessoas brancas eram a maioria, ambientes aonde os advogados costumavam ir. Na primeira balada a que você foi nesse estilo, você não sabia muito bem como se comportar, para você pareceu muito estranho estar naquele espaço onde as pessoas pareciam ter saído de um seriado em Malibu, todos ali, loiros, pareciam surfistas vindos dos Estados Unidos. A noite foi melancólica porque ninguém olhou para você, nem mesmo seus colegas do escritório interagiram. Você foi mais uma ou duas vezes naquele lugar. O fato é que você achou que a roupa e os locais podiam te proteger de algum modo. Mas isso não era uma regra. Certo dia, antes de você pegar o ônibus para voltar para casa, você decidiu dar uma volta no Parque Moinhos de Vento, com seu sapato novo e sua jaqueta reversível das lojas Tevah. O dia estava nublado, e de repente uma chuva fina começou e, para não se molhar, você começou a correr. Foi nesse momento que você escutou um ei-ei-para. E, ao olhar para trás, você viu um policial apontando uma arma para você. Você então parou e pôs as mãos na cabeça, mesmo que ninguém tivesse te pedido isso, mas é que você já tinha experiência em abordagens. Já conhecia as condutas. Outro policial se aproximou, também de arma em punho. Eram seis da tarde de uma segunda-feira, e apesar da chuva fina o parque estava cheio. Todos te olhavam, alguns até te reconheciam por te verem ali com frequência e se cutucavam como que dizendo que já desconfiavam de você por algum motivo. Os policiais continuavam apontando a arma para você. Depois mandaram você colocar a mochila no chão devagar e sem movimento brusco. Pelo rádio de um deles você escutou que o suspeito vestia uma jaqueta preta, mas não era negro. Logo em seguida eles baixaram as armas. Depois disseram que um banco havia sido assaltado na Rua 24 de Outubro e que um dos bandidos correu para dentro do parque, e que a única referência que eles tinham era que o assaltante estava usando uma jaqueta preta. Nesse momento, você deu uma boa olhada em volta e percebeu que havia outros homens de jaqueta preta. Os policiais disseram que você podia ir. Você não percebeu que havia largado sua mochila numa poça d’água. As pessoas ainda te olhavam, algumas com pena, outras com reprovação, outras se perguntavam por que você não foi preso, por que eles te deixaram livre. No meio do caminho, você tirou a jaqueta reversível das lojas Tevah e jogou numa lixeira. No dia seguinte, você foi a uma loja esportiva e comprou, em dez prestações, uma japona do Chicago Bulls e um boné importado de seis linhas.


Trecho do livro O Avesso da Pele, que a Companhia das Letras lança neste mês.

Jeferson Tenório

É professor de literatura e doutorando em teoria literária pela PUC-RS