questões vernáculas

Hipocorísticos e suarabáctis

Aleluia!, diminutivozinhos e apelidos antiululantes não são apenas coisa de sevandijas ou desbussolados

Walnice Nogueira Galvão
Por que gostamos de umas palavras e implicamos com outras? A que se deve essa arbitrariedade?
Por que gostamos de umas palavras e implicamos com outras? A que se deve essa arbitrariedade? ILUSTRAÇÃO: GRAEME WILCOX_ILLUSTRATION WORKS_GETTY IMAGES

O gosto pelo hipocorístico, como se sabe, é acentuado entre os brasileiros, que põem diminutivos não só em nomes próprios mas em quase tudo. Até em numerais cardinais. Pode-se dizer hoje zerinho, ou, no século passado, unzinho e doisinho, como anotou Sílvio Romero nos Estudos sobre a poesia popular do Brasil. Ele acrescenta a afirmação de José de Alencar, segundo quem, no Ceará de seu tempo, isso se fazia até com particípios presentes, quando as mães diziam após ninarem os filhos: “Está dormindinho!”. Mário de Andrade, paladino da fala popular, escreveu no poema sobre a história de Pedro (nº 19, sem título, na Lira Paulistana) que este “foi subindinho”.

Sílvio Romero chama a atenção ainda para os termos de carinho, em que os brasileiros incorrem no mesmo vezo: meu santinho, meu benzinho, meu amorzinho. Neste setor, o exagero é menos de espantar. Mas que dizer de diminuir outros tempos de verbo, bem como pronomes ou advérbios? E vai registrando “tuzinho, elezinho, assimzinho, mesminho, chorandinho, estàzinho, erazinho”. Romero atribui tal uso à influência africana, já que o estatuto do escravo o reduzia à servilidade ante o senhor, para quem criou os tratamentos familiares de sinhá e iaiá, sinhazinha e iaiazinha, sinhô e ioiô, sinhozinho e ioiozinho.

Ao escrever sobre pidgins e línguas crioulas do continente em “A linguagem na América”, Richard M. Morse examinou o cacoete em vários povos, concluindo que pode incidir numa solicitação de benevolência, certamente endereçada pelo mais fraco ao mais poderoso. E lembra o exemplo mexicano do advérbio ahora, enfatizado em ahorita, e até mesmo em ahoritita, que, longe de prometer rapidez, apenas visa a apaziguar o interlocutor. Nós mesmos temos o adjetivo pequeno, que já indica tamanho reduzido. Não contentes, ainda o minimizamos nas formas pequenino ou pequeninho e até pequenininho. Em geral achamos pitoresco esse tipo de prática, sem nos determos em suas implicações psicossociais.

Um uso lingüístico paralelo é o que concerne aos hipocorísticos, expressão verbal de afetividade, tornando os apelidos de enorme freqüência entre os brasileiros. Costumo indagar a que onomásticos correspondem os mais inauditos. Vivi um lance frustrante, na mesma cidadezinha colonial, Parati, em que Sílvio Romero foi juiz por algum tempo e onde, a seu ver, o recurso aos diminutivos atinge o paroxismo. Tendo sido apresentada a um pescador chamado Digau, apelido para mim desconhecido, perguntei-lhe se seu nome não seria Edgar.

O que parecia óbvio, sobretudo na pronúncia brasileira (não Édgar, mas Edigár), pois desmanchamos os encontros consonantais mediante a intromissão de uma vogal, operando o que os gramáticos designam pelo termo sânscrito de suarabácti. Tais colisões, não sei por quê, são insuportáveis a nossos ouvidos, ao contrário dos portugueses, que omitem todas as vogais. Mesmo sem maior fundamento, é opinião corrente tratar-se aqui igualmente de ecos africanos, já que cidadãos de Moçambique, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau etc. também tendem a uma dicção mais relaxada e menos contraída do que a lusitana. Assim, dizemos peneu em vez de pneu, adevogado em vez de advogado, Dejanira em vez de Djanira, adimirar em vez de admirar. Para mim, Digau só podia ser corruptela de Edgar.

A resposta que ele me deu foi negativa. Retruquei: “E como é seu nome, então, já que não é Edgar?”, ouvindo de volta que era Benedito. Não houve jeito de conseguir passar do nome ao apelido. Insisti: “Mas por que o chamam Digau?” Resposta: “Por causa de um tio meu, que se chamava Digau. Todo mundo me chamava pelo apelido dele, o Digau, o sobrinho do Digau”. Achando que tinha chegado aonde queria, e pensando que agora o pegava, insisti, vitoriosa: “Ah-ha! Com que então o nome de seu tio era Edgar!”. Ao que meu interlocutor, bem depressa: “Não senhora. Era Benedito também”. De volta à estaca zero: ganhou a inventividade da língua.

Por que gostamos de algumas palavras e implicamos com outras? A que memórias afetivas, a que associações insuspeitadas se deve tamanha arbitrariedade?

Para Freud, arbitrário é que não é. Todo capricho, ojeriza ou deformação que diga respeito a palavras, sustenta o líder da bancada vienense, tem raiz no inconsciente e seus mecanismos de manipulação de experiências.

Os lingüistas, por sua vez, não se cansam de explorar o funcionamento da camada dos significantes, especulando como se contaminam, percorrem meandros ou trocam de lugar, sem que seja necessário aprofundar a explanação até um patamar psicanalítico.

Os poetas, então, têm aqui uma fonte de deleite perpétuo. Brincam com as palavras desde que a escrita começou, e provavelmente antes disso, em jogos orais. Pelo menos, é o que se pode verificar ainda hoje nos afluentes ágrafos da literatura.

Não só os poetas, os prosadores também. Considere-se James Joyce e o palavrão de 100 grafemas, que surge várias vezes em Finnegans Wake, quando o gigante Finn leva um tombo. Em sua aparição inaugural, logo na primeira página, sugere um trovão e um cataclismo: bababadalgharaghtakamminarronnkonnbronntonnerronntuonn-
thunntrovarrhounawnskawntoohoohoordenenthurnuk! (Atenção, revisor: é assim mesmo).

Guimarães Rosa deu-se ao luxo de compor derivações inusitadas, como o nome do vaqueiro Moimeichego, em Cara de Bronze, a que chegou, conforme explicou a seu tradutor e correspondente Edoardo Bizzarri, adicionando pronomes de primeira pessoa em várias línguas: Moi+me+ich+ego. Pronunciados segundo a prosódia brasileira, tornam-se irreconhecíveis.

Joyce também se entregara a malabarismos do mesmo jaez, procedimento a que recorreu inúmeras vezes, como quando compôs o onomástico Mamalujo a partir da primeira sílaba dos quatro evangelistas: Mateus, Marcos, Lucas e João.

O Nobel de Física de 2004 agraciou três pesquisadores por seus trabalhos sobre a partícula quark, que se apresenta em tríades. Eles devem saber que a teoria dos quanta assim a batizou em homenagem a Joyce, que inventou o vocábulo, ao redigir a frase: “Three quarks for Muster Mark”.

Quando quiser insultar alguém, chame-o de sevandija. A palavra, que podemos fisgar na literatura infantil de Monteiro Lobato, é da melhor cepa lusa. Ela denomina qualquer inseto imundo, desses que vegetam debaixo de uma pedra ou nas frinchas cheias de umidade e bolor das paredes. Imaginem baratas, percevejos, centopéias, piolhos-de-cobra, marias-fedidas, barbeiros… Mas também preexiste, abonada em dicionário, sua acepção metafórica, em que os atributos dos animálculos são aplicados aos seres humanos, qualificando indivíduos torpes ou vis. É um insulto e tanto.

Entretanto, há ocasiões em que convém ser mais sutil. Para essas, recomendamos o uso do termo desbussolado. Não é nada demais, apenas indica que alguém perdeu a bússola, mostrando-se desorientado. Mas, por artes dos sons e silêncios, parece coisa muito pior. Aliás, nem figura nos dicionários, nem no Aurélio, nem no Houaiss. É puro galicismo (“débussolé“), embora autores castiços como o ensaísta português Antonio Sérgio, de impecável classicismo, o utilizem. Deve-se empregar nos casos em que uma retirada estratégica seja recomendável. Sempre se pode dizer que houve engano, a intenção não era essa, o vocábulo absolutamente não significa o que parece – e retirar a ofensa.

Já uma das palavras mais lindas que existem é aleluia. Convida ao devaneio, sugerindo conexões milenares que não têm a menor base, mas muito alegram. A palavra é bíblica, do Velho Testamento, e quer dizer “louvar com júbilo” (subentendido, a Iavé, o designado pelo tetragrama, o de nome impronunciável).

Devido a essa origem, existe em muitas línguas, sem alterações. Para mim, deve ser onomatopaica. Observe-se qualquer ritual de agora, como a cerimônia de matrimônio, em que mulheres árabes ou africanas proferem um alarido de boca em / u / e língua tremulante. Thomas Mann tentou verter um equivalente do que leu na Bíblia ao escrever a tetralogia de José, quando diz que os pastores, em sua exultação, bradavam “lu, lu, lu”. Daí deve provir também o verbo ulular em português, que quer dizer aproximadamente a mesma coisa: as mulheres árabes ou africanas ululam nessas ocasiões. Penso que foi uma similaridade que Edgar Allan Poe percebeu, quando criou o Ulalume.

Nada disso tem comprovação científica. É tudo invenção de quem assina estas linhas.

Walnice Nogueira Galvão

Walnice Nogueira Galvão, escritora e ensaísta, publicou no ano passado Mínima Mímica, da Companhia das Letras.

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