despedida

Gigante apequenado

O ocaso do Edifício A Noite, joia cultural do Rio de Janeiro

Sergio Augusto
O edifício, nos anos 1930: ali, na Rádio Nacional, desfilava uma panapaná de reis e rainhas
O edifício, nos anos 1930: ali, na Rádio Nacional, desfilava uma panapaná de reis e rainhas CREDITO: FRANZ GRASSER_1937/1939_SLUB_DEUTSCHE FOTOTHEK

Totalmente esvaziado em 2020, o arranha-céu número 1 da América Latina está à venda, mas ninguém até agora se aventurou a comprá-lo. O imponente Edifício A Noite, marco arquitetônico e urbanístico do Rio de Janeiro, foi a leilão pela primeira vez no dia 30 de abril, com lance mínimo de 98 milhões de reais. Nenhum interessado deu as caras. Em 7 de junho, houve a segunda tentativa. Apesar de o lance mínimo ter sido diminuído para 73,5 milhões de reais, o martelo outra vez não foi batido.

“Ainda é caro”, dizem especialistas do ramo imobiliário. “Vale, no máximo, 40 milhões”, avisaram à União, atual proprietária do prédio, que abrigava somente umas poucas repartições federais quando apagou as luzes. Imóveis como o Edifício A Noite, necessitados de modernização e vizinhos de concorrentes bem mais novos, têm valor reduzido no mercado e custo de manutenção elevado (no caso, cerca de 300 mil reais por mês).

E o valor afetivo? Esse não tem preço.

Os cariocas cresceram vendo e admirando o pioneiro arranha-céu, ou mesmo visitando suas dependências art déco, ao tempo em que lá funcionavam o jornal A Noite, para o qual fora planejado, e a Rádio Nacional, seus dois mais renomados inquilinos. Como os diários que circulavam pela casa de meus pais eram os matutinos Correio da Manhã, O Jornal e Jornal do Brasil, além do vespertino O Globo (a meu pedido, por causa da página de quadrinhos), A Noite, na minha percepção infantil, era bem mais um prédio espantosamente alto do que um periódico.

Com 102 metros de altura, 22 andares e uma vista espetacular para o porto e a Baía de Guanabara, o edifício prenunciou o processo de verticalização do Rio. Seu arquiteto era um francês, Joseph Gire, convertido ao jeito norte-americano de construir modernos zigurates cosmopolitas. Aqui já deixara sua marca em duas vistosas edificações afrancesadas, os hotéis Glória (1922) e Copacabana Palace (1923). Nada mais justo, portanto, que a nova obra ostentasse o nome de seu criador ao ser inaugurada, em 7 de setembro de 1929, defronte à Praça Mauá, no Centro.

Quando o Edifício Joseph Gire ficou pronto, nenhum na América Latina o superava em tamanho. À época, o arranha-céu mais alto do mundo era o Woolworth Building, em Manhattan, com 241 metros de altura e 60 andares. Em 1931, o Empire State o ultrapassou, exibindo inacreditáveis 443 metros de altura e 102 andares.

 

O jornal A Noite surgiu em 1911. Fundado por Irineu Marinho com um grupo de amigos para combater o marechal Hermes da Fonseca, então presidente da República, nasceu civilista e, por longo período, trilhou a oposição. Enfrentou os governos de Epitácio Pessoa e Artur Bernardes, apoiou os tenentistas e, quando finalmente encontrou dois presidentes a seu gosto, Washington Luís e Júlio Prestes, a Revolução de 1930 acabou com a festa.

Primeiro vespertino do país a tirar 200 mil exemplares diários, A Noite aterrissava nas bancas às 19 horas com o que havia acontecido até as 17h30. Promovendo eventos populares, como banhos de mar à fantasia ou concursos de miss, Rei Momo e músicas juninas, firmou-se rapidamente e multiplicou seus anunciantes. Em 1925, porém, Marinho decidiu sair do negócio e fundou O Globo.

Na década de 1930, quando já pertencia ao magnata norte-americano Percival Farquhar, o conglomerado editava três revistas, além do jornal: A Noite Ilustrada, Vamos Ler! e Carioca. Àquela altura, só lhe faltava o que então chamavam de “a sereia dos tempos modernos”, uma emissora de rádio. Foi justamente para ouvir o primeiro canto da sereia que, no dia 12 de setembro de 1936, figurões do governo e da sociedade carioca lotaram o pequeno auditório do 22º andar do Edifício A Noite, como o prédio ficou conhecido.

 

De traje a rigor, o locutor Celso Guimarães perfilou-se diante do microfone e anunciou: “Alô, alô, Brasil! Aqui fala a Rádio Nacional do Rio de Janeiro.” E por muito tempo ele falou e encantou os ouvintes da emissora, primeiro fenômeno de massa do país, a Rede Globo da Era Vargas. Integrado pelas ondas curtas da PRE-8, prefixo que identificava a Nacional, o Brasil transformou-se numa aldeia que o populismo do Estado Novo, implantado no final de 1937, soube alimentar e explorar com indisputável competência. Não por acaso, em março de 1940 o governo federal encampou a rádio, e o alagoano Gilberto de Andrade passou a dirigi-la. Antigo colunista do A Noite, ele era homem de confiança de Lourival Fontes, o Goebbels da ditadura getulista, e se manteve no cargo até 1946.

A partir de 1951, com a ascensão de Victor Costa, a Nacional deslanchou de vez. O paulistano, que comandara o radioteatro da emissora, assumiu a direção-geral prometendo consolidar a sereia como o “Himalaia dos índices de audiência”. Até então, a Nacional recebia aproximadamente 26 mil cartas de ouvintes por mês, que chegariam a 207 047 cinco anos depois. Anunciantes vieram em revoada, o faturamento cresceu 600%, e as ondas curtas da PRE-8 alcançaram até o Alasca.

Por trás desse império, beneficiado pelo Estado e os investimentos em dólar de grandes corporações, que choveram principalmente no imediato pós-guerra, havia o talento polivalente de artistas visionários, como Almirante, Radamés Gnattali, José Mauro, Haroldo Barbosa e Paulo Tapajós, os cérebros do primeiro núcleo criativo da emissora. Eles revolucionaram o rádio brasileiro, inventando e reinventando programas à maneira dos veiculados nos Estados Unidos.

Em agosto de 1941, o noticioso Repórter Esso, “testemunha ocular da história”, entrou no ar com o patrocínio da petrolífera Standard Oil. Pouco depois, em janeiro de 1943, sob os auspícios da Coca-Cola, recém-lançada no país, o maestro Gnattali e o compositor Barbosa criaram Um Milhão de Melodias, passarela musical de altíssimo nível. Sempre apresentando ao vivo quatro composições brasileiras (duas novas e duas antigas) e três estrangeiras, o programa buscou conferir ao cancioneiro pátrio o mesmo desvelo orquestral das gravações de fora, desafio facilitado pela orquestra do próprio Gnattali, que reunia os melhores instrumentistas da praça: Garoto, Bola Sete, João da Baiana, Bide e Heitor dos Prazeres, entre outros.

Reino do entretenimento, com novelas, programas de esporte, cronistas exclusivos e shows de auditório, a Nacional entronizou o Rei da Voz (Francisco Alves), o Rei e a Rainha do Baião (Luiz Gonzaga e Carmélia Alves), a Rainha do Chorinho (Ademilde Fonseca) e o Rei da Rumba (Ruy Rey). Sem contar, óbvio, as Rainhas do Rádio: Marlene e Emilinha Borba.

Por algum tempo, subir ao palco de seu auditório com 486 lugares foi o caminho mais curto para a glória, aqui e no exterior. Era um privilégio pertencer àquele cast de estrelas, vasto o bastante para incorporar até uma emissora clandestina, a PRK-30, dos humoristas Lauro Borges e Castro Barbosa, a cuja ironia metalinguística nenhum de seus sucedâneos conseguiu se igualar.

Como as chanchadas da Atlântida, o reino encantado da Nacional desapareceu sequestrado e superado pela televisão. Quem selou seu destino foi o presidente Juscelino Kubitschek. Chantageado por Assis Chateaubriand, que não admitia concorrência à TV Tupi, JK negou à Nacional o prometido canal de televisão que poderia ajudá-la a manter-se pelo menos no Pico da Bandeira dos índices de audiência. Juscelino ainda estava no Palácio do Catete, sede do Executivo, quando A Noite, atolado em dívidas, parou de circular, em 27 de dezembro de 1957. Hoje, a rádio continua na ativa, mas sem o brilho dos anos de ouro.

Sergio Augusto

Jornalista carioca que integrou O Pasquim, é colunista de O Estado de S. Paulo. Publicou, entre outros, Este Mundo é um Pandeiro (Companhia das Letras)

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