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A história de Ahmer

O menino que trocou o futebol pelas armas do Talibã

Simone Duarte
Sala de aula de Sabaoon: no centro de desradicalização no Paquistão, os jovens traumatizados com a lavagem cerebral que lhes impusera o Talibã pareciam estar em outro tempo e espaço
Sala de aula de Sabaoon: no centro de desradicalização no Paquistão, os jovens traumatizados com a lavagem cerebral que lhes impusera o Talibã pareciam estar em outro tempo e espaço CREDITO: SIMONE DUARTE_2019

TERRITÓRIO FEDERAL DAS ÁREAS TRIBAIS, PAQUISTÃO, 2008[1]

Ahmer[2] foi treinado nos mínimos detalhes. O seu colete não estava muito apertado. Era um pouco mais fino do que aqueles usados pelos militares das forças de segurança. Os militantes talibãs o trouxeram de carro até a mesquita. Além dos explosivos amarrados ao corpo, ele segurava uma pistola numa das mãos e uma granada na outra. Havia sido orientado a jogar a granada numa direção e, quando as pessoas em pânico corressem para o lado contrário, ele iria para a mesma direção que elas, provocando um número maior de vítimas. A instrução era esta: matar o maior número possível de xiitas.

Quando Ahmer entrou na mesquita, havia muita gente rezando. Por que tinha mesmo que matar os xiitas? Eles não eram também muçulmanos? Nos últimos meses e semanas, os comandantes talibãs tinham repetido centenas de vezes que os xiitas não eram muçulmanos, pois haviam insultado os califas, e que ele iria para o Paraíso se os matasse. Uma torrente de pensamentos confusos dominava havia quase um mês a sua cabeça, que agora estava prestes a explodir. Dias antes, ele pedira para ver seu pai, mas o comandante negou. Tinha descoberto que o pai andava à sua procura. Era por isso que fora enviado a tantos campos de treinamento diferentes: para que não fosse encontrado.

No último mês, recebera o treinamento especial. Todos os que iam cometer atentados suicidas eram separados dos demais antes da missão. Vestiram-no com o cinto cheio de explosivos e explicaram como detoná-los na hora certa. Havia duas maneiras de fazer isso. Podia ser por meio de uma outra pessoa, que ativaria o mecanismo a distância, usando um walkie-talkie. Não era assim que Ahmer faria. O seu cinto-bomba iria para os ares ao ser acionado por ele mesmo. Um fio cor da pele se estendia dos explosivos até a palma da sua mão, onde estava o pino que deveria ser detonado com o movimento dos dedos.

A pistola que levava na outra mão serviria para matar os vigias da mesquita. Mas, naquele momento, ele só conseguia olhar para as pessoas prostradas ao chão, rezando. Ahmer tinha 13 anos.

 

MESES ANTES, NO VALE DO SWAT, PAQUISTÃO

Os talibãs começaram a aparecer na aldeia de Ahmer no Vale do Swat quando ele tateava a adolescência. Um dos centros de treinamento era em frente à sua escola. Faziam comícios e discursos inflamados. Eram contra os criminosos e combatiam o tráfico de drogas. Falavam bem, eram articulados, impressionavam o adolescente, que ficava admirado com as preleções, os carros modernos e as armas potentes que exibiam. Os talibãs eram respeitados pela comunidade.

Ahmer vivia numa região onde todas as famílias tinham armas. Entre os pachtos,[3] era comum colecioná-las, fossem elas antigas ou modernas. Com 5 anos, ele ajudava a limpá-las. Aos 9, aprendeu a usar uma pistola. As armas eram utilizadas nas caçadas, para autoproteção ou defesa da honra. Mas nenhuma delas se comparava aos fuzis de assalto AK-47 e às demais armas que os militantes possuíam.

Ele era o mais velho de seis irmãos, e seus pais nunca perguntavam aonde ia nem tinham interesse por suas notas na escola. Bastava-lhes saber que Ahmer estava frequentando as aulas. Pais pobres como os dele não tinham muito tempo para os filhos. O menino passava o dia inteiro brincando, jogando futebol ou críquete, o que adorava fazer. Só homens e rapazes eram vistos andando pela aldeia, pois naquela sociedade conservadora as meninas e mulheres ficam em casa. Ele nunca tivera contato com mulheres, exceto sua mãe.

Os militantes atravessavam a rua para conversar com os meninos. Os colegas de Ahmer começaram a aderir. Um dos talibãs passou a falar com ele sobre o islã e as boas intenções de seus companheiros. Na mesquita, eram os responsáveis por recolher doações e promover ações de caridade. Distribuíam fitas cassete com músicas para motivar os mais jovens. O ambiente era eletrizante.

Um dia, Ahmer resolveu se juntar ao grupo. Colocou uma muda de roupa na mochila e não avisou ninguém que estava indo embora. Foi até a madraça, a escola religiosa islâmica, de onde o levaram para um dos principais campos de treinamento do TTP (Tehrik-i-Taliban Pakistan), o Talibã paquistanês, no Território Federal das Áreas Tribais. Ahmer estava entusiasmado. Sentia que se abria para ele a porta de um mundo de aventuras.

 

TERRITÓRIO FEDERAL DAS ÁREAS TRIBAIS, PAQUISTÃO, 2008

Ahmer acordava cedo no campo de treinamento. Entre seis e oito da manhã, lia e recitava o Alcorão em árabe, de cor, apesar de não entender uma palavra do que estava escrito. Em seguida, estudava o Hádice, um conjunto de histórias, ações e ensinamentos do profeta Maomé.

A partir das oito horas, assistia a palestras sobre o Exército do Paquistão, contra o qual o Talibã proclamara a jihad – a guerra santa. Os imãs que lideravam as preces e os comandantes talibãs diziam que os militares paquistaneses obedeciam aos norte-americanos, sendo, portanto, infiéis como estes, e não muçulmanos. Essa era a principal razão para matá-los. Nas palestras, os jovens também aprendiam que os xiitas eram igualmente infiéis. Ninguém mencionava ali o nome de Osama bin Laden nem uma palavra sequer sobre os atentados de Onze de Setembro. O tema prioritário eram as tropas paquistanesas.

Depois das palestras, Ahmer partia para o treino físico: subia e descia um morro carregando armamento pesado. Antes dos primeiros treinamentos, só sabia disparar pistolas, mas agora estava aprendendo a usar os AK-47 e lança-granadas e a fazer bombas. Às duas da tarde, depois do almoço, estava dispensado das tarefas de grupo, mas tinha que ouvir fitas cassete com mais palestras sobre a jihad contra o exército.

À noite, a cada seis horas, revezava com os seus colegas o patrulhamento do campo. Todos dormiam em barracas. No total, eram quase sessenta homens e meninos, alguns até mais jovens que ele, com idades a partir de 9 anos. Como os seus colegas de escola não haviam sido levados para lá, ele não conhecia ninguém. Seu verdadeiro nome tinha sido apagado. Ele ganhara um novo nome e uma nova vida.

Passou a receber mensalmente 2 mil rupias, para ele uma fortuna perto das 2 rupias que recebia por mês dos pais. Nem sabia o que fazer com tanto dinheiro. A única coisa que acabava comprando era algo para comer. De roupas nem precisava, pois era obrigado a usar as que os talibãs lhe davam.

Nas primeiras semanas, tudo foi para ele novidade e excitação. Mas Ahmer não podia demonstrar como estava satisfeito com tudo aquilo. Quem expressasse qualquer emoção ou vontade de ir embora dali decretava sua sentença de morte. Depois de morto, tinha seu corpo exibido no meio do campo.

 

Primeiro, Ahmer passou a participar de ataques a caminhões militares que transportavam armas e alimentos para as tropas paquistanesas. Cada vez que seu grupo interceptava um caminhão, matava alguns soldados.

Depois, começou a realizar operações maiores. Uma noite, junto com 21 companheiros, atacou um forte que servia de dormitório para trezentos homens do Frontier Corps, uma força paramilitar que atuava na defesa da fronteira. Os talibãs conseguiram tomar o forte e capturar onze militares, que foram levados para Orakzai, onde ficava um dos principais redutos do Talibã no Paquistão e de onde partiam os homens e os meninos-bomba para os atentados suicidas em todo o país.

A essa altura, Ahmer já tinha passado da fase de encantamento. Começou a duvidar das reais intenções dos seus comandantes, da integridade do grupo e da própria religiosidade de seus membros. Lutava internamente com seus pensamentos. Não podia se abrir com ninguém, pois sabia o destino de quem demonstrava qualquer dúvida ou descontentamento. Apesar do medo que sentia, Ahmer resolveu perguntar a um dos comandantes se podia visitar sua família. A resposta foi a esperada. A partir daquele dia, ele começou a ser treinado para a missão suicida.

 

O som das preces envolvia toda a mesquita. Ahmer estava decidido. Foi se aproximando de um dos militares que faziam a segurança do local sagrado. Disse que tinha um cinto cheio de explosivos debaixo do colete e queria se entregar. Assim terminaram os quase três meses que passou com o Talibã e que mudaram sua vida.

Quando a notícia da sua prisão apareceu no jornal, veio acompanhada de uma foto dele, sorrindo. Ahmer estava feliz por não ter matado todas aquelas pessoas na mesquita.

 

MALAKAND, VALE DO SWAT, PAQUISTÃO, 2011

Nos primeiros encontros, ele sentia vergonha. Vestia uma túnica, pois no começo não queria usar calças compridas. O Talibã dizia que só os infiéis vestiam calças.

Ahmer estava em pé, debaixo de uma árvore, quando a viu pela primeira vez. Ela se aproximou, perguntou se podia ajudá-lo. Ele não respondeu. Mas naquela manhã, perto da árvore, Feriha Peracha chegou para mudar o rumo da vida dele. Neuropsicóloga, Peracha era responsável pelo Sabaoon, um centro instalado em Malakand, no Vale do Swat, para a desradicalização e reabilitação de meninos e jovens doutrinados pelo Talibã. Na língua pachto, sabaoon significa “o primeiro raio de sol da manhã”. Começava o fim da escuridão para Ahmer.

Peracha não estranhou que ele tivesse ficado em silêncio. Isso sempre acontecia com os jovens que tinham sido treinados pelos talibãs. Ela deixava que ficassem assim, quietos. Era preciso conquistar a confiança deles. Alguns levavam até seis meses para voltar a falar. Para a neuropsicóloga, o importante era que eles soubessem que não estavam numa prisão e não seriam punidos, que podiam compartilhar suas histórias, mesmo as mais terríveis, pois tudo permaneceria confidencial, e que ela e sua equipe poderiam ajudá-los.

Um dos jovens no Sabaoon só desenhava baldes quadrados e vermelhos. Tinha sido “protegido” de um dos comandantes do Talibã, que sempre o levava à sua frente, a certa distância, vestido com um cinturão de explosivos. Caso estivesse em situação de perigo, o comandante acionaria um controle remoto – e o ajudante iria pelos ares. Nos desenhos que o rapaz fazia, sangue jorrava dos baldes.

Após um instante, Peracha voltou a perguntar a Ahmer o que poderia fazer para ajudá-lo. Ele disse que queria conhecer o Ronaldo. Ela não tinha a menor ideia de que ele estava se referindo ao jogador Cristiano Ronaldo.

O Vale do Swat repousa aos pés da Cordilheira de Indocuche, exuberantemente verde no verão e hipnotizante no inverno, quando os gigantescos picos ficam cobertos de neve. Berço da civilização budista, palco das batalhas de Alexandre, o Grande, lugar salpicado de fortes erguidos durante o Império Mongol ou pelos britânicos no século XIX, o vale foi transformado em 2007 no reino de horror do Talibã. Dois anos depois, o Exército paquistanês invadiu a região. A ofensiva militar obrigou mais de 2 milhões de pessoas a abandonar suas casas.

 

Como muitos paquistaneses privilegiados, Peracha custou a perceber a dimensão do terrorismo doméstico após a ocupação do Afeganistão pelos Estados Unidos, que forçaram o Paquistão a se aliar à chamada “guerra ao terror” que haviam desencadeado após o ataque de Onze de Setembro. Ela achou que o terrorismo se limitava às áreas tribais fronteiriças de seu país. Só acordou para o problema em 2007, quando os atentados cometidos por paquistaneses contra paquistaneses passaram a ocorrer na capital Islamabad.

Ela tinha vivido 25 anos entre o Canadá e o Reino Unido. Desde que voltara para o Paquistão, alternava os trabalhos em um hospital, no consultório particular e como voluntária em Lahore, onde estava morando. Quando recebeu o telefonema de um general pedindo que fosse ajudá-lo a fazer a perfilagem de doze meninos treinados pelo Talibã e capturados pelo Exército paquistanês durante a investida no Vale do Swat, Peracha não hesitou um momento sequer. Após desligar o telefone, disse à psicóloga Raafia Raees Khan, sua colega, que iria para Mingora na manhã seguinte. Seu marido a apoiou, mas o resto da família achou aquela decisão uma loucura. Disseram que ela seria assassinada.

Raafia Khan resolveu ir junto. Ir de Lahore até o Vale do Swat era uma aventura perigosa. Escoltadas por militares, as psicólogas mudaram de carro duas vezes, em oito horas de viagem. Ao chegar a Mingora, encontraram um cenário de guerra. A reação do Talibã ao ataque do Exército estava em curso e ser alvo do grupo numa emboscada era uma possibilidade. As execuções não eram fantasia. A cidade ficara conhecida pelas decapitações em praça pública e pelos corpos mutilados pelos talibãs.

Os meninos, entre 10 e 15 anos, tinham um ar tão inocente e pareciam tão vulneráveis que era difícil imaginar que tivessem cometido crimes bárbaros. Eram muito pobres, negligenciados por suas famílias, muitos deles analfabetos. Também havia jovens traumatizados com a experiência vivida junto ao Talibã, que lhes impusera violenta lavagem cerebral. Estavam em outro tempo e espaço. Acreditavam no que os comandantes talibãs lhes haviam dito: que ao matar soldados estavam fazendo algo bom e ajudando a sociedade, que seriam recompensados por Deus por livrarem o mundo de infiéis. Os militares paquistaneses, como os norte-americanos, eram os infiéis.

Prender aqueles meninos era a pior solução. As duas psicólogas recomendaram que eles passassem por um programa de reabilitação e não fossem jogados em celas. Eram crianças que precisavam de uma chance para viver como crianças.

Um mês depois do primeiro encontro com os jovens ex-militantes, Peracha foi chamada novamente ao Vale do Swat para apresentar suas conclusões à cúpula militar. Ao final da apresentação, o chefe do Exército perguntou se podia contar com ela para liderar um projeto de reabilitação. Ela respondeu que sim. Nascia o Sabaoon, onde Peracha, Khan e uma equipe de psicólogos, professores e assistentes sociais, todos civis e com sua segurança garantida pelo Exército, desenvolveriam um método de reintegração considerado único no mundo.

O programa foi criado a partir das necessidades dos meninos e jovens – de baixo para cima, e não de cima para baixo. Seria um trabalho lento, individualizado e monitorado por muitos anos, até que se tivesse certeza de que nenhum dos ex-militantes voltaria ao extremismo. Ahmer não queria voltar.


Trecho adaptado do livro O Vento Mudou de Direção, reportagem sobre a trajetória de sete pessoas – do Paquistão, Afeganistão e Iraque – no pós-Onze de Setembro, a ser lançado no próximo mês pela editora Fósforo.

[1] O Território Federal das Áreas Tribais situa-se no noroeste do Paquistão, na fronteira com o Afeganistão. Apenas em 2018 tornou-se parte de uma das províncias paquistanesas. Até então, o governo não tinha nenhuma autoridade sobre o território, que era controlado por líderes tribais. A região serviu de abrigo a talibãs e de refúgio a Osama bin Laden e membros da Al Qaeda. (N. R.)

[2] Ahmer é uma das sete pessoas de origens paquistanesa, afegã e iraquiana que entrevistei entre 2019 e 2021, a fim de entender a reação delas aos atentados de Onze de Setembro e à chamada “guerra ao terror” empreendida pelos Estados Unidos em seguida. Decidi publicar os nomes completos apenas dos entrevistados que são figuras públicas. No caso das demais pessoas, mudei a grafia dos prenomes e omiti os sobrenomes para preservar a segurança pessoal delas.

[3] Pachto é um grupo étnico que habita o Afeganistão – onde é maioria e tem grande influência política – e parte do Paquistão. Tem uma língua própria, homônima, e segue o braço sunita da religião islâmica. (N. R.)

Simone Duarte

Jornalista, chefiou o escritório da Rede Globo em Nova York e coordenou a cobertura dos atentados do Onze de Setembro em 2001

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