figuras da vice

A arte de se livrar de um emprego ruim

Funcionário de uma companhia de trens, Guilherme Leal se viu demitido por malufistas, foi trabalhar com cosméticos sem entender nada do assunto, ficou bilionário e acabou entrando para a política.

Marcos Sá Corrêa
A busca da “diversidade brasileira” é um projeto de Guilherme Leal desde que se convenceu de que “os negócios são importantes demais para ficar à margem da política e do interesse público”
A busca da “diversidade brasileira” é um projeto de Guilherme Leal desde que se convenceu de que “os negócios são importantes demais para ficar à margem da política e do interesse público” FOTO: CACÁ MEIRELLES

O empresário Guilherme Peirão Leal, candidato a vice-presidente de Marina Silva, deve aos piores vícios da política brasileira seus melhores superlativos. Foi dela que veio o empurrão inaugural para a carreira de fortuna e militância que o trouxe ao Partido Verde. Tudo porque, com um gesto banal e sumário, a política o tirou do primeiro e único emprego público que exerceu na vida. Tratava-se do cargo de superintendente da Ferrovia Paulista S.A., a falecida Fepasa. Lá, antes dos 30 anos, ele era chamado de “Dr. Guilherme”, chefiava 600 pessoas e não podia virar as costas do gabinete em viagens de inspeção sem, na volta, três dias depois, encontrar a mesa coberta de papéis. “Mas assim, de lado a lado”, ele recordou. Na estatal, tudo virava processo. “O trem atropelava uma vaca? Tome processo.”

Mas não faltou informalidade a seu ato de despedida. Um dia, chegaram a seu gabinete um bando de afilhados políticos do novo governador paulista. No caso, Paulo Maluf. Mas poderia ter sido outro. E Leal, embora estivesse ali sem indicação partidária, nomeado por um diretor no governo Paulo Egydio Martins, ouviu do grupo que começava então uma nova administração naquele ramal secundário da máquina que faz o poder girar em torno do poder. “Não quiseram nem saber onde é que se acendia a luz.”

Com ele, saíram três funcionários de confiança. Inclusive o engenheiro e administrador Pedro Luiz Barreiro Passos, que acompanha até hoje sua trajetória na iniciativa privada, como o terceiro sócio da Natura. “Começa assim a minha história”, disse o candidato, em viagem de campanha, refastelado na poltrona de seu Legacy 600 como se estivesse num trono alado.

O jatinho executivo de 14 lugares, fabricado pela Embraer e cotado em 23 milhões de dólares, cheira a couro novo. O prazer que a história da demissão e a poltrona lhe davam naquele instante transparecia no sorriso que, em ocasiões semelhantes, levanta em arco sua sobrancelha direita, transbordando os óculos sisudos de armação escura. Eis um bilionário que considera o dinheiro um ingrediente tão natural das grandes realizações humanas como a essência de priprioca, uma erva perfumada da Amazônia que a Natura põe em seus frascos.

O biólogo Cláudio Pádua, que Leal chama de “meu irmão”, testou sem querer essa fórmula, comentando a sobrecarga da fortuna incomensurável. Leal respondeu a Pádua na mesma hora: “É, mas dá para comprar cada brinquedinho!” Brinquedinho, nessa escala de consumo, é jato, helicóptero, lancha e, se possível, toda a paisagem que a vista de suas janelas alcança. Isso é que se chama ir longe, sobretudo quando se começou o currículo de trem.

Cláudio Pádua, fundador do Instituto de Pesquisas Ecológicas, viga-mestra do mecenato ambiental patrocinado pela Natura, é uma espécie de Guilherme Leal pelo avesso. Largou aos 30 anos a presidência de uma indústria farmacêutica no Rio de Janeiro, roeu todo seu patrimônio estudando biologia, desde o bê-á-bá ao doutorado na Flórida – e acabou militando em conservação ao constatar que era inútil conhecer passo a passo a intimidade dos micos-leões-pretos enquanto se esvai a floresta onde eles vivem no Morro do Diabo, no extremo oeste de São Paulo.

 

A Fepasa era uma estatal em fim de linha quando a mudança do governo paulista demitiu Leal. Operava as sobras de estradas de ferro privadas, que transbordavam as fronteiras do estado para Minas Gerais e Goiás. Acabaria engolida pela Rede Ferroviária Federal, que pilotou o seu desmanche, antes que ela mesma virasse sucata no apogeu político das privatizações.

Mas o Brasil que estava liquidando seus trens na bacia das almas era o mesmo que, em três décadas, viraria um dos três maiores mercados do mundo no ramo dos cosméticos. No fim da década de 90, ao mesmo tempo em que mastodontes de aço e quilômetros de vias férreas evaporavam sem deixar rastro, Guilherme Leal, como sócio da Natura, tornava cada vez mais sólida sua presença numa indústria essencialmente volátil. Chegaria à revista americana Forbes, em 2006, como a 562º pessoa mais rica do mundo. No Brasil, era o nono de uma lista onde o nome de Eike Batista ainda não aparecia nem em décimo lugar.

Para guindá-lo ao panteão da Forbes, a Natura quintuplicara seu faturamento entre 1994 e 1997. E abrira seu capital na Bolsa de Valores de São Paulo em 2004. A revista oficializou-o como self made man num limbo geralmente reservado a herdeiros. E, como ele mesmo repete sem parar nessa temporada de campanha presidencial, “de herança, o que tive de bom mesmo foi educação básica”. Seu pai era fiscal de renda em Santos. E, quando o orçamento da família apertou, ele já estava em condições de entrar por sua própria conta na Universidade de São Paulo, fazendo à noite em curso gratuito a faculdade de economia e administração.

Aos 60 anos, ao se registrar como candidato a vice-presidente pelo Partido Verde, Leal declarou à justiça eleitoral um patrimônio de 1,19 bilhão de reais. Como ele gosta de dizer, “o mundo gira”. Gira tanto que, em 2006, a Natura contratou, como diretor de Sustentabilidade, o engenheiro Marcos Egydio Martins. Nada mais, nada menos que o filho do governador Paulo Egydio Martins, em cujo governo Guilherme Leal chegara à Fepasa.

 

O cargo na estatal deixou-lhe marcas indeléveis. Cabia-lhe velar pelo patrimônio da Fepasa, inclusive “ramais no meio do nada” e “verdadeiras antiguidades”. Tomava conta de 17 hortos e, ao se empossar, “mal sabia o que era isso”. Resolveu conhecer todos eles. A cada dois meses visitava três hortos. Encontrou até terrenos baldios “tomados por formigueiros”.

Estava botando, sem notar, o primeiro pé no ambientalismo. Os hortos da Fepasa têm pedigree ilustre. Serviram de trincheira, no início do século XX, às primeiras experiências botânicas com o intuito de substituir a madeira nativa que não supriria indefinidamente de lenha para as fornalhas e dormentes para os trilhos. Naquela época, progresso só andava de trem, puxado a maria-fumaça.

A Companhia Paulista de Estradas de Ferro criou os Hortos Florestais sob o comando do agrônomo Edmundo Navarro de Andrade, que elegera o eucalipto, em 1906, como a árvore ideal para repor o que as matas originais iam perdendo. Navarro tinha a visão e a cegueira dos grandes devotos. Cobriu com eucaliptos 172 quilômetros quadrados de terras nuas. E condenou a mata atlântica como “feia, baixa, insalubre e desigual”. O fato é que um dos maiores vestígios da Fepasa é atualmente a Floresta Estadual Navarro de Andrade. Ou seja, o horto de Rio Claro.

Guilherme Leal saiu da Fepasa “com a pele engrossada”. Desempregado, rebarbou um convite para se enterrar na Nuclebrás. “Com filho e tudo”, preferiu “vender meio terreninho que tinha na Vila Viana, raspar meu fundo de garantia” e comprar de distribuidores em Santa Catarina um pedaço da Natura. De quebra, arrastou na aventura empresarial o engenheiro Pedro Passos. Tudo isso “aconteceu em um mês”. Ele não entendia nada de cosméticos. Mas uma de suas características é, como diz, “entrar de cabeça nas coisas”.

A empresa já se chamava Natura. Por quê, ele não sabe explicar. Mas garante que, “como nada é por acaso”, o “nome já estava lá”, esperando pelos extratos de plantas nativas que ligaria a marca à natureza. A fábrica não passava de uma loja na rua Oscar Freire que vendia produtos manipulados em fundo de quintal. Foi deixada ali por um francês que se mudou para a Argentina.

O autodidata Antônio Luiz Seabra, que vinha da Remington Rand, onde, por lidar com barbeadores elétricos, achava que sabia alguma coisa de pele, se associou ao filho do fundador para manter a loja viva. Quem criou o espírito de unidade interna – medido por questionários da empresa em 71% de satisfação – foi Seabra, por volta de 1979, quando comandava mil “consultoras” – as vendedoras. Mais tarde, a equipe se expandiu para outras praças usando a mesma fórmula, por meio da distribuidora Pró Estética, que Guilherme Leal criou. Mas Seabra jamais perdeu, no triunvirato, o papel do sócio que entende de cosméticos e acredita que neles reside a chave das relações de uma pessoa consigo mesma.

 

Na empresa, ele tem fama de filósofo. É dele o “bem estar bem” que a Natura adotou como lema, e os publicitários nunca mais alteraram. Soa um tanto obscuro. Mas parece funcionar impecavelmente como lema nas batalhas do mercado. Atribui-se também a Seabra o dom de, mesmo engastando em discursos internos citações do neoplatônico Plotino, levar às lágrimas suas “consultoras”. Vendendo produtos de porta em porta, às amigas ou em locais de trabalho, elas se sentem mensageiras de um novo modo de vida.

Na pré-história da cosmética nacional, lá pelos anos 50, houve um “trio maravilhoso”, formado pelo sabonete, o talco e a água de colônia Regina. A Natura tem um “trio maravilhoso” para seu próprio consumo. Nele, coube a Seabra o papel de manter unido e coeso um exército de 850 mil “pequenas empreendedoras” que, espalhadas pelo Brasil e sete países sulamericanos, aposta seu sucesso na marca. Isso não se faz só com marqueteiro. A linha Mamãe & Bebê, por exemplo, depois de pronta, levou dois anos para ser lançada. Só saiu depois que Seabra leu, ninguém sabe onde, um artigo sobre a shantala, uma técnica milenar de massagem indiana que o médico francês Frederic Leboyer desencavou como um poderoso aditivo às relações maternas com os recém-nascidos.

Guilherme Leal representa, no trio, o investimento em conservação da natureza. Mas custou a olhar sem reservas o uso de essências nativas nos produtos da marca, alegando que o que funciona mesmo num cosmético é a tecnologia, e não a adição de substâncias mágicas. Espelhava-se no fiasco da Body Shop, que enxertava os mais impronunciáveis mistérios da selva amazônica em fórmulas onde o que funcionava mesmo era o detergente comum. Ele se aproximou com relutância desse terreno pantanoso onde fornecedores bissextos detêm o monopólio de ingredientes escassos e sazonais. Mas acabou virando o mais notório advogado de sua integração ao processo industrial.

Sob as intuições de Seabra e Leal, Pedro Passos mantinha a fábrica nos trilhos. E o fato é que ela disparou. Antes mesmo de se formar o trio, Seabra já sabia que o balcão da Oscar Freire não conseguia acompanhar o aumento de vendas. Passou a imitar a Avon, só que investindo mais em treinamento da equipe. Deu a largada com mil consultoras, que nunca permitiu chamar meramente de “vendedoras”. Elas seriam mais de 80 mil no fim da década de 1980.

Foi mais ou menos nessa época que a publicitária Marisa Caldas desembarcou na Natura, mandada pela agência do advogado Ricardo Guimarães. “Sou do tempo em que os donos comiam no restaurante da fábrica e conheciam as pessoas pelos nomes.” Ela fazia, para o grupo, “uma revistinha”, distribuída entre as consultoras a cada 28 dias, a Ser Natura. “Discutia cada edição com os três presidentes. Eram reuniões de oito horas. E eles lá, firmes. Metiam-se em tudo”, ela conta.

 

Do alto de sua própria agência, a MC Comunicações, e de tantos anos de relação com Guilherme Leal que dá para chamar de “amizade”, Marisa se arrisca a resumir seu temperamento – “muito intenso, muito exigente e muito brabo” – como de “um geniozinho do cão”. Provou-o na estreia da linha Chronos.

De saída, a Chronos vendeu mais do que se esperava. Faltou produto no lançamento para tanta encomenda. “O Guilherme exigiu que fizéssemos um cartão pedindo desculpas aos clientes. Era assinado pelos três presidentes. E ia na caixa de cada consultora.” Pronto o cartão, os donos quiseram ver o resultado. “Guilherme não entendeu por que tínhamos abreviado os nomes. Tive de refazer todo o desenho, para caberem os nomes por extenso.” Uma vez, ela viu um gerente sair de sua sala quase chorando. Aconselhou-o a ser menos explosivo: “Nessas horas você perde a noção de que, do alto de sua cadeira, tem quatro metros de altura.”

Mas foi assim que a Natura disparou. Nos anos 80, na chamada “década perdida”, o faturamento pulou de 5 para 170 milhões de dólares. Ficou tão grande que foi preciso consolidá-la, fundindo 88 firmas. “Foi um processo difícil, e acelerei demais”, disse. “E assim, em 1987, veio o infarto. Aos 37 anos de idade. Quase necessário: stop.

Recuperou-se sem cirurgia. Aproveitou a parada para reflexões do gênero “não seja arrogante, você bateu na trave, pare e pense”. Desde então, fala com frequência em mudar de ritmo, largar compromissos. E não para de acumulá-los. Em 1994, a Natura teve 92% de crescimento. E ele estava às voltas com o Crer para Ver, um projeto batizado segundo o Novo Testamento, pregando que é preciso fé para fazer as coisas acontecerem e, fazendo, enxergá-las.

Estava nascendo o Guilherme “real” que semanas atrás, já na campanha de Marina Silva, foi ao subúrbio de Vigário Geral, na Zona Norte do Rio, e conseguiu dizer na quadra do AfroReggae, sem gaguejar, que “em 2006 eu vivia numa depressão cívica, desiludido com a política”, quando o movimento “mudou minha vida”. É possível reconhecer nos discursos, entrevistas e debates o instante exato em que ele deixa de falar a primeira coisa que lhe vem à cabeça e começa a procurar – em intervalos de “é… é… é…” – o que provavelmente os tutores da candidatura lhe recomendaram não esquecer.

Ali, ele não titubeou. De fato, há décadas os movimentos vêm mudando sua vida. É discutível se, do ponto de vista cardiológico, foi para melhor. Mas ele pode se vangloriar de conhecer de perto “a tal bagunça brasileira”. Aprendeu com “a diversidade de gebre vendendo cosmético em Serra Pelada. Com a diversidade de sotaques brasileiros que ouvia nas convenções da empresa”. Em suma, “quer ser suíço, vá para a Suíça”. Ele está há anos em campanha para ser legitimamente bilionário no Brasil. Só que o Brasil dele nunca é exatamente este que está aí.

Ele bem que tenta. Pode-se andar dias atrás dele, sem reconhecer qualquer mudança no blazer azul-marinho, nas calças cinzas e na camisa social sem gravata, que adotou como uniforme de trabalho. Essa informalidade num homem tenso tem, nos debates da campanha, o efeito paradoxal de fazer o deputado Michel Temer – sempre enfatiotado como candidato a vice de Dilma Rousseff – parecer que está a seu lado porque a qualquer momento o vice de Marina Silva pode precisar de um mordomo.

Um dos seus luxos é circular sem guarda-costas. Sérgio Leitão, diretor do Greenpeace Brasil, desvendou esse flanco ao fim de uma noite de discussões intermináveis, que acabou num jantar no restaurante Tordesilhas, da rua Bela Cintra, na capital paulista. “Guilherme apareceu por lá, e se juntou ao grupo. Na saída, ficamos todos na fila dos manobristas. Ele também”, conta Leitão. O vice da candidata verde aguardou a chegada de sua Mercedes, e saiu dali dirigindo como qualquer sem-motorista.

Tudo indica ser essa mais uma regra do que exceção. Como carona de Leal, Marisa Caldas assustou-se ao vê-lo parar numa esquina da avenida Faria Lima e sair da sombra um vulto que perguntava ou oferecia qualquer coisa na janela do motorista. “E só então eu reparei no vidro aberto”, diz ela. Viver assim no Brasil pode ser o primeiro passo para torná-lo meio diferente.

Mas isso não basta para um empresário que quer ser chamado de “empreendedor”, mesmo quando seu empreendedorismo se reduz a pura ansiedade e ele é apanhado em flagrante andando de um lado para o outro por causa de um pequeno atraso em sua comitiva. “Empreendedor tem que ser assim”, ele esclarece. Ultimamente, depois de sete anos de abstinência, voltou a fumar. E, com o tempo curto até para isso, depois de duas ou três tragadas num Dunhill escuro, esmaga a brasa até apagar o menor lume e enfia a bagana no bolso do paletó de caxemira, para não deixar nada no chão.

 

Ricardo Guimarães, da Thymus Branding, tem a reputação de ser quem melhor conhece Guilherme Leal. Antes de abrir o capital da Natura, os três donos foram investigar o que restaria da identidade da empresa com a soma de personalidades tão singulares. Também para tomar a decisão de entrar na chapa de Marina Silva este ano, Leal passou antes por lá. “Não para me ouvir, mas para se ouvir”, explica Guimarães.

Seja o que for que as pessoas ouvem nesses exercícios, é coisa que deve valer muito dinheiro. Não fosse assim, a Thymus não estaria instalada com tamanha largueza na torre do edifício San Paolo, na Avenida Faria Lima. Guimarães termina o almoço em seu gabinete com uma sugestão para quem pretende compreender a Natura e seu principal avatar: “Tudo o que você achar que só pode ser marketing pode ter a certeza de que não é.”

A postura vem de longe. Nos primórdios da fábrica em Itapecerica da Serra, na região metropolitana de São Paulo, uma faxineira jogou água numa área eletrificada e morreu do choque. Não faltou conselho do departamento jurídico para remover o corpo e enterrar o episódio como fatalidade. Leal não deixou. “É nossa responsabilidade.” Encarou o processo inteiro e negociou a indenização com a família.

 

Recolhido a sua casa de praia em Cabo Frio, no litoral norte do Rio de Janeiro, desde que sofreu um infarto e deixou para trás 12 anos de quedas de braço no Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável, o engenheiro Fernando Almeida confessa que, de perto, a palavra “sustentabilidade” raramente confere com o que diz a publicidade sobre a conversão em massa do empresariado nacional. Mas está com um livro na praça, onde ressalva que, no Brasil, a Natura “é singular”. Não só porque vai “às matas nativas buscar matérias-primas para seus cosméticos”. Mas, sobretudo, “por fazer isso valorizando esses materiais, os seres humanos que os coletam e os ciclos da natureza que os produzem”.

Por exemplo, a andiroba. Árvore típica da Amazônia, cujo óleo de propriedades medicinais rendeu a base da linha Ekos, “ela tornou-se um dos lançamentos que mais contribuíram para o crescimento assombroso da empresa”. E não foi pouco: na era d.E. (depois da Ekos) a receita saltou de 3,2 bilhões de reais em 2005 para 4,3 em 2008. “A andiroba é comprada de famílias do Médio Juruá, na reserva extrativista do Caruari, no Amazonas, onde só são feitas colheitas em março e abril, depois das chuvas, seguindo as normas do Forest Stewardship Council, certificador internacional”, esclarece Almeida. Segundo o engenheiro, as mesmas normas são adotadas para o uso de pitanga, cacau, buriti, castanha, cupuaçu, copaíba, erva-mate, cumaru e o breu-branco.

Em 2005, porém, com seus catálogos já repletos de jargão do extrativismo, a empresa de Leal teve que fazer acordo em juízo com ervateiras do Mercado do Ver-o-Peso, em Belém, que a denunciaram por apropriação indébita de “saberes tradicionais”. A moda tinha se disseminado.

 

Pioneira em vender em 1983 parte de seus produtos em embalagens tipo refil, a Natura também foi a primeira empresa da América Latina a publicar um relatório de sustentabilidade nos padrões do Global Reporting Initiative. E a banir os testes com animais, substituídos por peles artificiais que só podem ser testadas em laboratórios na França. Em 2008 bancou sozinha o fornecimento de água encanada em Iratapuru, no Amapá.

Outras coisas tendem a soar virtuais, por pouco perceptíveis. O álcool orgânico adotado em 2007, por exemplo, só deve provocar alguma sensação diferente em maníacos de ler rótulos. Um ano antes, em nome de um sistema próprio de combate aos gases do efeito estufa, calculou em 270 mil toneladas – bem acima do que realmente foram – suas emissões de carbono. Não podendo eliminá-las, compensou as sobras bancando projetos de reflorestamento e pequenas hidrelétricas.

 

A nova fábrica da Natura, inaugurada há nove anos em Cajamar, num biombo de mata na região metropolitana de São Paulo, obrigou o arquiteto Roberto Loeb a botar em prática tudo o que soa abstrato. O prédio é escancarado para o exterior. As paredes internas são translúcidas. O conjunto fica no meio de jardins, entre colinas florestadas, onde na hora do almoço os funcionários são praticamente induzidos a passear. Reaproveita-se toda a água utilizada industrialmente. As válvulas nos banheiros são quase avarentas. A iluminação e a ventilação são naturais. E quinze jabuticabeiras, compradas a 800 reais a muda, cujas frutas podem ser colhidas por quem passa pelas alamedas.

Dentro da nova fábrica, a rotina dos funcionários também foi radicalmente afetada, segundo Alessandra Pinheiro, que tem 20 anos de Natura. Ainda na adolescência, fora atraída por uma consultora da empresa que a fez cheirar as amostras de um batom e um perfume no shopping onde trabalhava. Passado um ano, tornou-se promotora de vendas. Hoje é gerente de eventos, treina consultoras pelo Brasil e aplica na vida o que prega lá fora.

“Este ano, por exemplo, por conta do Edital de Carbono Neutro, substituímos o envio de displays e banners por materiais perenes e reaproveitáveis”, explica Alessandra. Em casa, passou “a fazer reciclagem de lixo”. E converteu as irmãs. Lava e passa só uma vez por semana, reutiliza as próprias bolsas nos supermercados, e nunca mais pegou em sacolas plásticas.

Isso significa que Guilherme Leal tem uma retaguarda de eleitores estocada na fábrica, pronta para inflar de votos a chapa do PV? “Não!” Ele quase grita ao ouvir a pergunta. A Natura não tem nada a ver com seu investimento pessoal nesta eleição – onde, por sinal, começou doando 2,5 milhões de reais. O novo presidente da empresa, Alessandro Carlucci, que é uma tarimbada cria da casa, apareceu na rede interna de internet reiterando que a firma não tem nem recomenda candidatos.

 

A busca da tal “diversidade brasileira” é um projeto próprio de Guilherme Leal, desde que se convenceu de que “os negócios são importantes demais para ficar à margem da política e dos projetos de interesse público”. E acrescenta: “Historicamente, sempre participei de coisas fora da empresa. Continuamente, desde que lá cheguei.”

Que o diga o ex-empresário Oded Grajew, um infatigável fabricante de movimentos para sacudir a poeira do empresariado nacional. “Somos ambos santistas”, diz Grajew. “Temos nossas horas de contar piadas, jogar conversa fora, viajar juntos. Deixei de ser empresário. Acumulei recursos que me permitem viver.”

Isso dito, Grajew começa “uma história longa”. Em 1988, ele lançou o Pensamento Nacional das Bases Empresariais. O PNBE brotou dentro da Fiesp. Derivava de uma reação ao regime militar e à estatização. Também foi às ruas bradar pelo impeachment do presidente Fernando Collor. “Nesta época, o Guilherme já era bem-sucedido e participava das reuniões. Mas”, ressalva Grajew, “não me lembro dele na manifestação que fizemos no largo de São Francisco, com a prefeita Luiza Erundina, o presidente da UNE Lindberg Farias, o Jair Meneguelli da CUT…”

Em 1990, quando Grajew criou a Abrinq, o fundo destinado a bancar pequenos projetos sociais, Leal juntou-se à empreitada como membro do seu Conselho de Administração. Foi dali que brotou o Crer para Ver, programa de apoio ao ensino básico de qualidade que virou a menina dos olhos da Natura e envolvia diretamente o exército de consultoras da empresa. “Guilherme e eu trocávamos ideias, ele desenvolvia os conceitos, era bastante assíduo nas reuniões trimestrais. Ele demora a assumir compromissos, mas quando assume é para valer. Ele continuou. Eu saí”, diz Grajew.

Foi então que nasceu o Instituto Ethos, do qual Guilherme Leal foi o primeiro presidente do conselho. Naquele ano de 1998 mal se falava em sustentabilidade ou em responsabilidade social no Brasil. O Ethos, cria de um grupo de empresários e executivos da iniciativa privada, importou ao pé da letra a cartilha da Global Reporting Initiative, documento preparatório da Rio-92. À mesma época, o bilionário suíço Stephan Schmidheiny convocava cinquenta mandachuvas dos negócios no mundo inteiro para lançar as bases de um capitalismo que não distribuísse pobreza nem esgotasse recursos naturais.

 

O próprio Schmidheiny mudou mais do que o capitalismo e o comunismo juntos. Começou vendendo a Eternit, que já fazia parte dos brasões da família e com ela livrou-se das críticas por usar o amianto, uma substância cancerígena, na produção de telhas. Além de outros negócios, passou adiante a Swatch, com lucros estratosféricos. Em 1994 criou a Avina, um fundo que banca cerca de dois mil projetos sociais e ambientais na América Latina, e radicalizou: em 2003, livrou-se, de uma só penada, de todas as suas 37 empresas no continente, assinando na Costa Rica um cheque simbólico de 1,1 bilhão de dólares. Além disso, montou um navio oceanográfico, convidou os melhores especialistas para estudar os efeitos da mudança climática na Antártida e participou das pesquisas como piloto de helicóptero e minisubmarinos, até ser tirado do front por um infarto.

Schmidheiny, além de amigo, é um dos modelos filantrópicos de Guilherme Leal, que não precisou seguir-lhe os passos e foi abrir frentes alhures. O Movimento Nossa São Paulo, por exemplo, foi concebido durante uma viagem à Holanda para a reunião da Global Reporting Initiative. Leal e Grajew, sempre os dois, conversavam em Amsterdã – ou melhor, “jantávamos, tomávamos vinho e passeávamos nos canais”, diz Oded – quando ocorreu a megarrebelião nos presídios de São Paulo, com ameaça de toque de recolher. Decidiram ali mesmo que iriam a Bogotá, capital da Colômbia e da violência urbana da época, ver de perto que medidas estavam sendo tomadas para a população reaver o direito de usar livremente sua capital.

Da ata de lançamento do Nossa São Paulo consta a assinatura de “Guilherme Peirão Leal, brasileiro, divorciado, administrador de empresas”. É um garracho tão ilegível, com seus traços que lembram os arabescos de grafiteiros, que embaixo o tabelião acrescentou a lápis “G.P.L.”. O manifesto de lançamento comprometia-se a “construir uma força política, social e econômica e comprometer a sociedade e sucessivos governos com uma agenda e um conjunto de metas”. Em suma, com a “qualidade de vida”.

Hoje, Leal não se arrisca a dizer até que ponto a Nossa São Paulo deu certo: “Não há dúvida de que até então não existiam informações sobre os equipamentos das 31 subprefeituras da capital, e que hoje, graças ao movimento, eles existem.” Falta o governo usar.

Segundo Grajew, “o propósito de Guilherme agora é desmontar o discurso de quem associa a defesa do meio ambiente a uma oposição ao crescimento econômico. Para tanto, desconstrói a conversa de que ou o sujeito é ético e falido, ou antiético e bem-sucedido”. Para quem segue os seus passos fora da Natura há mais de três décadas, ele parece estar sempre fazendo mais ou menos as mesmas coisas, através de movimentos que reúnem mais ou menos as mesmas pessoas sob bandeiras variadas.

Com isso, tornou-se perito em cruzar fronteiras que na sociedade brasileira parecem fortificadas. Para salvar da falência “e de uma oligarquia” o Santos Futebol Clube, por exemplo, Guilherme Leal convocou um amigo de infância, o economista Álvaro de Souza, que fora vice-presidente do Citibank em Nova York. “Nos conhecíamos desde o tempo de estudantes, ele em colégio particular, eu em escola pública, porque a família Peirão tem uma certa importância lá em Santos. Mas nos perdermos um do outro”, lembra Souza.

Reencontraram-se quando Souza voltou ao Brasil, porque ambos integravam o conselho do WWF. E, via WWF, Souza viu-se convocado a batalhar no Resgate Santista, que, através do Guia (Gestão Unificada de Inteligência e Apoio ao Santos Futebol Clube), arregimentou o publicitário Celso Loducca, o banqueiro Fabio Barbosa, o presidente da Oi, Luiz Eduardo Falco e, como sempre, Grajew. Hoje, o ex-vice-presidente do Citi está encarregado da arrecadação para a campanha de Marina Silva. A primeira rodada de chapéu foi um sucesso. Levantou 4,5 milhões de reais, contra 3 milhões do ex-governador José Serra. Pelo menos esse sonho virou realidade? “Não”, responde Leal. “Nosso sonho era termos 500 mil doadores, cada um dando 10 reais. Mas partimos de poucos doando muito.”

 

O círculo de relações pessoais de Leal é, mais do que vasto, elíptico. Inclui o físico austríaco Fritjof Capra, autor de O Tao da Física, que dirige em Berkeley, na Califórnia, um centro de educação ecológica. Quando Leal se refere à “grande teia universal que encarna todas as coisas” está, na verdade, tornando suas as palavras de Capra.

Mas é o instituto Arapyaú que parece ser a aposta definitiva de Guilherme Leal para arrumar a sociedade e salvar a natureza, colocando o máximo de fichas da educação. O nome foi encomendado a Kaká Werá, o escritor e blogueiro paulista que se define “como uma dessas pessoas que o Guilherme foi conhecendo”. Ele descende de índios desaldeados de Montes Claros, Minas Gerais. Formou-se numa comunidade guarani com o chefe Alcebíades Werá. Trabalhou na Secretaria de Cultura de São Paulo. E aos 46 anos, com cinco livros publicados, conselheiro do Bovespa Ambiental, é uma autoridade em mitologia guarani.

Em Cajamar, foi chamado para benzer o terreno onde se ergueria a fábrica. E no Arapyaú, antes mesmo de dar a aula inaugural, Kaká Werá ficou incumbido de procurar um nome que incorporasse o projeto inteiro numa palavra só. “Ele queria um nome que significasse algo como utopia realizável”, disse Kaká. Leal parece ter uma queda por nomes carregados de intenções. A empresa que administra a fortuna da família se chama Janus, o deus romano das entradas e portas. Um de seus fundos de investimento, onde tem quase 5,8 milhões de reais, é a Utopia Participações s.a. O nome que Kaká Werá cunhou significa, “no sentido literal, tempo, e no sentido sagrado, começo”.

Ele conheceu o empresário “uns nove anos atrás”, quando a Natura quis trabalhar com comunidades fornecedoras de matérias-primas para a linha Ekos. “Eu conhecia algumas lideranças, e ele queria uma coisa concreta. Não adiantava só o acerto com as cooperativas de produtores”, lembra Kaká Werá. “No começo”, prossegue o escritor-blogueiro, “ ele queria tratar só com índios, mas eu disse que não daria certo. Os índios têm dificuldades de lidar com empresas. Já os caboclos e ribeirinhos têm mais vínculos com o mundo externo, nas periferias do Pará e do Acre. Achei Guilherme uma pessoa realmente identificada com essas questões”.

 

O Arapyaú deslanchou, no ano passado, com a primeira turma de mestrado profissional da Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade. O programa de mestrado é do Instituto de Pesquisas Ecológicas, o braço educacional de uma ONG socioambiental que Suzana e Cláudio Pádua criaram há 22 anos. Hoje, ele é apadrinhado pela Natura e pelo Arapyaú. Oferece programas de pós-graduação a quem trabalhe com bem-estar social e conservação da natureza.

O Ipê é uma das ONGs brasileiras mais premiadas no exterior. Mas sempre viveu em ritmo de ONG até que um dia Guilherme Leal, voltando com Cláudio Pádua de uma reunião do Conselho do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade, resolveu visitar a sede. Ouviu as explicações de praxe sobre as dificuldades para tocar os projetos. E lá pelas tantas cortou a ladainha: “Eu quero saber qual é o sonho de vocês”. E passou a realizá-lo. O Ipê está ganhando um campus novinho em folha em Nazaré Paulista que tem os mesmos princípios de arquitetura que modelaram a fábrica de Cajamar – espaço escancarado a tudo o que tem a seu redor.

Com a didática do Ipê e os recursos do Arapyaú, a Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade foi parar em Serra Grande, no sul da Bahia. Ali, no distrito de Uruçuca, diante de quase 20 quilômetros de praias selvagens, Leal decidiu mostrar que o Brasil pode progredir muito se ficar mais parecido com o que sempre teve de melhor. É um lugar ainda parecido com o que foi descrito na carta do descobrimento por Pero Vaz de Caminha. Leal acha que, mais cedo do que imagina, a população do planeta vai precisar de refúgios assim. Ou será – como ele martela em entrevistas, palestras e debates – que “o paulistano vai querer sempre comprar carro novo para ficar quatro horas engarrafado todo dia?” Ou “vamos continuar para sempre tendo 200 milhões de hectares para a pecuária e criando um boi por hectare?”

 

O sul da Bahia pareceu-lhe um lugar sob medida para quem investe em utopias. Desconfia que chegou ali no momento justo, “quando estava mesmo precisando de um lugar para integrar minhas crenças com meu lazer”. Nada a ver com a decisão imobiliária de 24 anos atrás, quando comprou um terreno para fazer casa de praia em Bertioga, no litoral paulista. “Mas, na época, por menos que se falasse em impacto ambiental, já estava arraigada aquela ideia de que, encontrando um local bonito, é bom construir logo, antes que ele fique feio.”

No Pontal da Barra do Tijuípe, na costa baiana, ele imaginou que daria para fazer o contrário. Escolheu um lugar que daqui a 30 anos pudesse estar muito melhor do que hoje. Comprou uma fazenda e levou para a sua ideia – ou melhor, de Capra – de que todas as coisas no planeta estão inextricavelmente ligadas: “Se quero cuidar do rio que passa em minhas terras, então tenho que cuidar da cidade, porque o rio também passa por lá.”

Num lugar cujo maior centro urbano se chama Serra Grande e tem cerca de 3 mil habitantes, um vizinho bilionário com essas intenções pode fazer muita diferença. Há dois anos, os cursos de pós-graduação do Ipê abriram vagas em Serra Grande. As vagas se destinam a treinar a mão de obra capaz de fazer manejo de madeira nativa, arquitetura integrada ao meio, casas populares com saneamento, agricultura orgânica e reflorestamento. Também se destina a restaurar a economia cacaueira, que sempre foi a peça de resistência na região, por meio de uma indústria mais artesanal que produza chocolates finos e de origem controlada.

Enquanto isso, ele planta pau-brasil, ipê e sapucaia nos 80 hectares de pastos queimados que encontrou em suas terras. Quase foi multado pelo Ibama porque estava mexendo num samambaial, o que é proibido numa Área de Proteção Ambiental. Encrespou-se, para exibir mais uma vez o velho temperamento explosivo? Que nada. Tratou o assunto como um aliado incondicional dos fiscais: “Se o Ibama foi lá, cumpriu seu papel. Até me fez um favor. E se tiver um erro na terceira casa decimal, pode agir que eu corrijo.”

Se há megalomania, no caso de Serra Grande, é o “projeto Bellagio”. Ou seja, a intenção de atrair para aquele fim de mundo um foro internacional dedicado à livre troca de ideias. Algo como o projeto da Fundação Rockefeller, à beira do lago de Como, no norte da Itália. O similar baiano será “um centro de meditação”.

Estava nesse pé quando chegou a Serra Grande, dois anos atrás, a notícia de que o governo baiano planejava ceder  a um porto de minério de ferro – o chamado Projeto Porto Sul – aquela relíquia do litoral, guardada por matas nativas, baías azuis e rios translúcidos. Leal teve uma crise digestiva ao saber da novidade. Foi transferido de jatinho para São Paulo, passou quatro dias na UTI e, ao sair de lá, espantou os amigos mais íntimos, comprando por 35 milhões de reais uma casa no Jardim Europa que parecia encalhada no preço estratosférico. Não volta a Serra Grande desde o dia 12 de janeiro. Sinal de que estaria mudando mais uma vez de direção?

 

Numa pausa da campanha a vice-presidente, ele atacou a pergunta pela retaguarda: “Eu não esperava ser rico como fiquei. E não quero botar energia negativa em minha vida. Estava fazendo tudo aquilo na Bahia porque queria realizar uma coisa nova, mostrar que há outras formas de mudar a vida das pessoas e fazer desenvolvimento econômico.” Para ele, o caso do Porto Sul é o epicentro do que está em jogo em todo o Brasil: “Mostra o poder que a política brasileira tem de atropelar prioridades nacionais”.

Guilherme Leal e Marina Silva custaram a se encontrar. Ele a viu na posse de Lula, em 2003. E se impressionou com os aplausos que ela recebeu ao assumir a pasta do Meio Ambiente. Mais tarde, a ministra visitou a Natura e ele não estava. Em seguida, ele foi ao Acre e ela estava em Brasília.

Acabou conhecendo sua companheira de chapa em São Paulo, no Museu da Casa Brasileira. Depois, num almoço com Claude Martin, diretor do WWF, ouviu-a falar do Arpa, um fundo para aquisição de áreas a serem salvas na Amazônia. A ministra provocou-o, dizendo que seu concorrente Miguel Krigsner, dono do grupo Boticário, tinha doado um milhão de dólares ao Arpa. “E doei a mesma coisa, para manter o tom de desafio”, ele disse.

Poderia ter ficado por isso mesmo. Mas, de lá para cá, ambos aprenderam que não basta comprar um pedaço da Amazônia ou da Bahia para ter no futuro um Brasil para chamar de seu. Juntos, eles formaram nesta eleição presidencial uma chapa que parece menor do que a biografia de cada um deles. Mas Guilherme Leal passou os últimos meses dizendo que Marina Silva cresceu à prova de derrotas, ao nascer seringueira. E dele a política brasileira já tentou se livrar uma vez. Deu no que deu.

Marcos Sá Corrêa

Marcos Sá Corrêa é jornalista. Foi editor de piauí entre 2006 e 2011.

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