esquina

Green is beautiful

Um festival de maconheiros

Carol Bensimon
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

De pé num estande de 9 metros quadrados, com duas cadeiras dobráveis, uma pequena mesa e um banner, Brian Applegarth mantém um sorriso de vendedor apontado para os corredores do pavilhão. Está disputando a atenção do público com um fabricante de vasos alardeados como revolucionários – “até o jardim botânico de Londres os utiliza” – e com uma consultoria agrícola. É a primeira vez que Applegarth participa da Emerald Cup. O evento, que ocorre anualmente na cidade californiana de Santa Rosa, gira em torno da maconha e de seus apreciadores. Durante dois dias, num parque de exposições com 80 hectares, cerca de 30 mil pessoas circulam entre máquinas de poda, diferentes tipos de baseados pré-enrolados, uma infinidade de alimentos psicoativos e inúmeros laboratórios que se dedicam à melhoria da canábis.

O clima lembra o de um festival de rock misturado ao de uma feira rural. Além dos pavilhões repletos de expositores, há shows – principalmente de reggae –, mostras de arte psicodélica e workshops de agricultura sustentável. O consumo de bebidas alcoólicas pode se dar apenas em pequenas áreas cercadas. Por outro lado, o beck está totalmente liberado. “A coisa aqui não envolve só negócios, só dinheiro. É um evento para a troca de informação e de apoio. Um troço muito autêntico”, define Applegarth, sócio-fundador da Cannabis Trail, empresa especializada em “turismo da maconha”.

A 13ª edição da Emerald Cup aconteceu em dezembro, um mês após a legalização da erva para fins recreativos na Califórnia. Outros estados do Oeste americano – Colorado, Oregon e Washington – já haviam aprovado medidas semelhantes via referendo popular. “Mas nenhum entende tanto do assunto quanto a Califórnia”, enfatiza Applegarth, referindo-se à pioneira liberação da canábis para fins medicinais em 1996. Hoje, 28 dos 50 estados que compõem o país, além da capital federal, permitem que doentes se mediquem com a planta.

 

Circular pela Emerald Cup é perceber que os maconheiros da região vivem um momento de transição: antes vistos como alternativos que trafegavam pela ilegalidade, começam a fazer parte de um mainstream cada vez mais azeitado. Num dos pavilhões, um debate sobre a nova legislação estadual antecede um painel com dicas de marketing para produtos derivados da canábis. Na zona restrita aos portadores de prescrições médicas, a névoa adocicada paira sobre a multidão, que se acotovela diante de quase 200 estandes – todos vendem exclusivamente maconha orgânica. Vários trazem no nome referências a condados do norte californiano, a exemplo de Humboldt e Mendocino. Alheios às proibições de outros tempos, tais condados – integrantes de uma área conhecida como Emerald Triangle – cultivam a planta pelo menos desde a década de 60, o que vem gerando uma receita anual de 1 bilhão de dólares, segundo estimativas que incluem a cultura clandestina. Não à toa, é para lá que a Cannabis Trail direciona seus clientes.

“Se recebo a ligação de alguém que deseja informações sobre as propriedades terapêuticas da erva, crio um tour por Mendocino que vá a médicos e herbalistas. Se alguém pede algo como uma despedida de solteira, providencio uma tarde num spa com cosméticos à base de maconha”, explica Applegarth, que tem 36 anos. Passeios de cinco horas para duas pessoas custam 499 dólares e preveem um almoço. Já os pacotes de dois ou três dias oferecem visitas a cultivadores, caminhadas na mata e degustação de canábis com chocolate, além de noites confortáveis num hotel de arquitetura vitoriana.

 

Mistura impressionante de montanhas cobertas por sequoias e costas com falésias, Mendocino poderia atrair uma imensidão de turistas. No entanto, os forasteiros que se dispõem a conhecer o norte da Califórnia preferem o Napa Valley e o condado de Sonoma, mais próximos de São Francisco e famosos pelos vinhos de alta qualidade. Sem se beneficiar muito do turismo, a economia de Mendocino sempre dependeu do mercado negro de maconha. Agora, com a legalização da erva para fins recreativos, os pequenos produtores temem que grandes companhias entrem na região e os esmaguem.

Brian Applegarth, porém, vê a liberação de maneira bastante otimista. “A melhor canábis do mundo está no Emerald Triangle. Os cultivadores daqui ganharam diversos prêmios por conseguirem o produto mais orgânico possível. Eles acreditam que as plantas devem ser cultivadas ao ar livre, sob a lua, as estrelas e o sol. Isso faz toda a diferença.” Enquanto o público da Emerald Cup começa a se aglutinar para ver o show de Damian Marley, filho de Bob Marley, e um grupo de três policiais acompanha a movimentação com expressões de tédio, Applegarth prossegue, empolgado: “Olhe para a Califórnia – a tecnologia, o cinema, a Corrida do Ouro. Temos uma história de inovação. Há um monte de sonhadores neste estado, gente que enxerga o futuro. Acho que, agora, nós estamos oficialmente apostando na maconha. É a próxima grande oportunidade californiana. Mendocino será para a canábis o que Bordeaux é para o vinho. Pode apostar.”

Carol Bensimon

É escritora. Seu livro O Clube dos Jardineiros de Fumaça recebeu o Prêmio Jabuti de Melhor Romance em 2018

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